sábado, maio 04, 2013

Do real

O prédio tem porteira há uma dezena de anos. A senhora ucraniana é estimada pessoal e profissionalmente pelos moradores. Tem uma filha que estuda (aluna brilhante) e trabalha dezasseis horas por dia e se dedica ao estudo da língua portuguesa com uma amiga ucraniana. No sentido de poupar (palavra sacrossanta), no sentido de aquele prédio de classe média alta ganhar uns troquinhos por mês, mandaram a porteira embora. Bem sei que em tempos de austeridade a qualidade dos serviços é preterida em favor do racionamento de custos (por experiência, sei que hoje o tradutor que consegue trabalho não é o que traduz melhor, mas o que cobra menos). Mas o que mais me choca é que o humanismo se perde. Nesta decisão, como em muitas a que tenho assistido, vemos a dissolução dos laços sociais. O custo «imaterial» do desemprego da senhora, as dificuldades da filha, a ligação emocional - não foram pesadas, não entraram na balança. O mundo está feio.

3 comentários:

Anónimo disse...

Quem é que vai fazer a limpeza e tirar o lixo? Provavelmente vão vender ou alugar a casa da porteira. Assim já terão dinheiro para renovar os elevadores e passar a inspeção periódica e não ter de viver sob as constantes ameaças de multas de milhares de euros da Câmara Municipal de Lisboa.

Anónimo disse...

No restaurante de bairro ao lado da minha casa decidiram fazer comida duas vezes ao dia (em vez de apenas uma, como há um ano atrás) para poupar nos desperdícios e não terem que despedir ninguém. É feio, sempre foi, mas há esperança.

Sr Joao disse...

Esperança?