sexta-feira, março 01, 2013

Camilo Lourenço, a História e a utilidade económica Henrique Monteiro

«Um colega de universidade chamou-me a atenção para um comentário de Camilo Lourenço sobre professores de História no qual afirma que estes não são necessários à economia. Camilo Lourenço é um homem que tem feito carreira no comentário económico através de declarações provocadoras. Algumas, como esta, são infelizes; outras interessantes e acutilantes. (Num parêntesis, esclareço que apesar de nunca ter trabalhado com ele, fui publisher de uma revista - a Exame - de que fora diretor, pelo que posso dizer que a versão que por aí circula do seu afastamento por causa de um artigo sobre o BPN é... ficção). Se Camilo tivesse estudado Humanidades, sabia que a utilidade não pode ser a medida de todas as coisas e conheceria as críticas ao utilitarismo. Ocorre-me, até, que caso seja economista, Camilo possa conhecer essas críticas. E isso torna as coisas piores, porque significa que ele foi levado a dizer o que disse não por desconhecimento - o que conduz àquele pensamento cristão, "Perdoa-lhe Senhor, que ele não sabe o que diz" -, mas por convicção, o que eleva o debate a um novo patamar. O utilitarismo analisa as ações pela utilidade que têm ou virão a ter na produção de bem estar numa sociedade. Por exemplo, um utilitarista moderado dirá que os idosos produzem bem estar social através do exemplo, ou da integração social e da transmissão de conhecimentos e sabedoria. Já um radical - camilista? - dirá que um velho é um desqualificado porque já nada produz e só gasta dinheiro. "Não pode ser. Mas um licenciado em História é qualificado só por que tem um canudo?" pergunta Camilo. E a resposta é sim. É qualificado porque o reconheceram como possuidor de um conjunto de conhecimentos (se bem ou mal é outra discussão). Claro que a qualidade do seu trabalho pode ser melhor ou pior, mas dizer que licenciados em História, ou em Filosofia, ou em Clássicas ou em Literatura não têm qualificação só por terem um canudo - uma vez que não "têm utilidade no mercado de trabalho", é o mesmo que dizer que um idoso não tem utilidade porque só gasta dinheiro e não produz nada (algo que lembrou a um senhor economista no Japão). Ou, como diz Camilo, "Não tem utilidade para a economia". A Economia é importante, Camilo, claro que é. Mas o mundo é mais do que a Economia. A mera racionalidade económica, se não for compensada por aspetos como caridade/solidariedade; amizade/companheirismo/amor; coesão/camaradagem/vizinhança entre muitas outras categorias não económicas (ocorre-me também a boa educação), é inútil. Como já demonstrou o suspeito licenciado em História Rui Tavares (ontem, num artigo no 'Público') acresce que os licenciados em História têm utilidade para a Economia. E os licenciados em Filosofia também. Muitas empresas, por todo o mundo, contratam quadros destes cursos porque o conhecimento da história e do pensamento permite às empresas evitar erros. Por exemplo, Amos Shapira, o CEO da Cellcom,a maior empresa de Cabo nos EUA, diz literalmente isto: "O conhecimento que uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas... A principal coisa que os estudantes têm de aprender é como estudar e analisar as coisas, incluindo a História e a Filosofia". O design da Apple deve-se a um curso de caligrafia de Steve Jobs. Grandes vendedores dos EUA vêm de cursos de letras e de teatro. Em França, caro Camilo, Filósofos dão consultas a dirigentes de empresas, para os ajudar a ultrapassar certos dilemas. A própria utilidade das Humanidades na Economia é indiscutível e é reconhecida por fontes insuspeitas como a Harvard Business Review. Porque qualquer licenciado em Filosofia diria que a teoria do crescimento constante da Economia é anti-natural (não há nada na natureza que cresça constantemente sem morrer). Qualquer licenciado em História sabe que o desequilíbrio entre a China e a Europa é bastante recente em termos históricos, pelo que tender-se-ia para o re-equilíbrio que está a acontecer. São coisas úteis para a sociedade, sobretudo se a sociedade não for formada por um conjunto de ignorantes.»

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