sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Fui a uma livraria. Vi um livro de Philip Roth. Achei estranho, porque lera que o autor declarara não escrever mais nenhum livro após Némesis, de 2012 - e que qualquer livro que tentasse doravante seria necessariamente um livro falhado. Li capa, badanas, contracapa. Reza a sinopse: «No centro de Engano estão dois adúlteros no seu esconderijo. Ele é um escritor americano de meia-idade chamado Philip, que vive em Londres, e ela é uma inglesa culta, inteligente e expressiva, refém de um casamento humilhante ao qual, com trinta e poucos anos, já está nervosamente resignada, ou quase. A acção do livro é de diálogos – sobretudo conversas entre os amantes antes e depois de fazerem amor. Esses diálogos – acutilantes, ricos, espirituosos, dialécticos – são praticamente tudo o que há neste livro, e não é preciso mais nada.» Na contracapa, havia vários e elogiosos comentários, designadamente do The New York Times. Os comentários enalteciam a narrativa, as personagens e, sobretudo, os diálogos. Abri o livro - não havia uma letra. Procurei bem. O livro era todo em branco. Senti uma ambivalência. Por um lado, era um golpe genial - todas as grandes ideias depois de serem criadas parecem simples, como aquele crítico de arte que dizia de Miró ser extremamente fácil de reproduzir as suas telas, o problema era não se ter lembrado de desenhar aquelas telas! Por outro, parecia-me uma fraude. O preço aligeirava a fraude: 3,5 €. Ainda assim, já tive um livro branco (que usei como outros para escrever), lembro-me do tremendo sucesso editorial quando saíra há cerca de trinta anos e de como depois muitos o imitaram, dando largas à imaginação nos títulos. O que os homens sabem sobre as mulheres, etc e tal.

1 comentário:

Anónimo disse...

Foi uma ideia parva por parte de Philipp Roth... a não ser que fosse intencional, talvez quisesse vingar-se de alguma amante.

Cristina