sábado, fevereiro 02, 2013

Não consigo ler, não consigo ver, prefiro não saber. Um cão espero cinco anos por uma pessoa que não volta - e não sabe que não volta. Dois gémeos não conseguem suportar viver um sem o outro e preferem morrer quando a cegueira se somar à surdez. (Ninguém vive tanto o dois em um como dois gémeos.) Não consigo. É demasiada dor. Afasto os olhos. Não quero saber. A minha frieza é medo. A minha distância é calculismo. Não quero laços assim - fujo de uma dor assim como de mais nada. «Eram belgas, eram gémeos, eram surdos, eram operários. 45 anos, inseparáveis nas atenções ao mundo, e o mundo nada lhes ocultava porque o mundo era deles e do entendimento que do mundo faziam. O infortúnio não os afligia assim tanto porque se tinham um ao outro, nessa fraternidade secreta e única que pode moldar o carácter. Nem sempre os irmãos se dão bem; nem sempre os gémeos são exemplos de amor. Estes, por inusuais, seriam exemplo de tudo. Passeavam, juntos, iam juntos ao cinema, apreciavam caminhar pelos campos belgas, e alimentavam uma particular simpatia pela terra que os vira nascer: Antuérpia. Agora, viviam em Bruxelas, eram vistos muitas vezes de mãos dadas, e, na linguagem gestual através da qual se entendiam, não dissimulavam a preocupação que lhes causava o mundo moderno. Às vezes eram observados de viés: não só porque emitiam sons altos, próprios dos surdos, como aquele modo de andarem de mãos dadas não era um quadro natural, no espírito dos que julgam as coisas apenas pela aparência das coisas. Os gémeos belgas riam desses soslaios e chegavam a forçar a nota, beijando-se como a um irmão se deve beijar. Sabe-se, agora, na discrição das existências que levaram, que um deles escrevia poesia, e que o outro alimentava o secreto sonho de ser pintor. Nada mais se sabe, ou pouco mais se sabe, destes dois irmãos, dependentes um do outro por decisão própria. Apenas, e não é pouco, que eram excelentes operários, e tinham grande predilecção pela cidade de Bruges-la-Morte, pelos bosques enevoados, pelo vinho quente tomado nas tardes frias. A vida corria-lhes com a normalidade possível. As rotinas não se alteravam; admiravam a beleza das mulheres, o seu andar torneado, o verde dos olhos, os sorrisos oferentes. Iam ao futebol; claro que iam ao futebol, e apreciavam sentar-se, aos domingos, numa qualquer esplanada da Gran'Place observando os turistas estrangeiros, máquinas fotográficas na mão ou a tiracolo, só raramente entendedores da natureza e da história do país, tão martirizado pelo conflito idiomático como por estar sempre tão perto das desgraças europeias. Foi quando, numa consulta médica de costume, ambos se souberam portadores de doença oftálmica irreversível. Em poucos meses ficariam cegos. O infortúnio não deixava os gémeos. Surdos e sem ver, sem se comunicar entre si, é que não. Solicitaram às autoridades que lhes fosse permitido o recurso à eutanásia. O caso, tornado público, quando, na verdade, devia ter pertencido aos domínios particulares, suscitou grande polémica. Mas eles levaram a sua avante. Onde está a razão? Tenho o entendimento de que cada qual pode fazer do corpo o que decidir: é a única propriedade privada de que, verdadeiramente, dispomos. Porém, lembro Malraux: uma vida nada vale, mas nada vale uma vida.» Baptista-Bastos

3 comentários:

Anónimo disse...

"A vida corria-lhes com a normalidade possível."

Não é verdade. Eles tinham muitos problemas de saúde desde pequenos e estavam sempre a sofrer intervenções médicas. Acho que isto teve um grande peso na sua decisão.

Cristina

Anónimo disse...

Quanto ao cão, pode servir de fraco consolo, mas um cão infeliz não abana a cauda.

Anónimo disse...

Num prefácio feito para um livro meu, livro de humor, Raul Solnado disse que não conseguir rir uma só vez. "No entanto estive a sorrir a tempo inteiro", ele disse.
Curiosa esta interpretação porque, sinceramente, eu não consigo rir do humor do meu humor. Há qualquer coisa ali "à outrance" que não me pertence, que tem um quê de rebarbativo.
O riso é a provocação do riso. Talvez por isso é que os humoristas raramente se riem do que escrevem (talvez riam mais deles mesmos, mas isso já é outra história).
De resto, Voltaire tinha razão: "Rio para não enlouquecer". É esse tipo de riso que procuro. Par bom entendedor, meia palavra bas.... - José Alberto Braga