terça-feira, março 26, 2013

Herberto Helder

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. O orvalho da muita manhã. Corria de noite, como no meio da alegria, pelo orvalho parado da noite. Luzia no orvalho. Levava uma flecha pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado loucamente por um caçador de que nada se sabia. E era pelo orvalho dentro. Brilhava. Não havia animal que no seu pêlo brilhasse assim na morte, batendo nas ervas extasiadas por uma morte tão bela. Porque as ervas têm pálpebras abertas sobre estas imagens tremendamente puras. Pelo orvalho dentro. De dia. De noite. A sua cara batia nas candeias. Batia nas coisas gerais da manhã. Havia um homem que ia admiravelmente perseguido. Tomava alegria no pensamento do orvalho. Corria. Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas. Que têm os olhos cegos como sangue. Este corria, assombrado. Os mortos devem ser puros. Ouvi dizer que respiram. Correm pelo orvalho dentro, e depois estendem-se. Ajudam os vivos. São doces equivalências, luzes, ideias puras. Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar — a morte é passar, como rompendo uma palavra, através da porta, para uma nova palavra. E vejo o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição através das portas de outros corpos. Como uma qualidade ardente de uma coisa para outra coisa, como os dedos passam fogo à criação inteira, e o pensamento pára e escurece — como no meio do orvalho o amor é total. Havia um homem que ficou deitado com uma flecha na fantasia. A sua água era antiga. Estava tão morto que vivia unicamente. Dentro dele batiam as portas, e ele corria pelas portas dentro, de dia, de noite. Passava para todos os corpos. Como em alegria, batia nos olhos das ervas que fixam estas coisas puras. Renascia.

2 comentários:

Anónimo disse...

Quando eu leio o nome Herberto Helder só me lembro que o filho dele tem as mesma sobrancelhas que ele e isso é suficiente para deprimir uma pessoa...

Anónimo disse...

Havia um homem que corria pelo caralho dentro