quinta-feira, março 21, 2013

Anarquismo na alma

Nasci sem pedir. E com um corpo. Corpo esse que me exige necessidades que tenho de satisfazer. A sociedade em que nasci exige que tenho de realizar uma série de tarefas para o satisfazer. Ironia das ironias, nasce-se de graça, mas é preciso pagar para morrer, como sustentava Agostinho da Silva. Tudo isto me parece absurdo. O Estado exige-me que eu esteja na reserva territorial para o caso de uma guerra. Exige-me documentos identificativos - cada vez mais. (Eu que nunca ando nem com o B.I., entretanto já caducado.) Vigia-me por todo o lado. Assim como as empresas. Exige que saiba e tenha de preencher uma série de coisas em computador. Exige-me muitos impostos. Exige que guarde durante dez anos todas os recibos relativos ao IVA. Para quem abomina spreads, ipads,, i-isto e aquilo, twitter, linkedin, etc, etc, toda a parafernália tecnológica, para quem preza a privacidade, a liberdade individual, a sociedade é um Inferno. Sei que perco balúrdios por não me submeter a todos os prazos, por não conhecer todas as prerrogativas dos impostos, por não ter contabilista, consultor fiscal. Sei que desconheço as funcionalidades da televisão. Sei que detesto débitos directos e caixas online. Sei que a sociedade actual é impiedosa com pessoas assim. Uma nova tecnologia aparece sempre como opcional - até se tornar obrigatória. Que trabalhador pode hoje dispensar o e-mail e o telemóvel e o computador? Sou um anarquista antitecnófilo, aquele que entende que só uma sociedade pré-industrial pode ser livre. Sem Estado, sem tecnologia, sem leis. O homem e as suas necessidades primárias e a sua luta para as atingir - caçando, pescando, subindo a árvores para recolher folhas e frutos. Não são necessidades inventadas e os meios para as alcançar são conhecidos, palpáveis, tangíveis, reais. Seríamos globalmente muito mais satisfeitos, livres, menos ansiosos e sem problemas existenciais. Sem sociopatias, sem toda esta série de doenças novas. Morreríamos em paz. Viveríamos em paz - os momentos de pausa seriam não de tédio mas de felicidade. A felicidade não é a soma dos prazeres, mas o que sobrevém no intervalo puro isento de pensamentos e tarefas.

2 comentários:

Anónimo disse...

E depois, onde é que arranjava tempo para escrever? E escrevia com quê, um pauzinho afiado?

Anónimo disse...

Vivam o lápis, a borracha e as folhas de papel.