sábado, março 30, 2013

O tema é delicado. Os conservadores opõem-se-lhe pelo puritanismo. Os alegados progressistas pela institucionalização da mulher-objecto. A regulamentação da mesma - que poderá assumir diferentes moldes - oferece mais vantagens do que desvantagens. O primeiro: a saúde pública. Tanto de quem exerce a prostituição como de quem a frequenta. Os números sobre o VIH (além de todas as outras doenças sexualmente transmissíveis) dos clientes e das prostitutas juntamente com a quantidade de relações sexuais em que não há preservativo demonstram que estamos perante uma clandestinidade que mata muita gente. O segundo: a hipocrisia da lei. O mesmo argumento utilizado pelos alegados progressistas para a legalização do aborto não é aplicado por estes aqui. Há uma lei que proíbe a prostituição - de quem a pratica e de quem a frequenta. E todos sabemos que não é aplicada. E todos sabemos que há milhares de anúncios por aí. E todos sabemos que no Técnico as pessoas não estão à espera da Carris durante horas. É proibido, mas pode-se fazer. Compreendo, por isso, sem concordar, aqueles que dizem que validar algo que é contra a dignidade da mulher é um retrocesso social. Porque mesmo numa sociedade ideal, esses putativos progressistas nunca aceitariam que duas pessoas pudesse negociar uma transacção sexual para ganhar dinheiro - e isso, por mais estranho que lhes pareça, seria algo a que o Estado não tinha direito de meter a mão. O terceiro: a existência de um mercado paralelo em que a mulher é vítima de ameaça, coacção, extorsão, de todo o tipo de abusos. Sem um enquadramento legal que lhe atribua existência jurídica, um contrato, direitos laborais - a prostituta é muitas vezes atirada para a condição de escrava. Quarto - o ponto mais difícil de explicar sem levantar ruído e insultos. Algo que levou Houellebecq a ser implacavelmente atacado. Muito antes, já Orwell explicara que para certos homens o sexo era uma necessidade tão primária como as outras - como comer. Num mundo ideal, bem o sei, não haveria prostituição - como não haveria polícia ou prisões. Tomando como certo o princípio de que para certas pessoas o sexo é uma necessidade primária ou, se preferirem, uma pulsão fundamental, chegamos à conclusão de que senão todos, pelo menos alguns, precisariam de um Sexo Mínimo Garantido (SMG). A verdade é que certas pessoas, por um vasto conjunto de características (que podem incluir, por exemplo, uma timidez profunda ou o medo de falhar), não conseguem o SMG. Uma pessoa com deformidades físicas profundas, por exemplo. E essa frustração, essa falta de sexo (muitas vezes, uma fala de carinho sublimada) encontra na prostituição um consolo, uma certeza, uma porta aberta no meio de todas as portas fechadas da sociabilidade dita normal.

sexta-feira, março 29, 2013

Assim são as grandes pessoas. Continuam iguais independentemente dos títulos e do poder e preocupadas com o outro seja ele quem for exactamente como era antes

PAPA LIGOU PARA QUIOSQUE EM BUENOS AIRES PARA CANCELAR RESERVA DE JORNAIS 2013-03-25 inShare O papa Francisco surpreendeu o dono de um quiosque em Buenos Aires ao telefonar-lhe do Vaticano para cancelar a reserva de jornais, noticia a BBC. O recém-eleito papa ligou a Luis Del Regno, o dono do quiosque que entregava diariamente os jornais em sua casa e onde o sumo-pontífice comprava o jornal ao domingo. O filho do proprietário do quiosque, Daniel Del Regno, disse que primeiro pensou que se tratava de uma partida. «A sério, é Jorge Bergoglio, estou a ligar de Roma», disse o papa Francisco a um incrédulo Daniel. «Fiquei em choque, desatei a chorar e não sabia o que dizer», contou Daniel ao jornal argentino La Nación. «Ele agradeceu-me pelas entregas dos jornais ao longo de tantos anos e mandou cumprimentos para a minha família», acrescentou. Luis Del Regno disse ao jornal que tinha «mil histórias» sobre o papa, uma das quais a de que o então cardeal Bergoglio costumava guardar os elásticos que envolviam os seus jornais diários e os devolvia no quiosque ao final de cada mês.
O entusiasmo e o conhecimento que um indivíduo demonstra ao falar sobre tecnologia é inversamente proporcional ao que revelará em qualquer outro tema. Ou: porque é que nunca conheci um tecnófilo que reflectisse sobre as questões do espírito?

terça-feira, março 26, 2013

Herberto Helder

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. O orvalho da muita manhã. Corria de noite, como no meio da alegria, pelo orvalho parado da noite. Luzia no orvalho. Levava uma flecha pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado loucamente por um caçador de que nada se sabia. E era pelo orvalho dentro. Brilhava. Não havia animal que no seu pêlo brilhasse assim na morte, batendo nas ervas extasiadas por uma morte tão bela. Porque as ervas têm pálpebras abertas sobre estas imagens tremendamente puras. Pelo orvalho dentro. De dia. De noite. A sua cara batia nas candeias. Batia nas coisas gerais da manhã. Havia um homem que ia admiravelmente perseguido. Tomava alegria no pensamento do orvalho. Corria. Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas. Que têm os olhos cegos como sangue. Este corria, assombrado. Os mortos devem ser puros. Ouvi dizer que respiram. Correm pelo orvalho dentro, e depois estendem-se. Ajudam os vivos. São doces equivalências, luzes, ideias puras. Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar — a morte é passar, como rompendo uma palavra, através da porta, para uma nova palavra. E vejo o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição através das portas de outros corpos. Como uma qualidade ardente de uma coisa para outra coisa, como os dedos passam fogo à criação inteira, e o pensamento pára e escurece — como no meio do orvalho o amor é total. Havia um homem que ficou deitado com uma flecha na fantasia. A sua água era antiga. Estava tão morto que vivia unicamente. Dentro dele batiam as portas, e ele corria pelas portas dentro, de dia, de noite. Passava para todos os corpos. Como em alegria, batia nos olhos das ervas que fixam estas coisas puras. Renascia.

Por Alberto Castro Ferreira

Aquilo que entre nós se designa, habitualmente por HINDUÍSMO ou BRAMANISMO, isto é, a religião da ÍNDIA , tem entre os HINDUS o nome de «SANÁTANA DHARMA» ( LEI ETERNA ) ! Para o Sanátana Dharma, BRAMA é o Absoluto, exterior ao homem, é aquele mesmo que está dentro do coração. O Brama existe na personalidade humana como a imagem do sol num lençol de água. O fim do Sanátana Dharma realiza-se na identificação do ÁTMAN (alma,espírito pessoal ) com BRAMA. É o MOKSHA , ou Libertação. A ordem cósmica é exposta em diálogos célebres, tais os UPANISHDDE(S). Um deles tem por interlocutores YAJNAVALKYA, brâmane ilustre e GARGI, mulher dialéctica e excepcional pela consideração que lhe era testemunhada. O diálogo começa admitindo as águas como a trama do universo, porque , segundo o VEDA, as Águas primordiais simbolizam a matéria. Então Gargi interroga Yajnavalkya: -Yajnavalkya, disse ela, se as águas são a trama com que tudo foi tecido, com que trama foram as mesmas águas tecidas? -Com o ar ,ó Gargi. -Com que trama foi o ar tecido? -Com os mundos do espaço, ó Gargi. -Com que trama foram tecidos os mundos do espaço? -Com os mundos do sol, ó Gargi. -Com que trama foram tecidos os mundos do sol? -Com os mundos da lua, ó Gargi. -Com que trama foram tecidos os mundos da lua? -Com os mundos das constelações, ó Gargi. -Com que trama foram tecidos os mundos das constelações? -Com os mundos dos deuses,ó Gargi. -E os mundos dos deuses, com que trama foram eles tecidos? -Com os mundos de Indra, ó Gargi. -E os mundos de Indra, com que trama foram eles tecidos? -Com os mundos de Prajápati,ó Gargi. -E os mundos de Prajápati, com que trama foram eles tecidos? -Com os mundos de Brama, ó Gargi. -E os mundos de Brama, com que trama foram eles tecidos? Ele respondeu: ó Gargi, não perguntes demais; toma cuidado, porque a tua cabeça pode arrebentar. Perguntas além de uma divindade acima da qual nada mais há a perguntar. Não perguntes demais, ó Gargi. E Gargi calou-se. ( Brhad aranyaka upa).

sábado, março 23, 2013

‎«Queria voltar a ser criança, porque os joelhos ralados curam bem mais rápido que os corações partidos.» Clarice Lispector

sexta-feira, março 22, 2013

Uma amiga contou-me que conhece uma senhora que não mexe o corpo - apenas pestaneja um olho. Deste modo, e perante o alfabeto que lhe vai passando ela comunica com o mundo. Pisca o olho ante a letra que quer. Demora dois minutos a formar uma palavra. Nunca expressou desejo de morrer. Fica sempre muito feliz quando os filhos lhes mostram fotografias dos netos. Para quem leu o livro ou viu o filme O Escafândro e a Borboleta, a doença é conhecida e até o tratamento descrito das enfermeiras. Há sempre um novo alçapão debaixo do Inferno que se julga o mais fundo. O príncipe Carlos visitou no hospital uma vítima de guerra. Não tinha pés, nem braços, não ouvia, via ou falava. Era dado como morto. Contudo, no Natal, as enfermeiras escreveram-lhe no peito «Feliz Natal» (em inglês, claro está) e o peito reagiu. Perceberam que o homem estava lúcido e consciente doravante. A partir desse dia, o príncipe tornou-se num defensor da eutanásia (morte doce). Quando te ralares com a vida, pensa neste homem. É o único caso que a minha imaginação pode conceber como: não há pior.

quinta-feira, março 21, 2013

Anarquismo na alma

Nasci sem pedir. E com um corpo. Corpo esse que me exige necessidades que tenho de satisfazer. A sociedade em que nasci exige que tenho de realizar uma série de tarefas para o satisfazer. Ironia das ironias, nasce-se de graça, mas é preciso pagar para morrer, como sustentava Agostinho da Silva. Tudo isto me parece absurdo. O Estado exige-me que eu esteja na reserva territorial para o caso de uma guerra. Exige-me documentos identificativos - cada vez mais. (Eu que nunca ando nem com o B.I., entretanto já caducado.) Vigia-me por todo o lado. Assim como as empresas. Exige que saiba e tenha de preencher uma série de coisas em computador. Exige-me muitos impostos. Exige que guarde durante dez anos todas os recibos relativos ao IVA. Para quem abomina spreads, ipads,, i-isto e aquilo, twitter, linkedin, etc, etc, toda a parafernália tecnológica, para quem preza a privacidade, a liberdade individual, a sociedade é um Inferno. Sei que perco balúrdios por não me submeter a todos os prazos, por não conhecer todas as prerrogativas dos impostos, por não ter contabilista, consultor fiscal. Sei que desconheço as funcionalidades da televisão. Sei que detesto débitos directos e caixas online. Sei que a sociedade actual é impiedosa com pessoas assim. Uma nova tecnologia aparece sempre como opcional - até se tornar obrigatória. Que trabalhador pode hoje dispensar o e-mail e o telemóvel e o computador? Sou um anarquista antitecnófilo, aquele que entende que só uma sociedade pré-industrial pode ser livre. Sem Estado, sem tecnologia, sem leis. O homem e as suas necessidades primárias e a sua luta para as atingir - caçando, pescando, subindo a árvores para recolher folhas e frutos. Não são necessidades inventadas e os meios para as alcançar são conhecidos, palpáveis, tangíveis, reais. Seríamos globalmente muito mais satisfeitos, livres, menos ansiosos e sem problemas existenciais. Sem sociopatias, sem toda esta série de doenças novas. Morreríamos em paz. Viveríamos em paz - os momentos de pausa seriam não de tédio mas de felicidade. A felicidade não é a soma dos prazeres, mas o que sobrevém no intervalo puro isento de pensamentos e tarefas.
Castro Caldas explica que a mente é conservadora. Vicia-se no hábito. Prefere o antigo. O conhecido. Saul Bellow dizia que sofrer era outro mau hábito. Quando se fala em conservadorismo, pensa-se nos costumes e nas tradições. Mas não nos falam de mentes mais ou menos conservadoras. Conheço pessoas «revolucionárias», «libertárias» que na vida pessoal não mudam de hábitos, de rotinas, que estão presas às mesmas pessoas. Uma delas diz que o processo de conhecer uma pessoa nova a cansa - «já conheci pessoas para o resto da vida. Dispenso conhecer mais».

Directos ao muro, Manuel Maria Carrilho

A tragédia do País é, em geral, andar vários anos atrasado em relação às evidências mais claras e mais incontornáveis. Foi assim quando só em finais de 2009 se assumiu a crise que desde o verão de 2007 entrava pelos olhos dentro. Foi assim quando, em 2011, rebentou a bomba que já se via e impunha desde o começo de 2010. E é assim de novo, agora em 2013, quando se multiplicam as consequências do que já em 2011 era bem óbvio: que o memorando estava, como agora se diz, "mal desenhado". E não se trata de fazer profetismo a posteriori. Pelo contrário, escrevi-o aqui, pouco depois das últimas legislativas, chamando a atenção para a "armadilha atroz" para que se estava a empurrar o País e para os perigos de se viver como se "tivesse acontecido um verdadeiro milagre - o Milagre do Memorando. Um milagre operado pela troika, que, em versão moderna dos três pastorinhos, conseguiu o extraordinário feito de produzir em duas ou três semanas um documento "estratégico" que deixou o País de joelhos, indicando-nos como resolver finalmente todos os nossos problemas, tanto os imediatos com os mais estruturais (14.07.2011). E acrescentava, então: "Como desse documento dependia, e de uma maneira dramática, o financiamento corrente do País, o seu elogio desmiolado tornou-se uma espécie de prece diária de políticos, jornalistas e comentadores, pouco interessados em avaliar friamente as possibilidades e as consequências da tal estratégia. O milagre era vivido com tal fervor que o que parecia tentador era prometer ir ainda "mais além", ignorando-se completamente que o objetivo fundamental do memorando era, sobretudo, o de garantir o reembolso em perigo de empréstimos concedidos, confiscando para o efeito a energia, os bens e as ilusões ainda disponíveis no País." O reconhecimento do fracasso chegou agora, tarde demais como quase sempre acontece quando lidamos com as funestas consequências do fanatismo político. Um fanatismo que levou o Governo a comportar-se desde o início como se, para enfrentar uma calamidade cuja realidade ninguém contestava, o melhor fosse convocar uma outra bem maior. Como se, afinal, para enfrentar por exemplo uma cheia, ou uma avalanche, o melhor fosse provocar um tsunami... E agora desculpa-se com argumentos indigentes, insinuando que, antes, tudo era imprevisível. E, depois, tudo passou a ser inevitável. Mas não - a verdade é que quase tudo era tão previsível como evitável. E agora? Agora, todo o País sente que vamos direitos ao muro. A angústia nacional é uma natural consequência desta insuportável evidência, em que se vê o Governo acelerar na direção do muro, e com tanto mais intensidade quanto menos ele vê à sua frente, como de resto as suas previsões sistematicamente falhadas inequivocamente confirmam. É urgente travar, mas tal não basta, porque isso só adiará o choque. O que é urgente é mudar de direção. Cá e na Europa. Foram muito comentadas as palavras de Jean-Claude Juncker quando, na semana passada, em entrevista ao Der Spiegel, lembrou as circunstâncias da Europa de há precisamente cem anos, quando também se acreditava com complacência que não seria possível haver mais guerras no continente europeu. E depois houve, e não foi só uma... E é também útil lembrar que se a Europa no começo dos anos 20 tinha 24 regimes democráticos, dez anos depois eles estavam reduzidos a menos de metade, a 11. Um estudo sobre este processo, de B. Eichengreen, K. H. O'Rourke e A. de Bromhead sobre as 171 eleições que tiveram lugar em 28 países europeus entre 1929 e 1939, tira uma conclusão importante, em que devíamos refletir: é que foi mais a duração do que a intensidade das recessões desse período que provocou os terríveis acontecimentos políticos dessa década. O caso alemão é sempre de sublinhar: em 1928, a Alemanha tinha um milhão de desempregados e o partido nazi obtinha 2,5% dos votos. Dois anos mais tarde, em 1930, com o desemprego já nos três milhões, os nazis atingem os 18,3%. E em 1932, quando o desemprego chega aos seis milhões, Hitler consegue 37,2% dos votos, e poucos meses depois está no poder. Foi este o resultado de uma década de austeridade e deflação. As analogias são cada vez mais inquietantes. E o que acaba de se passar com Chipre assusta. No dia a seguir ao completo fiasco do Conselho Europeu dedicado ao emprego e ao crescimento, a União Europeia decide abordar o grave problema financeiro cipriota atacando o coração de sistema bancário, isto é, a confiança dos cidadãos nas instituições que têm de garantir a segurança dos seus depósitos. Há de facto um sério problema de impunidade financista em Chipre que não pode ser ignorado. Mas ele não pode ser resolvido poupando mais uma vez os especuladores e caindo em cima das poupanças dos cidadãos, impondo-lhes taxas que aparecem como uma inequívoca forma de extorsão. Trata-se de uma machadada que se pode vir a revelar irreparável, não só na confiança dos cidadãos no sistema bancário mas também nas instituições europeias que promovem e caucionam este tipo de soluções. Era do que a Europa, nesta fase, menos precisava. Mas parece que, também aqui, a atração pelo muro é muito forte.

quarta-feira, março 20, 2013

O mundo cada vez se divide mais entre vencidos e vencedores. Sempre tive um balanceamento positivo em relação aos que saltaram para fora da competição. Como se isso não lhes dissesse nada. Desmaterializados. Sem necessidade de validação externa - tirando, claro, o amor e o afectos das almas únicas com quem se dão. Com uma bravura enorme de romperem com o mais difícil. O que separa isto da alienação, da anomia, do decadentismo concêntrico, da ditadura do prazer, do estou-me-nas-tintas para os outros pode, na superfície, ser frágil, mas separa coisas muito diferentes. Não refiro pessoas que não consideram o interesse do Outro - mas o espelho do Outro.
Era muito novo e ao passar na rua com os meus pais parei subitamente impressionado. Um homem-estátua. Totalmente imóvel. Fiquei mumificado a olhar para ele. Aquilo não me saiu da cabeça e tive de convencer os meus pais a voltar lá. Ele ficava horas e horas sem mexer nada - apenas pestanejava. Como seria a sua vida interior enquanto ele estava ali de pé? Era um sofrimento atroz - pior, do que isso, auto-induzido. Não conseguia perceber. (Ainda que lhe depositasse moedas no cesto.) Para quê? Nunca compreendi quem dedica um esforço sobre-humano a algo do qual não resultam benefícios para o Outro. Sempre desprezei alpinistas que procuram records , competições que massacram o corpo para se obter uma medalha. Penso desde muito novo que tal capacidade de auto-superação é uma necessidade de mostrarem algo a si próprio. (Como na religião nunca percebi aqueles que só procuravam a salvação individual colocando-se em casas alçadas de longos metros verticais, distantes dos seus semelhantes e próximos de Deus, um paradoxo para mim.) E sempre admirei, esses sim, aqueles que partem para países mergulhaoos em sofrimento e alimentam quem tem fome, curam doentes, tratam pacientemente feridos.

terça-feira, março 19, 2013

Mais uma conversa em que em certa altura, o meu amigo, um solilóquio: - Angel, somos todos bissexuais. Quem advoga que os homossexuais devem ter os mesmos direitos, blá blá blá, fica todo muito contente porque é uma pessoa liberta de preconceitos. Mas se ele ou ela nunca desenvolveu uma atracção por uma pessoa do sexo oposto tem um preconceito internalizado. A teoria é fácil. É como representaram os Monty Python. Os protestantes que podem ter relações sem preservativo, sem intencionalidade de fecundidade e depois na prática não o têm! É fácil dizer-se que se é um revolucionário na teoria quando se é um conservador na vida. As pessoas que defendem o poliamor e não o aplicam, as pessoas que defendem que se deve roubar para o comer mas não o fazem se não tiverem que comer; no fundo, acho mal que se roube para comer. Se não internalizas, é tudo treta, tudo etéreo. Como certos bloquistas que defendem vidas alternativas, mas nunca as conseguiriam praticar - aquela liberalidade abstracta não é sentida, porque a recusam para si. Há muito isto - para mim, era uma abjecção, mas eu acho que é o correcto. No fundo, essas mentes estão aprisionadas e encontram num mecanismo de evasão na abstracção de que se rebeliam no plano das ideias e das lutas e manifestações, de que não caem na zona confortável da segurança reprodutora do sistema. Como um professor catedrático que conheço, ultra-revolucionário, sempre a propugnar pelos pobres, trabalhadores - nunca conheceu um pobre ou operário sequer. São abstracções conceptuais - não conhece a realidade concreta, a individual. Ainda no outro dia, falei com uma pessoa que está a elaborar um estudo sobre a necessidade da melhoria das prisões e nunca lá esteve! Quanta esquerda nunca entrou numa barraca. O pai de uma amiga minha é um investigador na área da exclusão social, todo esquerdista e cheio de flamas no verbo, mas quando a filha quer levar um maltrapilho a casa, ele não deixa, discrimina classistamente, teve a lata de lhe dizer: «Estou cansado de te ver com a fina-flor do entulho.» I only wanted absolute quiet to think out why I had developed a sad attitude towards sadness, a melancholy attitude toward melancholy, and a tragic attitude toward tragedy - why I had become identified with the objects of my horror or compassion. Does this seem a fine distraction? It isn’t: identification such as this spells the death of accomplishment. It is something like this that keeps sane people from working. Lenin did not willingly endure the sufferings of his proletariat, nor Washington of his troops, nor Dickens of his London poor. And when Tolstoy tried some such merging of himself with the objects of his attention, it was a fake and a failure. F. Scott Fitzgerald
O poder das palavras sempre me fascinou. Sei que é ridiculamente banal nomear-se o poder das palavras. (Um truísmo é sempre ridiculamente banal, mas ainda assim, talvez, uma prova de sensatez.) Por intermédio das palavras, constroem-se laços, quebram-se laços, enfeitiçam-se corações, resgatam-se criaturas da noite mais escura da alma. Por causa das palavras, matam-se seres humanos. (Ao reler o parágrafo em cima, sinto que uma ideia-maior me sobreexcitou, mas que as palavras a esmagaram.)

segunda-feira, março 18, 2013

http://www.recantodasletras.com.br/humor/2048028

domingo, março 17, 2013

O meu amigo, viajante do mundo, pensador, sociólogo da vida quotidiana, vampiro noctívago de essências, declarou-me: - Hoje, tenho menos sede de infinito, menos sofreguidão walwhitmaniana de experimentar e de conhecer tudo. Sempre achei que quanto mais pessoas compreendemos, mais nos expandimos, mais somamos eus e experiências e compreendemos que o que nos unifica é sempre maior do que aquilo que nos separa - isso é o segredo para se eliminar o medo e se ser livre. Porque as pessoas e os grupos são todos iguais no espectro de emoções. Vi a rivalidade e a vaidade entre os sem-abrigo. Vi índios da América do Sul que «viviam desmaterializados» a tentar enganar-me subtraindo mel nas trocas directas. Vi membros da alta finança com poetas escondidos por trás dos fatos Armani. Vi machos latinos chorarem por desgostos amorosos. Vi óptimas pessoas praticarem actos de canalha e vi monstros com gestos de uma ternura inexcedível.

sábado, março 16, 2013

De tanto ouro que acumula, de tantas leituras (cultura), de tantas experiências (mundo), o escritor enlouquece se não consegue vazar tudo para o papel. O outro dentro de si enriquece e aprofunda o humano - mas para o escritor é diferente. O ouro transforma-se em tralha. Só o sossega a teoria do icebergue de Hemingway. Quando lhe perguntaram se escrevera sobre insónias, afirmou que bastava tê-las vivido para elas estarem na sua obra. O subtexto como inclusivo de tudo o que homem transporta dentro de si - todos os fantasmas e todas as albas.

sexta-feira, março 15, 2013

Tantas vidas dentro da vida. Tantas pessoas dentro de uma pessoa. A vida interior do outro - a corrente subterrânea e insugável - sempre uma incógnita. Sonhamos como vivemos, dizia o outro - sozinhos.
- O meu interesse sexual e intelectual caminham pari passu. Quando consigo delimitar um homem intelectualmente, a atracção sexual esvai-se. A atracção para mim nasce do oculto, do mistério, do que não se consegue captar.
Trocaram opiniões sobre relações e atracções. Atiraram aquelas verdades absolutas: «Não, as coisas numa relação só funcionam se...» - Quando estou interessado numa rapariga, elevo-me. O meu verbo ganha fogo. É como se conhecesse o melhor de mim que desconhecia. - A mim, sucede exactamente o contrário. Fico patético, errático, contraditório. Encolho-me, sou calculista no dizer e no agir, não sou eu - perco-me e lamento-me. - Pois, não deve haver leis gerais nestas matérias.
Daniel Sampaio escreveu que o mais trágico no Verão é uma paixão. A paixão de Verão mata o Verão. A pessoa torna-se uma recolectora de sinais - positivos, negativos, inquietantes, difusos. A ansiedade impede a fruição. O espírito hiperanalítico atrofia a acção, escreveu Bernardo Soares. Para o budismo, a felicidade - obtida por intermédia da ausência o eu, da equanimidade, do desapego e da percepção da vacuidade inerente a todos os fenómenos - não é obter um prazer maior e maior; é a libertação da roda da satisfação, do aprisionamento das paixões (positivas e negativas). Mas e onde fica o sal, o colorido da vida?

Solidão, Rilke

A solidão é como uma chuva./ Ergue-se do mar ao encontro das noites;/ de planícies distantes e remotas/ sobe ao céu, que sempre a guarda./ E do céu tomba sobre a cidade./ Cai como chuva nas horas ambíguas,/ quando todas as vielas se voltam para a manhã/ e quando os corpos, que nada encontraram,/ desiludidos e tristes se separam;/ e quando aqueles que se odeiam/ têm de dormir juntos na mesma cama:/ então, a solidão vai com os rios...

Tribunal autoriza partido pedófilo

Um tribunal de Haia chumbou, ontem, um requerimento que pretendia que a Justiça holandesa proibisse um grupo criado por três pedófilos de fundarem um partido político. "A liberdade de expressão, incluindo a liberdade de se criar um partido político, é visto como a base de uma sociedade democrática", afirmou o juiz HFM Hofhuis num acórdão citado pela Associated Press e onde diz que o PNVD, iniciais que traduzem Amor Fraternal, Liberdade e Diversidade, "não cometeu nenhum crime". Aquele partido, criado por três pedófilos assumidos, defende a legalização de relações sexuais entre adultos e crianças com mais de 12 anos; a idade mínima legal de consentimento de relações sexuais de crianças e de adultos varia conforme os países, sendo que na Holanda e na maioria dos países da União Europeia é de 16 anos (14 no Canadá). O anúncio da criação do PNVD gerou uma onda de revolta, ao ponto de o advogado dos contestatários, Anke Wijn, afirmar que os pedófilos estão a abusar da tolerância holandesa. Com a decisão do tribunal, o PNVD pode apresentar-se às eleições legislativas de 22 de Novembro. Mas não deverão obter os 60 mil votos necessários para terem um deputado no Parlamento.

Sinais da demência do horror económico

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/MundoInsolito/Interior.aspx?content_id=2125606 http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=375572

quinta-feira, março 14, 2013

Enquanto se desregulamenta a economia, cada vez se invade mais a vida privada legislando-a

http://www.cafedemacho.com.br/happy-hour/lei-sueca-pode-proibir-os-homens-de-urinarem-em-pe/
resispicência nome feminino arrependimento de uma falta com propósito de emenda (Do latim resispiscentĭa, particípio presente neutro plural de resispiscĕre, «arrepender-se») resispicência In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-03-14]. Disponível na www: .

Quem ainda se lembra do étimo?

formidável adjetivo de 2 géneros 1. muito grande 2. que inspira terror; terrível 3. que provoca medo; temeroso 4. que infunde respeito 5. espantoso; excelente; fantástico; maravilhoso (Do latim formidabĭle-, «idem») formidável In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-03-14]. Disponível na www: .

quarta-feira, março 13, 2013

they say that hell is crowded, yet,/ when you’re in hell,/ you always seem to be alone./ & you can’t tell anyone when you're in hell/ or they’ll think you’re crazy/ & being crazy is being in hell/ & being sane is hellish too./ those who escape hell, however,/ never talk about it/ & nothing much bothers them after that./ I mean, things like missing a meal,/ going to jail, wrecking your car,/ or even the idea of death itself./ when you ask them,/ “how are things?”/ they’ll always answer, “fine, just fine…”/ once you’ve been to hell and back,/ that’s enough/ it’s the greatest satisfaction known to man./ once you’ve been to hell and back,/ you don’t look behind you when the floor creaks/ and the sun is always up at midnight/ and things like the eyes of mice/ or an abandoned tire in a vancant lot/ can make you smile/ once you’ve been to hell and back. Charles Bukowski
Prodigiosa ironia. O lamento de Conrad. O conhecimento da vida e dos seus segredos chega sempre demasiado da tarde - numa fase da vida em que já não se tem forças nem tempo para se o poder aplicar.
- Não sei se o estou a esquecer ou se o estou a esperar.
Pensam que são invisíveis ao mundo. Que ninguém lhes dirigirá palavras sem ser de reprovação. As mulheres negras que limpam as escadas do edifício afastam-se quando passo. Escondem o rosto. Param o trabalho. Julgam que os outros julgam que lhe são superiores. Quando passo, escondem-se, afastando o balde, como um gato escondendo os dejectos. Se sorrio, perplexas. Se cumprimento, pasmadas. Não se sentem merecedoras de um aceno. A culpa é nossa.

segunda-feira, março 11, 2013

Os livros contêm notas de autor. Contêm notas de tradutor. De editor. Deveriam conter notas de revisor. Que explicassem que «o bracelete» não é uma gralha, que a palavra é mesmo masculina - e, de caminho, explicar a origem do erro, o étimo francês masculino, a contaminação da pulseira feminina. Que explicasse que é mesmo «salgalhada» e não «salganhada». Que é «ribaldaria» e não «rebaldaria», que «ribaldo» é um velhaco patifório.
Entrevistaram umas crianças sobre a sua relação com a mãe. A de seis anos disse: «Eu gosto muito do cheiro da mãe.» A de oito disse: «A mãe é o céu de todas as ruas.»

sexta-feira, março 08, 2013

Creio que o mais difícil para um escritor é não produzir uma obra redonda - não andar sempre a escrever o mesmo livro, não gravitar sempre em torno dos mesmos temas, ideias, emoções. Creio que o mais difícil para um escritor é não produzir uma obra desigual - ou a obra é curta ou, se extensa, patina algures. E quando o escritor tenta produzir vários géneros - tremendamente difícil manter-se na corda do funambulista. Prosa e poesia - é como se a mão tivesse de escolher um dos dois caminhos.
http://www.ruadebaixo.com/manuel-monteiro.html

quarta-feira, março 06, 2013

«[...] de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face [...]» Érico Veríssimo
http://www.esquerda.net/artigo/o-porquê-do-ódio-chávez/24923

segunda-feira, março 04, 2013

http://blocodedevaneios.blogspot.pt/2013/03/o-suave-e-o-negro.html

sexta-feira, março 01, 2013

http://lidandocomacrise.blogspot.pt/2012/04/engenharizacao-social-de-portugal-hoje.html

Decálogo do Escritor

1. Se escrever não é a coisa mais importante para ti, nunca serás escritor. Se escrever não é uma necessidade absolutamente vital para ti, se a escrita não é a tua amante dilecta, larga depressa a ideia de te dedicares a este ofício sombrio e doentio. Se entendes que escrever é fácil, se as tuas botas não estão revestidas de uma fé indestrutível para a longa estrada de rejeições, crítica, desânimo, irrisão, incompreensão, de luta sangrenta e contínua com o papel, com o tormento que é as palavras nunca serem suficientes para expressar algo anterior a elas; lembra-te de que há um bom quinhão de clássicos que repousa durante séculos sem ganhar uma ruga e de que, portanto, não é premente que escrevas. 2. Se não habitam monstros dentro de ti, se não há algo que te tumultua, se não estás disposto a arrancar as vísceras e a espalhá-las pelo papel; não se vislumbra como serás escritor. Não há nada mais vácuo e inane do que o exercício da escrita insincera e desvivenciada. 3. Se entendes que para escrever não necessitas de mil revisões posteriores, de uma miríade de páginas deitadas fora para apenas preservar um parágrafo, de recuos, de rasuras, de permanentes modificações; se pensas assim, ainda dás os primeiros passos titubeantes. O doloroso e árduo processo da escrita leva tempo. Muito tempo. Tens de deixar a página dormir a sono solto antes de voltar a ela. O problema não é a escrita inicial, torrencial, de um jacto só – o problema é a sempiterna revisão/reescrita do que se fez. A demanda da perfeição. Lembra-te da personagem de Camus que querendo escrever o livro perfeito não saía do mesmo parágrafo. 4. Se consideras que existem universos que o escritor deve desprezar na sua absorção do mundo e da vida, ignoras o essencial. O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel – uma força colossal que sugue tudo, todas as vidas, todas as ruas, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as ideias, todos os sentimentos, para o centro da folha. Até que o livro seja o espelho de cada rosto que se aproxima. Bukowski ia assistir a corridas de cavalos e a combates de pugilismo e dizia que o seu olhar sobre estas realidades influenciava o seu estilo literário. O que realmente interessa não é o que se vê, mas a forma como se vê. Não há «realidades» maiores ou menores para abordar na escrita – tudo é símbolo. 5. Se escreves para mostrar o quão erudito e inteligente és – desiste. Se não consegues sacrificar uma frase coruscante, um pensamento que te sobreexcitou, em favor da coesão do livro, então ainda não estás preparado. Se de alguma forma escreves a pensar no leitor, isso será fatal para a tua escrita. 6. Se acreditas que o que está escrito (o texto) é mais importante do que o que não está escrito (o subtexto), dedica-te a escrever a folhetos de medicamentos em vez de literatura. Cultiva a omissão, o não-dito, o não-explícito. Lê um livro sobre amor que nunca utilize a palavra «amor». Lê Kafka. Dizem que escreveu sobre Deus, o Estado, a Burocracia, a Culpa, a Vergonha, o Absurdo – e nunca encontrarás estas palavras na sua obra. 7. Se precisas de escarrapachar adjectivos, truísmos, obviedades, para definir ambientes, personagens, paisagens, sentimentos, a tua escrita nunca passará rente ao coração da natureza humana. «Maria era cem por cento determinada, cem por cento honesta, cem por cento feminina.» Este é o tipo de descrição preguiçosa de quem desconhece o que é a emanação subtil da caracterização da personagem pela acção. O que é uma personagem bem conseguida? Esquece a teoria da literatura. Uma personagem bem conseguida é aquela que é tão forte, tão real, tão vívida, que conheces pelo menos tão bem quanto o teu melhor amigo. 8. Se a tua voz não emerge concreta e distinta, se tudo mais não é do que uma bola amassada de vozes, continua a encostar o ouvido ao búzio do texto, dia após dia, noite após noite, até que o murmúrio ganhe o contorno de voz. É a luta mais difícil. 9. Se desprezas a prosa, tenta perceber o que significa: forma é conteúdo. Se assim não fosse, todos seríamos – ou poderíamos ser – escritores. Todos temos histórias para contar, afirmou Céline. Todos vivemos, ouvimos, vimos histórias tenebrosas, miríficas, inacreditáveis, únicas. Forma e conteúdo têm de aparecer tão indissoluvelmente ligados como um só corpo. 10. Se não seguras na mão cada palavra, medindo-a, pesando-a, mirando-a de todos os ângulos, conhecendo-lhe todas as texturas, trincando-a, brincando com ela na boca antes de a atirares para o papel, inundarás o texto de clichés – de caminhos sinuosos, de odores inebriantes, de olhos rasgados, de lábios carnudos, de corpos esculturais, de almas atormentadas. O problema de cuspir este tipo de expressões, quais peças inconsúteis, é que elas estão gastas – perderam o poder evocativo. Quem consegue ainda recriar mentalmente a cor dourada quando lê «época áurea»? Ou de imaginar caudais tombando do céu quando lê «chovia torrencialmente»? Ou de ver claramente visto o ouro sobre o azul? Ou de desenhar o fogo do «desejo ardente»? O escritor é aquele que faz chover na página quando escreve «chuva».

Teus Olhos, Octavio Paz

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima, silêncio que fala, tempestades sem vento, mar sem ondas, pássaros presos, douradas feras adormecidas, topázios ímpios como a verdade, outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro duma árvore e são pássaros todas as folhas, praia que a manhã encontra constelada de olhos, cesta de frutos de fogo, mentira que alimenta, espelhos deste mundo, portas do além, pulsação tranquila do mar ao meio-dia, universo que estremece, paisagem solitária.

Camilo Lourenço, a História e a utilidade económica Henrique Monteiro

«Um colega de universidade chamou-me a atenção para um comentário de Camilo Lourenço sobre professores de História no qual afirma que estes não são necessários à economia. Camilo Lourenço é um homem que tem feito carreira no comentário económico através de declarações provocadoras. Algumas, como esta, são infelizes; outras interessantes e acutilantes. (Num parêntesis, esclareço que apesar de nunca ter trabalhado com ele, fui publisher de uma revista - a Exame - de que fora diretor, pelo que posso dizer que a versão que por aí circula do seu afastamento por causa de um artigo sobre o BPN é... ficção). Se Camilo tivesse estudado Humanidades, sabia que a utilidade não pode ser a medida de todas as coisas e conheceria as críticas ao utilitarismo. Ocorre-me, até, que caso seja economista, Camilo possa conhecer essas críticas. E isso torna as coisas piores, porque significa que ele foi levado a dizer o que disse não por desconhecimento - o que conduz àquele pensamento cristão, "Perdoa-lhe Senhor, que ele não sabe o que diz" -, mas por convicção, o que eleva o debate a um novo patamar. O utilitarismo analisa as ações pela utilidade que têm ou virão a ter na produção de bem estar numa sociedade. Por exemplo, um utilitarista moderado dirá que os idosos produzem bem estar social através do exemplo, ou da integração social e da transmissão de conhecimentos e sabedoria. Já um radical - camilista? - dirá que um velho é um desqualificado porque já nada produz e só gasta dinheiro. "Não pode ser. Mas um licenciado em História é qualificado só por que tem um canudo?" pergunta Camilo. E a resposta é sim. É qualificado porque o reconheceram como possuidor de um conjunto de conhecimentos (se bem ou mal é outra discussão). Claro que a qualidade do seu trabalho pode ser melhor ou pior, mas dizer que licenciados em História, ou em Filosofia, ou em Clássicas ou em Literatura não têm qualificação só por terem um canudo - uma vez que não "têm utilidade no mercado de trabalho", é o mesmo que dizer que um idoso não tem utilidade porque só gasta dinheiro e não produz nada (algo que lembrou a um senhor economista no Japão). Ou, como diz Camilo, "Não tem utilidade para a economia". A Economia é importante, Camilo, claro que é. Mas o mundo é mais do que a Economia. A mera racionalidade económica, se não for compensada por aspetos como caridade/solidariedade; amizade/companheirismo/amor; coesão/camaradagem/vizinhança entre muitas outras categorias não económicas (ocorre-me também a boa educação), é inútil. Como já demonstrou o suspeito licenciado em História Rui Tavares (ontem, num artigo no 'Público') acresce que os licenciados em História têm utilidade para a Economia. E os licenciados em Filosofia também. Muitas empresas, por todo o mundo, contratam quadros destes cursos porque o conhecimento da história e do pensamento permite às empresas evitar erros. Por exemplo, Amos Shapira, o CEO da Cellcom,a maior empresa de Cabo nos EUA, diz literalmente isto: "O conhecimento que uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas... A principal coisa que os estudantes têm de aprender é como estudar e analisar as coisas, incluindo a História e a Filosofia". O design da Apple deve-se a um curso de caligrafia de Steve Jobs. Grandes vendedores dos EUA vêm de cursos de letras e de teatro. Em França, caro Camilo, Filósofos dão consultas a dirigentes de empresas, para os ajudar a ultrapassar certos dilemas. A própria utilidade das Humanidades na Economia é indiscutível e é reconhecida por fontes insuspeitas como a Harvard Business Review. Porque qualquer licenciado em Filosofia diria que a teoria do crescimento constante da Economia é anti-natural (não há nada na natureza que cresça constantemente sem morrer). Qualquer licenciado em História sabe que o desequilíbrio entre a China e a Europa é bastante recente em termos históricos, pelo que tender-se-ia para o re-equilíbrio que está a acontecer. São coisas úteis para a sociedade, sobretudo se a sociedade não for formada por um conjunto de ignorantes.»