terça-feira, abril 23, 2013

Palavras Caras

O debate é antigo. Deve o escritor utilizar palavras consabidas ou revitalizar palavras menos conhecidas? Certo é que grandes monstros literários habitam os dois paradigmas, tornando a discussão permanentemente renovável. Um dos metadiálogos literários sobre o tema pertence a Faulkner e a Hemingway. He [Ernest Hemingway] has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary. Poor Faulkner. Does he really think big emotions come from big words? He thinks I don't know the ten-dollar words. I know them all right. But there are older and simpler and better words, and those are the ones I use. Um dos princípios do jornalismo é o de que entre dois sinónimos a opção do escrevente deverá recair no sinónimo mais comummente utilizado, de modo que o público seja o maior possível. Bem sei que literatura e jornalismo são coisas bem distintas, mas, feliz ou infelizmente, muitos jornalistas migram para a ficção transportando essa ideia. É verdade que a leitura de um texto com palavras caras é menos fluida Ou o leitor pura e simplesmente ignora tais palavras e não vai ao dicionário, deixando zonas brancas na compreensão do texto (a adivinhação pelo contexto é, regra geral, um embuste), ou pega no dicionário ante cada palavra que desconhece ou consulta-o depois de sublinhar um conjunto de palavras na obra. A quebra da fluidez pode afastar leitores, mas não deixa de ser um argumento vicioso – a fluidez do entendimento aumenta na proporção directa do estudo de textos em que tropeçamos mais vezes. Quanto mais lemos, quantas mais palavras caras consultamos nos dicionários, menos vezes temos de o fazer. Percebemos isto facilmente quando nos iniciamos no estudo de uma língua estrangeira. Era o próprio Lenine que afirmava que não era a arte que devia descer ao povo, mas o povo que devia ascender à arte. Para Borges, uma palavra cara num texto era como um borrão de tinta – qualquer coisa que encadeava a vista e que nos fazia reparar mais na palavra do que na perspectiva global da página, do capítulo ou da obra. Não duvido de que muitos autores, mormente numa fase imatura da sua escrita, procuram despejar uma torrente de palavras caras (muitas vezes encaixadas forçadamente) para exibir uma putativa erudição. O narcisismo, a sensação de vaidade do conhecimento de algo partilhado por muito poucos, o poder de mandar o leitor fazer uma leitura intertextual (de que a ida ao dicionário é o exemplo mais corriqueiro) se quiser compreender a sua obra podem ser móbeis de muitos escritores na senda de Aquilino. Mas convém lembrar que vivemos tempos em que o léxico utilizado (na televisão, na imprensa, na comunicação das novas tecnologias de informação, nos próprios livros) é cada vez mais reduzido. George Steiner afirmou que «Shakespeare usava 24 mil palavras. Num estudo muito recente, pela companhia telefónica americana Bell, o total de palavras usadas por 90 por cento dos americanos ao telefone é de 150 palavras». James Joyce recorreu a mais de 30 mil palavras em Ulisses.Vasco Pulido Valente escreveu que quando se dedicou a ler a obra inteira de Camilo verificou que muitas palavras não estavam em dicionário algum. Porquê? Porque um dicionário é um registo, um espelho das palavras usadas pelos escreventes e pelos falantes. Não utilizar determinadas palavras é aniquilá-las, é contribuir para a sua expulsão da língua. Aqui, entramos num ponto essencial. Qual o problema de as palavras irem morrendo? Não é verdade que umas entram e outras saem? Porque devemos a todo o custo tentar preservar palavras que ninguém conhece? Porque quanto mais palavras temos cá dentro, mais chaves de decifração do mundo e do humano possuímos. Não só isso. Mesmo quem não defende a tese de que não há sinónimos perfeitos e de que portanto cada palavra, pelo seu étimo, pela sua conotação, transporta um significado único; mesmo quem não subscreve tal ideia concordará que o escritor munido de mais palavras dispõe de mais instrumentos para trabalhar a plasticidade, a beleza e a musicalidade da língua. Um acrescento importante. Não são apenas as palavras que morrem pela falta de uso. Determinados significados associados às palavras morrem quando deixam de ser empregados (quando consultamos um dicionário, percebemos que as palavras são quase todas muito mais polissémicas do que julgamos). As almas mundas de Camões remetem-nos para um adjectivo extinto – mundo enquanto oposto de imundo. É essa a preocupação expressa por Orwell no final de 1984, quando a novilíngua mantinha a palavra «livre», mas já não aplicável a homens livres, permanecendo apenas para frases como: «O cão está livre de pulgas.» Termino com uma confissão. Uma das coisas que mais me alimentam o espírito, provocando aquele preenchimento interior que é a satisfação intelectual, é o de conhecer uma palavra nova todos os dias. É o tipo de contentamento que não envelhece nem se embota – uma delícia no corpo que não consigo transmitir em palavras. Eis algumas. (Fonte: Houaiss.) vulpino Datação: 1840-1871 cf. SilCas n adjetivo 1 relativo a ou próprio de raposa; raposino Ex.: 2 (1881)Derivação: sentido figurado. hábil com ardis; ardiloso, astuto, raposeiro, raposino, traiçoeiro Ex.: vendedor v. metuendo Datação: 1690 cf. Alma n adjetivo Uso: formal. que causa temor, que mete medo talássico Datação: 1877 cf. MS7 n adjetivo 1 relativo ao mar e às águas oceânicas profundas 2 Uso: formal. da cor do mar Ex.: azul t. pusilanimidade Datação: sXV cf. FichIVPM n substantivo feminino 1 característica ou condição do que é pusilânime 2 fraqueza de ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão 3 medo, covardia queimor Datação: 1858 cf. MS6Ortoépia: ô n substantivo masculino 1 sabor muito picante; ardência, queimo Ex.: o q. da pimenta-malagueta 2 Derivação: por metáfora. estado de sobreexcitação, de arrebatamento; exaltação Ex.: o q. dos ânimos 3 Derivação: por extensão de sentido. forte perturbação; ardor Ex.: o q. das paixões 4 Derivação: por extensão de sentido. quentura febril Ex.: o q. do corpo 5 calor intenso pudicícia Datação: 1540 cf. JBarV n substantivo feminino 1 qualidade do que é casto; castidade, pureza 2 característica do que é pudico, tímido, recatado Ex.: a p. do primeiro amor 3 m.q. pudor femeeiro Datação: 1858 cf. MS6 n adjetivo e substantivo masculino 1 diz-se de ou macho que busca incessantemente a fêmea Ex.: <é um f., vive atrás da fêmea> 2 Regionalismo: Brasil. diz-se de ou reprodutor (touro ou garanhão) cujas crias são, na maioria, fêmeas 3 m.q. mulherengo ('dado a mulheres') n adjetivo Regionalismo: Minho. 4 m.q. fêmeo (vitic) n substantivo masculino 5 reunião de meretrizes; femeaço justafluvial Datação: 1899 cf. CF1 n adjetivo de dois gêneros que está nas imediações ou junto de um rio; marginal, ribeirinho deletério Datação: 1713 cf. RB n adjetivo 1 que é prejudicial à saúde; insalubre 2 Derivação: por extensão de sentido. que possui um efeito destrutivo; danoso, nocivo 3 Derivação: sentido figurado. que conduz à imoralidade, à corrupção; degradante 4 Rubrica: genética. cujo fenótipo é prejudicial para o organismo (diz-se de gene) malsão Datação: a1587 cf. APP n adjetivo 1 de saúde precária; que não se curou de todo, em mau estado Ex.: 2 (1600) nocivo à saúde; insalubre, doentio Ex.: o ar m. que se respira junto aos pântanos 3 Derivação: sentido figurado. que denota uma perversidade intelectual ou moral; mórbido Ex.: curiosidade m. 4 Derivação: sentido figurado. que ameaça o equilíbrio intelectual, moral; nocivo, maléfico Ex.: leitura m. 1mormacento Datação: 1716 cf. RB n adjetivo em que há mormaço Ex.: dia m. mormaço Datação: 1716 cf. RB n substantivo masculino 1 neblina quente e úmida, resultante de forte calor 2 temperatura abafada, quente 3 Regionalismo: Brasil. Uso: informal. indivíduo impertinente, aborrecido 4 Regionalismo: Pernambuco. Uso: informal. m.q. namoro ('ato', 'relação') feérico Datação: 1899 cf. CF1 n adjetivo 1 pertencente ao mundo da fantasia; mágico 2 que revela suntuosidade; luxuoso, fastuoso, deslumbrante Ex.: decoração f. 3 que turva a vista por excesso de luz ou brilho; deslumbrante, ofuscante Ex.: iluminação f. empíreo Datação: sXIV cf. FichIVPM n substantivo masculino 1 Rubrica: mitologia. lugar em que moram os deuses 2 Rubrica: teologia. lugar reservado aos santos e bem-aventurados; o céu n adjetivo 3 relativo ao céu; celestial 4 que está acima de tudo; supremo adâmico Datação: 1871 cf. DV n adjetivo 1 Rubrica: religião. relativo a Adão, o primeiro homem, segundo a Bíblia 2 Derivação: por extensão de sentido. relativo à primitiva raça humana 3 Derivação: por extensão de sentido. que é primitivo imarcescível Datação: 1680 cf. LacSJ n adjetivo de dois gêneros 1 que não perde o viço, o frescor Ex.: flor i. 2 Derivação: sentido figurado. impossível de corromper; incorruptível, inalterável Manuel Monteiro

1 comentário:

Anónimo disse...

concordo com o maior valor da fluidez de entendimento face à fluidez de leitura, perfeito.