sábado, junho 29, 2013
Álvaro de Campos, Passagem das Horas
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,/
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,/
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,/
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,/
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,/
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,/
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,/
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias./
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim./
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei/
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,/
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque/
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,/
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz./
Seja o que for, era melhor não ter nascido,/
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/
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2 comentários:
Álvaro de Campos... o meu preferido!
Também o meu. Mas teria existido sem Whitman?
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