sexta-feira, março 01, 2013

Decálogo do Escritor

1. Se escrever não é a coisa mais importante para ti, nunca serás escritor. Se escrever não é uma necessidade absolutamente vital para ti, se a escrita não é a tua amante dilecta, larga depressa a ideia de te dedicares a este ofício sombrio e doentio. Se entendes que escrever é fácil, se as tuas botas não estão revestidas de uma fé indestrutível para a longa estrada de rejeições, crítica, desânimo, irrisão, incompreensão, de luta sangrenta e contínua com o papel, com o tormento que é as palavras nunca serem suficientes para expressar algo anterior a elas; lembra-te de que há um bom quinhão de clássicos que repousa durante séculos sem ganhar uma ruga e de que, portanto, não é premente que escrevas. 2. Se não habitam monstros dentro de ti, se não há algo que te tumultua, se não estás disposto a arrancar as vísceras e a espalhá-las pelo papel; não se vislumbra como serás escritor. Não há nada mais vácuo e inane do que o exercício da escrita insincera e desvivenciada. 3. Se entendes que para escrever não necessitas de mil revisões posteriores, de uma miríade de páginas deitadas fora para apenas preservar um parágrafo, de recuos, de rasuras, de permanentes modificações; se pensas assim, ainda dás os primeiros passos titubeantes. O doloroso e árduo processo da escrita leva tempo. Muito tempo. Tens de deixar a página dormir a sono solto antes de voltar a ela. O problema não é a escrita inicial, torrencial, de um jacto só – o problema é a sempiterna revisão/reescrita do que se fez. A demanda da perfeição. Lembra-te da personagem de Camus que querendo escrever o livro perfeito não saía do mesmo parágrafo. 4. Se consideras que existem universos que o escritor deve desprezar na sua absorção do mundo e da vida, ignoras o essencial. O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel – uma força colossal que sugue tudo, todas as vidas, todas as ruas, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as ideias, todos os sentimentos, para o centro da folha. Até que o livro seja o espelho de cada rosto que se aproxima. Bukowski ia assistir a corridas de cavalos e a combates de pugilismo e dizia que o seu olhar sobre estas realidades influenciava o seu estilo literário. O que realmente interessa não é o que se vê, mas a forma como se vê. Não há «realidades» maiores ou menores para abordar na escrita – tudo é símbolo. 5. Se escreves para mostrar o quão erudito e inteligente és – desiste. Se não consegues sacrificar uma frase coruscante, um pensamento que te sobreexcitou, em favor da coesão do livro, então ainda não estás preparado. Se de alguma forma escreves a pensar no leitor, isso será fatal para a tua escrita. 6. Se acreditas que o que está escrito (o texto) é mais importante do que o que não está escrito (o subtexto), dedica-te a escrever a folhetos de medicamentos em vez de literatura. Cultiva a omissão, o não-dito, o não-explícito. Lê um livro sobre amor que nunca utilize a palavra «amor». Lê Kafka. Dizem que escreveu sobre Deus, o Estado, a Burocracia, a Culpa, a Vergonha, o Absurdo – e nunca encontrarás estas palavras na sua obra. 7. Se precisas de escarrapachar adjectivos, truísmos, obviedades, para definir ambientes, personagens, paisagens, sentimentos, a tua escrita nunca passará rente ao coração da natureza humana. «Maria era cem por cento determinada, cem por cento honesta, cem por cento feminina.» Este é o tipo de descrição preguiçosa de quem desconhece o que é a emanação subtil da caracterização da personagem pela acção. O que é uma personagem bem conseguida? Esquece a teoria da literatura. Uma personagem bem conseguida é aquela que é tão forte, tão real, tão vívida, que conheces pelo menos tão bem quanto o teu melhor amigo. 8. Se a tua voz não emerge concreta e distinta, se tudo mais não é do que uma bola amassada de vozes, continua a encostar o ouvido ao búzio do texto, dia após dia, noite após noite, até que o murmúrio ganhe o contorno de voz. É a luta mais difícil. 9. Se desprezas a prosa, tenta perceber o que significa: forma é conteúdo. Se assim não fosse, todos seríamos – ou poderíamos ser – escritores. Todos temos histórias para contar, afirmou Céline. Todos vivemos, ouvimos, vimos histórias tenebrosas, miríficas, inacreditáveis, únicas. Forma e conteúdo têm de aparecer tão indissoluvelmente ligados como um só corpo. 10. Se não seguras na mão cada palavra, medindo-a, pesando-a, mirando-a de todos os ângulos, conhecendo-lhe todas as texturas, trincando-a, brincando com ela na boca antes de a atirares para o papel, inundarás o texto de clichés – de caminhos sinuosos, de odores inebriantes, de olhos rasgados, de lábios carnudos, de corpos esculturais, de almas atormentadas. O problema de cuspir este tipo de expressões, quais peças inconsúteis, é que elas estão gastas – perderam o poder evocativo. Quem consegue ainda recriar mentalmente a cor dourada quando lê «época áurea»? Ou de imaginar caudais tombando do céu quando lê «chovia torrencialmente»? Ou de ver claramente visto o ouro sobre o azul? Ou de desenhar o fogo do «desejo ardente»? O escritor é aquele que faz chover na página quando escreve «chuva».

7 comentários:

Luiz Guilherme Libório Alves disse...

Você é dos meus maiores mestres e nem sei quem és. É fantástico! Teu decálogo me fez escrever isso http://luizliborioalves.blogspot.com.br/2013/03/suspiro-pos-anos-10.html



Obrigado

Luis Rodrigues disse...

chuva










;)

Sr Joao disse...

Caraças, Luiz, obrigado.

Luis Rodrigues disse...

mas note-se que gostei do texto, simplesmente sou dado a este tipo de coisas

Sr Joao disse...

:)

curtos instantes disse...

O subtexto é tudo…Poderá a escrita ser terapêutica ao invés de ser encarada como um ofício? Poderá a escrita ser libertadora – apenas torrencial, no entanto sempre sujeita a crítica – e assim fazer sentido? Poderão os não escritores habilitar-se da escrita?

Texto magistral...

Anónimo disse...

texto brutal meu caro, tanta verdade em tao poucas linhas...

abraço

diogo