sábado, fevereiro 02, 2013

Em louvor dos socorristas das palavras em vias de extinção REFLEXÕES EM VÉSPERAS DA CONFERÊNCIA SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA NA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA As palavras, as nossas laureadas palavras, músculo e nervo do corpo vivo da língua, estão a morrer. Escritores e jornalistas têm alertado nos últimos tempos para o empobrecimento da língua portuguesa. A par das questões gramaticais, o escritor Manuel Monteiro desenvolveu este tema numa interessante entrevista concedida a Maria João Freitas (revista Alice): «Por que devemos manter palavras eruditas na imprensa, no ensaio, na ficção? Por uma razão muito simples. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. E quando morre uma palavra, morre com ela uma chave de decifração do mundo». Pouco tempo depois, no Jornal de Letras, o escritor Mário de Carvalho abordava, acutilante, o mesmo assunto: «Os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que era isso tão só que os portugueses deviam saber. Que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular em que estão enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia bastar ao povo». Por seu turno, Ana Cristina Leonardo inquietava-se há dias no "Atual" do Expresso: «(...)A língua portuguesa anda a empobrecer muito (neste caso, a culpa não é do AO). Leem-se os novos autores e a nossa "cabeça estremece com todo o esquecimento" das palavras». Há palavras sem conto encerradas na caixa-forte dos valores procedentes das cinco partidas do mundo por onde viajou a língua portuguesa. Levámos umas, trouxemos outras — numa fértil permutação. Palavras antigas. Garrett fazia uma distinção: «Fugi de palavras antiquadas, mas não desprezei as antigas.» Basta ler uma edição original de qualquer romance oitocentista para nos darmos conta do vasto número de vocábulos extraviados ou adulterados que deveríamos recuperar ou assear. Não se trata de uma busca tolinha de palavras eruditas, impenetráveis. Precisamente o contrário: algumas dessas palavras revestem-se de tão imediata e exata definição que representam uma economia vocabular. Necessitaríamos, por vezes, de três ou quatro para expressar a mesma ideia. Por fortuna ressalvam-se "novos autores" como Manuel Monteiro. Apraz enaltecer os cuidados de um jovem escritor não só pela gramática que tão desonrada anda mas também pelo léxico. Admiro os voluntariosos socorristas das palavras em vias de extinção. Vejo-os como biólogos cultores da recuperação de material genético nas pagelas álgidas de postilas que foram esbodegando-se no milheiral das invernias. Entre os meus dilectos (vocábulo não usado por acaso) avulta Baptista-Bastos, douto sénior a quem me arrima uma camaradagem e admiração de meio século. Sendo leitor amiudado das suas crónicas, sem esforço de memória enumero algumas expressões recorrentes: • preopinante. Não é preciso ir ao dicionário para que este adjetivo nos deixe transparecer um sujeito enfatuado que opina com ignorância, precipitadamente, antecipando-se a outros mais habilitados para o fazer. E tudo isto numa única palavra! • discretear. De discreto. Conversar com discrição, placidamente. Uma expressão próxima mas longe do mesmo significado seria divagar. • cochilar (dormitar). Verbo lindo mais usado no Brasil, já raramente ouvido e escrito em Portugal. • batucar... (...prosa, um artigo, uma notícia, etc.) De batuque. Claro que o verbo está dicionarizado e não se trata de palavra perdida. Registo-a pela originalidade de uma expressiva analogia fonética com o banal teclar numa máquina. • envilecer (tornar vil, miserável). O verbo, tão desusado, é consideravelmente mais áspero que o comum desprezar. De Manuel Monteiro retenho solífugo, (sole + fugere, fugir) — extravagante definição de uma criatura noctívaga (humana, no seu livro) que execra a luz solar (foge do sol), vivendo em permanência nas trevas. O autor do romance O Suave e o Negro saberá que ao desentranhar esta palavra vai assarapantar muitos leitores? Estou em crer que sim: sabe. Entrevejo-lhe um secreto e voluptuoso propósito de nos fazer perscrutar o dicionário. Foi o meu caso. Está perdoado. O vocábulo é arrevesado, reconheço no entanto que o vizinho noctívago (que vagueia de noite) não possui o mesmo significado. A propósito de noite, calha bem uma recordação de há trinta anos. Saíra um novo livro de Maria Velho da Costa, comecei a lê-lo... e... tropecei logo à sexta linha da primeira página. A autora está a descrever uma paisagem noturna, escura, que esconde uma bela e quieta cidade. Poderia transmitir a visão daquela cidade como se a mesma fosse uma joia protegida pelo arvoredo e pela própria noite densa. Em vez disso escreve uma só palavra: escrínio. Escrínio?! Que bicho medonho é este? Perguntei a quem estava próximo: — Escrínio. Sabes o que é um escrínio? A ignorância veio afagada de ironia: — Incrível não saberes o que é um escrínio! Fui ver. Escrínio, meus senhores, em português de lei quer dizer guarda-joias. Não mais esqueci a palavra e depois disso tomei conhecimento que se publicaram pelo menos três livros em língua portuguesa integrando a palavra escrínio nos respetivos títulos. Comigo, que já me vou demorando na vida quase tanto como os zambujos, acontece-me uma felicidade infantil de cada vez que aprendo uma palavra nova. Em tempo: zambujo, ou seja, uma oliveira brava. © PEDRO FOYOS

6 comentários:

curtos instantes disse...

não só pela gramática que tão desonrada anda mas também pelo léxico.

É por isso que escolho esta como a minha tasca!

Sr Joao disse...

:=)

curtos instantes disse...

a propósito http://curtosinstantes.blogspot.pt/2013/02/nao-deixem-morrer-as-palavras.html?m=1

Sr Joao disse...

a ler!

curtos instantes disse...

Não ando à procura, mas parece que estes textos têm vindo ter comigo: http://curtosinstantes.blogspot.pt/2013/02/cronica-das-palavras-dn-dn.html

Sr Joao disse...

:)