quinta-feira, maio 09, 2013

«Se o mundo vos aborrece, sabei que antes de vós me aborreceu a mim» Jesus Cristo

Os cátaros (do grego «puros», uma heresia (uma questão de ângulo de visão, porque para eles o superlativo herege era o Papa) dos séculos XII [versaletes] e XIII [versaletes], tinham um pensamento original (o pensamento original sempre me leva a estudá-lo). A realidade era dual. A espiritual, divina, celestial, e a do mundo, maligna. Como o mundo era a parte negativa (mais bem dito: o Inferno era na Terra), defendiam o suicídio, o aborto, a igualdade entre homens e mulheres, eram contra a procriação (a homossexualidade era um bem), contra os direitos de propriedade, contra os espelhos - reprodutores e alimentadores da ilusão. Desprezavam o corpo, a matéria, em favor do etéreo e espiritual. O mundo era um lugar pouco recomendável. Convinha ascender ao plano superior. Eram coerentes. Algo que poderia ter encantado libertinos é que defendiam que nos banhássemos na mais extrema luxúria para que a rejeitássemos e valorizássemos o espírito - todo o extremo conduz à porta de saída. Acabaram na fogueira. Mas ó tu, terra de Glória, Se eu nunca vi tua essência, Como me lembras na ausência? Não me lembras na memória, Senão na reminiscência. Que a alma é tábua rasa Que, com a escrita doutrina Celeste, tanto imagina, Que voa da própria casa E sobe à pátria divina. Não é logo a saudade Das terras onde nasceu A carne, mas é do Céu, Daquela santa Cidade Donde esta alma descendeu. [...] E tu, ó carne que encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de misérias cheia, Que mil vezes te levantas Contra quem te senhoreia, Beato só pode ser Quem co'a ajuda celeste Contra ti prevalecer, E te vier a fazer O mal que lhe tu fizeste; Quem com disciplina crua Se fere mais que ua vez, Cuja alma, de vícios nua, Faz nódoas na carne sua, Que já a carne na alma fez. E beato quem tomar Seus pensamentos recentes E em nascendo os afogar, Por não virem a parar Em vícios graves e urgentes; Quem com eles logo der Na pedra do furor santo E, batendo, os desfizer Na Pedra, que veio a ser, Enfim, cabeça do Canto; Quem logo, quando imagina Nos vícios da carne má, Os pensamentos declina Àquela carne divina Que na Cruz esteve já; Quem do vil contentamento Cá deste mundo visível, Quanto ao homem for possível, Passar logo o entendimento Pera o mundo inteligível. Ali achará alegria Em tudo perfeita e cheia De tão suave harmonia, Que nem, por pouca, escasseia, Nem, por sobeja, enfastia. Ali verá tão profundo Mistério na suma Alteza, Que, vencida a Natureza, Os mores faustos do Mundo Julgue por maior baixeza. Ó tu, divino aposento, Minha pátria singular, Se só com te imaginar Tanto sobe o entendimento, Que fará, se em ti se achar? Ditoso quem se partir Pera ti, terra excelente, Tão justo e tão penitente, Que depois de a ti subir, Lá descanse eternamente!

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