sábado, janeiro 12, 2013

Voltando a reler sobre o Unabomber, numa rara entrevista concedida, volto a mergulhar no fascínio de alguém que realmente abandonou o sistema na sua componente mais difícil de abandonar - a tecnologia. Aluno brilhante, professor de Matemática numa prestigiada faculdade nos EUA, um notável académico deixou tudo e foi viver para e da Natureza. Unabomber conta que sempre teve esse plano. Com 11 anos, leu Robinson Crusoe e sentiu o apelo de viver entre povos primitivos, longe da civilização industrial. Leria livros sobre as tribos primitivas (ou «sem escrita») perguntando-se: porque quero tanto saber sobre como se vive longe da tecnologia? Até que a reflexão mudou: eu não quero saber como se vive lá, eu quero é viver lá, onde a tecnologia não mora. A ideia consolidou-se e Unabomber já só queria trabalhar até àquele ponto em que tivesse dinheiro para comprar um terreno e largar tudo. Entretanto, ia lendo sobre que plantas poderia comer e não comer. Aos 29, fê-lo. Na entrevista, Unabomber conta o que é viver longe de tecnologia. Acorda com a luz do sol, sai para arranjar mantimentos, numa procura que demora cerca de sete horas. Volta à sua cabana, prepara os alimentos, come. Descreve a estupenda sensação que advém no final do dia - o corpo cansado e feliz, a mente livre, leve, satisfeita. Podia estar simplesmente a olhar o fogo de uma fogueira que criou, a contemplar a Natureza sentado fora da sua cabana ou pela janela da cabana. Diz que nestes decénios nunca teve um momento de tédio. Nem de ansiedade ou tristeza. Consegue contemplar os objectos familiares da cabana ou ouvir o vento e isso produz-lhe um bem-estar que o percorre de alto a baixo. «A felicidade não é o prazer máximo, mas a paz e a tranquilidade nos momentos mortos.» Não sente um átomo de aborrecimento. Acrescenta que a beleza escondida nas coisas é algo que só se desoculta quando se vive na Natureza - e que quem não vive nela não poderá compreendê-lo. Sublinha que os sentidos ficam muito mais activos quando se vive na Natureza, que não os embota como o mundo industrial. Explica que o homem tem três tipos de necessidades: as que podem satisfazer mediante pouco esforço, mediante bastante esforço e as necessidades que não pode satisfazer de forma alguma. Diz que na Natureza as segundas prevalecem (ao contrário do mundo cá fora em que são a primeira e a terceira) e que é isso dá ao homem a autonomia no seu processo de poder. O homem precisa de sentir que percorre o processo de poder com autonomia, por si, e que isso só é possível se ele tiver de lutar para satisfazer as necessidades básicas (até o seu próprio vestuário Ted, o Unabomber, «confeccionava») - não artificiais, não criadas, intemporais, aespaciais. Os objectivos que tem não são impostos de fora, nem por alguém. Os meios de alcançar esses objectivos não são impostos de fora, nem por alguém.

1 comentário:

Anónimo disse...

Há muitos pessoas novas que se retiram para a natureza e para uma vida espiritual, porque se sentem uns falhados na sociedade. Acho que era o caso deste maluco.

Cristina