quinta-feira, janeiro 31, 2013

o amor no asilo alguém estranho veio para dividir meu quarto na casa que era doente da cabeça, uma rapariga insana como os pássaros. encerrando a noite na porta com seu braço sua pluma na cama ela ilude a casa à prova de céu com nuvens e no entanto ela ilude ao caminhar o pesadelo do quarto de mesma imensidão que a morte ou navega o imaginado oceano do homem. ela veio possuída deixando entrar a luz iludida através das paredes, possuída pelos céus. ela dorme no estreito enquanto caminha por entre a poeira e grita à vontade por entre os cômodos do hospício que definham no andar de minhas lágrimas. apanhado pela luz em seus braços por último e até o fim - eu vou sem medo de errar sofrer a visão primeira que há de atear fogo às estrelas. Dylan Thomas

quarta-feira, janeiro 30, 2013

- Descobri aquela que é a maior angústia do ser humano. Não é a morte, não é a doença, não é o desemprego, não é o envelhecimento, não é a separação de quem gostamos, não é detestar o que se faz profissionalmente, não é ser comido por percevejos. A maior angústia por que um homem pode passar é ter de gerir duas relações ao mesmo tempo e às escondidas.

As pessoas crescidas

As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu gatinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos. Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almoço, com uma escovinha especial. Aconteceu-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de gengivas cor-de-rosa escondidas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas. Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia neles era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes do mundo: os bichos da seda e os guarda-chuvas de chocolate. Também não gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possuíam 12 a mania incompreensível dos banhos e das pastas dentífricas e quando se referiam diante de mim a uma parente loira, muito simpática, muito pintada, muito bem cheirosa e mais bonita que eles todos, desatavam a falar francês olhando-me de banda com desconfiança e apreensão. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido. Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam- -me por senhor doutor e há séculos que ninguém se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo provocando em mim uma comichão no nariz que me tornava lânguido e que aprendi mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor que o de mastigar estearina ou aplicar tesouradas na franja. Ou rasgar papel pela linha picotada. Ou mostrar um sapo à cozinheira e vê-la tombar de costas, de olhos revirados, derrubando as latas que anunciam Feijão, Grão e Arroz e que na realidade contêm massa, açúcar e café. Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece é convidar a parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Peço ao criado que nos traga duas doses de guarda- -chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de plástico mostro-lhe a minha colecção de gafanhotos numa caixa de cartão. Posso estar enganado mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos tão jovens como os meus, quase que aposto que ela há-de gostar. António Lobo Antunes

terça-feira, janeiro 29, 2013

O início do livro, sempre importante

http://www.telegraph.co.uk/culture/culturepicturegalleries/9817505/30-great-opening-lines-in-literature.html?frame=2458291

Entrevista

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/a-conversa-com-manuel-monteiro-i.html#comment-form

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Sempre imaginei o cristão-socialista ideal como aquele se numa floresta uma árvore solitária sem folhas e envelhecida - a abraça não a largando. Aquele que consegue ver uma pedra triste, dar-lhe um nome e o seu sorriso até que a sua alegria não seja inferior à das outras. Que consegue ver os objectos de uma casa que são mais desfavorecidos e abandonados e revitalizá-los com o seu amor.

Carrilho, o português mais lúcido sobre as novas tecnologias

Seria cómico se não fosse trágico

January 25, 2013 WHY WE SHOULD MEMORIZE Posted by Brad Leithauser Much of our daily lives would be dizzyingly unrecognizable to people living a hundred years ago: what we wear and what we eat, how we travel, how we communicate, how we while away our leisure time. But, surely, our occasional attempts to memorize a poem would feel familiar to them—those inhabitants of a heyday of verse memorization. Little has changed. They, too, in committing a poem to memory, underwent a predictable gamut of frustrations: the pursuit of stubbornly elusive phrases, the inner hammering of rote repetition, tantalizing tip-of-the-tongue stammerings, confident forward marches that finish in an abrupt amnesiac’s cul-de-sac. Actually, if the process has altered over the years, perhaps we feel the difficulties of the task more acutely than our ancestors did. As a college professor of writing and literature, I regularly impose memorization assignments, and I’m struck by how burdensome my students typically find them. Give them a full week to memorize any Shakespeare sonnet (“Hey,” I tell them, “pick a really famous one—Shall I compare thee to a summer’s day?—and you’ve already got the first line down”), and a number of them will painfully falter. They’re not used to memorizing much of anything. In what would have been my prime recitation years had I been born in an earlier era—junior high and high school—little memorization was required of me. But in early boyhood I did a fair amount of it. My mother, who had literary ambitions, paid me a penny a line to memorize poems. The first one I mastered was Tennyson’s “The Eagle” (“He clasps the crag with crooked hands”), which brought in a haul of six cents. Opportunistically, I moved on to the longer “Casey at the Bat” (“It looked extremely rocky for the Mudville nine that day”) and Byron’s “The Destruction of Sennacherib” (whose title I mispronounced for decades), which netted me fifty-two cents and twenty-four cents respectively. Some Longfellow, some Frost. I straggled through Coleridge’s “Kubla Khan” and enough of his “The Ancient Mariner” to purchase a couple of candy bars. It sounds whimsical and entertaining now, but I suspect some dead-serious counsel lay behind my mother’s beaming encouragement. I think she was tacitly saying, “Stick with poetry—that’s where the money is.” It turned out to be levelheaded advice. Today, I pay my bills by talking to my students about poetry, and about stories and novels and essays—ultimately, about memorable cadences, about the music that occasionally lifts off of words carefully deployed on a page. * * * It’s tempting to sentimentalize an era in which poetry—memorized, recited poetry—held so prominent a place in the culture. But its once-substantial role turns out to be a mixed and complicated tale, as thoroughly chronicled in Catherine Robson’s new “Heart Beats: Everyday Life and the Memorized Poem.” Reared in England, now a professor at N.Y.U., Robson compares classroom procedures in Britain and the United States during the years when recitation held a sizeable and official slot in the curriculum (roughly 1875 to 1950). The rationales for verse recitation were many and sometimes mutually contradictory: to foster a lifelong love of literature; to preserve the finest accomplishments in the language down the generations; to boost self-confidence through a mastery of elocution; to help purge the idioms and accents of lower-class speech; to strengthen the brain through exercise; and so forth. And the construction of a canon—the choice of which poems ought to be assigned to students at various grade levels—grew out of a collision of nationalistic zeal, piety, commercial enterprise (the success or failure of various competitive “readers”—what we would call textbooks), thoughtless imitation, and a fair amount of what looks like happenstance. Robson grounds her book with three “case studies.” (She occasionally takes on a dry, clinical tone.) The first is Felicia Hemans’s “Casabianca,” a poem that survives today largely as a first line (“The boy stood on the burning deck”), with a vague suspicion that what follows has often been parodied. (Poor Tom Sawyer was afflicted by it in the classroom.) The second may be the most celebrated of eighteenth-century English poems, Thomas Gray’s “Elegy Written in a Country Churchyard.” The third is a poem previously unknown to me, Charles Wolfe’s charming ballad “The Burial of Sir John Moore after Corunna.” Each poem was at one time universally embraced, both by society and by educators. “The Burial of Sir John Moore” has a likably homespun texture and offers, from a pedagogical standpoint, a salutary lesson about the triumph of courage over grandeur. (General Moore died, in 1809, in Spain, while leading his troops to a magnificent long-shot victory over the French, and his last words were, “I hope my country will do me justice.” Military exigency did not allow time for a suitable burial—a lack for which the poem seeks to indemnify him.) But the other two poems look like extremely peculiar candidates for widespread memorization. The forty-line “Casabianca,” which was put to memory by countless pre-adolescents, is grotesquely grisly: it tells the tale of a boy sailor who, while prudence is shouting at him to beat a hasty retreat, dutifully remains at his post (“he would not go / Without his Father’s word; / That father, faint in death below, / His voice no longer heard”), and, as a consequence, is blown to smithereens. As for Gray’s lovely, leisurely, dusky elegy, nothing much happens in its hundred and twenty-eight lines, and, as a result, his many scene-setting stanzas are easily confused and transposed by the would-be memorizer; to hold it all in one’s head is a somewhat perverse feat, like those jigsaw-puzzle aficionados who, finding their task insufficiently challenging, put the puzzle together face-side-down. Though “Casabianca” and “The Burial of Sir John Moore” are actually nineteenth-century poems, they partake of that misty, moss-and-granite melancholy one associates with those of Gray’s contemporaries known as the Graveyard Poets (or the Boneyard Boys). These were a pallid bunch, for whom cemeteries were what bars and brothels would be for many French poets of the nineteenth century—a comfy home away from home. They were continually reminding us that we all have one foot in the grave. It’s a weighty burden to drop on the scrawny shoulders of some ten-year-old boy or girl, standing hunched and terrified before a scowling, correction-bent teacher. * * * My late colleague Joseph Brodsky, who died in 1996, used to appall his students by requiring them to memorize something like a thousand lines each semester. He felt he was preparing them for the future; they might need such verses later in life. His own biography provided a stirring example of the virtues of mental husbandry. He’d been grateful for every scrap of poetry he had in his head during his enforced exile in the Arctic, banished there by a Soviet government that did not know what to do with his genius and that, in a symbolic embrace of a national policy of brain drain, expelled him from the country in 1972. Brodsky was a nonpareil in various ways, not least in being the only teacher I knew who continued to smoke during class as the air-purifying nineties rolled around. He loved to recite poetry. The words emerged through smoke, and a thick Russian accent, but the conviction and import were unmistakable: to take a poem to heart was to know it by heart. I’m struck by how, in the seventeen years since his death, the meaning and justifications for verse memorization have shifted. The effort in its acquisition may be the same, but we’d be naïve to suppose the necessity behind it is unaltered. Memorized poems are a sort of larder, laid up against the hungers of an extended period of solitude. But today we are far less solitary than we were even a few years ago. Anyone equipped with a smartphone—many of my friends would never step outdoors without one—commands a range of poetry that beggars anything the brain can store. Let’s say it’s a gorgeous afternoon in October. You’re walking through a park, and you wish to recall—but can’t quite summon—the opening lines of Keats’ “To Autumn.” With a quick tap-tap-tap, you have it on your screen. You’re back in the nineteenth century, but you’re also in the twenty-first, where machine memory regularly supplants and superannuates brain memory. So why undergo the laborious process of memorizing a poem these days, when—tap, tap, tap—you have it at your fingertips? Has this become another outmoded practice? When I was a Boy Scout, in the sixties, I spent some hours trying to learn Morse code and even, on a couple of overly sunny, headachey afternoons, trying to communicate by flag semaphore. Some things were meant to disappear. (And many of my students wish that assignments to memorize poems would follow them.) The best argument for verse memorization may be that it provides us with knowledge of a qualitatively and physiologically different variety: you take the poem inside you, into your brain chemistry if not your blood, and you know it at a deeper, bodily level than if you simply read it off a screen. Robson puts the point succinctly: “If we do not learn by heart, the heart does not feel the rhythms of poetry as echoes or variations of its own insistent beat.” After all this time, I still have every word of Tennyson’s “Eagle.” He’s a literal part of me, which perhaps accounts for his splendid supremacy in my imagination. No other bird I’ve encountered in poems since—not Keats’ nightingale, or Hardy’s thrush, or Frost’s oven bird, or Clampitt’s kingfisher—can compete with him, roosting as he does in an aerie at the top of the world. Here’s the poem in entirety: He clasps the crag with crooked hands; Close to the sun in lonely lands, Ring’d with the azure world, he stands. The wrinkled sea beneath him crawls; He watches from his mountain walls, And like a thunderbolt he falls. Six cents. It was a cheap thrill, and an everlasting one. Brad Leithauser’s most recent novel is “The Art Student’s War.” His new and selected poems, “The Oldest Word for Dawn,” will appear in February. Read his pieces on “Peter Pan,” “The Turn of the Screw,” and two ways of looking at fiction. Read more: http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/01/why-we-should-memorize.html#ixzz2JIVw1CYcJanuary 25, 2013 WHY WE SHOULD MEMORIZE Posted by Brad Leithauser Much of our daily lives would be dizzyingly unrecognizable to people living a hundred years ago: what we wear and what we eat, how we travel, how we communicate, how we while away our leisure time. But, surely, our occasional attempts to memorize a poem would feel familiar to them—those inhabitants of a heyday of verse memorization. Little has changed. They, too, in committing a poem to memory, underwent a predictable gamut of frustrations: the pursuit of stubbornly elusive phrases, the inner hammering of rote repetition, tantalizing tip-of-the-tongue stammerings, confident forward marches that finish in an abrupt amnesiac’s cul-de-sac. Actually, if the process has altered over the years, perhaps we feel the difficulties of the task more acutely than our ancestors did. As a college professor of writing and literature, I regularly impose memorization assignments, and I’m struck by how burdensome my students typically find them. Give them a full week to memorize any Shakespeare sonnet (“Hey,” I tell them, “pick a really famous one—Shall I compare thee to a summer’s day?—and you’ve already got the first line down”), and a number of them will painfully falter. They’re not used to memorizing much of anything. In what would have been my prime recitation years had I been born in an earlier era—junior high and high school—little memorization was required of me. But in early boyhood I did a fair amount of it. My mother, who had literary ambitions, paid me a penny a line to memorize poems. The first one I mastered was Tennyson’s “The Eagle” (“He clasps the crag with crooked hands”), which brought in a haul of six cents. Opportunistically, I moved on to the longer “Casey at the Bat” (“It looked extremely rocky for the Mudville nine that day”) and Byron’s “The Destruction of Sennacherib” (whose title I mispronounced for decades), which netted me fifty-two cents and twenty-four cents respectively. Some Longfellow, some Frost. I straggled through Coleridge’s “Kubla Khan” and enough of his “The Ancient Mariner” to purchase a couple of candy bars. It sounds whimsical and entertaining now, but I suspect some dead-serious counsel lay behind my mother’s beaming encouragement. I think she was tacitly saying, “Stick with poetry—that’s where the money is.” It turned out to be levelheaded advice. Today, I pay my bills by talking to my students about poetry, and about stories and novels and essays—ultimately, about memorable cadences, about the music that occasionally lifts off of words carefully deployed on a page. * * * It’s tempting to sentimentalize an era in which poetry—memorized, recited poetry—held so prominent a place in the culture. But its once-substantial role turns out to be a mixed and complicated tale, as thoroughly chronicled in Catherine Robson’s new “Heart Beats: Everyday Life and the Memorized Poem.” Reared in England, now a professor at N.Y.U., Robson compares classroom procedures in Britain and the United States during the years when recitation held a sizeable and official slot in the curriculum (roughly 1875 to 1950). The rationales for verse recitation were many and sometimes mutually contradictory: to foster a lifelong love of literature; to preserve the finest accomplishments in the language down the generations; to boost self-confidence through a mastery of elocution; to help purge the idioms and accents of lower-class speech; to strengthen the brain through exercise; and so forth. And the construction of a canon—the choice of which poems ought to be assigned to students at various grade levels—grew out of a collision of nationalistic zeal, piety, commercial enterprise (the success or failure of various competitive “readers”—what we would call textbooks), thoughtless imitation, and a fair amount of what looks like happenstance. Robson grounds her book with three “case studies.” (She occasionally takes on a dry, clinical tone.) The first is Felicia Hemans’s “Casabianca,” a poem that survives today largely as a first line (“The boy stood on the burning deck”), with a vague suspicion that what follows has often been parodied. (Poor Tom Sawyer was afflicted by it in the classroom.) The second may be the most celebrated of eighteenth-century English poems, Thomas Gray’s “Elegy Written in a Country Churchyard.” The third is a poem previously unknown to me, Charles Wolfe’s charming ballad “The Burial of Sir John Moore after Corunna.” Each poem was at one time universally embraced, both by society and by educators. “The Burial of Sir John Moore” has a likably homespun texture and offers, from a pedagogical standpoint, a salutary lesson about the triumph of courage over grandeur. (General Moore died, in 1809, in Spain, while leading his troops to a magnificent long-shot victory over the French, and his last words were, “I hope my country will do me justice.” Military exigency did not allow time for a suitable burial—a lack for which the poem seeks to indemnify him.) But the other two poems look like extremely peculiar candidates for widespread memorization. The forty-line “Casabianca,” which was put to memory by countless pre-adolescents, is grotesquely grisly: it tells the tale of a boy sailor who, while prudence is shouting at him to beat a hasty retreat, dutifully remains at his post (“he would not go / Without his Father’s word; / That father, faint in death below, / His voice no longer heard”), and, as a consequence, is blown to smithereens. As for Gray’s lovely, leisurely, dusky elegy, nothing much happens in its hundred and twenty-eight lines, and, as a result, his many scene-setting stanzas are easily confused and transposed by the would-be memorizer; to hold it all in one’s head is a somewhat perverse feat, like those jigsaw-puzzle aficionados who, finding their task insufficiently challenging, put the puzzle together face-side-down. Though “Casabianca” and “The Burial of Sir John Moore” are actually nineteenth-century poems, they partake of that misty, moss-and-granite melancholy one associates with those of Gray’s contemporaries known as the Graveyard Poets (or the Boneyard Boys). These were a pallid bunch, for whom cemeteries were what bars and brothels would be for many French poets of the nineteenth century—a comfy home away from home. They were continually reminding us that we all have one foot in the grave. It’s a weighty burden to drop on the scrawny shoulders of some ten-year-old boy or girl, standing hunched and terrified before a scowling, correction-bent teacher. * * * My late colleague Joseph Brodsky, who died in 1996, used to appall his students by requiring them to memorize something like a thousand lines each semester. He felt he was preparing them for the future; they might need such verses later in life. His own biography provided a stirring example of the virtues of mental husbandry. He’d been grateful for every scrap of poetry he had in his head during his enforced exile in the Arctic, banished there by a Soviet government that did not know what to do with his genius and that, in a symbolic embrace of a national policy of brain drain, expelled him from the country in 1972. Brodsky was a nonpareil in various ways, not least in being the only teacher I knew who continued to smoke during class as the air-purifying nineties rolled around. He loved to recite poetry. The words emerged through smoke, and a thick Russian accent, but the conviction and import were unmistakable: to take a poem to heart was to know it by heart. I’m struck by how, in the seventeen years since his death, the meaning and justifications for verse memorization have shifted. The effort in its acquisition may be the same, but we’d be naïve to suppose the necessity behind it is unaltered. Memorized poems are a sort of larder, laid up against the hungers of an extended period of solitude. But today we are far less solitary than we were even a few years ago. Anyone equipped with a smartphone—many of my friends would never step outdoors without one—commands a range of poetry that beggars anything the brain can store. Let’s say it’s a gorgeous afternoon in October. You’re walking through a park, and you wish to recall—but can’t quite summon—the opening lines of Keats’ “To Autumn.” With a quick tap-tap-tap, you have it on your screen. You’re back in the nineteenth century, but you’re also in the twenty-first, where machine memory regularly supplants and superannuates brain memory. So why undergo the laborious process of memorizing a poem these days, when—tap, tap, tap—you have it at your fingertips? Has this become another outmoded practice? When I was a Boy Scout, in the sixties, I spent some hours trying to learn Morse code and even, on a couple of overly sunny, headachey afternoons, trying to communicate by flag semaphore. Some things were meant to disappear. (And many of my students wish that assignments to memorize poems would follow them.) The best argument for verse memorization may be that it provides us with knowledge of a qualitatively and physiologically different variety: you take the poem inside you, into your brain chemistry if not your blood, and you know it at a deeper, bodily level than if you simply read it off a screen. Robson puts the point succinctly: “If we do not learn by heart, the heart does not feel the rhythms of poetry as echoes or variations of its own insistent beat.” After all this time, I still have every word of Tennyson’s “Eagle.” He’s a literal part of me, which perhaps accounts for his splendid supremacy in my imagination. No other bird I’ve encountered in poems since—not Keats’ nightingale, or Hardy’s thrush, or Frost’s oven bird, or Clampitt’s kingfisher—can compete with him, roosting as he does in an aerie at the top of the world. Here’s the poem in entirety: He clasps the crag with crooked hands; Close to the sun in lonely lands, Ring’d with the azure world, he stands. The wrinkled sea beneath him crawls; He watches from his mountain walls, And like a thunderbolt he falls. Six cents. It was a cheap thrill, and an everlasting one. Brad Leithauser’s most recent novel is “The Art Student’s War.” His new and selected poems, “The Oldest Word for Dawn,” will appear in February. Read his pieces on “Peter Pan,” “The Turn of the Screw,” and two ways of looking at fiction. Read more: http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/01/why-we-should-memorize.html#ixzz2JIVw1CYc

domingo, janeiro 27, 2013

sábado, janeiro 26, 2013

O Suave e o Negro 5

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/homenagem-f-scott-fitzgerald.html

Que palavra

irresistibilíssimo

Os Três Mal-Amados de João Cabral de Melo Neto

Joaquim: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Um pescador saiu para apanhar um peixe durante quatrocentos dias. É o que sinto ao insistir em ler Miguel Esteves Cardoso. Um peixe tão bom em cada quatrocentas crónicas, que me faz pensar que vale a pena lê-lo todos os dias. Sem falhar. O último peixe: Tenho lido os “poemas mudados para português” por Herberto Helder [HH] no livro a que chamou O Bebedor Nocturno. Logo no “mudados para português” se vê que está bem escrito, acima das velhas desculpas e falsas modéstias das traduções e das traições. É uma obra maior, que ensina que não se pode aprender a escrever. Mas ver escrever bem já é bem suficiente. Nos Quinze Haikus Japoneses que mudou para português, HH escolheu um de Kikaku que Bashô depois corrigiu. Kikaku escreveu: “Libélula vermelha./Tira-lhe as asas:/um pimentão.” Segue-se a “Correcção de Bashô”: “Pimentão vermelho./Põe-lhe umas asas:/Libélula.” A correcção é gigante. O original pega numa coisa bonita (a libélula) e tira-lhe um acessório (as asas) para mostrar que é parecida com uma coisa feia (um pimentão). Bashô e HH mostram que é melhor transformar uma coisa banal (pimentão) numa coisa mágica (libélula), dando-lhe asas. É melhor acrescentar do que remover, fazer pensar do que fazer troça. A libélula não precisa de ser vermelha ou de adjectivo sequer – é das cores do arco-íris. Já o pimentão tem de ser vermelho, porque há verdes e amarelos. Depois, é melhor a indefinição de “umas asas” (quaisquer) do que “as asas” (daquela única libélula). Como voa mais a maiúscula da única palavra da terceira linha (“Libélula.”) do que as minúsculas de “um pimentão”. A nossa língua renasceu.
I´ve learned that to be with those I like is enough. Walt Whitman
E se Keats não tivesse morrido aos 25 anos? E se Sá-Carneiro não tivesse morrido aos 26 anos? Talvez Deus os tenha colhido porque a sua escrita se tornaria tão encandeante, que faiscaria o leitor que se dissiparia ante um clarão que nenhum mortal poderia suportar.
Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que passam pela experiências sem o paladar se lhes demorar - sem lhes guardar o sabor. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que não se sentam a contemplar o ocaso do Sol. Pessoas que não se demoram a ver o mar. Pessoas que não são capazes de estar em casa a ouvir o rugir do vento, o som da chuva, sorrindo no sofá, deitando-se na cama. Pessoas que não sorriem e não falam às flores. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que estão sempre a fazer qualquer coisa da vida prática e que sentem as coisas importantes da vida como perda de tempo. Não gosto de pessoas rápidas. Dificilmente, cultivarão o afecto. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que tentam despachar a comunicação pelas novas tecnologias e que vêem as conversas e as pessoas como assuntos a despachar na agenda tendo em vista um determinado fim de interesse pessoal. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que no fim-de-semana utilizam o despertador. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que se dispersam em múltiplos estímulos, em nada mergulhando até às profundezas. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que não conseguem ter momentos em que a alma se recolhe. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que não têm consciência da morte. Não gosto de pessoas rápidas. Pessoas que não meditam seriamente. Pessoas sem metafísica. Sem poesia. (Dons que só se cultivam com tempo.) Não gosto de pessoas rápidas. Que não têm conversas longas, demoradas, profundas, íntimas - aquelas que fazem a vida valer a pena. Não gosto de pessoas rápidas. Que não escutam o Outro, que não desenvolvem e aprimoram a sensibilidade para com os problemas do Outro. Pessoas que não sabem o que é o ofício da paciência. Não gosto de pessoas rápidas. Que não conseguem estar sozinhas no centro do quarto consigo mesmas. Que não sonham.
Um amigo meu que conhece o Herberto Helder (escritor que ponho nos píncaros!) diz que ele recusa prémios não por integridade, mas por vaidade. Luiz Pacheco disse o mesmo. Até que ponto uma autopreservação de uma imagem de integridade não pode ser derivada de um culto da vaidade? É complicado julgar. Como disse o Lobo Antunes: quanto mais compreendo, menos julgo. Mas pergunto-me se um prémio ou a publicação de um livro não são a mesma coisa. Conseguir publicar é ser escolhido entre muitos. Tentar ser publicado é no fundo tentar ser premiado.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Não se pode falar de democracia se a democracia não abrange, não aceita, se expulsa os que pugnam contra ela - se exclui os antidemocracia. Também a ditadura acolhe no seu seio aqueles que a defendem e expulsa aqueles que propugnam por ela. Como as distinguir então?

Ler para crer

http://www.meionorte.com/noticias/internacional/egito-liberara-que-maridos-facam-sexo-com-esposas-mortas-ate-6-horas-depois-de-morte-164093.html

terça-feira, janeiro 22, 2013

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segunda-feira, janeiro 21, 2013

sábado, janeiro 19, 2013

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Crias um nome e adjectivo acoplados. Pensas: será que alguém criou? Muitas vezes, o Google diz-te que sim. Basta um para ficares triste. Desta vez, nenhum. Olhos talássicos.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

A bíblia de Passos por MANUEL MARIA CARRIlLHO Sempre que diz que não, agora já sabemos que é sim. Ano e meio de governação revelaram a função eminentemente táctica da negação no estilo de governo de Pedro Passos Coelho: foi assim com tudo, os subsídios de férias e de Natal, as reduções de salários, as amputações de funções nucleares do Estado, o ataque às pensões, etc. Trata-se de um tática batida, de eficácia bem reconhecida, que não se deve menosprezar: é a tática de avançar mascarado, jurando sempre respeitar o que se despreza, e rejeitar o que se venera. O resto são meros expedientes e pequenos truques, fáceis para quem gere o poder. Foi assim que, depois de se ter fixado arbitrária e secretamente um valor de cortes que se pretende fazer no Estado (os tais quatro mil milhões de euros), se inventou um tema suficientemente vago - a refundação - que permitisse abrir caminho para o atingir negando estar a fazê-lo, jogando assim às escondidas com os parceiros sociais, os partidos políticos, a opinião pública, afinal com todos os portugueses. O tema já leva três meses de laracha, e ainda não foi apresentada uma só proposta, uma ideia que fosse ou um único objetivo, para lá do tal valor fetiche dos quatro mil milhões, a que também ninguém explicou como é que se chegou. Seria útil e não devia ser difícil!... Claro que se prometeu um debate, um "debate nacional" evidentemente. Mas como debater o que literalmente não existe? Este anúncio é parte da panóplia dos truques: ao anunciar esses debates sempre futuros sobre um projeto sem existência concreta, o que se visava era sobretudo - como se de uma inoculação se tratasse - ir transformando o anúncio numa decisão incontornável. Tão incontornável que a simples referência ao tema acabasse afinal por... dispensar todos os debates. Foi o que aconteceu. E os que agora se montaram à pressa são - como bem se viu ontem e anteontem no Palácio Foz, com o fórum "Pensar o Futuro - um Estado para a Sociedade" - uns indignos arremedos de qualquer discussão séria, que ilustram sem equívocos a extrema degradação política, intelectual e ética a que a conceção e a prática do debate chegaram com este governo. O lance decisivo da manobra foi, contudo, outro. Ele consistiu em atirar-se para aí com um "relatório" do FMI, um relatório "muito bem feito", dizia com uma obscena e incontida excitação o secretário de Estado que o divulgou. Um relatório que, todavia, das pergunta enunciadas às respostas escondidas, das palavras escolhidas às que foram cuidadosamente evitadas, passando pelos números grosseiramente manipulados, se revela uma mera encomenda governamental sem qualquer credibilidade. Mas o relatório não é só desonesto, ele é também medíocre. A sua mediocridade técnica é, de resto, o que mais imediatamente revela a sua natureza política e ideológica. Pedro Passos Coelho veio, claro, dizer que não se trata da "bíblia" do Governo... Mas os portugueses, agora, já sabem que quando Passos diz que não, é porque é sim! O momento, no entanto, é propício para se perceber e dizer algo mais, e mais importante: é que a bíblia de Passos não é só este relatório. Independentemente do seu destino, e do que dele venha de facto a ser adoptado, a bíblia de Passos é a de um ultraliberalismo estruturalmente fanático. De um ultraliberalismo que nunca tínhamos visto em ação em Portugal, e cujas características ideológicas e políticas infelizmente têm sido descuradas - e, isso sim, é que devia ser objeto de um exigente debate político nacional. A ideia, repito, foi a de avançar mascarado. Mas este ultraliberalismo tem como que traído Passos Coelho em todos os momentos de verdade (sobre a constituição, o emprego, a emigração, as funções sociais, os impostos, etc.), revelando as suas verdadeiras convicções e intenções ideológicas. É esta forma de liberalismo - na verdade é muito mais "ultra" do que "neo" - que, de um modo ora mais engenhoso ora mais atamancado, tem definido a natureza, a ação e os objetivos do atual governo. A sua ambição fundamental é a mercantilização integral da sociedade, num quadro em que a competição dispensa completamente a cooperação, e em que o mercado é afirmado e assumido como a única forma de organização social plenamente legítima. Nada mais conta! É aliás neste ponto que o ultraliberalismo (F. Hayek, G. Becker etc.) se distingue do liberalismo clássico (A. Smith, Ricardo, etc.), que visava restringir a intervenção do Estado no mercado, distinguindo duas racionalidades, a política e a económica. O ultraliberalismo, pelo contrário, defende a generalização sem quaisquer limites do modelo de mercado a todas as áreas e a todas as atividades da sociedade. Defende também que se faça da finança - apesar de todos os desmentidos factuais dos últimos anos - o modelo de eficiência desse mesmo mercado. E defende ainda que tal seja feito por um intervencionismo político e jurídico radical. É exatamente tudo isto que, neste momento, está em curso em Portugal. A ideologia ultraliberal é clara: é preciso subordinar todas as racionalidades, sejam elas a política, a social, a cultural, a educativa, etc., a uma só e mesma racionalidade, que é a do mercado: é esta, e só esta, a inspiração do "relatório" do FMI. Passos Coelho segue sem reservas este fanatismo ultraliberal, é ele que dá coerência a todas as suas declarações, mesmo - ou sobretudo - quando o nega. O que ele ambiciona para Portugal é pôr o Estado sob a vigilância permanente e sob controlo constante do mercado, é governar não só para o mercado mas, fundamentalmente, em função do que a lógica mercantil quer da sociedade. Nesta perspectiva, inédita em Portugal mas que é hoje absolutamente clara no discurso do Governo, é a economia que verdadeiramente passa a controlar e a fundar a política, impondo-lhe os seus objetivos - e isto é que é, afinal, a "refundação". É por isso um erro pensar-se que o seu adversário é apenas o Estado social - na verdade, o seu adversário é todo o Estado, o Estado tout court. Qual é o interesse de noções como "bem comum", "bem-estar social", "interesse geral", perguntava há já algumas décadas F. Hayek, nesse clássico do ultraliberalismo que é "A Estrada para a Escravidão"? Nenhum, respondia, são ideias a combater, como acontece com as de autonomia, de contrato social, de comunidade, de soberania. São meras ilusões que é preciso eliminar, como tudo aquilo que valorize os sentimentos comuns dos cidadãos ou quaisquer perspetivas unificadoras da sociedade. "A sociedade não existe" é o dogma central deste ultraliberalismo, para quem só existem os indivíduos na sua pluralidade e, claro, o mercado na sua divindade . É esta a "bíblia" de Passos Coelho.

O Suave e o Negro 4

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/manuel-monteiro-le-charles-bukowski.html

Vale mesmo a pena clicar para aumentar e ler. Que prodígio de tratado.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

O Suave e o Negro 3

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/a-minha-vida-de-revisor.html
Muito sobreestima a universidade quem pouco leu fora dela.

O Suave e o Negro 2

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/cronologia-de-um-escritor.html

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Gonçalo M. Tavares alerta para o perigo da eficácia que se exige ao homem moderno. A máquina de fotocópias não falha porque não tem emoções - imprime com a mesma eficácia uma carta de amor e uma sentença de morte. Funcionário, lembra, é o termo hodierno do trabalhador e é um termo perigoso - aquele que funciona. Lembremo-nos da fotocopiadora.

O Suave e o Negro

http://www.blogclubedeleitores.com/2013/01/folhas-de-erva-de-walt-whitman-por.html
Tergiversando as palavras de Eugénia de Vasconcellos, eis duas definições. Ao poeta que não escreve uma única linha e exerce a sua poesia continuamente chamamos místico. Ao matemático que é analfabeto de números chamamos músico.
Ele foi em tempos um homem tremendamente respeitado na sua profissão até que uma nova tecnologia a que não se soube adaptar determinou a sua reforma antecipada - e com os anos cada vez tem necessidade de falar mais e mais furiosamente sobre a sua antiga reputação. «Eu era uma pessoa tremendamente respeitada!» Ele caiu na exclusão social com pormenores que não enumero. A crua e dura exclusão social. Sempre que falava comigo, ele precisava de contar como tinha muitos amigos, muitas namoradas lindas, como toda a gente o escutava e lhe pedia opinião e quantas pessoas ajudou na vida. Ela envelheceu muito e os comprimidos incharam-na. Nunca como agora mostrou tantas fotografias do passado. «Os homens na praia estavam sempre a olhar para as minhas mama. Fazia sempre top less. Eu era um sex symbol. Fui miss, tive inúmeros convites para modelo e para a televisão.»

domingo, janeiro 13, 2013

Do terror das multidões

Uma vez, numa discoteca em que estava, foi lançado um gás. Íamos todos sair pelas portas de emergência e se todos tivéssemos obedecido e saído a operação teria decorrido em dois minutos. Mas o comportamento de cada uma daquelas pessoas ali ficou caótico e estúpido agindo em multidão. Nas praias, um economista verificou a correlação entre uma praia suja e a propensão para o indivíduo deitar o lixo no lixo. Quanta mais suja já está a praia, maior a propensão para aquele que chega de deitar o lixo no chão. Também num bar, quanto mais indivíduos «fazem merda», mais a probabilidade de cada um de fazer merda. Há comentários e comentários na Internet, petições, espirais de insultos que seguem o princípio da psicologia das multidões. Como se o pior de cada um viesse à tona numa multidão. Nas manifestações, nos comícios, no trânsito nas buzinas compulsivas em filas, nas festas em que a multidão compele cada indivíduo a beber o copo: BEBE, BEBE, BEBE... em todos esses sítios, sempre vi os outros agir como autómatos, boçais por vezes, acéfalos muitas. Lobo Antunes diz que saiu do PCP porque o assustavam aquelas bocarras abertas a gritar e mãos todas sincronizadas. Mesmo entre amigos, entre pessoas com quem quando estou a dois são fraternas, lúcidas, sensíveis; mesmo entre os dilectos, quando estão em número grande, o machismo, a obviedade das piadas, a vulgaridade emanam de uma forma que me espanta.
As pessoas que conheço com mais mundo não são as mais viajadas. De longe.

sábado, janeiro 12, 2013

Raridades

É difícil, muito difícil rir-me por intermédio da escrita. Mas fartei-me de rir com Pulp de Bukowski que li em cinco dias. Até a dedicatória tem piada. Só me tinha rido com Miguel Esteves Cardoso, José Alberto Braga, Woody Allen. O quarto. Chorar, só chorei com O Enforcado de Orwell.
gualdipério s. m. 1. [Burlesco] Engano, perfídia. 2. Traição de namorado.
Voltando a reler sobre o Unabomber, numa rara entrevista concedida, volto a mergulhar no fascínio de alguém que realmente abandonou o sistema na sua componente mais difícil de abandonar - a tecnologia. Aluno brilhante, professor de Matemática numa prestigiada faculdade nos EUA, um notável académico deixou tudo e foi viver para e da Natureza. Unabomber conta que sempre teve esse plano. Com 11 anos, leu Robinson Crusoe e sentiu o apelo de viver entre povos primitivos, longe da civilização industrial. Leria livros sobre as tribos primitivas (ou «sem escrita») perguntando-se: porque quero tanto saber sobre como se vive longe da tecnologia? Até que a reflexão mudou: eu não quero saber como se vive lá, eu quero é viver lá, onde a tecnologia não mora. A ideia consolidou-se e Unabomber já só queria trabalhar até àquele ponto em que tivesse dinheiro para comprar um terreno e largar tudo. Entretanto, ia lendo sobre que plantas poderia comer e não comer. Aos 29, fê-lo. Na entrevista, Unabomber conta o que é viver longe de tecnologia. Acorda com a luz do sol, sai para arranjar mantimentos, numa procura que demora cerca de sete horas. Volta à sua cabana, prepara os alimentos, come. Descreve a estupenda sensação que advém no final do dia - o corpo cansado e feliz, a mente livre, leve, satisfeita. Podia estar simplesmente a olhar o fogo de uma fogueira que criou, a contemplar a Natureza sentado fora da sua cabana ou pela janela da cabana. Diz que nestes decénios nunca teve um momento de tédio. Nem de ansiedade ou tristeza. Consegue contemplar os objectos familiares da cabana ou ouvir o vento e isso produz-lhe um bem-estar que o percorre de alto a baixo. «A felicidade não é o prazer máximo, mas a paz e a tranquilidade nos momentos mortos.» Não sente um átomo de aborrecimento. Acrescenta que a beleza escondida nas coisas é algo que só se desoculta quando se vive na Natureza - e que quem não vive nela não poderá compreendê-lo. Sublinha que os sentidos ficam muito mais activos quando se vive na Natureza, que não os embota como o mundo industrial. Explica que o homem tem três tipos de necessidades: as que podem satisfazer mediante pouco esforço, mediante bastante esforço e as necessidades que não pode satisfazer de forma alguma. Diz que na Natureza as segundas prevalecem (ao contrário do mundo cá fora em que são a primeira e a terceira) e que é isso dá ao homem a autonomia no seu processo de poder. O homem precisa de sentir que percorre o processo de poder com autonomia, por si, e que isso só é possível se ele tiver de lutar para satisfazer as necessidades básicas (até o seu próprio vestuário Ted, o Unabomber, «confeccionava») - não artificiais, não criadas, intemporais, aespaciais. Os objectivos que tem não são impostos de fora, nem por alguém. Os meios de alcançar esses objectivos não são impostos de fora, nem por alguém.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Olhando para a História, vemos que os absurdos do passado tiveram sempre durante largos períodos de tempo a aquiescência das maiorias. Não desprezemos por isso as minorias mais minoritárias do presente.
Ele tem um automóvel que paga em prestações caríssimas e uma casa barata. «Mas a minha casa poucos vêm e o meu carro vêm todos na rua...» Ela avalia o interesse de um homem pela quantidade de mulheres que tem aos pés. Ele não consegue dizer se uma pessoa é interessante ou inteligente. Só depois de saber estatuto. «Ah, é professor doutorado, sim, eu vi logo que era um cabeça!» Ela não consegue receber uma pessoa em casa se não estiver tudo arrumadinho, se não estiver bem vestida e com o frigorífico cheio. «Parece tão mal, o que é que as pessoas vão pensar sobre mim? Que sou uma pobretanas?» Quando não se tem uma identidade bem sulcada, a necessidade de mecanismos de validação externa e a assimilação acrítica dos caminhos seguidos pelo rebanho são maiores.
- Não podia ser comunista quando todos os proletários que eu conhecia queriam ser burgueses.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Other Voices...

sábado, janeiro 05, 2013

O que vou dizer não diminui um atomozinho da repugnância do horror e da repugnância ante o crime e da evidente compaixão pelas vítimas. Mas é em tempos difíceis, é perante os crimes mais tenebrosos que testamos a solidez dos princípios. Na Noruega, a moldura penal não foi alterada após o massacre. Na Índia, não podemos aceitar que os arguidos não tenham direitos a advogado (todos se recusaram) nem que a pena de morte seja excepcionalmente aplicada. O estadista e o legislador têm de pairar acima da espuma dos dias.

(E o exercício necessário não é a solução penal - é a difícílima batalha de igualitarismo sexual. Basta ver o tratamento dado pela polícia às mulheres violadas, a justificação dos políticos para as violações - quem usa saia curta e se arranja sujeita-se, dizem - para se perceber o elevado número de abusos sexuais.)

sexta-feira, janeiro 04, 2013

O malandreco por António Lobo Antunes


Porque motivo já não me chamas malandreco? A primeira vez foi quando falámos ao telefone, a seguir ao encontro na pastelaria: estavas sozinha e eu estava sozinho, em mesas ao lado um do outro, levantaste o dedo a fim de pedir um pacote de açúcar ao empregado, o meu chá trazia um pacote a mais no pires e ofereci-to, começamos a falar disto e daquilo, gostei do anel de prata
(de prata?)
no polegar, dos brincos de prata
(de prata?)
grandes nas orelhas, triângulos enormes a imitarem filigrana, gostei das unhas cada uma da sua cor, castanho, verde, azul, amarelo, adiantei com respeito
- Parece um arco-íris
sorriste de agradecimento
(pareceu-me que subscrevias a ideia do arco-íris)
um assunto puxou o outro, passámos dos méritos comparados da tília e da menta, no que se refere ao acalmar dos nervos, a assuntos vagamente mais íntimos, trabalho, dentista, a osteoporose da tua mãe, a osteoporose da minha, apiedámo-nos das pobres senhoras, reflectimos em conjunto acerca dos pavores da velhice
(dentaduras postiças, insónias, rugas)
trocámos telefones depois de espreitares o relógio e declarares que tinhas um primo à espera
(não acreditei no primo, sou desconfiado por natureza)
no dia seguinte, não, passados dois dias marquei o teu número, demoraste a lembrar-te de mim, o nome Honório não te despertava nada, repetiste
- Honório, Honório
escarafunchando a memória que o pacote de açúcar acabou por iluminar, o pacote de açúcar mais importante do que eu, fiz-to notar num requebro triste, respondeste em tom sedutor
- Gosto de coisas docinhas
e eu à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, eu desesperadamente à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, julga-se que é fácil mas não é, meu Deus a capacidade que têm as coisas docinhas de se escapar da gente, meu Deus o meu silêncio aflito tapado com uma tossezita oportuna, antes de desligares tu
- Então um beijinho
eu, numa sem vergonha de tímido que me espantou
- Onde é que o ponho?
tu, num gorjeio 
- Malandreco 
repeti, orgulhoso de mim
- Onde é que o ponho?
sem perceber que ela já tinha desligado, apeteceu-me marcar o número de novo, pesei os prós e os contras
(o meu pai tantas vezes, prudente
- Antes de agires pesa os prós e os contras
santo homem a descansar nos Prazeres sem pesar prós e contras nenhuns, para sempre liberto de dúvidas que o faziam suar:
- Repara nas minhas palmas todas molhadas)
pesei os prós e os contras e decidi não marcar, as mulheres necessitam de tempo para metabolizarem em sossego as nossas palavras, tão diferentes da gente
(o meu pai, por uma vez definitivo
- É outra raça
e é outra raça de facto, paizinho, devia tê-lo escutado mais vezes, só compreendemos o valor das pessoas quando as perdemos)
tão sensíveis, tão frágeis
(começo a não acreditar nisso)
marquei o número quinta-feira e reconheceu-me logo
- Olá, malandreco 
e eu feliz, sou malandreco que me farto, não faz ideia da malandrequice que tenho, acertámos um segundo chá que terminou de novo com o relógio e o primo, não mencionando a despedida rápida
- O jantar de aniversário de uma tia nossa, que maçada a família
um terceiro chá em que não existia arco-íris, as unhas todas vermelhas, compridas, de gel, provocando-me alterações psico-somáticas que o pudor me impede de referir, meias pretas, saltos altos, um penteado de cabeleireiro exagerando as ditas alterações ao ponto de ter receio de, felizmente controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia
(querido paizinho, tão bondoso, tão discreto, um ás nas palavras cruzadas do jornal ao ponto da minha mãe, criatura de elogio difícil, garantir
- Para as palavras cruzadas não havia como ele
e a gente os dois, de luto, a sorrirmos num orgulho triste, até ela acrescentar
- Nem nisso sais a ele e os sorrisos darem lugar a soslaios de ódio discreto)
controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia, convidei-te para o cinema de sábado à tarde e recusaste porque o teu primo necessitava de ti a fim de visitarem uma parente afastada num lar
(- Já lhe deram três ou quatro ataques, coitadinha
e uma vida por um fio, soros, algálias)
convidei-te para passearmos em Belém no domingo, o rio, os pescadores, essas tretas, com sorte um abraço, com sorte aquilo que os escritores denominam olhares significativos, dava sei lá o quê por um olhar significativo mais unhas vermelhas, mais meias pretas, mais brincos grandes, mais a minha psico-somaticidade aos saltos, mais um abraço, quero um abraço, exijo um abraço, não me recuse um abraço, porque razão é má para mim, chamar-te
- Má
chamar-te
Mazona
e, com o
Mazona
uma palmadinha terna no rabiosque, tudo o que imploro é uma palmadinha terna no rabiosque, seguida de um olhar enternecido, grato, sublinhado por um arrulho 
- Malandreco 
interminável, mas domingo, desgraçadamente, o aniversário do primo, o teu comentário
- Se eu não for é uma barraca do caneco
e eu parvo com o vocabulário, uma barraca do caneco deixou-me sem fala, levantaste-te da mesa à pressa, esporeada pelo maldito relógio
- Tenho de ir
e fiquei para ali diante de dois chás, abandonado, sozinho, tão tonto que mal dei pela frase do empregado, ao entregar-me o troco, a rosnar com desprezo
- Estes travestis
que nem dei pelo comentário do empregado
- Estes travestis
na esperança que alguém, atrás de mim, me sussurrasse 
- Malandreco 
para me sentir, nem que fosse por um segundo, apenas um segundo, um modesto, pobre, miserável segundo, para me sentir, por um segundo, feliz.


Ler mais: http://visao.sapo.pt/antonio-lobo-antunes=s23489#ixzz2GurOsIuB

TECE, TECE, MINHA ROBUSTA VIDA
Tece, tece, minha robusta vida,
Tece mais um soldado, vigoroso e preparado para grandes campanhas que hão-de vir,
Tece o sangue vermelho, tece os músculos como cordas, tece os sentimentos e a vista,
Tece firmemente para que dure, tece dia e noite a teia, a urdidura, tece sem parar, sem te cansares,
(Ignoramos para quê, ignoramos a intenção, o fim, nem, na verdade, sabemos seja o que for,
Mas conhecemos a obra, a necessidade continua e há-de continuar, a marcha da paz, envolta em morte, há-de continuar como a guerra,)
Para as grandes campanhas de paz tece do mesmo modo os duros fios,
Ignoramos porquê e para quê, mas tu, ó vida, tece, tece sempre.

Walt Whitman
Vejo que incorporo gnaisse e carvão e a longa malha de musgo e as frutas e grãos e raízes comestíveis/ Estou inteiro revestido de pássaros e quadrúpedes/E longe do que está atrás de mim por boas razões/Mas chamo qualquer coisa para perto de mim quando quiser.

Walt Whitman

quinta-feira, janeiro 03, 2013


O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho - e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma - é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado."O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa "cantar no suplício" é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema.
Eugénio de Andrade

Mutantes por Manuel Maria Carrilho

Seremos nós, hoje, seres mutantes? Será que as transformações
tecnológicas e culturais das últimas décadas nas sociedades
desenvolvidas são mudanças que apenas alteram, embora às vezes muito
substancialmente, as características, as rotinas e as expectativas do
ser humanos?
Ou estaremos, o que é muito diferente, face a uma verdadeira mutação,
isto é, perante um conjunto de alterações mais profundas e radicais,
que permitem falar da emergência de um novo perfil antropológico do
próprio ser humano?
Esta é uma questão decisiva, talvez mesmo a mais decisiva que hoje
podemos colocar, tanto do ponto de vista político como numa perspetiva
civilizacional. E ela abre um debate que alimenta, e vai animar nos
próximos tempos, muitas e variadas controvérsias, que não vão ser
fáceis de decidir, num ou noutro sentido.
Eu aposto na via da mutação. Faço-o não por uma qualquer simpatia com
a perspetiva da rutura, mas porque me parece que se multiplicam os
fatores de diferenciação e, sobretudo, de não-retorno, que apontam
nesse sentido. Vejamos alguns, tal como se apresentam em três
experiências nucleares de qualquer ser humano, como são as do corpo,
do tempo e da comunicação com as novas tecnologias.
Vive-se hoje quase mais um terço do que se vivia há um século. Mas
este dado objetivo, por si só absolutamente notável, trouxe com ele
mudanças subjetivas tão inéditas como extraordinárias em termos de
modo e de qualidade de vida.
Quase desapareceram os elementos que faziam parte da experiência
central e imemorial da humanidade, como a dor, a febre ou o
sofrimento, que deram lugar a um corpo que é vivido como uma garantia
de bem estar, que torna normal pensar alcançar a felicidade na terra,
sem ter de se esperar pela "outra" vida.
Viver muito, e bem, foi uma transformação que mudou radicalmente a
relação do indivíduo contemporâneo com o seu próprio corpo, que passou
a ser vivida de um modo mais positivo, nomeadamente valorizando sem
complexos todo o domínio dos sentimentos e das emoções.
Mas enquanto o corpo se tornou mais subjetivo, o tempo, pelo
contrário, tornou-se cada vez mais objetivo, externalizando-se e
impondo à vida de todos um ritmo cada vez mais vertiginoso, dominado
por todo o tipo de urgências.
Como se corrêssemos para a morte, que justamente por isso temos de
ignorar! Com efeito, no tempo tradicional, a morte aparecia como uma
perspetiva, uma experiência e um horizonte, digamos, naturais.
O indivíduo contemporâneo, ao invés, baniu a morte do seu tempo, da
sua proximidade e da sua experiência, como se tratasse de um
impensável quase absoluto que apenas se tolera na animação ecrãnica.
As novas tecnologias, por sua vez, criam um contexto inédito para
estas mutações na forma de viver o corpo e o tempo - é com elas que
verdadeiramente se troca de fase, no sentido da mutação antropológica.
É que com elas, e nomeadamente com o telefone portátil e com o
computador pessoal, com os smartphones e os tablets, a definição do
ser humano passa a ser dada pela sua conectabilidade: a sua identidade
decorre fundamentalmente não do seu enquadramento familiar,
profissional ou social, mas de estar "ligado", e das modalidades desta
conexão.
Mas estar "ligado" significa, paradoxalmente, para o homo digitalis
poder desligar-se de tudo - seres humanos, ambiente de trabalho,
ligações familiares, etc. - o que o rodeia. Facto que, embora traduza
uma nova e enorme dependência, é em geral vivido como uma libertação.
E não como uma libertação qualquer, mas como uma libertação que abre o
caminho a um sentimento de jubilatória omnipotência.
Como se, quanto mais descontextualizado se estivesse, mais forte um
indivíduo se pudesse tornar, ilusão dificilmente contestável na medida
em que ela lhe oferece "um" mundo que lhe permite, afinal, ignorar o
mundo, mesmo todo o mundo.
Para um ser humano "ligado", o tempo é apenas o da atualidade, que
impõe o curto-termismo. Uma atualidade que invade - como se a pudesse
substituir - a própria vida interior dos indivíduos, ao mesmo tempo
que os priva de qualquer visão global sobre a sociedade a que
pertencem.
O que acontece porque se vive num regime de aceleração que dilui a
perceção as várias temporalidades num presente perpétuo,
excitantemente extático, em que os acontecimentos se multiplicam na
razão inversa da compreensão do seu sentido.
O tempo comprime-se, o atordoamento instala-se, vive-se com a
angustiante noção - que contraria todas as promessas da utopia
tecnológica - de que realmente não há tempo para nada.
Os tão badalados como incompreendidos problemas de disciplina escolar,
de incivilidade e de falta de educação da juventude, nascem justamente
dessa desconexão entre os vários ambientes, ou contextos, em que os
jovens hoje vivem, o digital e o natural. Em que o primeiro é
considerado vital e suscita uma crescente fidelidade e o segundo é
visto como descartável e é votado a um crescente desprezo.
As consequências de tudo isto são imensas e avassaladoras: basta
pensar que, pela primeira vez na história da humanidade, a identidade
dos indivíduos é construída não pelo sentimento de pertença e de
integração num coletivo, mas pela sua radical des-pertença, por um
nomadismo identitário que não segue nenhuma rota nem procura qualquer
destino
Nota: na crónica da semana passada, o valor a que se refere François
Lenglet no livro, que cito, 'Qui va payer la criseuro?', é 'mille
milliards', isto é, um bilião na nomenclatura portuguesa. Número que
tem não nove mas doze zeros. A correção do lapso, devida ao leitor,
aqui fica.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Quando a poesia me faz exclamar: FODA-SE!

aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarna, que é por onde se faz com que a luz se faça,
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto possa pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus setenta e sete vezes êrro
de sobre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim, pedofilia, crime gravíssimo
¿ mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defesa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-te agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso

Herberto Helder