sexta-feira, fevereiro 01, 2013

http://www.casaldasletras.com/pedro_traco_oficio.html DO OFÍCIO Manuel Monteiro e a Literatura nos Cuidados Intensivos da Gramatologia Manuel Monteiro

Manuel Monteiro viu abrir-se-lhe um caminho auspicioso ao vencer o prémio Novos Talentos FNAC Literatura 2012. Uma distinção merecidíssima. O autor, de trinta e poucos anos, definiu-se numa recente entrevista como «jornalista-escritor-revisor-formador». Todavia, a sua maior ambição é tornar-se «escritor a tempo inteiro», desígnio verosímil quando estamos perante uma segunda criação literária que concorre decisivamente para a plena evidência de uma vocação prenunciada há quatro anos. Foi em 2008 que Manuel Monteiro publicou a ficção demanda ou a cor nunca vista, prefaciada por um querido camarada de ofício, José Alberto Braga. A nova obra, O Suave e o Negro, também de ficção, merece ser lida e recomendada. Foi o que entretanto fez Fernando Dacosta, outro antigo companheiro da faina jornalística, qualificando-a como «obra muito própria, bastante original e com uma invulgar energia criativa e comunicativa». Exercício encantatório, o do leitor, na descoberta de uma original malha ficcional, subvertendo e desconstruindo paradigmas correntes e superando a trivializada carpintaria do enredo. Faz falta à literatura portuguesa obras que desafiem matrizes dadas como imutáveis. Na verdade, é ténue o enredo, na aceção popular de novela, nesta história que flui em torno de duas personagens centrais (uma das quais é o narrador), desempenhando uma relação sórdida entre a malignidade e a subserviência, com todos os limites ultrapassados no percurso pausado de duas linhas paralelas – luz e sombra, o Bem e o Mal – que sempre acabam por cruzar-se. É penoso construir uma personagem repulsiva. Exige tempo escavado a pá pequena, tempo para sulcar à volta dela, com destreza de jardineiro, um vazio pestífero, esperar que a rega funérea gota a gota vá impregnando as folhas do livro, depois estercar as pulsões da maldade, da impiedade, até ao auge de o leitor lhe ansiar a morte. Esse foi o trabalho de mestria de Manuel Monteiro durante três quartos da obra, revelando igual proficiência ao contrariar a vontade do leitor e da justiça básica: a personagem diabólica chega ao epílogo com apreciável vigor e aparente empenhamento em prosseguir na "senda do mal", algures na eternidade. Assumindo-se como revisor literário, atividade que tem exercido nos últimos anos, também nessa vertente deve ser apreciado o labor peculiar de Manuel Monteiro. Uma vez entrado nesse limbo da revisão, presume-se que andará com a gramática ao colo, mesmo no papel de escritor, como deixa transparecer sem discrição ao longo deste livro. Originalidade divertida, decerto irrepetível: a personagem-narrador permanece do princípio ao fim sob vigilância gramatical do autor, que, assumindo-se como revisor, vai advertindo (em brevíssimos itálicos entre parêntesis) para escorregadelas estilísticas, frases de efeito, repetições vocabulares, clichés e até, inesperadamente, assinala uma prolepse (!), algo de que eu não ouvia falar desde as lições do saudoso Professor Lindley Cintra. As oportunas admoestações do autor-revisor regem-se sempre pela sensatez e fidelidade escolástica, mesmo quando, nas páginas derradeiras da obra, a relação entre ambos se desventura de forma insuprível. Desta mostra se infere que Manuel Monteiro jamais deixará de ser revisor, quanto mais não seja de si próprio e em exclusivo quando passar a «escritor a tempo inteiro». Faz parte do seu código genético, como fica bem dizer. Surpreende e anima encontrar um escritor jovem tão cioso do rigor gramatical em toda a extensão da alquimia linguística, das minudências aos pecados capitais, passando pelos pecadilhos que, parafraseando Aquilino, «nem vale a pena acusar na confissão», como são as infindas expressões redundantes que a todo o momento se acomodam ao hábito da fala ou da escrita. Outro pecadilho, porém já merecendo penitência, é a comezinha pontuação cujo emprego descuidado pode desestruturar um bom texto. Manuel Monteiro interpreta de modo original o tema da revisão de textos: «Às vezes, penso que a profissão que mais se aparenta com a do revisor é a do árbitro de futebol. Estranha comparação, dir-se-á em primeira análise. A verdade é que o único aspeto visível do trabalho de ambos é o erro. Dá-se pela existência de tais ofícios apenas quando eles falham». Regresso ao mote desta crónica, a obra O Suave e o Negro, particularizando a já aludida desavença final entre o autor e o narrador-personagem. Ao contrário do que ocorreria com um romance policial, não trará ao leitor o mínimo inconveniente a revelação de que neste livro as coisas entre ambos (autor e personagem) acabam mal. Muito mal. Eis: Figurava-se o livro terminado, pronto a recolher à estante, quando o narrador resolve, por autorrecreação (ou seja, à revelia do autor), vazar uma arenga superescatológica, em absoluto imprópria para menores e maiores de idade, atolando mais de três páginas do excelente papel-marfim com que a QuidNovi imprime as suas edições. Compreende-se que o autor tenha sido então de uma enorme rispidez, não acolhendo a desculpa de que tudo aquilo era o que ia pela cabeça do narrador. Com a sensatez a que nos habituara desde o princípio do livro deliberou (e bem, se me permitem notar) que a arenga não se revestia de qualquer valor literário. Óbvio (acrescento ainda) que tal ponderação nada tinha que ver com gramática e muito menos com estilística literária. Mas nada feito. O narrador-personagem insiste: «(...) quero apresentar as minhas reflexões...». Perante isto, o autor toma uma decisão inflexível e brada (o verbo não consta, mas pressente-se um murro na mesa): «Não, o livro acaba aqui. E agora acaba mesmo». Dois centímetros abaixo surge, não menos vigorosa, a palavra FIM. Ah, este teria sido o mais viril ponto final dos livros de ficção: por imposição máscula do autor sobre uma personagem insubordinada. Afinal não acaba. No caos de se ver despejada do livro, a personagem consegue devanear, solitária e delirante, por mais seis páginas confessionais, aventurando-se possivelmente a encetar ali mesmo um novo livro. Rende-se por fim. Não há mais lastro. O chiquérrimo papel-marfim tão apetecível deverá ter chegado ao limite do estipulado para este volume. Na hora de averiguar responsabilidades, cabe interpelar o autor e a editora: por que aparecem estas páginas excrescentes no final do livro? Estou a ver o autor a alijar-se com um assobiozinho prò ar: «De minha responsabilidade é quanto está escrito até à palavra FIM. Quanto ao mais, desculpem lá...». Argumentará a QuidNovi, com um trejeito de desagravo: «Então, nós, diga-me cá, iríamos alguma vez interferir numa criação literária?! Com franqueza!». Sim, há também a empresa responsável pela finalização oficinal do "produto", a gráfica Rainho & Neves, que por sinal já imprimiu um livro meu; tenho esses profissionais no melhor conceito, não julgo plausível que atendam as personagens que lhes batam à porta a exigir de peito feito um acrescentozinho a uma obra que está lá para imprimir. Conclui-se, enfim, que andará por aí, perdida, essa personagem à procura de um autor, rebento tardonho de Pirandello. Acalenta agora ambição maior que meia dúzia de páginas. Já tem todo um livro na cabeça, só lhe falta um autor. Um bom autor, colaborante, benevolente, se não for exigir de mais. Não será a única. O mundo alternativo da literatura está apinhado de personagens atingidas pelo desemprego, outras cujo pendor político as arrastou para a vida clandestina, mas em geral desfrutam de notoriedade na praça pelo bom carácter e cadastro limpo de safadezas. Os tempos mudaram imenso depois do vovô Pirandello, que se viu a braços com apenas seis personagens à procura de um autor. Agora é diferente, a concorrência é tremenda. São muitas-muitas as personagens nessa aflitiva situação de cinto apertadíssimo, endividamento imparável, nula capacidade reivindicativa e não dispondo sequer do óbolo governamental de um rendimento social de inserção. Acresce o enguiço da língua que desmotiva uma escapada emigratória e a confusão ortográfica nos PALOP também não ajuda nada. Custe o que custar teremos de admitir que não existe espaço e oportunidade para todas as personagens. Não duvido, porém, que uma mão cheia delas — as mais aptas em qualquer palco para impressionar intensamente os leitores — serão num futuro próximo convocadas pelo escritor Manuel Monteiro. © PEDRO FOYOS

1 comentário:

Anónimo disse...

Uma crítica muito boa a um livro muito, muito bom.