quinta-feira, maio 30, 2013

Com a música celestial e com as almas do círculo hermético, assim sucede

«Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o silêncio que se lhe segue ainda é dele.» Sacha Guitry

terça-feira, maio 28, 2013

Que Miguel Esteves Cardoso escrevia assim já o sabia. Que o José Rodrigues dos Santos o pronunciasse assim no telejornal já o sabia. Mais surpreso fiquei quando o último livro de Herberto o regista assim. Não existe «octagenário» - como não existe «octagésimo». Octogenário. Octogésimo.

Para quem ainda não o comprou...

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3241601

Reading and forgetting

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/05/the-curse-of-reading-and-forgetting.html

A última entrevista de Aquilino

http://www.casaldasletras.com/Textos/AQUILINO_RIBEIRO.pdf

segunda-feira, maio 27, 2013

- Voltei a ouvir música com arroubos de alma. - O que descobriste? - Nada. Estou apaixonado.

domingo, maio 26, 2013

«A leitura tem elementos que são contra as características do nosso tempo: é lenta, é totalitária – quando se está a ler, não se pode fazer outra coisa –, e isso contrasta com a facilidade da televisão e do cinema. [...] Toda a sociedade funciona para eliminar o tempo longo, o silêncio, a discrição, é tudo a favor do consumo imediato, da fruição imediata e de uma certa preguiça colectiva.» Pacheco Pereira

sexta-feira, maio 24, 2013

E de repente a maravilha-se instala-se

Herberto Helder publica Servidões LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 22/05/2013 - 20:35 (actualizado às 21:44) Depois de A Faca Não Corta o Fogo , em 2008, o poeta regressa, aos 82 anos, com um novo livro de inéditos. 6 TÓPICOS Livros Herberto Helder Poesia Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões , que reúne largas dezenas de poemas inéditos. Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões, que reúne largas dezenas de poemas inéditos. A notícia foi avançada nesta terça-feira pelo grupo Porto Editora, que presumivelmente obedeceu aos desejos do autor ao só anunciar agora a existência do livro e ao dispensar qualquer sessão de lançamento. Tal como os anteriores títulos de Herberto Helder, Servidões não será reeditado autonomamente, embora seja de admitir que venha a integrar uma próxima edição de Ofício Cantante, a sua poesia completa. Dado que a tiragem deste novo livro não excederá os cinco mil exemplares, tudo indica que terá o mesmo destino de A Faca Não Corta o Fogo, de 2008, que se esgotou num mês. A primeira impressão que Servidões provoca em quem acabou de ler o livro talvez se deixe dizer melhor numa expressão inglesa: he did it again. Mais uma vez, depois de a energia e a capacidade de inovação de A Faca Não Corta o Fogo terem assombrado os que não julgavam possível uma tal voltagem poética num autor de 80 anos, Herberto Helder repete o milagre. Servidões abre com um texto em prosa construído a partir de três textos anteriores: o mais antigo aparecia a abrir Edoi Lelia Doura, a “antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa” que o autor organizou em 1985, e os restantes tinham surgido respectivamente na publicação brasileira Cult e na Telhados de Vidro, a revista da editora Averno. É significativo que Herberto Helder tenha querido iniciar este livro com um texto marcadamente autobiográfico, que começa com a sua infância na Madeira, povoada de “visões” e “vozes” que terão contribuído para selar precocemente o seu destino de poeta, e não por acaso de um poeta que acredita, sem ironia, nos poderes da poesia, como outrora, em criança, acreditou nas “enigmáticas figuras” de animais que a seiva das bananeiras deixava na lâmina de uma faca, ou nos raios que atingiriam os espelhos se não houvesse a prudência, “em tempo de trovoadas”, de os cobrir com lençóis. O texto termina com esta passagem: “Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical”. Nada de muito diferente do que há muito escrevera num texto hoje recolhido em Photomaton & Vox: “(...) As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.” Mas é verdade que se sente em Servidões, talvez mais do que noutros livros do autor, um certo desejo de revelar, de esclarecer, talvez de corrigir leituras exteriores que lhe terão parecido equívocas. Não se trata nunca, note-se, de propor a sua própria leitura da obra, mas antes de tentar aclarar a natureza do trajecto de que ela é a face visível.Este é também um livro em que Herberto Helder vai mais longe do que nunca na sua determinação de sair da literatura, de desprezar todo o ornamento. E o livro parece ir acelerando, até atingir, em muitos dos poemas finais, uma violenta energia: “dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila/ arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,/ a ideia de paraíso é apenas um apoio/ para o salto soberano,/ não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,/ púberes putinhas das favelas,/ mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,/ um inferno à medida de cada qual dificílimo (...)”. Embora a proximidade da morte seja um tópico recorrente em Servidões, nem há aqui melancolia alguma, nem o corpo que se lê nestes poemas dá grandes sinais de decadência física. Mas a verdade é que nenhum corpo real, tivesse ele 30 ou 80 anos, pôde alguma vez plausivelmente corresponder à energia sexual desta escrita. O que é realmente digno de assombro não é tanto isso, é um cérebro de 82 anos ser capaz desta intensidade criativa.

terça-feira, maio 21, 2013

Um dos melhores artigos de opinião dos últimos anos

O garrote do consenso «Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efetivo pluralismo de perspetivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia. Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais. Temos tido em Portugal, nos últimos dois anos, um eloquente exemplo desta tão insólita como generalizada situação, em que os erros, em vez de levarem à questionação dos diagnósticos e das terapias que suscitaram, são apresentados - por mais clamorosos que seja, e têm sido - como imunes às suas consequências, e até mesmo como um estímulo à sua perpetuação. Muitos atribuirão esta situação à particularidade deste ou daquele economista, à idiossincrasia deste ou daquele ministro. E essas características terão sem dúvida o seu papel. Mas as raízes da situação encontram-se bem mais fundo, elas têm que ver com a formação que, nestas áreas, a universidade dá aos seus alunos, e que os media em geral amplificam. Por todo o mundo (Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha, Israel, Argentina, etc.) têm vindo a multiplicar-se as análises desta formação, que mostram bem a responsabilidade que ela teve na crise que se desencadeou em finais da década passada e no impasse mas ou menos intermitente que se tem vivido desde então. Essas análises apontam fundamentalmente para três aspetos dos curricula e dos programas do ensino económico-financeiro dominante, que não podem deixar de ter pesadas consequências. Em primeiro lugar, uma quase completa ausência de distância crítica, em termos ideológicos ou históricos. Depois, o estrangulamento do pluralismo teórico na abordagem e enquadramento dos problemas. Por fim, o corte com o conhecimento do mundo que as ciências sociais e as ciências humanas propiciam. Percebe-se melhor a sofisticada ignorância, e a emproada incompetência, de tantos economistas dos nossos dias, se soubermos - por exemplo - que a atenção que é dada à história da sua própria disciplina e dos acontecimentos económicos raramente chega aos 2% nos curricula escolares. Ou que é quase total a ausência de reflexão epistemológica, que deveria avaliar com detalhe os fundamentos metodológicos e científicos da disciplina. Ou, ainda, que o espaço dado à articulação dos problemas económicos com outros temas contemporâneos (sociais, políticos, culturais, etc.) ronda, nos respetivos programas, 1,5% do total. Torna-se assim possível fazer um curso de Economia quase sem falar do que de mais importante acontece no mundo. Como se fosse possível reduzir tudo a modelos matemáticos e a métodos quantitativos que, naturalmente indispensáveis, são completamente insuficientes na compreensão da realidade. Sobretudo porque, neste âmbito, a sofisticação técnica anda em geral a par com o simplismo das abordagens, ao contrário do que as sociedades contemporâneas exigem, que é a atenção à sua crescente e inextrincável complexidade. O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que se permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos. O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos. Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objetivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo. É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011 , no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta diretamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afetado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respetivo progresso.» Manuel Maria Carrilho

segunda-feira, maio 20, 2013

«Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar. Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.» Jorge Luis Borges

sexta-feira, maio 17, 2013

vilegiatura Datação: 1899 cf. CF1 n substantivo feminino temporada de recreio, repouso, férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, praia ou balneário
- Da mesma forma que há testes psicotécnicos para o trabalho, penso que deveria haver também para a escolha do parceiro.

quinta-feira, maio 16, 2013

- Já alguma vez evitaste os olhos de um louco com medo de uma lucidez que não conseguisses suportar? - Quantas vezes...

quarta-feira, maio 15, 2013

Pode-se dar o que não se tem?

Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4. «Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver."» Este episódio da Bíblia foi sempre rasamente interpretado. Não é só a parte material. Quem está triste, quem está deprimido, quem tem as circunstância da vida a concorrer contra si (mesmo que nenhuma delas seja material) tem de fazer um esforço maior para dar ao Outro. Jorge Luis Borges, que gostava de paradoxos (de Zenão, por exemplo) dizia ser um milagre como alguém podia não ter alegria dentro de si e conseguir dá-la ao outro - mas que isso acontecia. Mas é muito mais difícil. E isto conduz-me à Viúva Pobre. Quem está na merda e consegue ser solidário numa unha tem mais mérito de quem está tranquilo e cheio e dá um braço. Lembro-me sempre de um amigo meu que pouco antes de morrer nos paliativos do Hospital da Luz de um cancro no estômago limpava sempre o seu vómito para não dar trabalho às enfermeiras.

segunda-feira, maio 13, 2013

«O País assiste assim à sua destruição económica. De acordo com a teoria económica que suporta estas intervenções, não há nestes dados nada de mal e de anormal. Mesmo que todas as estimativas saiam furadas e revistas a preto. Até há beleza, como disse um responsável governamental esta semana. A deslocação (nome eufemístico para a emigração) do fator trabalho é vista como normal e até positiva. Nestes modelos, países, pessoas em territórios, e, nestes, afetividades, culturas e relações sociais não existem. Um País pode desaparecer, e as pessoas deslocarem para o Centro e o Norte da Europa, que a situação é vista como ajustamento e normalidade no modelo de intervenção. Acrescenta-se aqui, normal para os outros, não para si, os decisores, os seus empregos, as suas facilidades, as suas networks e lealdades, e, inclusive, as suas relações com o poder económico e financeiro dominante.» Francisco Madelino
Se há poucos anos alguém tirasse uma fotografia do seu almoço e enviado automaticamente por telemóvel para 500 pessoas a dizer «Vejam o meu almoço» seria considerado esquisito. Se há vinte anos alguém ligasse do fixo a dizer a toda a gente o que almoçara seria considerado louco. Pois, agora, com o FB, já ninguém liga.

A mão no arado

«Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará Oh! como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh! como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição É triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro É triste no outono concluir que era o verão a única estação Passou o solitário vento e não o conhecemos e não soubemos ir até ao fundo da verdura como rios que sabem onde encontrar o mar e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã Triste é comprar castanhas depois da tourada entre o fumo e o domingo na tarde de novembro e ter como futuro o asfalto e muita gente e atrás a vida sem nenhuma infância revendo tuido isto algum tempo depois A tarde morre pelos dias fora É muito triste andar por entre Deus ausente Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.» Ruy Belo

domingo, maio 12, 2013

- O caminho espiritual não é uma linha recta.
- Mas é assim. É a única forma que conheço. Numa relação longa, temos de nos perdoar mutuamente.

sábado, maio 11, 2013

Se és noctívago, se tens predisposição orgânica para deitar tarde e acordar tarde, se o teu cérebro e corpo mais ágeis com a quietude da noite - tens de te adaptar. Se não tens paciência para estudar fiscalidade e se não tens manha para querer aproveitar todos os buracos do sistema - vais perder bastante dinheiro. Se não tens nem aptidão nem apetência pela linguagem dos computadores, serás muito penalizado. Se tens um espírito renascentista, se te elevam as coisas do espírito, nasceste na época errada - para o produtivismo, só interessa o conhecimento que produz técnica. Se tens o cabelo azul, há uma série de trabalhos que te são vedados. Se gostas de te vestires com identidade, cuidado - vê se coincide com a indumentária do teu ofício. Se és honesto, generoso - aceita o prejuízo no mercado de trabalho ou então não pagues o preço e quebra a integridade e os espelhos. Mas lembra-te: a força de trabalho é a única coisa que tens para vender (ou então vive de algo que te caiu ao colo ou da exploração do trabalho alheio). Ela é a única forma de sustentares as necessidades artificias criadas pelo sistema e as necessidades incriadas. Não tens hipótese.

quinta-feira, maio 09, 2013

«Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.» (Salmo 136, 5.6)

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- Depois de aturado estudo e muito bater com a cabeça, conheço apenas três regras em relação ao sexo feminino. 1. O desprezo é afrodisíaco. 2. Gajas atraem gajas. Quanto mais tens, mais fácil é teres outras. E versa-vice. 3. Nenhuma regra se aplica a todas e nem a mesma regra se aplica sempre à mesma - nem mesmo ao longo da mesma semana.
http://lifestyle.publico.pt/noticias/319781_barba-aumenta-o-sex-appeal
Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas Luana Piovani leu a crônica da semana passada, um carinho sobre as mulheres que estão fora do padrão da beleza em cartaz. Não gostou. Criticou a sugestão do colunista para que o programa “Superbonita”, do qual é apresentadora, fizesse, na contramão do poema “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes — aquele da beleza é fundamental —, um especial pacificador sobre a bobagem de se reprimir uns centímetros a mais nos culotes e outras aflições daquelas que o mundo tacha como feias. Luana Piovani respondeu pelo seu tambor preferido, o twitter: “Sugestão declinada. Teremos sim programa para como se livrar deles. Precisamos de audiência e ninguém vai assistir a um pgm que incentive a inércia no duvidoso. Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos pq no planeta q moro, homem tá mais vaidoso q a gente.” Daí que peço licença aos leitores para hoje escrever diretamente a Luana, uma das mais completas e perfeitas traduções em 2013 do poema de Vinicius. Querida Luana, A versão mais bonita de uma mulher é aquela que aprendemos a admirar e, se me permite a simplicidade de incorporar a linguagem twitter, ter tesão. Vamos colocar a língua para fora e deixar escapulir o Einstein que nos habita. Esse negócio de “bunda mole” é muito relativo. Eu conheci uma moça que poderia ser enquadrada nessa categoria e, no entanto, noves fora a suposta flacidez, era linda. Ela se movimentava como uma dessas garças que o Vinicius fazia pairar sobre as árvores de suas poesias, um pescoço de dois metros, e aquilo era um espetáculo de soberba tão deslumbrante que só agora, Luana, provocado por suas palavras, percebo que talvez ela pudesse estar nessa categoria calipígia que você desdenha como um downgrade. No entanto, tal moça tinha borogodó. A soma do quadrado dos seus catetos dava o quadrado de uma hipotenusa fantástica. Fomos felizes assim. Eu estive ali, pertinho, e longe de qualquer acidez crítica, era-lhe só reverência e vassalagem. De homem eu entendo, Luana, e não sou bobo de desdenhar da carne dura, da pele macia, da bunda desenhada a compasso e outros clássicos da mulher bonita. Mas nem sempre é possível tamanha poesia numa hora dessas. Tenho certeza que havia dois Vinicius de Moraes. Um sentava à escrivaninha, no tempo da caneta tinteiro, e escrevia sobre a necessidade de que os seios tivessem “uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca” e pudessem “iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas”. Outro Vinicius andava pelas ruas. Seguia as mulheres com os olhos, súdito servil em lhes encontrar outros tipos de graça. Era capaz de, diante de alguma de seios de expressão divertidamente cubista, pedir o favor de que lhe caíssem nas mãos, róseos, plúmbeos, da cor do azeviche ou do maracujá, e fizessem o favor apenas de apagar a dor, aquietar o espírito e pôr ordem na correria insana de uma vida de resto sem sentido. Definitivamente, Luana, vida real é outra coisa. Não cabe na pauta do ótimo “Superbonita”. Ninguém precisa ser super em nada. Assim como você, também acredito que todos temos a nossa melhor versão e precisamos incentivá-la, mas o que se vê em geral é a tentativa de obrigar todas as mulheres ao mesmo padrão. Fazê-las correr obrigatoriamente atrás do cabelo chapinhado, das pernas musculosas e dos peitos com a centimetragem de uma bomba que vai daqui até o pé da página, mas apontando para o alto, claro, prestes a estourar nos olhos do freguês. Há quem dê preferência, mas existem homens com desejos mais sutis. Eu, a propósito, sou das antigas, e aproveito o ensejo para cantar Noel, aquele do “há tantas santas no mundo, que vivem fora do templo, santas de olhar tão profundo, você, por exemplo, você, por exemplo”. Nada contra a mulher bonita. Desde a primeira que eu vi, aquela com dois baldinhos na lata do Leite Moça, eu dedico boa parte do meu tempo a trazê-las para dentro das minhas retinas, jamais fatigadas com tamanho espetáculo. Eu só queria dizer, Luana, que homens têm um padrão mais elástico do que o recomendado na pauta do programa. Podemos, sim, curtir uma “barriguinha, a testa giga” e outras delícias a serem declaradas no próximo programa como esteticamente incorretas. Mulheres são desdobráveis, dizia a linda poeta Adélia Prado, e eu, mundano, já que a nossa pauta é outra, completo — elas são capazes de se redesenharem com um jeito de falar, uma maneira de silenciar ou uma promessa de queima de fogos ao se oferecer. Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas. Temos a força, como quer o desenho animado, mas ainda a espada da fantasia, a poesia da imaginação. Qual de nós, diante daquele sorriso maliciosamente desengonçado, pediria, antes de se apaixonar, para avaliar, se duro ou com estrias, o bumbum da Diane Keaton?
Tolerância, um conceito pernóstico. Tolerar é dizer: eu sou melhor que isso, mas a minha imensurável magnanimidade não regista essa falta. Pior do que tolerância só condescendência.
Certos comunistas, como certos católicos, usam na lapela as insígnias da bondade, da verdade, da superior inteligência e moral.

«Se o mundo vos aborrece, sabei que antes de vós me aborreceu a mim» Jesus Cristo

Os cátaros (do grego «puros», uma heresia (uma questão de ângulo de visão, porque para eles o superlativo herege era o Papa) dos séculos XII [versaletes] e XIII [versaletes], tinham um pensamento original (o pensamento original sempre me leva a estudá-lo). A realidade era dual. A espiritual, divina, celestial, e a do mundo, maligna. Como o mundo era a parte negativa (mais bem dito: o Inferno era na Terra), defendiam o suicídio, o aborto, a igualdade entre homens e mulheres, eram contra a procriação (a homossexualidade era um bem), contra os direitos de propriedade, contra os espelhos - reprodutores e alimentadores da ilusão. Desprezavam o corpo, a matéria, em favor do etéreo e espiritual. O mundo era um lugar pouco recomendável. Convinha ascender ao plano superior. Eram coerentes. Algo que poderia ter encantado libertinos é que defendiam que nos banhássemos na mais extrema luxúria para que a rejeitássemos e valorizássemos o espírito - todo o extremo conduz à porta de saída. Acabaram na fogueira. Mas ó tu, terra de Glória, Se eu nunca vi tua essência, Como me lembras na ausência? Não me lembras na memória, Senão na reminiscência. Que a alma é tábua rasa Que, com a escrita doutrina Celeste, tanto imagina, Que voa da própria casa E sobe à pátria divina. Não é logo a saudade Das terras onde nasceu A carne, mas é do Céu, Daquela santa Cidade Donde esta alma descendeu. [...] E tu, ó carne que encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de misérias cheia, Que mil vezes te levantas Contra quem te senhoreia, Beato só pode ser Quem co'a ajuda celeste Contra ti prevalecer, E te vier a fazer O mal que lhe tu fizeste; Quem com disciplina crua Se fere mais que ua vez, Cuja alma, de vícios nua, Faz nódoas na carne sua, Que já a carne na alma fez. E beato quem tomar Seus pensamentos recentes E em nascendo os afogar, Por não virem a parar Em vícios graves e urgentes; Quem com eles logo der Na pedra do furor santo E, batendo, os desfizer Na Pedra, que veio a ser, Enfim, cabeça do Canto; Quem logo, quando imagina Nos vícios da carne má, Os pensamentos declina Àquela carne divina Que na Cruz esteve já; Quem do vil contentamento Cá deste mundo visível, Quanto ao homem for possível, Passar logo o entendimento Pera o mundo inteligível. Ali achará alegria Em tudo perfeita e cheia De tão suave harmonia, Que nem, por pouca, escasseia, Nem, por sobeja, enfastia. Ali verá tão profundo Mistério na suma Alteza, Que, vencida a Natureza, Os mores faustos do Mundo Julgue por maior baixeza. Ó tu, divino aposento, Minha pátria singular, Se só com te imaginar Tanto sobe o entendimento, Que fará, se em ti se achar? Ditoso quem se partir Pera ti, terra excelente, Tão justo e tão penitente, Que depois de a ti subir, Lá descanse eternamente!
Com a idade, penso que a felicidade não é a soma dos prazeres, mas a serenidade no intervalo.

quarta-feira, maio 08, 2013

Sobre o Inferno III

Há três formas de lidar com o Inferno. 1. Pensar que é passageiro. Olhar para trás - ver todos os medos que não se concretizaram, todas as ansiedades que redundaram em coisa nenhuma, todo o desespero que julgavas perene e foi transitório. Tudo passou porque tudo passa e tudo passará. 2. Lembrar-te de que há quem estejas em círculos de fogo abaixo do teu. É certo, sabido e experimentado que grandes males curam males. 3. Após uma comichão, o alívio. Após o Inferno, a leveza. Depois de saíres do Inferno, perdes o medo, saboreias loucamente a vida, cada pequeno pormenor dissolve arestas e ganha textura de seda. they say that hell is crowded, yet,/ when you’re in hell,/ you always seem to be alone./ & you can’t tell anyone when you’re in hell/ or they’ll think you’re crazy/ & being crazy is being in hell/ & being sane is hellish too./ those who escape hell, however,/ never talk about it/ & nothing much bothers them after that./ I mean, things like missing a meal,/ going to jail, wrecking your car,/ or even the idea of death itself./ when you ask them,/ “how are things?”/ they’ll always answer, “fine, just fine…”/ once you’ve been to hell and back,/ that’s enough/ it’s the greatest satisfaction known to man./ once you’ve been to hell and back,/ you don’t look behind you when the floor creaks/ and the sun is always up at midnight/ and things like the eyes of mice/ or an abandoned tire in a vancant lot/ can make you smile/ once you’ve been to hell and back.

Sobre o Inferno II

Só um Inferno não é suportável: o Inferno em que não habita a esperança. Nele, futuro e presente fundem-se - o horror é então um presente perpétuo. Nem ao teu pior inimigo o desejarias.

Sobre o Inferno I

Há vários patamares no Inferno. Nunca digas: abaixo disto ninguém pode descer.

domingo, maio 05, 2013

Frases interceptadas

- Se não tivessem cona, nem lhes falava.

sábado, maio 04, 2013

Do real

O prédio tem porteira há uma dezena de anos. A senhora ucraniana é estimada pessoal e profissionalmente pelos moradores. Tem uma filha que estuda (aluna brilhante) e trabalha dezasseis horas por dia e se dedica ao estudo da língua portuguesa com uma amiga ucraniana. No sentido de poupar (palavra sacrossanta), no sentido de aquele prédio de classe média alta ganhar uns troquinhos por mês, mandaram a porteira embora. Bem sei que em tempos de austeridade a qualidade dos serviços é preterida em favor do racionamento de custos (por experiência, sei que hoje o tradutor que consegue trabalho não é o que traduz melhor, mas o que cobra menos). Mas o que mais me choca é que o humanismo se perde. Nesta decisão, como em muitas a que tenho assistido, vemos a dissolução dos laços sociais. O custo «imaterial» do desemprego da senhora, as dificuldades da filha, a ligação emocional - não foram pesadas, não entraram na balança. O mundo está feio.

quinta-feira, maio 02, 2013

O cheiro da pobreza O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica. É a privada por Mario Vargas Llosa Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. "À vontade, doutor", disse ele gentilmente. "O senhor quer urinar ou defecar?". Respondi que a primeira alternativa. Sua curiosidade era acadêmica, porque o "banheiro" do posto era um cercado exposto à intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor estonteante. A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas, intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia e progresso de Amartya Sen - um economista que não acredita que o progresso se resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o que significa - na prática - o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de vida alto ou médio. A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta - uns 2,6 bilhões de pessoas - não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de "falta de acesso ao saneamento", provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo. Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o sistema das chamadas "privadas voadoras", sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens. Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada 1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte. Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas, na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores comerciais, a preços exorbitantes. Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) "pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades - e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York". Esse preço desigual faz com que os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda. Não resisto a citar essa estatística do relatório: "Quando um europeu puxa uma descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas áridas do mundo em desenvolvimento". E também a estimativa de que, com a água poupada caso os "civilizados" fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes, um continente inteiro de "bárbaros" poderia tomar banho. À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada. Em "Os miseráveis", Victor Hugo escreveu que "os esgotos são a consciência da cidade". Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos, longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto. Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência, sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem. Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. "Nascemos entre fezes e urina", escreveu Santo Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.
O poeta caminhava e quedou-se junto da beleza de um lago. - Que flores são estas? - Ora... então, são as flores que tu usas tanto nos teus poemas... - Ah... Elide-se o nome do poeta (Miguel de Unamuno) e das flores (nenúfares) porque o importante é o episódio e o que ele engraçadamente desvela.

De ora em diante, entendo que todos deveríamos escrever o «Presidente da República» entre aspas

«Um discurso por BAPTISTA BASTOS Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas a festa assumiu o carácter do protesto contra o que estamos a viver. Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais. O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se a arteirice com a qual acabrunhou Fernando Nogueira, seu afeiçoado; a inventona das escutas em Belém, montada por um assessor insalubre e por um jornalista leviano; a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; contrariou uma tradição, por ódio e rancor (sempre o ódio e o rancor), e não condecorou José Sócrates, quando este saiu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira. Nada mais. O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se ele não tem emenda nem berço que o recomende. Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor. Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável. "Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente perigosa.» «A fadiga presidencial por MANUEL MARIA CARRILHOHoje23 comentários A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind". Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. É o que acontece quando um professor diz a um aluno "para não ser tão obediente" - ele deve obedecer-lhe desobedecendo ou desobedecer-lhe obedecendo? Aníbal Cavaco Silva já tinha revelado tendência para a criação deste tipo de situações paradoxísticas, colocando frequentemente os portugueses perante dilemas semelhantes, ao declinar variações discursivas que consistem em acentuar vivamente uma perspetiva para, logo depois, apontar no sentido oposto. Foi assim que, depois de denunciar com vigor a espiral recessiva que ameaçava o País, veio defender sem equívocos a política que a provocou e os protagonistas que a incentivaram. Que, depois de denunciar a incompetência da troika, do seu memorando e do seu acompanhamento, veio exigir e aplaudir o seu cego cumprimento. Que, depois de denunciar a desorientação e a inação europeias e os seus custos, veio apelar à submissão aos seus mais contraproducentes ditames... Que, no dia da comemoração da democracia instaurada no 25 de Abril, veio fazer a apologia da sua inutilidade, aconselhando o País a preparar-se para acolher mais ou menos de joelhos os imperativos do novo poder global, de matriz financeiro-especulativa, que hoje corrói todos os regimes democráticos. Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia! Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial... É que há, no bizarro apelo ao consenso do Presidente da República, dois problemas: um de timing e outro de conceito. O de timing remete-nos para o ano de 2009, e para a incompreensão da gravidade da crise que era já então uma evidência, e que devia ter dado lugar a um pedagógico esforço de abertura e de realismo. A situação deveria ter levado o Presidente da República a procurar então uma solução governamental maioritária, dado que um governo minoritário vive quase sempre num registo de preocupação diária com a sua sobrevivência, o que o torna necessariamente débil e fugaz, como mais uma vez se viu!...O Presidente da República deixou passar a oportunidade, como depois deixaria passar outras... O que nos leva ao segundo ponto, o do conceito. O consenso remete sempre ora para uma identidade de valores ora para um acordo de objetivos. Mas nem num caso nem no outro se trata de dados adquiridos ou inequívocos, sobretudo numa comunidade em crise, como hoje acontece. É justamente por isso que o consenso exige uma magistratura presidencial extremamente trabalhosa e exigente do ponto de vista da comunicação e da pedagogia . Eleito por sufrágio direto dos portugueses, autónomo em relação aos partidos, livre das pressões do curto prazo e do imediato, é dele que se espera uma atenção ao essencial que permita criar os laços e estabelecer as relações que as políticas partidárias hoje dificilmente conseguem tecer. Para o fazer não basta, todavia, jurar a constituição perante o Parlamento. Exige-se mais, requere--se um desígnio, uma visão, um sinal que atraia e focalize a hoje tão disputada atenção dos cidadãos. Exige-se proximidade, afeto, cumplicidade, conversa - o contrário do estilo mestre-escola, em que Cavaco Silva se especializou. É onde Cavaco Silva mais tem falhado. A sua reação à generalizada crítica que o seu discurso do 25 de Abril suscitou diz realmente tudo: " depois não digam que eu não avisei!", comentou. Na verdade, o seu magistério foi sempre estritamente funcional, burocrático, minimalista, no limite vertiginosamente apolítico!...Uma im- prudência porque, como a política tem horror ao vazio, mais tarde ou mais cedo os acontecimentos tinham de o colocar de novo na arena político-partidária. Foi o que aconteceu com o discurso do 25 de Abril. Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar - para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard - entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»