terça-feira, maio 21, 2013

Um dos melhores artigos de opinião dos últimos anos

O garrote do consenso «Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efetivo pluralismo de perspetivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia. Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais. Temos tido em Portugal, nos últimos dois anos, um eloquente exemplo desta tão insólita como generalizada situação, em que os erros, em vez de levarem à questionação dos diagnósticos e das terapias que suscitaram, são apresentados - por mais clamorosos que seja, e têm sido - como imunes às suas consequências, e até mesmo como um estímulo à sua perpetuação. Muitos atribuirão esta situação à particularidade deste ou daquele economista, à idiossincrasia deste ou daquele ministro. E essas características terão sem dúvida o seu papel. Mas as raízes da situação encontram-se bem mais fundo, elas têm que ver com a formação que, nestas áreas, a universidade dá aos seus alunos, e que os media em geral amplificam. Por todo o mundo (Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha, Israel, Argentina, etc.) têm vindo a multiplicar-se as análises desta formação, que mostram bem a responsabilidade que ela teve na crise que se desencadeou em finais da década passada e no impasse mas ou menos intermitente que se tem vivido desde então. Essas análises apontam fundamentalmente para três aspetos dos curricula e dos programas do ensino económico-financeiro dominante, que não podem deixar de ter pesadas consequências. Em primeiro lugar, uma quase completa ausência de distância crítica, em termos ideológicos ou históricos. Depois, o estrangulamento do pluralismo teórico na abordagem e enquadramento dos problemas. Por fim, o corte com o conhecimento do mundo que as ciências sociais e as ciências humanas propiciam. Percebe-se melhor a sofisticada ignorância, e a emproada incompetência, de tantos economistas dos nossos dias, se soubermos - por exemplo - que a atenção que é dada à história da sua própria disciplina e dos acontecimentos económicos raramente chega aos 2% nos curricula escolares. Ou que é quase total a ausência de reflexão epistemológica, que deveria avaliar com detalhe os fundamentos metodológicos e científicos da disciplina. Ou, ainda, que o espaço dado à articulação dos problemas económicos com outros temas contemporâneos (sociais, políticos, culturais, etc.) ronda, nos respetivos programas, 1,5% do total. Torna-se assim possível fazer um curso de Economia quase sem falar do que de mais importante acontece no mundo. Como se fosse possível reduzir tudo a modelos matemáticos e a métodos quantitativos que, naturalmente indispensáveis, são completamente insuficientes na compreensão da realidade. Sobretudo porque, neste âmbito, a sofisticação técnica anda em geral a par com o simplismo das abordagens, ao contrário do que as sociedades contemporâneas exigem, que é a atenção à sua crescente e inextrincável complexidade. O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que se permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos. O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos. Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objetivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo. É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011 , no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta diretamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afetado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respetivo progresso.» Manuel Maria Carrilho

1 comentário:

Anónimo disse...

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=2429973