terça-feira, fevereiro 26, 2013

vulpino adjetivo 1. da raposa 2. relativo à raposa 3. figurado astuto; manhoso (Do latim vulpīnu-, «de raposa»)
imiscível adjetivo de 2 géneros 1. que não admite mistura 2. diz-se dos líquidos que, quando misturados em certas proporções, formam duas fases ou camadas separadas (Do latim immiscibĭle-, «idem»)

domingo, fevereiro 24, 2013

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Ler literatura e poesia faz bem ao cérebro

Ler obras clássicas (como as de William Shakespeare) e poesia ajuda a estimular o cérebro e traz mais benefícios do que os livros de autoajuda Esqueça os livros de auto-ajuda que prometem a felicidade sem esforço. De acordo com um estudo de investigadores da Universidade de Liverpool, divulgado esta terça-feira, ler literatura (sobretudo clássica) e poesia ajuda a estimular o cérebro e traz mais benefícios do que os livros de autoajuda. Os cientistas (especialistas em psicologia, literatura inglesa e ciência) pediram a 30 voluntários para formarem um grupo de leitura onde, durante um período de 12 meses, seriam lidos alguns clássicos da literatura. No final da investigação, concluiu-se que, devido à linguagem usada nos livros, os leitores desenvolveram um maior sentido crítico e tinham mais momentos de auto-reflexão. Para chegarem a estes resultados, os investigadores usaram 'scanners', para avaliar o cérebro dos voluntários e registar o modo como as diferentes áreas cerebrais eram ativadas quando os participantes liam livros clássicos na sua versão original ou uma versão simplificada do mesmo livro. Os leitores que leram os clássicos na sua versão original surpreenderam-se com palavras desconhecidas, uma estrutura frásica mais complexa ou expressões novas. Como consequência, foram mais estimulados durante a leitura. O mesmo estudo descobriu que também a poesia tem um papel importante para quem lê, ao estimular a atividade no hemisfério direito, uma área que abarca o pensamento simbólico e a criatividade. A poesia ajudou os leitores a refletir e analisar a sua própria experiência e os seus sentimentos de uma forma mais eficaz daquela que é sugerida, por exemplo, nos livros de auto-ajuda. Ao jornal britânico Daily Mail, Philip Davis, professor que integrou o estudo, afirma que a “literatura (sobretudo os autores mais complexos como os clássicos) atua como um ‘motor’ no cérebro”. Com este estudo, salienta, é possível ver “o poder da literatura para criar novos caminhos, novos pensamentos e conexões”. No estudo que a equipa de Philip Davis publicou, em 2012, no Journal of Medical Humanities - e que enviou ao Boas Notícias - o especialista explica que a literatura que motiva um maior conhecimento e uma auto-reflexão mais eficaz é a literatura e os livros de poesia de "qualidade", não sendo este resultado um exclusivo da literatura clássica. É preciso, contudo, fazer uma distinção entre a literatura dita de "cordel" ou os livros de auto-ajuda, que apenas repetem e reforçam "clichés", e a literatura mais complexa que de facto tem influência no modo como o nosso cérebro funciona e reage. Clique AQUI para aceder a uma versão preliminar deste estudo, datada de 2010, e que foi enviada ao Boas Notícias pelo investigador Philip Davis. https://sites.google.com/a/thereader.org.uk/get-into-reading-downloads/files/TherapeuticbenefitsofreadingfinalreportMarch2011.pdf?attredirects=0&d=1

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

És irascível, um pouco orgulhoso, sobranceiro por vezes, rancoroso, vingativo até, obstinado por vezes, cruel aqui e ali; mas nunca foste materialista e nunca viraste costas a quem caiu.
Encarreirar, seguir um carreiro, ir estreitando o caminho, ter os olhos cada vez mais concentrados numa porção cada vez menor. Quanto mais se especializam, quanto mais centrados no seu micromundinho, quanto mais monodisciplinares, mais ufanos e mais ignorantes. E mais perigosos. Pior do que os homens sem livro só os homens de um só livro.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Narrativas ou narrotretas?

«É curioso como, nestes dias de caos, se fala tanto de narrativas. A palavra foi invadindo progressivamente o espaço público e agora toda a gente - jornalistas, políticos, comentadores - fala de narrativas, como se de uma palavra mágica se tratasse. É a narrativa do ministro Relvas, que escandaliza e indigna todo o País. É a narrativa ultraliberal do Governo, que falha em toda a linha. É a narrativa da crise, que suscita controvérsia no Partido Socialista. É a narrativa europeia, em que cada vez menos europeus acreditam. Etc. A razão desta proliferação é simples: a narrativa surge onde a ideologia desapareceu e, sobretudo, onde e quando o vazio ameaça a política. Ela resulta fundamentalmente de dois fenómenos: da erosão das ideologias, por um lado, e da formatação da realidade pelos media por outro lado. As ideologias, em vez de serem laboratórios experimentais de ideias, transformaram-se em corpus mais ou menos dogmáticos de estereótipos, que dão sempre as mesmas respostas a todos os problemas: para elas, as respostas vêm sempre antes dos problemas. E quando se tem as respostas antes dos problemas, as ideologias deixam de ser um espaço animado por ideias e valores, por factos e argumentos, por explicações e controvérsias. E os partidos que as adotam esquecem tanto os seus compromissos e programas, como temem os respetivos balanços e inventários. É disto que hoje se trata quando se denuncia e lamenta a degradação da política e o descrédito dos seus protagonistas. A formatação da realidade pelos media, por sua vez, encontrou no recurso às narrativas e à suas historietas o melhor modo de simplificar e intensificar as mensagens que produz e transmite, iludindo toda a complexidade dos factos e qualquer efetiva compreensão do mundo. Seja nos noticiários, que adotaram a forma de um esforçado "infotenimento" e são cada vez mais feitos de sequências breves, de imagens fortes, de ligações arbitrárias e de linguagens frustres, num caldo narrativo que já só ocasionalmente consegue respeitar uma qualquer lógica informativa. Seja no espaço de comentário, onde a multiplicação e a polarização encenada das narrativas substitui quase completamente - as exceções existem, mas são realmente poucas! - os factos, a sua explicação e discussão, instaurando assim um universo bizarro, que parece empapado em lérias, larachas e lamúrias. (E também por uma cada vez mais grotesca alacridade, mas isso fica para outra altura.) Muitas vezes, ao ouvi-los, apetece perguntar se os protagonistas desses programas falam mesmo... ou se, simplesmente, são falados, como se fossem marionetas, ou melhor, ventríloquos das narrativas que circulam por aí. O recurso à narrativa representa, pois, mais um passo, e grande, na submissão da política ao marketing. É outro fenómeno que veio dos EUA, sobretudo desde que nos anos Clinton o storytelling se tornou, pela mão dos famosos spin doctors, um auxiliar permanente da governação. O storytelling tinha, de resto, uma forte tradição nos EUA, que vinha dos tempos da escravatura e da segregação racial e que passou pelos muitos clubes de "contar histórias" que se multiplicaram no Mississípi, em Chicago, em Nova Orleães, no Alabama, no Missuri, etc. Foi essa tradição que acabou por inspirar o aconselhamento político na segunda metade do século passado, com P. Salinger junto de John Kennedy, J. Valenti junto de Lyndon Johnson, W. Safire junto de Richard Nixon ou de P. Cadell junto de Jimmy Carter. Antes de, com Ronald Reagan, chegar à Casa Branca um exímio contador de histórias. Mais tarde, com Bill Clinton, o storytelling seria mesmo visto - é ele quem o diz, nas suas Memórias - como algo novo e decisivo na política contemporânea, como um artifício que permite enquadrar as aspirações das pessoas num horizonte menos ideológico e mais ficcional, dando-lhes "a possibilidade de assim melhorarem a sua própria história". A esta luz, compreende-se melhor de onde vem o sucesso do slogan "Yes, we can", simultaneamente o mais integrador e o mais vazio slogan da história da política contemporânea. Mas a inflação da palavra narrativa - que traduz o storytelling americano - no domínio político tem ainda outra razão. Ela encontra-se no desamparo dos cidadãos perante um mundo que ninguém parece já verdadeiramente compreender nem dominar. As narrativas aparecem então como historietas de oportuno consolo, capazes de propiciar alguma leitura do mundo e dos seus acontecimentos. Como formas simples e acessíveis de representar o incompreensível e de iludir a questão central, que continua a ser a do poder: afinal, quem manda nisto? Mas é precisamente perante as questões decisivas, como esta, que as narrativas revelam toda a sua fragilidade e insuficiência. Elas vivem entre a facilidade da treta e a tentação da burla, de que recentemente tivemos um estridente exemplo. Elas embalam mas não esclarecem, elas insinuam mas não explicam, elas consolam mas não mobilizam. É por isso que elas não respondem ao vazio político que tem alastrado com a crise dos últimos anos - pelo contrário, amplificam-no. Essa resposta continua à espera de ideias, de protagonistas, de símbolos e de valores magnetizadores, que convirjam na construção de uma nova visão do futuro. Porque, como um dia escreveu K. Pomian, na verdade a nossa civilização depende tanto do impulso do futuro como um avião depende do combustível que o alimenta. É aqui que está o problema.» Manuel Maria Carrilho
«To touch and feel each thing in the world, to know it by sight and by name, and then to know it with your eyes closed so that when something is gone, it can be recognized by the shape of its absence. So that you can continue to possess the lost, because absence is the only constant thing. Because you can get free of everything except the space where things have been.» Nicole Krauss
«My social conscience is fairly limited in a lot of ways; there's not much I'm angry about that doesn't affect me quite directly. But the prison system- not particularly capital punishment- but the penal system as it is, and the whole apparatus of judgement, people deciding on other people's fates... that does irritate, and upset me quite a lot. What angers me about the system goes beyond the unreliability of "proof"... it's that the way criminals are dealt with has nothing to do with rehabilitation and readjusting people who've stepped outside society's norms. The same goes for mental institutions and so forth. But it's also the very idea of someone being judged "criminal" or "insane" because they're unable to fit into what a corrupt society considers "social" or "sociable".» Nick Cave

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

- Tens de rezar à Santa Rita de Cássia? - Hã? - Não conheces? - Não. Nunca ouvi falar. - É a Santa das Causas Impossíveis. Quando era miúdo, o meu pai quando bebia gritava e era agressivo com a minha mãe. Num dia, pedi à santa que o meu pai deixasse de ser mau com a minha mãe e no dia seguinte, para espanto de todos os meus irmãos, o meu pai teve um problema de saúde e anunciou que deixaria de beber. Em adulto, uma vez estava parado no trânsito, tinha uma reunião e ia chegar atrasado, lembrei-me de quando era miúdo e pedi à santa um milagre. Ligaram-me a cancelar a reunião. http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Rita_de_C%C3%A1ssia Oração a Santa Rita de Cássia Ó poderosa e gloriosa Santa Rita, eis a vossos pés um alma desamparada que, necessitando de auxílio, a vós recorre com a doce esperança de ser atendida por vós que tendes o incomparável título de SANTA DOS CASOS IMPOSSÍVEIS E DESESPERADOS. Ó cara Santa, interessai-vos pela minha causa, intercedei junto a Deus para que me conceda a graça de que tanto necessito (dizer a graça que deseja). Não permitais que tenha de me afastar dos vossos pés sem ser atendido. Se houver em mim algum obstáculo que me impeça de obter a graça que imploro, auxiliai-me para que o afaste. Envolvei o meu pedido em vosso preciosos méritos e apresentai-o a vosso celeste esposo, Jesus, em união com a vossa prece. Ó Santa Rita, eu ponho em vós toda a minha confiança; por vosso intermédio, espero com fé a graça que vos peço. Assim seja! Rezar 1 Pai-nosso, 1 Ave Maria e 1 Glória ao Pai. Santa Rita, advogada dos impossíveis, rogai por nós.

Problemas de Geografía Personal

Nunca sé despedirme de ti, siempre me quedo con el frío de alguna palabra que no he dicho, con un malentendido que temer, ese hueco de torpe inexistencia que a veces, gota a gota, se convierte en desesperación. Nunca se despedirme de ti, porque no soy el viajero que cruza por la gente, el que va de aeropuerto en aeropuerto o el que mira los coches, en dirección contraria, corriendo a la ciudad en la que acabas de quedarte. Nunca sé despedirme, porque soy un ciego que tantea por el túnel de tu mano y tus labios cuando dicen adiós, un ciego que tropieza con los malentendidos y con esas palabras que no saben pronunciar. Extrañado de amor, nunca puedo alejarme de todo lo que eres. En un hueco de torpe inexistencia, me voy de mí camino a la nada. Luis García Montero

Escrever é triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário. O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau ("com isenção de largo espectro", como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego — às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles. Ah, você participa com palavras? Sua escrita — por hipótese — transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever «O Capital» é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu «O Capital». Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação. Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incómodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhes os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado do espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples pai de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isto entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando... Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, revelou que as crianças que veem televisão em excesso têm maiores probabilidades de ser antissociais, cometer crimes ou de terem comportamentos agressivos em idade adulta. «O risco de um jovem adulto ter antecedentes criminais aumenta em 30 por cento para cada hora em que viu televisão em média durante a semana quando era criança», afirmou um dos autores da análise, Bob Hancox. O excesso de televisão está também ligado a comportamentos agressivos e tendência para emoções negativas, sendo estes comportamentos potenciados através de fatores como a inteligência, condição social ou educação familiar. «Ao mesmo tempo que não podemos dizer que a televisão leva diretamente a comportamentos antissociais, os resultados da nossa pesquisa sugerem que o fato de passar menos tempo a ver televisão pode reduzir os comportamentos antissociais na sociedade», disse Hancox. De acordo com a pesquisa, se a criança ficar demasiado tempo em frente à televisão «pode ter menos relações sociais com amigos ou familiares, além de um mau desempenho na escola, correndo o risco de ficar desempregado». O estudo baseou-se na análise de mil adolescentes nascidos no início da década de 1970, desde os quinze anos até os 26, e foi publicado esta semana na revista norte-americana «Pediatrics».

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

domingo, fevereiro 17, 2013

sábado, fevereiro 16, 2013

A nossa galáxia contém cerca de 200 mil milhões de estrelas, contando com 46 mil milhões de planetas como o nosso Uma em cada quatro estrelas da nossa galáxia, semelhantes ao Sol, podem ter planetas do mesmo tamanho da Terra. Tal significa que podem existir vários milhões só na Via Láctea, dos quais uma centena com a potencialidade de albergar vida, segundo um estudo da agência espacial norte-americana (NASA). "Os dados recolhidos dizem- -nos que a nossa galáxia, que contém cerca de 200 mil milhões de estrelas, tem ao menos 46 mil milhões de planetas do mesmo tamanho que a Terra, sem contar aqueles cuja órbita é mais afastada do seu astro mas ainda se encontram na zona habitável", disse o astrónomo Geoff Marcy, da Universidade da Califórnia, um dos principais autores do estudo publicado na revista Science. Considera-se habitável a zona que não é demasiado quente nem fria e onde pode existir água em estado líquido. Os astrónomos que realizaram este recenseamento planetário utilizaram dois potentes telescópios ópticos e de infravermelhos, no monte Mauna Kea, no Havai. Durante cinco anos, observaram 166 estrelas situadas num raio de 80 anos-luz da Terra. Um ano-luz equivale a 9469 mil milhões de quilómetros. Os astrónomos observaram planetas de diferentes tamanhos, desde três vezes a massa da Terra até mil vezes. Os resultado revelam que há mais planetas pequenos que grandes, logo a conclusão é que estes são mais frequentes na Via Láctea. "Tais planetas na nossa galáxia são como grãos de areia dispersos numa praia, estão por todo o lado", afirmou Marcy.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

«Se queres evitar a crítica, não digas nada, não faças nada, não sejas nada.» Elbert Hubbard
http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n_8

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Sais de um túnel e está tudo escuro. Atravessas a auto-estrada e não há luzes. Conduzes por uma localidade e os candeeiros estão todos apagados. Não encontras melhor metáfora do país.

Da historicamente inédita «austeridade expansionista»

A economia portuguesa contraiu 3,8% em termos homólogos no último trimestre, anunciou hoje o INE. No conjunto do ano o PIB encolheu 3,2%. A estimativa rápida divulgada esta manhã pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) foi assim bastante mais negativa que as expectativas dos economistas sondados pela agência Bloomberg, que apontavam para uma contracção de 3%. E foi o segundo pior desempenho na zona euro, que contraiu 0,9% neste período. Só a economia grega (-6%) destruiu mais riqueza que Portugal nos últimos três meses de 2012. "O contributo positivo da procura externa líquida diminuiu significativamente no quarto trimestre", verificando-se "uma diminuição menos acentuada das importações e uma redução das exportações", justifica o INE, notando contudo que a procura interna apresentou "um contributo menos negativo" fruto de uma redução mais fraca do investimento. Em cadeia (face ao terceiro trimestre), o PIB português contraiu 1,8%. A 11 de Março o INE publicará dados mais detalhados sobre a evolução do PIB no quarto trimestre. Previsões do Governo falharam De acordo com os mesmos dados, a economia portuguesa contraiu 3,2% em 2012. Este resultado furou as previsões do Governo, Banco de Portugal e troika. Todas as instituições antecipavam para uma recessão de 3%. Também os dados do desemprego, revelados ontem pelo INE, revelam que a realidade é pior do que as expectativas do Governo. A evolução do desemprego entre Outubro e Dezembro colocou a taxa média de 2012 nos 15,7%, duas décimas acima da previsão do Executivo. Mesmo a taxa de 16,9% referente ao último trimestre é superior à previsão para todo o ano de 2013, de 16,4%. O primeiro-ministro admitiu ontem a possibilidade de rever as suas previsões económicas para 2013, caso o ritmo de crescimento das exportações continue a abrandar. "Se os sinais de abrandamento do ritmo das exportações persistirem poderemos ter de fazer ajustamentos" às previsões económicas de 2013, admitiu o primeiro-ministro. Na última segunda-feira foi revelado que em 2012 as exportações cresceram apenas 5,8%.
«Medes o meu espírito pelos afetos humanos; mas é porque não sabes como ele saiu depurado do crisol do padecer infernal.» Alexandre Herculano
O telemóvel passou a ser uma extensão do corpo das novas gerações.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

«Oh, tu amas-me ainda! – bradou o cavaleiro com alegria frenética e selvagem. – Bem! Levantar-se-á uma barreira de bronze entre mim e ti, que aniquile o derradeiro clarão da esperança, se me conheces tão mal, que ainda na alma te possa restar um vestígio d’esperança.» Alexandre Herculano

Um pouco de ternura e nada mais

«No domingo, 27 de Janeiro, às 5 da tarde, fui internado de urgência no Santa Maria. Respirava com extrema dificuldade, era assaltado por terríveis acessos de tosse, não me mantinha equilibrado e estava apossado de funesta sonolência. Andava nesta obstinada teimosia há uma semana, ante os reparos dos filhos e as reprimendas da Isaura, que custodia as minhas disposições com a benevolência e a firmeza que lhe conferem cinquenta anos de vida em comum. Éramos dois miúdos e durante estes anos todos temos enfrentado vendavais sem conta. Continuamos dois miúdos, um pouco mais velhos. Cheguei, pois, ao hospital num estado deplorável, em razão da minha presunção e soberba. Presumiu-se que uma virose me atacara; depois, talvez fosse vítima de embolia pulmonar. O despiste das doenças não impediu a minha acentuada fraqueza. Fui rodeado imediatamente de atenções e de solicitudes que logo notei serem iguais para todos quantos haviam entrado naquele crisol de sofrimento e de espanto. Pertencia, agora, a esta comunidade na qual o abatimento, a dependência, a fragilidade e a perda do recato pertencem ao mesmo número de resignadas admissões. Pouco depois fui transferido para o Hospital Pulido Valente. Explicaram-me que, na Unidade de Cuidados Intermédios, dispunha de assistência assídua e especializada, e a minha miséria encontrava resposta na bondade, no carinho, no desvelo de um grupo de raparigas e de rapazes não só atento à medicação, procurando magoar-me o mínimo possível, com o furo nas veias débeis, como me lavavam, me limpavam, me cuidavam com a grandeza de quem não precisa de reciprocidade. A dimensão da humanidade na sua expressão acaso mais nobre. Sou-lhes eterno devedor. Ao observá-los e à sua compassiva densidade, apreendi que os macacos sem fé e sem sonho, que nos governam, desejam não só dar cabo do Serviço Nacional de Saúde: eles querem, sobretudo, dissolver os laços de benevolência, essa ligação suave, decente e poderosa entre alma e coração, substância e essência que constituem a construção social e o espírito do SNS. O que são alianças de piedade e de solidariedade entre os que sofrem e os que cuidam, ajudam e amparam, eles ambicionam transformar em gélidas demonstrações profissionais, "justificadas" pelo dinheiro. Estes que tais encontram, porventura, na maldita frase do banqueiro Ulrich ["eles aguentam, aguentam"] o mais sórdido apoio aos seus projectos de demolição social e ética. Estão do outro lado das coisas, ignoram a natureza concêntrica das grandes simpatias humanas. Têm o coração oco. Nada sabem dessa humanidade assustada, desvalida, a quem querem roubar o pouco que lhes resta, que sofre nas ruas, nos hospitais, que envelhece no pasmo de desconhecer o que lhes acontece. E ocorre-me a frase de Raul Brandão: "Apenas anseiam por um pouco de ternura e nada mais."» Baptista-Bastos
O nazismo económico é aceitável para muitos preopinantes, econocratas, gestores, cidadãos com opinião sobre tudo nos fóruns modernos. Não se pode matar por alguém pertencer a uma etnia diferente (em muitos países, pode), um credo diferente (em muitos países, pode), mas pode-se morrer por não ter dinheiro - é diferente para muitos a morte «activa» e «passiva». Não se pode escrever no papel que um surdo tem menos direitos, mas pode-se pela via económica discriminá-lo. O Governo retirou a senhora que comunicava para os surdos às dez da noite no jornal televisivo da RTP2. Porque era caro. Chegámos a este ponto. Quanto custa um surdo? E quanto custa um velho? E quanto custa um doente? O nazismo calculava nas escolas quanto custava um surdo-mudo ante um aluno «normal».
«The past is a foreign country: they do things differently there.» Uma frase impossível de traduzir sem se perder algo pelo caminho.
Por vezes, quando leio, penso: isto deveria ter uma pequena transformação. E quando cito tenho tendência a citar como queria que fosse, como dizia Eduardo Prado Coelho. «All children, except one, grow up.» Peter Pan deveria ter começado assim: «All children grow up. Except one».
«Making love with a woman and sleeping with a woman are two separate passions, not merely different but opposite. Love does not make itself felt in the desire for copulation (a desire that extends to an infinite number of women) but in the desire for shared sleep (a desire limited to one woman).» Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being Talvez que a pergunta não devesse ser: com quantas dormiste?; mas: com quantas acordaste?

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

- Mas, no meu tempo, Angel, a amizade era uma coisa muito séria. A lealdade, o valor da palavra, os laços indestrutíveis, o afecto cultivado, as conversas demoradas, os laços entre as pessoas, criávamos bolhas em que estávamos todos por um numa situação de aflição.
Uma pessoa adapta-se a tudo. O cérebro após um acidente dramático volta o estado normal de felicidade. A neurociência diz que temos todos um nível de felicidade normal ao qual regressamos sempre. A lotaria, a morte de alguém provocam alegria e dor - mas passados seis meses tudo regressa ao normal. Tudo, menos o desemprego. Os danos (mesmo os mentais) do desemprego não diminuem - cavam um fosso cada vez maior. De desolação, solidão, culpa, vergonha, desespero, inutilidade.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Fui a uma livraria. Vi um livro de Philip Roth. Achei estranho, porque lera que o autor declarara não escrever mais nenhum livro após Némesis, de 2012 - e que qualquer livro que tentasse doravante seria necessariamente um livro falhado. Li capa, badanas, contracapa. Reza a sinopse: «No centro de Engano estão dois adúlteros no seu esconderijo. Ele é um escritor americano de meia-idade chamado Philip, que vive em Londres, e ela é uma inglesa culta, inteligente e expressiva, refém de um casamento humilhante ao qual, com trinta e poucos anos, já está nervosamente resignada, ou quase. A acção do livro é de diálogos – sobretudo conversas entre os amantes antes e depois de fazerem amor. Esses diálogos – acutilantes, ricos, espirituosos, dialécticos – são praticamente tudo o que há neste livro, e não é preciso mais nada.» Na contracapa, havia vários e elogiosos comentários, designadamente do The New York Times. Os comentários enalteciam a narrativa, as personagens e, sobretudo, os diálogos. Abri o livro - não havia uma letra. Procurei bem. O livro era todo em branco. Senti uma ambivalência. Por um lado, era um golpe genial - todas as grandes ideias depois de serem criadas parecem simples, como aquele crítico de arte que dizia de Miró ser extremamente fácil de reproduzir as suas telas, o problema era não se ter lembrado de desenhar aquelas telas! Por outro, parecia-me uma fraude. O preço aligeirava a fraude: 3,5 €. Ainda assim, já tive um livro branco (que usei como outros para escrever), lembro-me do tremendo sucesso editorial quando saíra há cerca de trinta anos e de como depois muitos o imitaram, dando largas à imaginação nos títulos. O que os homens sabem sobre as mulheres, etc e tal.
- A relação com ela ajudou-me muito a não ter medo das pessoas. Eu vi as pessoas, quase todas, como ásperas, feitas de papelão, tão distantes de mim como extraterrestres. Hoje, sei que somos todos muito mais iguais do que pensamos e o meu medo desvaneceu-se.
- Se cobrasse um imposto módico sobre cada pessoa que ajudei, estaria materialmente multimilionário. Ainda assim, sou mais feliz pela compensação imaterial.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

CRÓNICA DAS PALAVRAS

«Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem- -se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude. As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita." Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais. Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira. Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.» Baptista-Bastos

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

«Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles... se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia.» J. D. Salinger
I love you so much I’ll never be able to tell you; I’m frightened to tell you. I can always feel your heart. Dance tunes are always right: I love you body and soul: —and I suppose body means that I want to touch you and be in bed with you, and i suppose soul means that i can hear you and see you and love you in every single, single thing in the whole world asleep or awake. Dylan Thomas
O um não tem cor, o dois é amarelo, o três é azul, o quatro é inequivocamente vermelho, o cinco é preto ou verde, o seis é verde, o sete é laranja-fogo, o oito castanho, o nove preto e o dez branco. E para ti?

domingo, fevereiro 03, 2013

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/02/a-conversa-com-manuel-monteiro-ii.html

A anti-romântica

Ela é tão rápida, que nunca guarda o sabor das coisas.

sábado, fevereiro 02, 2013

Não consigo ler, não consigo ver, prefiro não saber. Um cão espero cinco anos por uma pessoa que não volta - e não sabe que não volta. Dois gémeos não conseguem suportar viver um sem o outro e preferem morrer quando a cegueira se somar à surdez. (Ninguém vive tanto o dois em um como dois gémeos.) Não consigo. É demasiada dor. Afasto os olhos. Não quero saber. A minha frieza é medo. A minha distância é calculismo. Não quero laços assim - fujo de uma dor assim como de mais nada. «Eram belgas, eram gémeos, eram surdos, eram operários. 45 anos, inseparáveis nas atenções ao mundo, e o mundo nada lhes ocultava porque o mundo era deles e do entendimento que do mundo faziam. O infortúnio não os afligia assim tanto porque se tinham um ao outro, nessa fraternidade secreta e única que pode moldar o carácter. Nem sempre os irmãos se dão bem; nem sempre os gémeos são exemplos de amor. Estes, por inusuais, seriam exemplo de tudo. Passeavam, juntos, iam juntos ao cinema, apreciavam caminhar pelos campos belgas, e alimentavam uma particular simpatia pela terra que os vira nascer: Antuérpia. Agora, viviam em Bruxelas, eram vistos muitas vezes de mãos dadas, e, na linguagem gestual através da qual se entendiam, não dissimulavam a preocupação que lhes causava o mundo moderno. Às vezes eram observados de viés: não só porque emitiam sons altos, próprios dos surdos, como aquele modo de andarem de mãos dadas não era um quadro natural, no espírito dos que julgam as coisas apenas pela aparência das coisas. Os gémeos belgas riam desses soslaios e chegavam a forçar a nota, beijando-se como a um irmão se deve beijar. Sabe-se, agora, na discrição das existências que levaram, que um deles escrevia poesia, e que o outro alimentava o secreto sonho de ser pintor. Nada mais se sabe, ou pouco mais se sabe, destes dois irmãos, dependentes um do outro por decisão própria. Apenas, e não é pouco, que eram excelentes operários, e tinham grande predilecção pela cidade de Bruges-la-Morte, pelos bosques enevoados, pelo vinho quente tomado nas tardes frias. A vida corria-lhes com a normalidade possível. As rotinas não se alteravam; admiravam a beleza das mulheres, o seu andar torneado, o verde dos olhos, os sorrisos oferentes. Iam ao futebol; claro que iam ao futebol, e apreciavam sentar-se, aos domingos, numa qualquer esplanada da Gran'Place observando os turistas estrangeiros, máquinas fotográficas na mão ou a tiracolo, só raramente entendedores da natureza e da história do país, tão martirizado pelo conflito idiomático como por estar sempre tão perto das desgraças europeias. Foi quando, numa consulta médica de costume, ambos se souberam portadores de doença oftálmica irreversível. Em poucos meses ficariam cegos. O infortúnio não deixava os gémeos. Surdos e sem ver, sem se comunicar entre si, é que não. Solicitaram às autoridades que lhes fosse permitido o recurso à eutanásia. O caso, tornado público, quando, na verdade, devia ter pertencido aos domínios particulares, suscitou grande polémica. Mas eles levaram a sua avante. Onde está a razão? Tenho o entendimento de que cada qual pode fazer do corpo o que decidir: é a única propriedade privada de que, verdadeiramente, dispomos. Porém, lembro Malraux: uma vida nada vale, mas nada vale uma vida.» Baptista-Bastos
Ele1 frequentou o seminário, tendo por passatempo a escrita de poemas imbuídos de uma transbordante ternura sob o pseudónimo Soselo, era admirador de Shakespeare e Goethe, recitava Walt Whitman de cor. Tinha uma biblioteca de 20 000 livros, muitos com anotações suas. Aos dezassete anos, escreveu: Move tirelessly Do not hang your head Scatter the mist of the clouds The Lord's Providence is great. Gently smile at the earth Stretched out beneath you; Sing a lullaby to the glacier Strung down from the heavens. Know for certain that once Struck down to the ground, an oppressed man Strives again to reach the pure mountain, When exalted by hope. So, lovely moon, as before Glimmer through the clouds; Pleasantly in the azure vault Make your beams play. But I shall undo my vest And thrust out my chest to the moon, With outstretched arms, I shall revere The spreader of light upon the earth! Ele2 era vegetariano, um defensor dos direitos dos animais numa época em que isso era uma extravagância (sendo extremamente afectuoso com o seu cão, tendo até o retratado), pintor, tinha fundas preocupações ecológicas («When man attempts to rebel against the iron law of Nature, he comes into struggle with the principles to which he himself owes his existence as a man. And so his action against Nature must lead to his own doom») e escritos sobre o capitalismo enquanto regime de opressão do trabalho pelo capital. Tinha uma biblioteca com 16 300 livros. Dom Quixote, A Cabana do Pai Tomás, Robinson Crusoé, As Viagens de Gulliver eram as suas obras de eleição. A sua ligação à mãe, que amava muito, levou-a escrever-lhe o seguinte poema aos trinta e quatro anos: The Mother When your mother has grown older, When her dear, faithful eyes no longer see life as they once did, When her feet, grown tired, No longer want to carry her as she walks - Then lend her your arm in support, Escort her with happy pleasure. The hour will come when, weeping, you Must accompany her on her final walk. And if she asks you something, Then give her an answer. And if she asks again, then speak! And if she asks yet again, respond to her, Not impatiently, but with gentle calm. And if she cannot understand you properly Explain all to her happily. The hour will come, the bitter hour, When her mouth asks for nothing more Pintou: O primeiro chamava-se Estaline. O segundo, Adolf Hitler.
Em louvor dos socorristas das palavras em vias de extinção REFLEXÕES EM VÉSPERAS DA CONFERÊNCIA SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA NA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA As palavras, as nossas laureadas palavras, músculo e nervo do corpo vivo da língua, estão a morrer. Escritores e jornalistas têm alertado nos últimos tempos para o empobrecimento da língua portuguesa. A par das questões gramaticais, o escritor Manuel Monteiro desenvolveu este tema numa interessante entrevista concedida a Maria João Freitas (revista Alice): «Por que devemos manter palavras eruditas na imprensa, no ensaio, na ficção? Por uma razão muito simples. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. E quando morre uma palavra, morre com ela uma chave de decifração do mundo». Pouco tempo depois, no Jornal de Letras, o escritor Mário de Carvalho abordava, acutilante, o mesmo assunto: «Os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que era isso tão só que os portugueses deviam saber. Que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular em que estão enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia bastar ao povo». Por seu turno, Ana Cristina Leonardo inquietava-se há dias no "Atual" do Expresso: «(...)A língua portuguesa anda a empobrecer muito (neste caso, a culpa não é do AO). Leem-se os novos autores e a nossa "cabeça estremece com todo o esquecimento" das palavras». Há palavras sem conto encerradas na caixa-forte dos valores procedentes das cinco partidas do mundo por onde viajou a língua portuguesa. Levámos umas, trouxemos outras — numa fértil permutação. Palavras antigas. Garrett fazia uma distinção: «Fugi de palavras antiquadas, mas não desprezei as antigas.» Basta ler uma edição original de qualquer romance oitocentista para nos darmos conta do vasto número de vocábulos extraviados ou adulterados que deveríamos recuperar ou assear. Não se trata de uma busca tolinha de palavras eruditas, impenetráveis. Precisamente o contrário: algumas dessas palavras revestem-se de tão imediata e exata definição que representam uma economia vocabular. Necessitaríamos, por vezes, de três ou quatro para expressar a mesma ideia. Por fortuna ressalvam-se "novos autores" como Manuel Monteiro. Apraz enaltecer os cuidados de um jovem escritor não só pela gramática que tão desonrada anda mas também pelo léxico. Admiro os voluntariosos socorristas das palavras em vias de extinção. Vejo-os como biólogos cultores da recuperação de material genético nas pagelas álgidas de postilas que foram esbodegando-se no milheiral das invernias. Entre os meus dilectos (vocábulo não usado por acaso) avulta Baptista-Bastos, douto sénior a quem me arrima uma camaradagem e admiração de meio século. Sendo leitor amiudado das suas crónicas, sem esforço de memória enumero algumas expressões recorrentes: • preopinante. Não é preciso ir ao dicionário para que este adjetivo nos deixe transparecer um sujeito enfatuado que opina com ignorância, precipitadamente, antecipando-se a outros mais habilitados para o fazer. E tudo isto numa única palavra! • discretear. De discreto. Conversar com discrição, placidamente. Uma expressão próxima mas longe do mesmo significado seria divagar. • cochilar (dormitar). Verbo lindo mais usado no Brasil, já raramente ouvido e escrito em Portugal. • batucar... (...prosa, um artigo, uma notícia, etc.) De batuque. Claro que o verbo está dicionarizado e não se trata de palavra perdida. Registo-a pela originalidade de uma expressiva analogia fonética com o banal teclar numa máquina. • envilecer (tornar vil, miserável). O verbo, tão desusado, é consideravelmente mais áspero que o comum desprezar. De Manuel Monteiro retenho solífugo, (sole + fugere, fugir) — extravagante definição de uma criatura noctívaga (humana, no seu livro) que execra a luz solar (foge do sol), vivendo em permanência nas trevas. O autor do romance O Suave e o Negro saberá que ao desentranhar esta palavra vai assarapantar muitos leitores? Estou em crer que sim: sabe. Entrevejo-lhe um secreto e voluptuoso propósito de nos fazer perscrutar o dicionário. Foi o meu caso. Está perdoado. O vocábulo é arrevesado, reconheço no entanto que o vizinho noctívago (que vagueia de noite) não possui o mesmo significado. A propósito de noite, calha bem uma recordação de há trinta anos. Saíra um novo livro de Maria Velho da Costa, comecei a lê-lo... e... tropecei logo à sexta linha da primeira página. A autora está a descrever uma paisagem noturna, escura, que esconde uma bela e quieta cidade. Poderia transmitir a visão daquela cidade como se a mesma fosse uma joia protegida pelo arvoredo e pela própria noite densa. Em vez disso escreve uma só palavra: escrínio. Escrínio?! Que bicho medonho é este? Perguntei a quem estava próximo: — Escrínio. Sabes o que é um escrínio? A ignorância veio afagada de ironia: — Incrível não saberes o que é um escrínio! Fui ver. Escrínio, meus senhores, em português de lei quer dizer guarda-joias. Não mais esqueci a palavra e depois disso tomei conhecimento que se publicaram pelo menos três livros em língua portuguesa integrando a palavra escrínio nos respetivos títulos. Comigo, que já me vou demorando na vida quase tanto como os zambujos, acontece-me uma felicidade infantil de cada vez que aprendo uma palavra nova. Em tempo: zambujo, ou seja, uma oliveira brava. © PEDRO FOYOS

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

http://www.casaldasletras.com/pedro_traco_oficio.html DO OFÍCIO Manuel Monteiro e a Literatura nos Cuidados Intensivos da Gramatologia Manuel Monteiro

Manuel Monteiro viu abrir-se-lhe um caminho auspicioso ao vencer o prémio Novos Talentos FNAC Literatura 2012. Uma distinção merecidíssima. O autor, de trinta e poucos anos, definiu-se numa recente entrevista como «jornalista-escritor-revisor-formador». Todavia, a sua maior ambição é tornar-se «escritor a tempo inteiro», desígnio verosímil quando estamos perante uma segunda criação literária que concorre decisivamente para a plena evidência de uma vocação prenunciada há quatro anos. Foi em 2008 que Manuel Monteiro publicou a ficção demanda ou a cor nunca vista, prefaciada por um querido camarada de ofício, José Alberto Braga. A nova obra, O Suave e o Negro, também de ficção, merece ser lida e recomendada. Foi o que entretanto fez Fernando Dacosta, outro antigo companheiro da faina jornalística, qualificando-a como «obra muito própria, bastante original e com uma invulgar energia criativa e comunicativa». Exercício encantatório, o do leitor, na descoberta de uma original malha ficcional, subvertendo e desconstruindo paradigmas correntes e superando a trivializada carpintaria do enredo. Faz falta à literatura portuguesa obras que desafiem matrizes dadas como imutáveis. Na verdade, é ténue o enredo, na aceção popular de novela, nesta história que flui em torno de duas personagens centrais (uma das quais é o narrador), desempenhando uma relação sórdida entre a malignidade e a subserviência, com todos os limites ultrapassados no percurso pausado de duas linhas paralelas – luz e sombra, o Bem e o Mal – que sempre acabam por cruzar-se. É penoso construir uma personagem repulsiva. Exige tempo escavado a pá pequena, tempo para sulcar à volta dela, com destreza de jardineiro, um vazio pestífero, esperar que a rega funérea gota a gota vá impregnando as folhas do livro, depois estercar as pulsões da maldade, da impiedade, até ao auge de o leitor lhe ansiar a morte. Esse foi o trabalho de mestria de Manuel Monteiro durante três quartos da obra, revelando igual proficiência ao contrariar a vontade do leitor e da justiça básica: a personagem diabólica chega ao epílogo com apreciável vigor e aparente empenhamento em prosseguir na "senda do mal", algures na eternidade. Assumindo-se como revisor literário, atividade que tem exercido nos últimos anos, também nessa vertente deve ser apreciado o labor peculiar de Manuel Monteiro. Uma vez entrado nesse limbo da revisão, presume-se que andará com a gramática ao colo, mesmo no papel de escritor, como deixa transparecer sem discrição ao longo deste livro. Originalidade divertida, decerto irrepetível: a personagem-narrador permanece do princípio ao fim sob vigilância gramatical do autor, que, assumindo-se como revisor, vai advertindo (em brevíssimos itálicos entre parêntesis) para escorregadelas estilísticas, frases de efeito, repetições vocabulares, clichés e até, inesperadamente, assinala uma prolepse (!), algo de que eu não ouvia falar desde as lições do saudoso Professor Lindley Cintra. As oportunas admoestações do autor-revisor regem-se sempre pela sensatez e fidelidade escolástica, mesmo quando, nas páginas derradeiras da obra, a relação entre ambos se desventura de forma insuprível. Desta mostra se infere que Manuel Monteiro jamais deixará de ser revisor, quanto mais não seja de si próprio e em exclusivo quando passar a «escritor a tempo inteiro». Faz parte do seu código genético, como fica bem dizer. Surpreende e anima encontrar um escritor jovem tão cioso do rigor gramatical em toda a extensão da alquimia linguística, das minudências aos pecados capitais, passando pelos pecadilhos que, parafraseando Aquilino, «nem vale a pena acusar na confissão», como são as infindas expressões redundantes que a todo o momento se acomodam ao hábito da fala ou da escrita. Outro pecadilho, porém já merecendo penitência, é a comezinha pontuação cujo emprego descuidado pode desestruturar um bom texto. Manuel Monteiro interpreta de modo original o tema da revisão de textos: «Às vezes, penso que a profissão que mais se aparenta com a do revisor é a do árbitro de futebol. Estranha comparação, dir-se-á em primeira análise. A verdade é que o único aspeto visível do trabalho de ambos é o erro. Dá-se pela existência de tais ofícios apenas quando eles falham». Regresso ao mote desta crónica, a obra O Suave e o Negro, particularizando a já aludida desavença final entre o autor e o narrador-personagem. Ao contrário do que ocorreria com um romance policial, não trará ao leitor o mínimo inconveniente a revelação de que neste livro as coisas entre ambos (autor e personagem) acabam mal. Muito mal. Eis: Figurava-se o livro terminado, pronto a recolher à estante, quando o narrador resolve, por autorrecreação (ou seja, à revelia do autor), vazar uma arenga superescatológica, em absoluto imprópria para menores e maiores de idade, atolando mais de três páginas do excelente papel-marfim com que a QuidNovi imprime as suas edições. Compreende-se que o autor tenha sido então de uma enorme rispidez, não acolhendo a desculpa de que tudo aquilo era o que ia pela cabeça do narrador. Com a sensatez a que nos habituara desde o princípio do livro deliberou (e bem, se me permitem notar) que a arenga não se revestia de qualquer valor literário. Óbvio (acrescento ainda) que tal ponderação nada tinha que ver com gramática e muito menos com estilística literária. Mas nada feito. O narrador-personagem insiste: «(...) quero apresentar as minhas reflexões...». Perante isto, o autor toma uma decisão inflexível e brada (o verbo não consta, mas pressente-se um murro na mesa): «Não, o livro acaba aqui. E agora acaba mesmo». Dois centímetros abaixo surge, não menos vigorosa, a palavra FIM. Ah, este teria sido o mais viril ponto final dos livros de ficção: por imposição máscula do autor sobre uma personagem insubordinada. Afinal não acaba. No caos de se ver despejada do livro, a personagem consegue devanear, solitária e delirante, por mais seis páginas confessionais, aventurando-se possivelmente a encetar ali mesmo um novo livro. Rende-se por fim. Não há mais lastro. O chiquérrimo papel-marfim tão apetecível deverá ter chegado ao limite do estipulado para este volume. Na hora de averiguar responsabilidades, cabe interpelar o autor e a editora: por que aparecem estas páginas excrescentes no final do livro? Estou a ver o autor a alijar-se com um assobiozinho prò ar: «De minha responsabilidade é quanto está escrito até à palavra FIM. Quanto ao mais, desculpem lá...». Argumentará a QuidNovi, com um trejeito de desagravo: «Então, nós, diga-me cá, iríamos alguma vez interferir numa criação literária?! Com franqueza!». Sim, há também a empresa responsável pela finalização oficinal do "produto", a gráfica Rainho & Neves, que por sinal já imprimiu um livro meu; tenho esses profissionais no melhor conceito, não julgo plausível que atendam as personagens que lhes batam à porta a exigir de peito feito um acrescentozinho a uma obra que está lá para imprimir. Conclui-se, enfim, que andará por aí, perdida, essa personagem à procura de um autor, rebento tardonho de Pirandello. Acalenta agora ambição maior que meia dúzia de páginas. Já tem todo um livro na cabeça, só lhe falta um autor. Um bom autor, colaborante, benevolente, se não for exigir de mais. Não será a única. O mundo alternativo da literatura está apinhado de personagens atingidas pelo desemprego, outras cujo pendor político as arrastou para a vida clandestina, mas em geral desfrutam de notoriedade na praça pelo bom carácter e cadastro limpo de safadezas. Os tempos mudaram imenso depois do vovô Pirandello, que se viu a braços com apenas seis personagens à procura de um autor. Agora é diferente, a concorrência é tremenda. São muitas-muitas as personagens nessa aflitiva situação de cinto apertadíssimo, endividamento imparável, nula capacidade reivindicativa e não dispondo sequer do óbolo governamental de um rendimento social de inserção. Acresce o enguiço da língua que desmotiva uma escapada emigratória e a confusão ortográfica nos PALOP também não ajuda nada. Custe o que custar teremos de admitir que não existe espaço e oportunidade para todas as personagens. Não duvido, porém, que uma mão cheia delas — as mais aptas em qualquer palco para impressionar intensamente os leitores — serão num futuro próximo convocadas pelo escritor Manuel Monteiro. © PEDRO FOYOS

Como escreveu Fitzgerald, se queres saber alguma coisa, pergunta a um escritor, porque ele tem uma opinião sobre tudo

http://www.revistabula.com/posts/web-stuff/50-frases-celebres-de-escritores-classicos
«Rosas espalhadas pela neve. Chega até mim o seu perfume. As pétalas são como brasas no gelo. Não sei explicar, mas tudo ganha uma beleza que antes não tinha.» José Tolentino de Mendonça, O Estado do Bosque