quarta-feira, maio 15, 2013

Pode-se dar o que não se tem?

Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4. «Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver."» Este episódio da Bíblia foi sempre rasamente interpretado. Não é só a parte material. Quem está triste, quem está deprimido, quem tem as circunstância da vida a concorrer contra si (mesmo que nenhuma delas seja material) tem de fazer um esforço maior para dar ao Outro. Jorge Luis Borges, que gostava de paradoxos (de Zenão, por exemplo) dizia ser um milagre como alguém podia não ter alegria dentro de si e conseguir dá-la ao outro - mas que isso acontecia. Mas é muito mais difícil. E isto conduz-me à Viúva Pobre. Quem está na merda e consegue ser solidário numa unha tem mais mérito de quem está tranquilo e cheio e dá um braço. Lembro-me sempre de um amigo meu que pouco antes de morrer nos paliativos do Hospital da Luz de um cancro no estômago limpava sempre o seu vómito para não dar trabalho às enfermeiras.

4 comentários:

Anónimo disse...

Tem razão. Encontro que, de tudo, o mais extraordinário é fazer o outro sorrir quando não há alegria dentro de nós; acho que é um acto de uma força desumana e começo a entender que é mais frequente do que muitas vezes cremos, sobretudo se não formos atentos aos pequenos gestos.

Anónimo disse...

...pergunto-me se, no vazio, não será essa visão de humanidade no outro/nos outros que nos sustenta, que nos mantém sãos...

Anónimo disse...

Até hoje, sempre me perguntei que nome iria dar a um filho homem.
Hoje, já sei, se o tiver, será Lucas.

Anónimo disse...

Belo Nome.