segunda-feira, dezembro 31, 2012


O dedo levantado
Herman Hesse
O Mestre Dyu-Dschi era – conforme nos contam –
de maneiras caladas, suave e modesto,
que renunciou às palavras e aos ensinamentos,
porque  a palavra é aparência, e evitar qualquer aparência
era sua preocupação.
Quando os alunos, os monges e os noviços,
apreciavam brilhar em conversas elevadas
com ditos espirituais sobre o supremo anseio,
sobre o porquê do mundo,
ele os observava em silêncio, evitando qualquer exagero.
E quando lhe perguntavam, vaidosos ou sérios,
sobre o significado das escrituras antigas,
sobre o nome de Buda, a iluminação,
o princípio e o fim do mundo, permanecia
em silencio e, lentamente, apontava apenas
com o dedo levantado para o alto.
E com este sinal mudo, convincente,
foi-se tornando cada vez mais terno:
advertiu, ensinou, elogiou, castigou, indicou
de maneira tão própria o coração do mundo
e da verdade que, com os anos,
mais de um discípulo compreendeu o delicado
levantar de seu dedo,
despertou e estremeceu.

«Sou Fédor Mikhailovich Dostoievski. Permita-me entrar e mostrar-lhe as muitas vidas que arranquei da minha vida. Seremos um, nos porões da inquietude.»
IV Horas Mortas
O tecto fundo de oxigénio, d´ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta,
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nessa massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!


Cesário Verde

DEUS
I
Largos anos passei, aí no mundo,
A pensar, meditando na existência
De Deus, - o Ser de paz e de clemência,
Fonte de todo o amor puro e fecundo.
Eu fiz, na sua busca, estudo fundo
Através toda a humana consciência,
E dos ínvios caminhos da Ciência
Pela Terra, no Mar, no Céu profundo.
Bem desejava achá-lo, amá-lo e vê-lo.
E servi-lo, adorá-lo e conhecê-lo.
Em doce crença inalterável, viva.
Mas não o vi jamais, porque, mesquinho,
Enveredei aí por mau caminho:
- O trilho da ciência positiva.
II
Eu devia buscá-lo onde Ele mora:
Na suma perfeição da Natureza
E no esplêndido encanto e na beleza
Do Céu, do Mar, da Luz, da Fauna e Flora.
Eu podia encontrá-lo em cada hora
Nessa vida: no Amor e na Pureza,
Na Paz e no Perdão, e na Tristeza
E até na própria Dor depuradora.
Mas eu andava cego e nada via;
E a Vaidade escolheu para meu guia
A Ciência falaz, enganadora!
Se o Guia fosse a Fé ou a Bondade,
Vê-lo ia daí na Imensidade,
Como, em verdade, O vejo em tudo agora.

Anterio de Quental

http://www.slideshare.net/IaraCrissiumal/ziraldo-flicts-ilustrado

sábado, dezembro 29, 2012

O Governo brasileiro adiou a aplicação obrigatória do novo acordo ortográfico em três anos, para 1 de Janeiro de 2016, de acordo com o decreto publicado no “Diário Oficial da União”. Até então, o decreto promulgado em 2008 previa a aplicação obrigatória das novas regras em Janeiro de 2013, já na terça-feira. A iniciativa do adiamento surgiu após um pedido de parlamentares da Comissão de Educação do Senado, que ouviram, numa audiência pública, as críticas [...]

Sugestão de leitura para Passos Coelho, Cavaco Silva (o indultador mínimo) e Paulo Portas (esse «democrata» «cristão»)

Mateus 25:31 Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória;
Mateus 25:32 e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas;
Mateus 25:33 e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda;
Mateus 25:34 então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.
Mateus 25:35 Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;
Mateus 25:36 estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.
Mateus 25:37 Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?
Mateus 25:38 E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?
Mateus 25:39 E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?
Mateus 25:40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

sexta-feira, dezembro 28, 2012


50 frases célebres de escritores clássicos


http://www.revistabula.com/posts/web-stuff/50-frases-celebres-de-escritores-classicos

Joseph E. Stiglitz
 
O ano de 2012 acabou por ser tão mau como eu esperava. A recessão na Europa foi a consequência previsível e (prevista) das políticas de austeridade e de um enquadramento do euro condenado a falhar.
A recuperação anémica dos Estados Unidos – com o crescimento a ser praticamente insuficiente para criar postos de trabalho para quem está agora a entrar na força laboral - foi a consequência previsível e (prevista) do impasse político, que impediu a promulgação do projecto Lei sobre o emprego proposto por Barack Obama e que atirou a economia para o "precipício orçamental".

As duas principais surpresas de 2012 foram o abrandamento dos mercados emergentes, que foi ligeiramente mais acentuado e mais alargado do que o previsto, e as reforma notáveis adoptadas na Europa – apesar de ainda estarem longe do que é necessário.

Olhando para 2013, os maiores riscos estão nos Estados Unidos e na Europa. Pelo contrário, a China tem os instrumentos, recursos, incentivos e conhecimentos para evitar uma "aterragem difícil" da economia – e, ao contrário dos países do Ocidente, não há uma parte significativa do eleitorado que esteja comprometido com as ideias letais da "austeridade expansionista".

Os chineses entendem, correctamente, que devem focar-se na "qualidade" do crescimento – reequilibrando a sua economia das exportações para o consumo doméstico – e não apenas na produção. Mas, apesar desta mudança, e das condições adversas da economia global, o crescimento de 7% deverá manter os preços das matérias-primas, beneficiando assim as exportações de África e da América Latina. Uma terceira ronda de "quantitative easing" por parte da Reserva Federal dos Estados Unidos poderá ajudar, também, os exportadores de matérias-primas, mesmo que tenha pouco impacto no crescimento interno dos Estados Unidos.

A economia dos Estados Unidos, com Barack Obama reeleito, deverá continuar a arrastar-se, tal como aconteceu nos últimos quatro anos. Os indícios de recuperação no mercado imobiliário serão suficientes para desencorajar importantes medidas políticas, como uma redução do valor das hipotecas "underwater" (em que a parte do empréstimo que falta pagar excede o valor de mercado da casa). Mas como o valor real das casas (ajustado à inflação) continua 40% abaixo do anterior pico, é pouco provável que ocorra uma forte recuperação no sector imobiliário (e na indústria da construção).

Entretanto, mesmo que os opositores republicanos de Barack Obama não arrastem o país para o precipício orçamental de aumento automático dos impostos e corte das despesas a 1 de Janeiro de 2013, irão garantir que as suaves medidas de austeridade vão continuar. O emprego no sector público está, actualmente, 600 mil abaixo do nível pré-crise – uma expansão normal implicaria 1,2 milhões de postos de trabalho adicionais. Significa isto, que o défice de postos de trabalho no sector público é de aproximadamente dois milhões.

Mas o verdadeiro risco da economia global está na Europa. Espanha e Grécia estão a atravessar uma depressão, sem sinais de recuperação. O "fiscal compact" da Zona Euro não é solução e as compras de dívida soberana por parte do Banco Central Europeu (BCE) são, no máximo, um paliativo temporário. Se o BCE impuser mais condições de austeridade (como parece que poderá ocorrer na Grécia e em Espanha) em troca de mais financiamento, a cura vai apenas piorar a condição do doente.

Da mesma forma, uma supervisão bancária comum na Europa não é suficiente para evitar a saída de fundos dos países com problemas. Isso exige um programa comum de garantia de depósitos, que o Norte da Europa já avisou que não está nos seus objectivos de curto prazo. Apesar dos líderes europeus terem, repetidamente, feito o que anteriormente era impensável, as suas respostas não têm estado sintonizadas com os mercados. Os líderes europeus têm, constantemente, subestimado os efeitos adversos dos seus programas de austeridade e sobrestimado os benefícios dos seus ajustamentos institucionais.

O impacto da operação de refinanciamento de longo prazo do BCE (LTRO) – no valor de 1 bilião de euros -, que empresta dinheiro aos bancos comerciais para que estes comprem obrigações soberanas (uma operação que parece tão peculiar como o financiamento soberano do BCE para apoiar os bancos), foi de curta duração. Os líderes europeus já reconheceram que a crise da dívida nos países da periferia só vai piorar com a falta de crescimento económico e até já reconheceram (algumas vezes) que a austeridade não ajuda a resolver esta questão. Ainda assim, não conseguiram apresentar um pacote de crescimento eficaz.

A depressão que as autoridades europeias impuseram a Espanha e à Grécia já está a ter consequências políticas. Em Espanha, os movimentos independentistas, em particular na Catalunha, renasceram, enquanto o neo-nazismo está em marcha na Grécia. O euro, criado com o reconhecido objectivo de fomentar a integração de uma Europa democrática, está a ter, precisamente, o efeito contrário.

A lição que podemos tirar daqui é que a política e a economia são inseparáveis. Os mercados, por si só, não são nem eficientes nem estáveis. Mas a política de desregulação deu espaço a excessos sem precedentes que levaram a bolhas de activos e à crise que se seguiu ao seu colapso.

A política da crise levou a respostas que estão longe de serem as adequadas. Os bancos foram salvos mas os problemas de base continuaram a agravar-se – sem surpresa, já que tanto na Europa como nos Estados Unidos, a tarefa de resolver os problemas foi atribuída aos políticos que os causaram. Na Europa, foi a política e não a economia, que levou à criação do euro. Foi a política que criou uma estrutura imperfeita, que mais tarde deu espaço a bolhas mas pouca margem de manobra para lidar com as consequências.

Prever 2013 é prever como é que um governo norte-americano dividido e uma Europa dividida respondem às suas respectivas crises. As bolas de cristal dos economistas estão sempre nubladas, mas as dos cientistas políticos estão ainda mais nubladas. Dito isto, a economia dos Estados Unidos vai, provavelmente, continuar a arrastar-se durante mais um ano; nem será atirada do precipício nem será colocada no caminho da recuperação sustentável. Mas, dos dois lados do Atlântico, a polarização da política da intimidação e da provocação estarão em evidência. O problema com a política da provocação é que, às vezes, alguém fica à beira do desastre.

terça-feira, dezembro 25, 2012

http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n_7_-_web

domingo, dezembro 23, 2012

Ter-se mais tempo

... permite excentricidades.
Como estudar os países que praticam a pena de morte, os recém-abolicionistas.
Estudar as bandeiras de cada país e o que representam.
Chegará o dia em que o Sol vai inchar e transformar-se numa gigante vermelha. Quando isso acontecer, daqui a mais de cinco mil milhões de anos, Mercúrio será engolido, depois Vénus e finalmente a Terra. Mas a vida já terá desaparecido do nosso planeta. A evolução natural de estrelas como o Sol é brilhar cada vez mais. E dentro de mil milhões de anos a temperatura à superfície da Terra será demasiado alta para haver água no estado líquido. Esta não é assim uma preocupação imediata, mas muitas pessoas pensam que o fim do mundo está iminente. 


Esta leitura fez-me lembrar:

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Penso que isto nos deveria diminuir a ambição, atenuar as discussões, a rivalidade, a inveja, as contendas, a vaidade, a ganância.



O economicismo (mais adequado seria dizer nos dias de hoje: o financismo) atinge o máximo do despudor. Calcula-se quanto custam os velhos. Calcula-se (na Suécia) quanto tempo poderá demorar uma pessoa para se determinar o seu seguro de saúde. Calcula-se quanto custam os doentes que escolheram modos de vida poucos saudáveis para se calcular os impostos.
Os sinais são demasiados para não se perceber.
Se a única forma de viver é ser belo, são e empreendedor...
Hitler calculava quanto custava um aluno deficiente e um aluno surdo-mudo ao Estado perante um aluno normal.
O Público apresenta dois círculos azuis com os números de quanto gasta o Estado com os fumadores no seu tratamento dos cancros e outras coisas que tais e de quanto dinheiro dão os fumadores ao Estado via impostos. Há países em que nas urgências os fumadores são preteridos oficialmente - porque escolheram, porque tiveram culpa. O que virá a seguir? Deixar morrer os toxicodependentes? Tirar a prioridade a um sinistrado se este apresentar indícios de álcool? A um doente com sida que não foi cuidadoso? Não há nenhuma razão para retirar a prioridade a um fumador e não tirar a um alcoólico. Ou a um doente cardiovascular que nunca fez desporto. Ou a um obeso.
 E quem não tiver dinheiro para pagar o que custa ao Estado a «escolha» da sua doença?

A teoria da tampa

Quando um dia fui a uma repartição das finanças com ele, fiquei espantado com a paciência que demonstrou perante a petulância e falta de cooperação do funcionário. Cá fora, ele disse-me:
- Angel, tens de ver que esta pessoa pode ter estado a aturar pessoas mal-educadas e burras o dia todo. A tampa dele podia estar já perto da tona quando me atendeu. Aquilo que para mim era uma incógnita para ele era óbvio e ele podia estar cansado de debitar obviedades hoje, basta ter tido clientes mais chatos hoje.
Quando via uma pessoa a tratar mal outra, o patrão o empregado, o empregado o patrão, o marido a mulher, a mulher o marido:
- Não julgues. Não sabes o que está por trás disto. Só vês o último instante, não sabes o longo caudal de manipulação, abuso, maus tratos que estão por trás disto. Qualquer coisa fez saltar a tampa.
Para ele, todos tempos a nossa tampa e todos vamos acumulando na panela - e, muito importante, o tamanho da panela de cada um varia. É a pessoa mais compreensiva que conheço.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Escritor é todo aquele que se sente sujo quando não escreve.

Escritor é aquele que consegue que o leitor se conheça a si próprio e não a ele

Escritor é aquele que não hesita na pergunta: a loucura e a escrita ou a vida?

terça-feira, dezembro 18, 2012

Ele e ela não partilhavam o quotidiano, mas quando comunicavam percebiam que o quotidiano era uma ficção. Quando se encontravam, as brumas do tempo e do espaço dissolviam-se. Devolvidos ao extremo mais profundo das águas mais profundas, no rosto do outro viam transparentemente o seu. Qualquer coisa vibrante, melodiosa, uma centelha divina, lava ardente das profundezas da Terra - a Verdade do seu ser que só nascia na presença do outro. Saíam arrepiados destes encontros - voltando lentamente à realidade irreal, lentamente, como quem entra em águas geladas, vagarosamente, suavemente, desfocadamente, fingindo uma irmandade com o mundo - com o segredo perenemente incrustado nos seus corações.
Cânfora, a minha palavra eufonicamente preferida.

Devo a Joyce lágrimas

http://youtu.be/NRD_UNGE4Zs

http://youtu.be/xmDLiYLow08

domingo, dezembro 16, 2012

Envelhecer é errar menos.

Do mundo editorial hodierno

A figura do editor amante de livros morre todos os dias. Hoje, há negociantes. Pessoas que não percebem nada de livros e que se dedicam ao negócio com o mesmo zelo e gula que se dedicariam a sabonetes ou esferográficas.

As editoras, salvo raríssimas excepções, não lêem originais - se for um desconhecido ou poesia vai direito para o lixo. Uma jornalista da Sábado enviou um livro de Vergílio Ferreira com outro nome de autor, outro título e não obteve uma resposta favorável. Peixoto, já consagrado, ainda recebia cartas de editores a recusar o seu livro (entretanto já publicado e largamente vendido).

Os editores e coordenadores editoriais não são premiados pela qualidade dos livros que escolhem - são unicamente avaliados pela facturação no final do ano.

E depois há uma meia dúzia de editoras que publicam tudo o que se lhe envia. Tudo. Sei de casos em que duas horas após a recepção do original, enviam a missiva enaltecendo o livro e propondo mediante a compra de exemplares a  publicação do mesmo. O que pedem garante-lhes automaticamente lucro com o livro. O problema? Um: a inexistente distribuição (já nem falo em divulgação) do livro.

O homem-forte dos livros concedeu uma entrevista a Anabela Mota Ribeiro em que vestido de piloto de Fórmula 1 asseverava não conhecer Oscar Wilde porque «literatura, poesia e filosofia não lhe interessavam para nada» e «portanto, não sabia nada».




mise en abîme

http://en.wikipedia.org/wiki/Mise_en_abyme
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência

Jorge Luis Borges
Para título de livro: trémula mortalidade.

sábado, dezembro 15, 2012

Promessa

Vou ler o Houaiss da primeira à última página.
- Angel, ela detesta muitas das minhas opiniões e tenta converter-me às dela mostrando o absurdo e a repugnância que sente, mas sei que se sente atraída por eu não mudar, pela convicção que mantenho inalterável.
O contexto genocida em que a frase - inscrita à porta de matadouros humanos - apareceu faz que as pessoas nem a nomeiem.
Mas a frase é boa.
«O trabalho liberta.»
Como tenho sentido isso.
O descanso que sabe tão mais delicioso.
O namoro entre tu e a almofada quando deixou de haver pendentes na cabeça, quando o dever foi cumprido, quando a mente volta a ficar branca sem bichos.
Reflectindo sobre, chego à conclusão de que a frase é verdadeira se reunidas duas condições: ter prazer no que se faz e recolher a sensação de que o que fazemos é útil para alguém.
São poucos os que têm estas duas condições. A maioria das pessoas que conheço trabalha para pagar as contas e ter o seu. Não que seja uma escolha delas, claro está... E, por isso, o trabalho para a maioria não liberta, mas oprime.





Fernando Dacosta recorda quem disse pela primeira vez a frase de hoje «Vivemos acima das nossas possibilidades»: Salazar.

sexta-feira, dezembro 14, 2012


Houaiss e a grandeza * *

Fernando Venâncio **

Pergunta-se o leitor porque chamam fraldiqueiro a certo político? Hesita na regência do verbo interferir? Tropeçou novamente com proactivo? Ignora o que, num texto brasileiro, queira dizer paquera? Disseram-lhe que o papá tem um problema laringotraqueobronquítico? Pergunta a sua filha, de férias, se deu comida ao lambari-de-rabo-vermelho? Não entre em pânico. Está tudo no Houaiss, o maior dicionário da língua portuguesa.

Durante 15 anos, uma equipa de 200 técnicos leu jornais, escutou rádio ou conversas de rua, compulsou glossários, espiolhou novos e velhos dicionários, aventurou-se em antiquíssimos documentos. Assim surgiu a mais completa colecção de palavras nossas. Outros idiomas dispunham, há decénios, de um instrumento semelhante, mas faltava o da terceira língua do hemisfério ocidental. Foi alma da ideia, e orientador dos trabalhos até falecer, o grande linguista brasileiro Antônio Houaiss. O monumental dicionário perpetuará o seu nome.

Publicado no Brasil, em 2001, em papel e CD-ROM, o Houaiss comporta 228 000 termos diferentes. E, visto muitos deles terem mais de uma acepção, atinge 380 000 definições. É obra, e ficamos todos bem-vistos. Tendo-se querido obter «um dicionário da lusofonia», foram reunidos vocábulos de todos os países de língua oficial portuguesa, e é patente uma especial atenção à linguagem de Portugal.

Mas impunha-se uma edição a pensar no nosso país. Não era só a divergência ortográfica a mexer com a ordem das palavras. Também a ordenação nas acepções tinha de ser outra (banheiro é para o brasileiro um lugar, para o português uma pessoa) e questões de oportunidade recomendavam diferente redacção (certa passagem da edição brasileira exemplifica com o partido português UDP, a portuguesa só fala em «o partido»). Um grupo de linguistas portugueses, chefiado por João Malaca Casteleiro, preparou a edição, que apareceu, em 2002, nos seis volumes do Círculo de Leitores e, em 2003, na editora Temas e Debates, em três volumes, com texto idêntico.

As novidades da edição portuguesa, por relevantes que sejam, são percentualmente insignificantes. E, assim, é a todos os directores, brasileiros ou portugueses, que terão de atribuir-se os conseguimentos e os falhanços.

Se alguma coisa logo se impõe à observação, é o encorpado deste dicionário. Luís Fernando Veríssimo, numa bela saída, escrevia, há semanas, nestas páginas: «Só pelo peso dá para ver que não falta nada.» Alguma coisa falta, e não despicienda, mas tem sentido a anotação. Um exame mais detido confirmará essa impressão de envergadura. O número de valores para um mesmo termo é, frequentemente, espantoso. O substantivo vela tem 15 sentidos, trabalho e mão não dispensam 29 cada, e o adjectivo claro tem 35. Há nada menos que 29 tipos de sabiá e 41 de cravo. Do verbo pôr apontam-se 52 acepções, de dar 71, de passar 77. Quanto a erva, não só tem 6 significados, como existem 316 termos que assim começam. Mas o que é mais: a arquitectura dos verbetes é exemplar, não raro convidando a repousada leitura. Claramente, muito foi concebido e redigido de raiz. A inclusão de sinónimos e antónimos (vagaroso tem 53 de uns e 51 de outros) enriquece ainda sobremaneira a pesquisa.

As informações sobre a origem dos vocábulos, não sendo em si novidade, são singularmente detalhadas. Sirvam de exemplo bacano, chique e uma das acepções de giro, a merecerem demorada etimologia. Menos louvável é aduzir, com alguma presteza, obscuridade de origem. Para bera, cafajeste e outros (como o esquecido fajardo) forneceu Orlando Neves – de quem se ignora, de resto, toda a produção dicionarística – aproveitáveis sugestões. Na vastíssima bibliografia, faltam, também, O Eufemismo e o Disfemismo no Português Moderno, de Heinz Kröll, e o Dicionário Aberto de Calão e Expressões Idiomáticas, desde há anos em rede.

O Houaiss informa, igualmente, do ano de entrada no idioma de um grande número de vocábulos. Respeitosíssima, porrada instalou-se em 1139 (terá a ver com a nacionalidade?) e chatice viu-se tomada a sério em 1913. Fica a saber-se que pára-quedas já existia em 1881 e clonar em 1947. Que baquelite data do mesmo ano e plástico, o material, de 1958. Mais recentes, ao menos para os dicionaristas, rapidinha é assinalada em 1960 e fofoca em 1975. Ainda mais próximos, apagão data de 1988 e proactivo de 1993.

Há aqui, todavia, um problema, de resto só parcialmente remediável. O que, muitas vezes, se indica é a data de dicionarização de um termo. Sirva de exemplo, esferográfica, datada de 1966, e que entrou em Portugal, com esse nome, por 1952. Algumas datações poderiam, assim, ver-se corrigidas com recurso a textos de imprensa. É o caso de burocracia, datado de 1881 mas já existente em 1859, de contraproducente, datado de 1973 (!) e que se lê em 1850, de neo-realista, datado de 1930 mas encontrável num periódico lisboeta de 1879. Em geral, as palavras são bem mais antigas do que, singelamente, cremos. Seja ainda exemplo Prontos!, não datado no Houaiss, e que a lenda urbana atribui ao Miguel Esteves Cardoso televisivo dos anos 90, quando o termo era corrente em 1950. Uma achega à próxima edição: o primeiro asa-delta voou, no Brasil, em 1974.

Suplementar vantagem é que as diferenças vocabulares e semânticas entre o Brasil e Portugal encontraram finalmente uma exposição séria, superando-se de vez os vários «dicionários luso-brasileiros» (entre eles o de Mauro Villar, de que se retomam passagens), todos tendendo para o leviano, por vezes anedóticos, aqui e ali aflitivos.

Espelhará o Houaiss o nosso exacto idioma? Sim e não. É nele clara, e virtuosa, a profusão das terminologias reles, como amochar, arranjinho, baldar-se, chanfrado, coninhas, estaleca, penetra, varado, centenas de outros. Quase todos os termos tabu de que o leitor se lembrar estão ali. Depois, muitos neologismos se viram acolhidos, sendo exemplos auto-ajuda, chamativo, cibernauta, mãe de aluguer, radical (dito de desporto), retorno (por «feedback»), teclar. E, também, os famigerados atempado (por oportuno) e implementar. Já atempadamente não entrou. Como ficaram de fora, para nosso espanto, quase todos os advérbios em mente.

A verdade é que este dicionário ignorou numerosos termos nossos. Já lamentável é excluírem-se belos plebeísmos como balda, betinho, à doca, estampar-se, flipar, ganza, grunho, à maneira, mariquice, népia, pedrada (e pedrado), pimba, puto (como em «não vi puto»), trafulha e muitos outros correntes. Grave é a exclusão de termos como contactável, e incontactável, desdramatizar, desmotivante (ou desmotivador), esferovite, eurocéptico, multibanco, plasticina, realojar, recarregável, retoma, seleccionador (em desporto), surfar, tuneladora, vidrão, todos correntes entre nós – e quase todos incluídos no Dicionário da Academia, que Malaca Casteleiro assinou. Se possível mais grave ainda é a ignorância de toda uma terminologia ligada à História portuguesa dos últimos decénios, a que pertencem cavaquismo, eanismo, marcelismo (o outro, para já), soarismo, mas também o pide (e a PIDE), pidesco, retornado, saneamento, sanear. Tudo isso revela alguma incúria no trabalho de casa e alguma desatenção (sejamos simpáticos) pela realidade portuguesa.

Não foi, nitidamente, por economia de espaço. Porque ele não faltou para curiosidades como acachamorrar ou acachaporrar, ou maravilhas como desengloblamento, desengrinaldamento, desentristecimento. Não faltou espaço, nem alento, para designar os habitantes da menor aldeola brasileira. Assim, há 16 entradas de lagoense, 22 de santanense, e 27 de nova qualquer-coisa, como nova-ipixunense. Não ficou esquecido o eduardo-gomense, o lajedinhense, o propriaense, o sananduvense. Lindo é o manhumirinense. Mas são quase quatro mil.

Sobrou ainda espaço para muitos milhares de termos de ciências várias. Muitos são correntes, numerosos deles úteis. Mas bastantes outros, de fraca necessidade, se alguma tiverem, não fazem senão atafulhar o dicionário. Chega-se ao pormenor de informar ser teleangiectásico uma «forma não preferível» de telangiectásico... É que a intenção era incluir tudo? Ouvimos nós bem?

Qualquer coisa, uma loucura divina, um desvario enciclopédico, parece ter tomado os autores deste empreendimento. O trabalho foi ingente. Os resultados assombrosos. Mas, enquanto não for mais exigente consigo mesmo, o Houaiss deverá ser discreto em apregoar grandezas.

quinta-feira, dezembro 13, 2012


é apenas a forma que tens de me olhar,
sem que eu dê por isso, como se entre mim
e ti o espaço não contasse; ou é
o risco no cabelo, antes de chegar à trança,
indicando o caminho para o sonho
em que nos abraçamos; ou é o teu sorriso,
num esboço de algo que se perdeu
entre um e outro café, por entre
perguntas e conversas; ou é o fundo
dos teus olhos em que adivinho
a noite, e tu me dizes que
o dia está para nascer; ou
são as tuas pálpebras, em que me
escondes a inquietação com que

fechas os olhos, quando as certezas
do coração te ferem; ou és tu,
no puro instante em que te vejo,
e só tu existes.
Nuno Júdice

terça-feira, dezembro 11, 2012

quarta-feira, dezembro 05, 2012

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terça-feira, dezembro 04, 2012

As limitações do marxismo

1. A crença na História enquanto ciência é isso mesmo: uma crença.
2. O pensamento indutivo. Se a História foi sempre uma luta de classes e a classe dominada desapossou sempre a classe dominante reconfigurando um novo sistema, será sempre assim no futuro. Popper  disse que não era por termos encontrado sempre patos brancos que o próximo não será preto.
3. A teoria da mais-valia por mais perfeita que seja falha num aspecto. Por mais que se considere que o todo o trabalhador é explorado, nunca um sistema alternativo pode pagar cem mil contos ou dez mil contos que o trabalhador do sistema privado. O.K., são explorados, mas ganhariam menos se não fossem remunerados pelo patrão privado - ganhariam menos num mundo colectivizado. O nó do problema: a fatia dos «explorados» que ganharia menos é maior do que a ganharia mais (mesmo descontado os serviços públicos gratuitos). Ou seja: num mundo em que tudo fosse público, certos trabalhadores privados ganhariam menos do que hoje ganham. E a parcela que ganharia menos é maior do que a que ganharia mais - coisa que não cabe na teoria da mais-valia. É difícil que um bate-chapa esteja na mesma luta pelo mesmo objectivo final que um piloto de aviões porque um novo modelo económico beneficiaria um quiçá, mas prejudicaria outro.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Haikus


Gelo pouco espesso
e, sob ele, armadilhado
um brilho do poente.

Yoshino Yoshiko

Nuvens no céu
Ocultando a luz.
Cinzento em mim.


?


Paz e silêncio –
Vinda da chuva, a borboleta
Entra no meu quarto.

Enomoto Seifu

Do Real

O juiz pedia inúmeros favores ao juiz seu amigo em unívoco. Quando o dadivoso juiz morreu, a viúva ficou com uma mísera reforma. Tentou diversas vezes contactar o «amigo» do marido. Subitamente, este nunca mais teve tempo.
À noite (como não poderia deixar ser), ele contou o seu inconfessável segredo. O propósito da sua vida era ser o homem que soubesse tudo, que fosse especialista de tudo, que fizesse o sincretismo de tudo, tudo relacionando, tudo compreendendo, a todos podendo explicar qualquer ponto de vista. Os matemáticos pensavam que ele era matemático, os médicos médico, os linguistas linguista, os professores de Filosofia um académico de Filosofia, os psicólogos um psicólogo, os historiadores um historiador, os diferentes religiosos um membro do seu credo. A mulher apanhava-a ler livros de todos os assuntos até às quatro, cinco da manhã. Chegou, no zénite do seu desmedido propósito, a desejar tomar comprimidos em vez de comer.

Noir

Profundamente desgastado, triste e revoltado com o Alzheimer da mãe, quando esta não o reconhecia ele enfurecia-se a ponto de lhe bater. Precisava de culpar alguém, algo - qualquer coisa que fosse - pela sua imensa dor.
- Angel, como se pode fazer o luto da pessoa mais bonita do mundo? É que não te podes agarrar a nada de negativo para empolar, não tens margem para a distorção sequer.






- Já viste o retrato de Husserl?
- Sim, já vi fotografias.
- Mas há uma que quero que vejas. Nunca viste um olhar de concentração absoluta como este. Este olhar permite-nos perceber porque ele taquigrafou 40 mil páginas, a mão não podia acompanhar a velocidade do resultado do pensamento profundo e perfurador.



Nos arredores do livro

O bibliófilo arruinado com a despesa feita em livros já só tinha uma hipótese: afastar-se das livrarias, qual bêbado das tabernas. Mas a puta d´A Laranja Mecânica (para quê, porquê o artigo?) em nova edição e cheiinha de notas não lhe saía da cabeça.

Preocupações Naturais


Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda de temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.

José Miguel Silva
«A metafisica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que não se compreende. 
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite para que não o abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?»

Livro do Desassossego