sexta-feira, janeiro 25, 2013

Um pescador saiu para apanhar um peixe durante quatrocentos dias. É o que sinto ao insistir em ler Miguel Esteves Cardoso. Um peixe tão bom em cada quatrocentas crónicas, que me faz pensar que vale a pena lê-lo todos os dias. Sem falhar. O último peixe: Tenho lido os “poemas mudados para português” por Herberto Helder [HH] no livro a que chamou O Bebedor Nocturno. Logo no “mudados para português” se vê que está bem escrito, acima das velhas desculpas e falsas modéstias das traduções e das traições. É uma obra maior, que ensina que não se pode aprender a escrever. Mas ver escrever bem já é bem suficiente. Nos Quinze Haikus Japoneses que mudou para português, HH escolheu um de Kikaku que Bashô depois corrigiu. Kikaku escreveu: “Libélula vermelha./Tira-lhe as asas:/um pimentão.” Segue-se a “Correcção de Bashô”: “Pimentão vermelho./Põe-lhe umas asas:/Libélula.” A correcção é gigante. O original pega numa coisa bonita (a libélula) e tira-lhe um acessório (as asas) para mostrar que é parecida com uma coisa feia (um pimentão). Bashô e HH mostram que é melhor transformar uma coisa banal (pimentão) numa coisa mágica (libélula), dando-lhe asas. É melhor acrescentar do que remover, fazer pensar do que fazer troça. A libélula não precisa de ser vermelha ou de adjectivo sequer – é das cores do arco-íris. Já o pimentão tem de ser vermelho, porque há verdes e amarelos. Depois, é melhor a indefinição de “umas asas” (quaisquer) do que “as asas” (daquela única libélula). Como voa mais a maiúscula da única palavra da terceira linha (“Libélula.”) do que as minúsculas de “um pimentão”. A nossa língua renasceu.