quinta-feira, março 21, 2013
Directos ao muro, Manuel Maria Carrilho
A tragédia do País é, em geral, andar vários anos atrasado em relação
às evidências mais claras e mais incontornáveis. Foi assim quando só
em finais de 2009 se assumiu a crise que desde o verão de 2007 entrava
pelos olhos dentro. Foi assim quando, em 2011, rebentou a bomba que já
se via e impunha desde o começo de 2010. E é assim de novo, agora em
2013, quando se multiplicam as consequências do que já em 2011 era bem
óbvio: que o memorando estava, como agora se diz, "mal desenhado".
E não se trata de fazer profetismo a posteriori. Pelo contrário,
escrevi-o aqui, pouco depois das últimas legislativas, chamando a
atenção para a "armadilha atroz" para que se estava a empurrar o País
e para os perigos de se viver como se "tivesse acontecido um
verdadeiro milagre - o Milagre do Memorando. Um milagre operado pela
troika, que, em versão moderna dos três pastorinhos, conseguiu o
extraordinário feito de produzir em duas ou três semanas um documento
"estratégico" que deixou o País de joelhos, indicando-nos como
resolver finalmente todos os nossos problemas, tanto os imediatos com
os mais estruturais (14.07.2011).
E acrescentava, então: "Como desse documento dependia, e de uma
maneira dramática, o financiamento corrente do País, o seu elogio
desmiolado tornou-se uma espécie de prece diária de políticos,
jornalistas e comentadores, pouco interessados em avaliar friamente as
possibilidades e as consequências da tal estratégia.
O milagre era vivido com tal fervor que o que parecia tentador era
prometer ir ainda "mais além", ignorando-se completamente que o
objetivo fundamental do memorando era, sobretudo, o de garantir o
reembolso em perigo de empréstimos concedidos, confiscando para o
efeito a energia, os bens e as ilusões ainda disponíveis no País."
O reconhecimento do fracasso chegou agora, tarde demais como quase
sempre acontece quando lidamos com as funestas consequências do
fanatismo político. Um fanatismo que levou o Governo a comportar-se
desde o início como se, para enfrentar uma calamidade cuja realidade
ninguém contestava, o melhor fosse convocar uma outra bem maior.
Como se, afinal, para enfrentar por exemplo uma cheia, ou uma
avalanche, o melhor fosse provocar um tsunami... E agora desculpa-se
com argumentos indigentes, insinuando que, antes, tudo era
imprevisível. E, depois, tudo passou a ser inevitável. Mas não - a
verdade é que quase tudo era tão previsível como evitável.
E agora? Agora, todo o País sente que vamos direitos ao muro. A
angústia nacional é uma natural consequência desta insuportável
evidência, em que se vê o Governo acelerar na direção do muro, e com
tanto mais intensidade quanto menos ele vê à sua frente, como de resto
as suas previsões sistematicamente falhadas inequivocamente confirmam.
É urgente travar, mas tal não basta, porque isso só adiará o choque. O
que é urgente é mudar de direção.
Cá e na Europa. Foram muito comentadas as palavras de Jean-Claude
Juncker quando, na semana passada, em entrevista ao Der Spiegel,
lembrou as circunstâncias da Europa de há precisamente cem anos,
quando também se acreditava com complacência que não seria possível
haver mais guerras no continente europeu. E depois houve, e não foi só
uma...
E é também útil lembrar que se a Europa no começo dos anos 20 tinha 24
regimes democráticos, dez anos depois eles estavam reduzidos a menos
de metade, a 11. Um estudo sobre este processo, de B. Eichengreen, K.
H. O'Rourke e A. de Bromhead sobre as 171 eleições que tiveram lugar
em 28 países europeus entre 1929 e 1939, tira uma conclusão
importante, em que devíamos refletir: é que foi mais a duração do que
a intensidade das recessões desse período que provocou os terríveis
acontecimentos políticos dessa década.
O caso alemão é sempre de sublinhar: em 1928, a Alemanha tinha um
milhão de desempregados e o partido nazi obtinha 2,5% dos votos. Dois
anos mais tarde, em 1930, com o desemprego já nos três milhões, os
nazis atingem os 18,3%. E em 1932, quando o desemprego chega aos seis
milhões, Hitler consegue 37,2% dos votos, e poucos meses depois está
no poder.
Foi este o resultado de uma década de austeridade e deflação. As
analogias são cada vez mais inquietantes. E o que acaba de se passar
com Chipre assusta. No dia a seguir ao completo fiasco do Conselho
Europeu dedicado ao emprego e ao crescimento, a União Europeia decide
abordar o grave problema financeiro cipriota atacando o coração de
sistema bancário, isto é, a confiança dos cidadãos nas instituições
que têm de garantir a segurança dos seus depósitos.
Há de facto um sério problema de impunidade financista em Chipre que
não pode ser ignorado. Mas ele não pode ser resolvido poupando mais
uma vez os especuladores e caindo em cima das poupanças dos cidadãos,
impondo-lhes taxas que aparecem como uma inequívoca forma de extorsão.
Trata-se de uma machadada que se pode vir a revelar irreparável, não
só na confiança dos cidadãos no sistema bancário mas também nas
instituições europeias que promovem e caucionam este tipo de soluções.
Era do que a Europa, nesta fase, menos precisava. Mas parece que,
também aqui, a atração pelo muro é muito forte.
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1 comentário:
E assim lá vamos de crise em crise até à vitória final.
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