sexta-feira, abril 26, 2013

Alemanha: "In" ou "Out"? por MANUEL MARIA CARRILHOOntem55 comentários O 25 de Abril de que hoje precisamos é europeu. Não porque não haja muito a fazer por cá, mas porque a mudança que agora se impõe como decisiva para que se consiga sair da crise em que estamos atolados é europeia. Temos que nos concentrar no essencial. E o essencial é que a crise despoletada pela situação da dívida grega em fins de 2009 foi a ocasião, mas também o pretexto, para se desencadear uma operação de profunda transformação da natureza e dos objetivos da União Europeia e, especialmente, da Zona Euro. O que é preciso ter bem presente é que o euro e a união monetária não apareceram por acaso ou num lance de pura improvisação política. Não, nasceram de uma tripla expectativa - e de um triplo compromisso - de convergência, de crescimento e de equilíbrio, entre os países que constituíram a Zona Euro. E sejam quais forem as causas que se entenda que estiveram na origem da "crise do euro", não se podem desligar as responsabilidades apuradas - e elas foram bem mais variadas do que muitas vezes se pretende - do quadro de acompanhamento e de solidariedade institucional que permanentemente as enquadrou durante toda uma década. Foi contudo isto que infelizmente aconteceu, nos últimos dois anos e meio, sob o impulso alemão, a fraqueza francesa e a generalizada vassalagem dos líderes europeus. Tudo começou com a Grécia, mas agora já ninguém sabe onde, nem como, irá acabar... E o que começou não foi bem o que parecia - pôr em ordem um Sul preguiçoso e gastador -, mas um lance extraordinariamente audaz no sentido de um novo, e inédito, domínio alemão na Europa. Insisto: o que é preciso entender é que a crise do euro criou a ocasião propícia para a Alemanha alterar a correlação de forças europeia, lançando-se numa nova afirmação como potência na Europa. E de o fazer clandestinamente, com o magnífico álibi de estar a ajudar os outros... O facto é que, em pouco mais de dois anos, ela conseguiu impor-se e dominar a Zona Euro e a União Europeia como nunca tinha acontecido, pondo fim à igualdade dos Estados, abandonando o espírito de solidariedade entre os povos, marginalizando a Comissão Europeia e ignorando o método comunitário. Da Alemanha europeia passou-se à Europa alemã, tão bem descrita por Ul- rich Beck. A "solução alemã" impôs-se através de uma forma de política de austeridade que, insinuando amanhãs mais radiosos sempre adiados, tudo submete afinal às exigências e aos imperativos da sua política nacional. Acontece que, dois anos passados, os resultados desta política são catastróficos nos países onde ela foi aplicada, e ameaçam agora muitos outros com uma perigosa contaminação. O "consenso de Berlim" que tem dominado a Europa ameaça assim conduzir-nos ao colapso, com uma recessão cada vez mais funda (2013 será um segundo ano de recessão na Zona Euro) e um desemprego que atingiu valores intoleráveis, 26 milhões em toda a União Europeia. Neste momento, depois dos países sob resgate formal e informal, é toda a Zona Euro (e não só...) que começa a vacilar com as consequências desta política, com todas as economias a revelarem preocupantes sinais dos efeitos da contaminação austeritária - com exceção da Alemanha, da Áustria... e pouco mais. Até já Durão Barroso fala, embora sem tirar disso as devidas consequências, nos erros e nos limites das políticas de austeridade... E a Holanda dá sinais de alerta, como acabou de se ver na semana passada, ao adiar sine die as medidas de austeridade previstas, em nome da confiança e do crescimento. Compreendem-se assim bem as polémicas afirmações feitas há dias por George Soros num texto publicado no Syndicate Project, e depois retomadas em entrevista ao El País. Ele chamou a atenção para o essencial, que é o modo como o projeto europeu tem sido estropiado em claro benefício da Alemanha. A solução da crise europeia passa pois por, de um modo muito claro, se colocar a questão de saber quem é que manda na Europa, e nomeadamente na Zona Euro: se é a Alemanha, mais ou menos a solo, ou se é a maioria do conjunto de países que a constituem. E muito concretamente em saber se esta maioria continua a caucionar a atual linha austeritária, ou se ela pretende retomar e afirmar o espírito e os compromissos que estiveram na sua origem. Queremos uma Europa de Estados com soberania partilhada ou uma Europa de vassalos de uma potência hegemónica? - é esta a questão. E ela é cada vez mais incontornável e decisiva, é dela que depende o futuro da Europa. E este debate devia fazer-se imediatamente na Cimeira do Euro, entidade que reúne os líderes dos países da Zona Euro, e que foi criada no Último Conselho Europeu. Se o atual consenso de Berlim só serve, na verdade, à Alemanha e aos seus interesses nacionais, então a saída do euro que se deve equacionar é, como diz G. Soros, a da Alemanha: "A Alemanha deve decidir se quer refazer a Zona Euro na forma que estava destinada a ser, o que supõe que aceita as responsabilidades e os encargos necessários para avançar nessa direção. Ou se, caso contrário, deve considerar sair do euro e deixar que o resto dos países criem as obrigações conjuntas e combatam a crise." Trata-se de uma perspetiva importante, a reter e a trabalhar. Ela muda o paradigma dominante das relações de força na UE, permitindo alterações estratégicas decisivas para lidar com a crise do euro. E, como sublinha G. Soros, o "efeito sobre os países devedores seria quase miraculoso. De repente, converter-se-iam em economias competitivas e a sua dívida diminuiria enormemente, em termos reais, com a depreciação do euro. O peso do ajuste recairia sobre a Alemanha, que teria de lidar com o peso de uma divisa mais forte do que o euro, retirando-lhe competitividade nos mercados internacionais." Como também já em 2012 Joseph Stiglitz tinha afirmado em declarações à BBC, nada - nem a ameaça de uma eventual saída da Alemanha do euro - pode ou deve impedir a criação de eurobonds, se a maioria dos países da Zona Euro considerar que tal é vital para o seu futuro. E quanto mais tarde se confrontar a Alemanha neste ponto, pior! E atenção: os demónios que provocaram duas guerras tremendas na Europa estão apenas adormecidos, como recentemente lembrou Jean-Claude Juncker. E é bom não esquecer que o "imperialismo alemão" que esteve na sua origem tem raízes bem mais fundas do que muitas vezes se pensa. Basta, para o compreender, ler o extraordinário livro de Shelley Baranovski sobre o "german colonialism and imperialism from Bismarck to Hitler" (Cambridge U. P. 2010). Ele ajuda a perceber porque é que um espírito tão aberto, tão tolerante e tão pacifista como Einstein defendeu o desaparecimento da Alemanha do mapa europeu!...

1 comentário:

Anónimo disse...

A saída da Alemanha do Euro, assim explicada, faz muito sentido; no entanto, esta configuração de coisas parece-me uma alternativa pouco provável dado que seria acompanhada pela saída daqueles países onde os princípios fundadores da UE (em especial, o da solidariedade) estão também visisvelmente esquecidos e que, portanto, não dão grande valor à convergência (cujo significado nem sempre é totalmente apreendido), e pela criação (mais ou menos rápida, mais ou menos formal) da tal Europa a duas velocidades, perpetuadora das desigualdades já existentes. Não sei se será por aqui lá iremos...