sábado, junho 29, 2013

Álvaro de Campos, Passagem das Horas

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,/ Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,/ Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,/ Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,/ Deste desassossego no fundo de todos os cálices,/ Desta angústia no fundo de todos os prazeres,/ Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,/ Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias./ Não sei se a vida é pouco ou demais para mim./ Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei/ Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,/ Consangüinidade com o mistério das coisas, choque/ Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,/ Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz./ Seja o que for, era melhor não ter nascido,/ Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/ A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/ A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/ Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/ E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/ Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/

A REVISTA DA TASCA

http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n__10_web

quarta-feira, junho 26, 2013

Idem

«O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre este desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem reconciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático.»

A história como luta entre memória e esquecimento

«A nossa época está obcecada pelo desejo de esquecimento e é para realizar esse desejo que se abandona ao demónio da velocidade; acelera o passo porque quer fazer-nos compreender que já não aspira a ser lembrada; que se sente cansada de si própria; farta de si própria; que quer soprar a chamazinha trémula da memória.» Milan Kundera

Enrique Vila-Matas

««En la literatura, así como en la vida - escribe en sus memorias Sándor Márai -, sólo el silencio es sincero.» Es una frase que, desde que la conozco, me ha hecho reflexionar. A medida que envejezco, aprecio mejor el silencio, que muchas veces - tal como pretende el tópico - parece decir más que qualquier palabra. Márai piensa que toda la vida nos callamos sobre quienes somos, algo que sólo nosotros sabemos y sobre lo que no podemos hablar con nadie. «Sin embargo, sabemos que quienes somos y eso que no podemos decir constituyen la verdad. Somos aquello de lo que guardamos silencio.» Estas palabras de Márai me hacen pensar siempre. Van contra la literatura, está claro. Por eso, si algunas veces odio la odio (la literatura), seguramente es porque hay días en los que intuyo, con más fuerza de la habitual, que ella, con tanta palabra escrita, hace esfuerzos para alejarme del núcleo central de mi verdad.»

terça-feira, junho 25, 2013

Ele e ela coabitam o mesmo café há uns anos. Ele zanga-se com ela constantemente, principalmente quando ela tem namorado. Pretexta isto e aquilo e censura-a e ralha - uma opinião estúpida, o ela falar alto quando há Quiz, o ela ter o computador a ocupar a tomada mais tempo do que os outros. Algumas vezes, ele entornou-lhe um líquido, alegadamente sem querer. Ela hesita em protestar - não sabe se foi intencional. Ele jura que não foi. (Seria um «acto falhado» para Freud.) Mas da última vez ela gritou com ele - ele disse que ela estava maluca, que ninguém gritava a ninguém por sem querer lhe entornar uns pingos de água. Além disso, ele treme das mãos. Era cruel, ela. No café, as amigas disseram-lhe que ela lhe dera o troféu - conseguira gerar-lhe uma reacção. Mostrava que não lhe era indiferente. Todas as semanas, ele anuncia que deixou de falar com ela - e voltar sempre a falar com ela. E a relação conduz sempre a novos conflitos. A nova maledicência - estão sempre a dizer mal um do outro, mas não conseguem sair do quadrado malsão, não se conseguem libertar - principalmente ele que arranja sempre forma de lhe voltar a falar. Ela por amizade, diz. Ele não diz porquê. Todos lhe dizem para a ignorar. Ele faz votos de renovadas promessas. «É que desta vez nunca mais lhe dirijo a palavra, nem um "olá". Se me quiserem ter na mesa, garanto-vos que só se ela não estiver.» Mas ele voltou sempre.Para novos gritos, discussões, agressões. Quantas relações não conheces assim?
Miguel Esteves Cardoso diz que não é verdade estejamos todos ligados - estamos todos separados e os livros unem-nos. Paul Auster diz que o romance nunca morrerá por ser o único lugar em que dois estranhos se encontram num espaço de absoluta intimidade.

domingo, junho 23, 2013

- Acho que quando me sentar um dia para chorar, vou ficar dias a fio.

sábado, junho 22, 2013

Ligações improváveis (ou não)

«Quando você for tentado a julgar outro ser humano, não importa como, obviamente, ele ou ela mereça, lembre-se de que todos estão fazendo o melhor que podem, a partir do seu próprio nível de consciência.» http://universonatural.wordpress.com/ «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. "Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."» F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, junho 20, 2013

Armadilhas da imitação por Manuel Maria Carrilho

«Tudo gira, hoje, em torno da riqueza: da que existe, da que desapareceu, da que se procura. Foi a pensar nela que Adam Smith lançou as bases da economia política moderna. Mas, ao contrário do que geralmente se diz, as questões que mais o inquietavam não surgiram na sua obra mais conhecida, A Riqueza das Nações, de 1776, mas quase vinte anos antes, em 1759, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. E a sua ideia central surpreenderá muitos, porque o que Adam Smith afirmou nessa obra notável foi que a riqueza não é o que assegura o nosso bem-estar - para isso, bastaria uma vida sem carências, mas frugal. Não, o que ele intuiu foi que a riqueza, mais do que ser aquilo que se acumula, é afinal o que nós identificamos como o que é mais desejado pelos outros. O que Adam Smith descobriu foi que não é a necessidade material que está na base da procura da riqueza, mas antes o desejo. Ora, enquanto a necessidade cessa com a satisfação, o desejo, pelo contrário, renova-se e renasce de cada vez que se sacia. A riqueza é o que é desejado pelo olhar que mais conta para cada um de nós, que é o olhar desse espectador constante, multiforme e indefinível que constitui o que chamamos "os outros". Esta perspetiva identifica assim, na origem da aspiração humana à riqueza, um complexo dispositivo de comparação e de imitação, que seria como que inato à humanidade. Como se tudo se passasse, na experiência humana, como no caso descrito pelo primatólogo Frans de Waal com dois chimpanzés instalados em duas jaulas contíguas. Enquanto se lhes dá a ambos a mesma comida, um pequeno pepino, eles respondem lançando pequenas pedras para o exterior, mostrando-se contentes com este jogo. Mas no momento em que se dá a um só deles umas uvas, a sua comida preferida, o outro imediatamente para o jogo e amua, rejeitando o pepino e enfurecendo-se cada vez mais... enquanto o primeiro rejubila com a situação! São várias as investigações que, nesta linha, têm insistido no decisivo papel que a comparação, nos seus constantes e múltiplos jogos e combinações, tem na felicidade e na infelicidade humana. Basta, para o reconhecer, um exemplo banal: se me anunciam um aumento salarial de trezentos euros, ficarei muito contente. Mas se logo a seguir encontrar um amigo que teve um aumento de seiscentos, toda a alegria dará lugar a um incontornável abatimento. A questão é saber porque é que passamos o nosso tempo a comparar tudo - riqueza, saúde, carreira, aspeto, etc. -, apesar de manifestamente se tratar de um processo que conduz mais à infelicidade do que à felicidade? É uma questão a que já se procuraram dar muitas respostas, sobretudo desde que os estudos de Richard Easterlin mostraram que, apesar do aumento do PIB de 200% ou 300% em diversos países, entre os anos cinquenta e setenta do século passado, o "nível de felicidade" declarado pelas pessoas permanece inalterado. A conclusão de Easterlin (consagrada como o "paradoxo de Easterlin) foi que, quando uma sociedade satisfaz as suas necessidades vitais, o desenvolvimento económico deixa de ter uma influência direta sobre a evolução do bem-estar médio da população, que passa a ser muito mais relativo, conforme os objetivos do contexto. Uma das ideias que decorre destes trabalhos é que o ser humano sofre e se deprime mais com comparações negativas do que se alegra e anima com as comparações positivas. Como se a felicidade fosse tanto mais difícil de viver quanto a adaptação ao que se conquistou é fácil, obnubilando assim o valor do que se obteve. Mas será possível alterar este processo? Não parece fácil. Sobretudo se tivermos em conta a descoberta feita em 1996 por Giacomo Rizzolatti dos chamados "neurónios-espelho", que condicionam desde o nascimento o funcionamento do nosso sistema psíquico, que se forma como que fotocopiando o dos outros e oscilando entre uma imitação ora mais cooperativa ora mais competitiva. Isto confirma que a razão pela qual permanentemente nos comparamos com os outros é porque, na verdade, o nosso desejo é determinado pelo que os outros desejam, num inextrincável jogo em que, por um lado, se cruzam a intenção cooperativa e a rivalidade competitiva e, por outro lado, se confundem o desejo mimético e a necessidade objetiva. E isto passa-se tanto no comportamento individual como no coletivo, na economia como na política. Áreas em que de resto a reincidente conversa sobre os "modelos" a seguir mostra toda a força da imitação e das suas armadilhas. É bom lembrar os modelos que se têm sucedido, num vertiginoso carrossel de devoção e de deceção que já passou pelos modelos americano, sueco, japonês, irlandês, finlandês, etc., antes de se chegar ao alemão!... O que se passa, como há dias sublinhava Jean-Pierre Dupuy, é que temos dificuldade em aceitar que a economia é movida mais pelo desejo do que pela necessidade. Por um "desejo de ser reconhecido pelos outros, de ser admirado por eles, numa admiração mesclada de inveja - e, disto, nunca se tem que chegue". (Le Monde, 11.6.2013) E a chave desta dificuldade encontra-se no desconhecimento, na opacidade dos agentes em relação às suas próprias motivações, que se enganam ao "acreditarem que a riqueza lhes trará o bem-estar material que pensam necessário à sua felicidade. A riqueza atrai sobre quem a possui o olhar de cobiça dos outros. Pouco importa porquê, o que conta é o próprio olhar da cobiça. É esse olhar que, sem o saber, cada um mais aprecia. A economia é em suma um jogo de enganos, em que todos são sempre enganados e e cúmplices do engano. Ela é uma imensa mentira do coletivo em relação a si próprio". As armadilhas da imitação, percebemo-lo cada vez melhor, são infindáveis. Mas são talvez elas o que melhor explica - para usar uma expressão de René Girard que fez história - que continue a haver "tantas coisas escondidas desde a formação do mundo".» »

quarta-feira, junho 19, 2013

Mensagem que recebi

Ex.mo Sr. Agradecemos muito o seu reparo, que teremos em conta no futuro. Com os melhores cumprimentos,

Mensagem que enviei à Assírio & Alvim a propósito de Servidões

Mensagem: Bem sei que Herberto Helder troca propositadamente certas grafias. Mas não foi o que sucedeu com a palavra «octagenário». É um erro. E um erro ou gralha de revisão. «Octogenário», como «octogésimo». A corrigir quando editarem obra completa. Saudações.
«O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei - Posso fumar? e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, [sempre] me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo.» António Lobo Antunes

terça-feira, junho 18, 2013

Se reparares, quase tudo o que ouves são clichés. É certo que quanto menor a intimidade, maior o efeito de conversas de elevador, de truísmos ou de aparentes verdades insofismáveis que se assimilam acriticamente, se reproduzem acriticamente. Quase todas as conversas assentes em clichés. Os anúncios televisivos. Mesmo os longos discursos. Tão difícil ser eu. Tão difícil encontrar a nossa voz. Tão difícil não ser hipócrita. Tão difícil a autenticidade com medo do juízo, da reprovação social. Tanto medo de ser causa de escândalo. Conheço pessoas a quem nunca ouvi algo que não fosse a reprodução do que emprenharam, sem estudo, sem reflexão, sem o mirar de todos os ângulos. Dizia Aristóteles que só conhecendo TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, toda a informação, todos os ângulos de visão, todos os entendimentos sobre um assunto poderíamos então formular um juízo.

segunda-feira, junho 17, 2013

«Senti a primeira palpitação de Lolita em Paris, em fins de 1939 ou começo de 1940, quando estava acamado com uma séria crise de nevralgia intercostal. Tanto quanto me recordo, o frêmito inicial de inspiração foi de alguma forma provocado por certo artigo de imprensa sobre um macaco no Jardin des Plantes, o qual, após ser persuadido durante meses por um cientista, enfim produziu o primeiro desenho feito por um animal: nele só apareciam as grades da jaula da pobre criatura. Esse impulso não tinha nenhuma conexão textual com a linha de pensamento por ele suscitada, da qual resultou, entretanto, o protótipo de Lolita.» Nabokov
Uma vez, num recital de poesia, ouvi um poema que terminava com «Feliz aquele que no fim da sua vida pode dizer uma só palavra». A ideia: quem viveu por (diferente viver por de viver para, tão diferente) um palavra. Será? Certos religiosos vivem assim, alguns comunistas vivem ou viveram assim, alguns românticos terão vivido a palavra do nome do seu amor, o escritor vive assim.

domingo, junho 16, 2013

Sentindo um olhar de lupa sobre si, disparou: - Não me olhes assim, porra; sou sujeito, não objecto.
Ouvi um desses casos de amor trágico em que ela termina a relação esperando que ele entendesse que ela não estava satisfeita com aquilo que entendia ser uma indefinição do compromisso, esperando que ele no dia seguinte se ajoelhasse pedindo-a em casamento, e em que ele que nunca amara ninguém como a ela ficou descoroçoado durante meses e anos perguntando-se porquê, porquê, porquê, e esperando o telefonema que nunca veio.

quinta-feira, junho 13, 2013

«Sim, a qualidade do silêncio está organicamente ligada à da linguagem. Estamos aqui sentados, nesta casa com jardim, onde não há outro som para além da nossa conversa. Aqui, consigo trabalhar, sonhar, tentar pensar. O silêncio tornou-se um enorme luxo. As pessoas vivem no meio da algazarra. Já não há noite nas cidades. Os jovens têm medo do silêncio. O que vai acontecer às leituras sérias e difíceis? Ler uma página de Platão com um walkman nos ouvidos?! Isso deixa-me muito assustado. As novas tecnologias estão a transformar o diálogo com o livro. Abreviam, simplificam, conectam. O espirito está “ligado”. Já não se lê da mesma maneira. O fenómeno Harry Potter parece ser uma exceção. Todas as crianças da Terra, esquimós, zulus, leem e releem essa saga ultrainglesa, com um vocabulário extremamente rico e sintaxe sofisticada. É ótimo. O livro é um grande defensor da privacidade. A Inglaterra ainda é um país de privacy. O que pode ter aspetos absurdos: podemos ser vizinhos durante 50 anos e não trocar uma única palavra. Este culto da "private life" tem imenso significado político: é uma fonte de resistência.» George Steiner
«Pessoas com QI alto são mais propensas a trabalhar melhor à noite, enquanto que os menos inteligentes acordam cedo e funcionam melhor durante o dia, segundo os pesquisadores da Escola de Economia de Londres. Outros estudos encontraram uma ligação entre o período vespertino com tirar notas boas na escola, diz a pesquisa, republicada pelo site Winnipeg Free Press. No entanto, as pessoas que ficam acordadas até tarde são menos confiáveis e mais propensas a sofrer de depressão e vícios diversos, quando comparado com aqueles que dormem e acordam cedo.»

segunda-feira, junho 10, 2013

Muito gostaria de que Freud me interpretasse este sonho. Só eu sabia da existência de um autor que nunca ninguém lera. Cujos livros ninguém abrira ou sequer vira - estavam apenas numa livraria distante num país remoto por trás de livros por trás de livros tombados. Viajei até lá. Com receio, procurava a fila onde sabia o livro estar por trás tombado. Esperei por um momento em que não tivesse ninguém a passar por aquela fila. Com um golpe de mão, tirei o livro obscuro. Tremi ao ler a escrita funda, densa, incandescente - aquilo rasurava tudo o que tinha sido escrito e, pior do que isso, todo o porvir literário. Mergulhei numa atmosfera tal, que os livros me parecem todos banais e rasos.

O Barão, Branquinho da Fonseca

«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente.»
O quase septuagenário acendeu o cachimbo, inalou, expeliu fumo desenhando argolas da cor da barba com a boca em círculo. E atirou-me: «Angel, os homens procuram a perfeição; as mulheres, a plenitude.»

sábado, junho 08, 2013

Borges

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,/ nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,/ nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios/ serão favor tão misterioso/ como olhar o teu sono envolvido/ na vigília dos meus braços:/ Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,/ serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,/ dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens./ Entregue à serenidade,/ divisirei essa praia última do teu ser/ e ver-te-ei acaso pela primeira vez/ como Deus te verá,/ já dissipada a ficção do Tempo,/ sem o amor, sem mim.

sexta-feira, junho 07, 2013

oren·da noun \ōˈrendə\ -s Definition of ORENDA : extraordinary invisible power believed by the Iroquois Indians to pervade in varying degrees all animate and inanimate natural objects as a transmissible spiritual energy capable of being exerted according to the will of its possessor Origin of ORENDA
«Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la; segundo, para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem e, por conseguinte, ensinando-lhes algo sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta.» T. S. Eliot

quarta-feira, junho 05, 2013

«Eu amava-a dolorosa e tranquilamente./ A lua formava-se/ com uma ponta subtil de ferocidade,/ e a maçã tomava um princípio/ de esplendor.» HH

terça-feira, junho 04, 2013

«Foi Georges Perec que criou o neologismo endótico para ser antónimo de exótico. O exótico faz exorbitar os olhos por ser tão estranho e surpreendente. O endótico torna os olhos cegos por ser tão familiar e esperado.» Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, junho 03, 2013

«Herberto Helder... Essa coisa de se auto-octogenar e de se manter absoluto, andando vivo e lúcido... E o que é mais giroscópio é o facto de o poeta continuar a perceber a tessitura da vida... Esse entendimento vívido, pleno, para lá e para cá do além... o zénite do todo, do tudo.... Este homem, sendo, consegue helderizar a vida. Pois é, este homem é Portugal! Precisamos nos helderizar também, abrir os olhos em português. Mandar à merda os ensaios sobre a cegueira. Helder dá o mote. Leia-se e entenda-se.» José Alberto Braga

sábado, junho 01, 2013

Tecnofilia

Vais a um jantar em que só conheces uma pessoa. Tiras o telemóvel que toca do bolso e alguém diz que é igual ao dele e fala sobre quanto custou, como o comprou, pergunta-te quanto te custou, se sabes que há o -S. Indiferente ao teu ar de enfado, perora que vai sair o número ponto não sei quê e como isso mudará a vida dele e de muitos dotando-a de um conforto amigo, a conversa alastra, comparam «aplicações», soltam gritinhos «ah!», «espectáculo», «vou já sacar essa». Vais a um concerto e na tua frente várias criaturas em posição de imobilidade filmam com o seu i-coiso o espectáculo, horas a fio, quietas, olhando para o ecrã, perguntas-te se aquela é a sua ideia de fruição, cansam-se pedem a outro que vá segurando e olhando por um bocado, fazem a transição do equipamento com muito cuidado não vá um micro segundo ficar com a qualidade da imagem afectada, segura com jeitinho, pega nele aqui nesta posição em que está. Vais a uma iniciativa recreativa e metade dos pais estão a filmar os filhos com o mesmo zelo dos que estavam no concerto. Ouves comentários de que a fotografia já foi para o Facebook, de que ficou «brutal». Vais com um amigo a andar, subitamente ele entra numa loja, fica deslumbrado, erotizado com a forma, o desenho, a curva, a textura dos mil e um objectos que servem de auxílio aos i-merda. Pensas na criação de necessidades artificiais que sustenta o tecnocapitalismo. O teu amigo continua a ver coisas e tu ficas perplexo a ver o que ele vê, não sabias que a empresa da maçã daquele filho de puta hoje é uma causa. Que I LOVE APPLE vende. Que há estojos para miúdos e uma parafernália de objectos úteis em forma de i-merda. Não consegues entender como outros não vêm nisso um processo de infantilização. Continuas a ver os objectos e descobres coisas espantosas, como autocolantes de metal para o frigorífico em forma de aplicações. Não consegues entender como isto pode ser uma cenoura para um cérebro de um ser vivente, já nem dizes pensante. A teu lado, olhos bem abertos de drogados. Parabéns, tecnocapitalismo, que transformaste cidadãos em consumidores. Pensas que vives num país em que num ano houve uma queda na compra de livros não escolares de um milhão, de 1, 9 milhões de bilhetes de cinema, de 45 milhões de validações de viagens em transportes públicos - e que simultaneamente os telefones espertos aumentaram as suas vendas 46%. Que vives num mundo em que a hiperinformação conduz a pessoas menos informadas. Em que a facilidade de comunicação conduz a pessoas mais distantes entre si, menos afectuosas (aquele grupo de quatro amigos que marcaram um encontro para cada um deles estar no seu i-merda). Um mundo que tem afastado as pessoas das coisas fundas (porque necessariamente lentas), do silêncio, da recolha da alma, da reflexão, ao mesmo tempo que as dota de uma ilusão de conhecimento. Que vives num mundo em que tudo é urgente, em que todos temos sempre portas abertas para a nossa entidade laboral entrar. Em que tudo é premente. Em que tudo é agora. Em que há quem viva em directo. Que há quem não sinta o acontecimento se este não for visto na montra. Em que o importante é arranhar a superfície das coisas sendo multitarefa. Em que os múltiplos tópicos são mais valiosos do que um pensamento estruturado, reflexivo, demorado. Ir a reboque do 4.0, 4.0 e uma letra, 5.0, como matóides acéfalos. Validar uma coisa pelo número de likes, uma pessoa pelo número de pessoas que tem, validar algo como verdade ou falso em função do que a net dita. Um mundo que escarnece da privacidade. Um mundo que glorifica um ser para dois dias o demonizar. Um mundo em que numa semana se é herói para na semana seguinte, pela súbita fama e súbito escrutínio da sua vida, essa pessoa ficar louca ou ser morta. (Vejam o que aconteceu, por exemplo, ao do vídeo do Kony.) Todas as semanas te falam de dez blogues que tens de ver, cada um deles remetendo para não sei quantos outros, de sítios que tens de conhecer, de aplicações que tens de ter, pedem-te centenas de vezes para gostares de centenas de página. Perguntas-te se és tu que estás desfasado do mundo ou o mundo desfasado de ti.
«Conheces a frase, grandes males, grandes remédios. Logo que cheguei aí, de regresso, circa 1982, uns poucos anos a seguir, conheci um empresário brasileiro que tinha uma "ideia maluca" para resolver boa parte do problema económico português. Qual era a sugestão do gajo? Plantar soja em todo o solo alentejano! Soja, como sabes, substitui a carne e, se plantada em Portugal, chegaria aos demais países da Europa com um preço excepcional. Ele correu todas as igrejinhas do poder e... nada conseguiu. Outra, esta lembrei-me eu. Os chineses, que têm uma certa simpatia para com os portugueses (se é que os chineses têm simpatia com coisa alguma), poderiam ser convencidos a usarem Portugal como estância turística! Se concordassem, imagina a quantidade de massa que entraria aí... Estas são duas ideias, mas existem tantas! Custa-me ver, ou melhor, ler, o Carrilho a suar as estopinhas, a teorizar Portugal e ninguém pegar nenhuma ideia do gajo. Se bem me lembro, quando o MEC era jovem (já reparaste que ele está parecido com o "pequeno velho príncipe", do Exupery?), o MEC chegou a criar um escritório de ideias novas, algo assim, para vender novidades. É essa falta de criatividade que nos leva ao "revertere ad locum tuum", como se lê nos cemitérios, (e aqui logo me lembro do Cavaco), que quer dizer... voltar para o lugar de onde vieste. E, no caso, é ir embora sem um golpe de asa! Apre!» JAAB