quinta-feira, novembro 29, 2012

Um ângulo para ver as pessoas: a (im)permeabilidade da mente. Há quem seja muito influenciável e qual esponja absorva qualquer argumentário de outro. Há quem, contra a evidência, nunca largue as suas ideias. São duas faces da moeda da medo.

Vídeo de lançamento do livro em que a tasca entra

http://www.culturafnac.pt/videos/?video_id=54464394

quarta-feira, novembro 28, 2012

Perceber o padrão

Ele é de esquerda e discute vivamente com os de esquerda vivamente. Ele é religioso e discute vivamente com os religiosos. Ele discute vivamente com muita gente. Por outro lado, ele dialoga muito pacificamente com pessoas de todos os credos, ele dialoga até com pessoas da direita mais à direita. Ele entende monárquicos, budistas, muçulmanos, protestantes, ateus, nacionalistas. Só ao fim de muito tempo entendi que só há uma coisa que o irrita - a defesa de uma posição sem se dominar um assunto.
Ele construiu uma personalidade tão fascinante e magnética, que um grupo de António Matias Dependentes Anónimos foi criado. As pessoas que se agarravam a si nunca mais o conseguiam abandonar.

(Claro que o nome foi trocado.)
- Não é verdade que todas as pessoas gostem de ser bem tratadas. Conheço quem aprecie o contrário. Conheço quem me ganhe respeito só quando as maltrato. Conheço quem confunda sobranceria com personalidade forte e bondade com submissão. Certa pessoa que conheço vê a ligação emocional do outro como uma fraqueza, gabando-se de ser autónomo e sem laços.
- Quem abomina a arrogância sem se questionar se é defesa não percebe nada de psicologia.
- Eis a melhor definição de mim próprio: gosto de uma em duzentas pessoas.
Certas coisas só se revelam após uma relação profunda. Afinal, ele, sempre pronto para a piadinha fácil, para o divertimento, para os filmes da pipoca, para noites adolescentes, sempre a lidar com pessoas muito mais novas; afinal, ele escolheu deliberadamente leveza da vida após um esgotamento.

Escolheu o riso, a frivolidade até, como escudo. Sofrera já demasiado por pensar muito e sentir muito. A escolha da futilidade pode vir depois de uma reflexão profunda. «Eu decidi que tinha de viver numa casa de bonecas depois de muitas angústias metafísicas que continuam comigo porque quem as tem nunca as perde.»

Grandes momentos televisivos

terça-feira, novembro 27, 2012


«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e de que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.»
Jorge Luis Borges

O desprezo das tecnologias pela língua começou na supressão dos acentos e cedilhas nos sites e e-mails.
An intellectual is a person who's found one thing that's more interesting than sex.

Aldous Huxley
http://planetatchamaterra.blogspot.pt/2012/11/o-suave-e-o-negro-de-manuel-monteiro.html

segunda-feira, novembro 26, 2012

Pessoas que foram apanhadas a trair

Caryl Chessman (um grande escritor) dizia que apenas 13% dos crimes eram «apanhados». Nas traições, o número será bem maior.

1. Ele era hipercuidadoso em encontra-se com a amante. Só quando ela viajava para o estrangeiro, ele saía de casa de noite e desligava o telemóvel, dizendo antes: «Vou dormir. Boa noite.» Chegava a ponto de sair no sétimo andar do elevador e descer de escadas os restantes para casa dela. Ainda assim, a sua namorada - esta merda é real - soube pelo porteiro do prédio que era porteiro da sua empresa que o seu companheiro ia visitar um prédio.

2. Ela foi apanhada da forma mais incrível. Um amigo dele numa viagem de comboio para Abrantes ouviu duas mulheres a comentarem um caso de infidelidade nos bancos de trás. Ficou perplexo quando ouviu o nome e o apelido do amigo. Virou-se costas, descreveu numa SMS o rosto da mulher e o amigo respondeu pesaroso que era ela.

3. Ele descobriu no Facebook uns likes de um tipo à namorada de que suspeitou. «Quem é aquele Ricardo? Nunca me falaste dele.» Ela pareceu-lhe perturbada. No mural dele, viu que estudava na Lusófona. Trabalhando ele na secretaria da Lusófona, dedicou-se a investigar tudo sobre ele. Conseguiu ler testes dele.  Uma resposta falava de um livro de Steiner, Os Logocratas, que a sua namorada estava sempre a citar, e, pior do que isso, os excertos que ela citava.

4. Ele falava com ela na casa da amante. Pedia-lhe que se calasse, desligasse telemóvel e televisão. Falava com a namorada como se estivesse em sua casa no sofá. Ele dizia: «Vai à Internet para falarmos e ele ia.» Contudo, um dia a namorada disse-lhe: «Este não é o som do silêncio da tua casa.» Ele ficou em pânico. Tenho perguntado a amigas minhas e elas concordam. As casas, mesmo no silêncio, têm sempre sons próprios. Todas elas concordam. Há casas com ruídos próprios de electrodomésticos, cada autoclismo tem um som distinto, as janelas que se abrem numa casa e não se abrem noutra, as varandas que há e não há, o som do vento que é mais ou menos intenso consoante a casa, uns imperceptíveis sons de fundo, os próprios aviões e ambulâncias e carros da polícia que há e não há.

O real, como sugere Paul Auster, nas suas narrativas por vezes cospe na cara da ficção. Há coincidências que têm de vir de Cima.
«Se soubesses que o teu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiarias nele. Por isso, para mim, o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência.»

John Lennox


A pergunta que não se ousa: a hiperlucidez é loucura?

domingo, novembro 25, 2012

.o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims


James Joyce

Pintura e Literatura

http://www.amazon.com/Influence-Painting-Five-Canadian-Writers/dp/0773488383
Sempre me interessou este assunto. A influência da pintura nos escritores no processo da criação.
Baptista-Bastos criticando «o armário de adjectivos» que alegadamente é Lobo Antunes dizia que este devia aprender com a pintura, em que muitas cores garridas estragavam uma tela, devendo por isso ser doseadas.
Hemingway quando questionado sobre os escritores que o influenciaram despejou uma longa lista em que encaixou Cézanne, asseverando numa entrevista que tinha aprendido tanto com pintores como com escritores a escrever.
http://lorigordon.wordpress.com/2010/04/07/the-artists-that-influenced-hemingway/
Esse é o cheiro superlativo. Muito mais doce do que o da mais delicada flor, muito mais intenso do que o da gasolina, muito mais espumoso e cremoso do que o da terra molhada, mais subtil do que o da erva da manhã, mais inebriante do que qualquer perfume de frasco, mais indutor de apetite do que o do cozinhado que chega até ti quando estás esfaimado.
A revista Veja fez uma reportagem sobre um grupo que tentou viver cem dias sem Facebook. A sensação de privação era descrita como análoga à dos AA. O mentor do projecto chegou a dizer que nos cem dias sem Facebook chegou a sentir-se muito estranho e deprimido: "Era como se não existisse." Não deve espantar para quem leu as conclusões do estudo apresentado nesta tasca no extraordinário artigo de Carrilho "A Roda do Hamster". As redes sociais matam dia a dia a privacidade - o fundador do Facebook pretendia ao início pôr toda e qualquer pessoa lá mesmo que ela não quisesse.
Conheço pessoas que passam horas a trabalhar fotografias suas só para para aparecerem mais belas no FB e que sentem que se não anunciarem no FB é como se estado de espírito ou o "evento" (palavra que Vasco Pulido Valente diz ser o grande chapéu para actividades desprovidas de cultura e absolutamente frívolas) a que assistiram não tivesse existido.
Um amigo meu com o seu aparelho tecnológica numa malinha à cintura gaba-se com os olhinhos a brilhar de que tem ali a vida toda. Presumo que morra se o perder.
Uma conhecida minha tem sempre 15 portas de comunicação abertas no seu i qualquer coisa. Não percebe, ela que é sindicalizada, que é uma forma de a empresa estar sempre a pedir-lhe coisas mesmo no fim-de-semana.
É comum ouvir que sem telemóvel e e-mail as pessoas não poderiam comunicar - e, contudo, na minha adolescência sempre comuniquei e sempre conseguir "marcar coisas". Acho até que as pessoas respeitavam mais as calendarizações de encontros (que eram mais solenes porque menos imediatamente combináveis), que na realidade comunicavam mais profundamente e que seguramente tinham menos ansiedade.
Ao ler as cartas de Fitzgerald à filha, sei que esse tipo de comunicação morreu para sempre.
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://oml.com.pt/blogs/files/Piriquito3.jpg&imgrefurl=http://oml.com.pt/blogs/2009/09/30/konsoante-vendida-a-horacio-piriquito/&h=454&w=327&sz=23&tbnid=t2453QoLi4EOOM:&tbnh=94&tbnw=68&prev=/search%3Fq%3Dhor%25C3%25A1cio%2Bpiriquito%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=hor%C3%A1cio+piriquito&usg=__wYDhrUzNrpNkYB28uBsn8HBlplE=&docid=DkjwcI33B451QM&hl=pt-BR&sa=X&ei=eOOwUJ6UA4bIhAffhoH4CA&ved=0CDoQ9QEwAg&dur=1424

Horácio Periquito.

A cara e o nome dizem tudo.
Há situações que seriam cómicas se não fossem trágicas. Quando o cada vez mais inexplicável presidente da República (que faz comunicados institucionais primeiramente via Facebook) foi discursar recentemente na entrega de prémios de jornalismo. O que mais se estranha é que a estupidez e a ignorância superlativas tenham voz na Antena Um todas as semanas e ocupem o lugar de chefe do Estado.

Contra a ignorância, nem os deuses se atrevem, diziam os antigos.
ttp://www.rtp.pt/play/p267/e96952/a1-ciencia-e-inovacao
Acordei desbotada, ela disse.

sábado, novembro 24, 2012

Um outro olhar

Jorge Luis Borges dizia que para se ser poeta era preciso sentir e encarar cada momento na vida como um instante poético.

Casa do mundo


A diminuta flor da candeia, na mesa o pão o vinho a rosa, a súbita brancura da cama aberta – a eternidade milimetricamente a dividir contigo.
Eugénio de Andrade

sexta-feira, novembro 23, 2012

A definição não poderia ser melhor

James Joyce was a synthesizer, trying to bring in as much as he could. I am an analyzer, trying to leave out as much as I can. 

Samuel Beckett

quarta-feira, novembro 21, 2012

É a pessoa que conheço que anda mais depressa. Raramente, está sentado. Tem quinze portas de comunicação no seu i-qualquer coisa. Está sempre a receber, emitir, responder.
Não consegue prestar atenção a dois minutos de uma conversa, sem se dispersar. Não consegue ler mais do que o lead. Tem tiques. Teve uma úlcera por ansiedade. Nunca está parado um minuto. Diz que o seu cérebro está sempre a mil. Em cinco minutos, fala de cinquenta coisas. Tem de pôr tudo o que faz no Facebook. Nunca parou para contemplar fosse o que fosse - mesmo quando tira fotografias, tira às centenas de uma vez. Tem sempre centenas de pendentes na cabeça. Nunca conseguirás estar sentado numa mesa, só os dois, sem uma miríada de distracções, falando e ouvindo. Nunca. Contenta-te com um lampejo de uma frase, com segundos de atenção fragmentada e interrupta.

terça-feira, novembro 20, 2012

Ele não é má pessoa. (Não há aqui um átomo de sarcasmo.) Desde que idolatrado, desde que bem idolatrado, ele consegue ser bastante dadivoso e largo de espírito.
Mas lidar com ele é conhecer e obedecer a um tratado.
Ele tem sempre razão.
Os assuntos que ele não domina não devem ser abordados - porque o irrita tremendamente estar numa posição de inferioridade.
Os amigos dele só se encontram se for ele a organizar e a tratar de todos os pormenores - se assim for, ele mostrar-se-á extremamente bem-disposto. Mesmo que a probabilidade de ele ir seja baixíssima, mesmo que ele esteja no estrangeiro, ele tem de sempre de ser convidado.
Ele nunca conta uma história em que não seja o herói no final.
Ele não admite críticas.
Ele precisa de que digamos o quão influente ele foi nas nossas opções e ideias.
Se não gostas de quem ele gosta, cala-te e evita dizer que te encontraste com essas criaturas «que passam o dia a pensar em como fazer o mal ao próximo» (cito).
Ele não tem problemas.
Ele não tem fraquezas.
Ele não tem dúvidas.
Ele não defeca.
Ele não tem sonhos e muitos menos pesadelos.
Vai ao psiquiatra, mas ninguém pode saber.
Tem dúvidas quanto à orientação sexual, mas ninguém pode ousar questionar.
Houve muita gente que o abandonou, mas oficialmente foi sempre ele quem terminou as relações pela falta de escrúpulos do outro.
Ele quando dá uma opinião faz-te um favor - dá-te a verdade cintilante.
E se não for muito embaraçoso para ti, diz que há um eu antes dele e um ele depois dele - só assim entrarás no seu círculo dilecto.


Bilhete para o Amigo Ausente

Lembrar teus carinhos induz 
a ter existido um pomar 
intangíveis laranjas de luz 
laranjas que apetece roubar. 

Teu luar de ontem na cintura 
é ainda o vestido que trago 
seda imaterial seda pura 
de criança afogada no lago. 

Os motores que entre nós aceleram 
os vazios comboios do sonho 
das mulheres que estão à espera 
são o único luto que ponho. 

Natália Correia

segunda-feira, novembro 19, 2012

Uma vez, ouvi um tipo do PCP dizer para um do Bloco:
- Tu estás sempre ganzado ou bêbado ou as duas coisas. Como é que consegues ser uma força reflexiva e actuante sobre a sociedade? Essa tua alienação é uma forma de egoísmo e de distanciamento dos problemas dos outros. É um umbiguismo. Estás sempre na tua, a ouvir a tua música, passas dias em discotecas sem sequer saberes o que te rodeia, pastilhado e bêbado, e o sistema agradece.
Ainda que não goste de paternalismos, ainda que não aprecia quem policia os costumes alheios, ainda que privilegie a liberdade pessoal como valor sacrossanto; ainda assim, havia uma nota importante no discurso do pregador.
T. S. Eliot dizia - e bem - que a espécie humana não suporta demasiado realidade.
Nunca me fascinou a cultura da decadência, da alienação, porque sempre a entendi como uma das muitas formas de escapismo que a sociedade nos oferece. Uma forma de egoísmo. De não querer saber. E, sim, o sistema agradece.



É algo que não vem da inteligência e que não surge pela tentativa ou pelo esforço.
É qualquer coisa que não se transmite, não se ensina, não se explica - qualquer coisa que não se define, mas que se sente (sem nunca conseguirmos explicar o que é) quando estamos na sua presença.
Borges dizia que a escrita ou tinha isso ou não tinha nada.
Oscar Wilde dividia o mundo entre as pessoas que o tinham e as que não o tinham.
A palavra é «charme».

Nevertheless, the word is charm - charm as Keats would have used it. Who has it today? It's not a matter of pretty writing or clear style. It's a kind of subdued magic, controlled and exquisite, the sort of thing you get from good string quartets.

Raymond Chandler

domingo, novembro 18, 2012

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://oml.com.pt/blogs/files/Piriquito3.jpg&imgrefurl=http://oml.com.pt/blogs/2009/09/30/konsoante-vendida-a-horacio-piriquito/&h=454&w=327&sz=23&tbnid=t2453QoLi4EOOM:&tbnh=94&tbnw=68&prev=/search%3Fq%3Dhor%25C3%25A1cio%2Bpiriquito%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=hor%C3%A1cio+piriquito&usg=__wYDhrUzNrpNkYB28uBsn8HBlplE=&docid=DkjwcI33B451QM&hl=pt-BR&sa=X&ei=eOOwUJ6UA4bIhAffhoH4CA&ved=0CDoQ9QEwAg&dur=1424

Horácio Periquito.

A cara e o nome dizem tudo.
Há situações que seriam cómicas se não fossem trágicas. Quando o cada vez mais inexplicável presidente da República (que faz comunicados institucionais primeiramente via Facebook) foi discursar recentemente na entrega de prémios de jornalismo. O que mais se estranha é que a estupidez e a ignorância superlativas tenham voz na Antena Um todas as semanas e ocupem o lugar de chefe do Estado.

Contra a ignorância, nem os deuses se atrevem, diziam os antigos.
ttp://www.rtp.pt/play/p267/e96952/a1-ciencia-e-inovacao

sábado, novembro 17, 2012

Se se perceber que a palavra amizade não tem que ver com o clã, com os amigalhaços, diria que nós escrevemos como quem tenta produzir uma amizade. Uma amizade com amigos que já conhecemos, sejam próximos ou longínquos, com amigos que não conhecemos e talvez venhamos a conhecer, e com um amigo que virá e que nunca conheceremos. É um outro, que não conseguimos vislumbrar, mas ao encontro de quem vamos.

Manuel Gusmão

quarta-feira, novembro 14, 2012


nunca olhar

esse é o segredo: nunca olhar.
"você nunca olha para as pessoas," uma namorada costumava
me dizer.
eu tinha um motivo, eu não queria ver o que estava
lá, eu me sentia melhor sem aquela
realidade.

existem milhares de exemplos do que quero dizer com
isso, mas uma vez que ambos têm muitas outras coisas para
fazer, eu apenas ilustrarei com
alguns:
dizer, se eu embarcava em um jato e eu via o primeiro piloto,
então seria um vôo muito 
desconfortável
ou dizer, nas corridas de cavalo se eu olhava para quem
iria conduzir o cavalo que eu
escolhi
então eu sabia que nunca poderia
apostar naquele cavalo.
ou dizer, (e eu percebo que você pode não
compreender este) se eu visse os rostos das
vencedoras de um concurso de beleza
eu quase sempre ficava
horrorizado.
e eu sei que é uma coisa terrível de dizer, mas
quando eu via centenas de rostos em um evento
desportivo
eu me tornava tonto com
descrença.


eu pareço estar deslocado nas multidões, eu não
pertenço.

eu estou melhor sozinho assistindo meus três gatos, eles são
atos verdadeiros de
vida.

eu posso
olhar.

Charles Bukowski

Tão horripilantemente ignorante, que nem sabe o que é um órgão de soberania

«Apesar da greve, não deixei de trabalhar.» 

 Cavaco Silva

segunda-feira, novembro 12, 2012

Heteronímia

http://sorenkierkegaard.org/kierkegaard-authorial-method.html
Ao contrário de George Steiner, creio que a cultura humaniza e nos protege da barbárie. É difícil defender-se a pena de morte depois ler o argumentário de Camus ou a pungente descrição do enforcado de Orwell  (a que assistiu quanto trabalhava ao serviço do Império Britânico na Birmânia) ou a felicitação de Victor Hugo pelo abolicionismo pioneiro de Portugal. É difícil defender o totalitarismo depois de ler 1984 ou O Zero e o Infinito. É difícil ser um tecnófilo depois de ler Admirável Mundo Novo e o seu regresso. É impossível não perceber o perigo da cultura resvalar em entretenimento depois de ler Fahrenheit 451 . É mais difícil ser-se violento depois de ser ler Laranja Mecânica. É impossível ler Na Penúria em Paris e em Londres e ter um olhar desdenhoso para com o mendigo. É difícil ser-se racista lendo Camões e Whitman. Ou machista. Camões, que já há quinhentos anos. anos troçava dos homens que só procuravam as mulheres para obterem prazer, desconhecendo que elas iriam procurá-lo a outro lado.
A futilidade pode ser um pecado capital.

Aula de Sociologia

- Vêem esses homens lá fora - a socióloga apontava para um conjunto de trabalhadores das obras num andaime -, quantas de vós, mulheres, ficarão com eles como companheiros. Muito provavelmente, nenhuma. E eles sabem-no. E sentem-no. O preconceito mais transversal, mais intransponível, mais marcante ainda é o classista. De modo que eles olham para vós como inacessíveis e mandam piropos como o burguês sentado no sofá manda às divas do cinema... E dessa inacessibilidade, do saber que nada têm a perder vêm a facilidade no verbo, a necessidade de extravasar pela palavra os sonhos irrealizáveis. Claro que têm o direito de se sentir vexadas, mas eles são os primeiros vexados pela vossa exclusão. E lembrem-se de Adília Lopes: se um trolha me tivesse dito ó boa, comia-te toda na adolescência, hoje era uma mulher muito mais segura. Nas nossas sociedades ocidentais, não está no papel a discriminação sexual, étnica, religiosa, mas aceita-se e convive-se com a discriminação económica. E cada vez mais com o desmantelamento das funções do Estado. Começa a aceitar-se brandamente que uma pessoa que não tem dinheiro não possa ir ao hospital ou ter os filhos a comer em cantinas. A exclusão económica é uma forma de barbárie.

sábado, novembro 10, 2012

Precariedade

A desumanização não pára. A destruição dos laços sociais. A incessantemente crescente precarização laboral, além de demonstradamente não criar emprego, mata o afecto. Há pessoas que renovaram 112 vezes o contrato sem terem vínculo, há pessoas com contratos mensais, cada vez é mais fácil despedir, cada vez se exige mais mobilidade laboral.
Não há tempo para as relações com os colegas.
Não há tempo para o afecto com o senhor simpático do café perto do trabalho.

Finais epistolares

«Carta escrita e não relida para não interferir na autenticidade e contaminá-la de literatura.»
«Peço desculpa por me alongar, mas não tenho tempo para ser mais breve.»

Laranja Mecânica

Miúdos entre os treze e os dezasseis não gostam do ladrar de um cão. Um deles (o líder) vira-se para o idoso que o transporta:
- Ó Velho da merda, ou levas o bicho daqui ou levas um pontapé na boca. 
O senhor de porte erecto e rosto afável diz:
- Ele não faz mal a ninguém...
- Já te disse - o jovenzinho levantara-se - ou o levas daqui ou levas um pontapé na boca. Agora, escolhe.

Sempre houve vândalos. Mas havia alvos proibidos: velhos, grávidas, deficientes, pessoas de cadeira de rodas, sem-abrigo. Observo que há cada vez menos alvos proibidos.

Limitações da Democracia

1. A democracia tem de aceitar não-democratas ou então é uma imposição. Não pode proibir ideologias que perfilhem o fascismo como a nossa Constituição porque também não proíbe maoistas ou estalinistas.
2. Muita boa gente não percebe que a vontade da maioria pode ser impeditiva da liberdade pessoal. Aristóteles perguntava no terceiro volume de Política: e se a maioria for composta por ricos, se os ricos votarem para espezinhar os pobres? Aristóteles concluía assim que a democracia tem de ser algo mais do que supranumerária, algo mais do que a estrita decisão da maioria aplicada a TODOS. Hoje, pergunto-me se uma maioria decidir proibir a homossexualidade (como em muitos países é proibida e condenada penalmente, nalguns casos com a morte) ou as mulheres de vestirem mini-saia com em países africanos «para evitar as violações»? Há direitos que se não forem blindados ao voto conduzirão à barbárie. As liberdades individuais não podem ser sufragadas.

Porque volto sempre aos clássicos

Um estudo recente concluiu que a música do século XX tem pouquíssimas variações e que a larga maioria é uma gravitação em torno do mesmo ritmo. Na literatura, cada vez parece que anda tudo à roda da mesma corda, copiando-se, intertextualizando-se, clichezando-se.

A cultura hodierna

O BCP despede os trabalhadores por e-mail.
O Governo de Portugal legislou que senhorios possam ser despedidos por e-mail.

sexta-feira, novembro 09, 2012

Castas

No ISCSP, dois académicos contaram-me rigorosamente o mesmo. Os monitores convivem com monitores, os assistentes com assistentes e os «Professores» com «Professores». «Angel, se um assistente for visto com um monitor é um vexame. Não pode e terá de se justificar.» Cada macaco no seu galho.

Numa operadora de televisão, os jornalistas e os editores de vídeo tratam os câmaras como burros de carga e evitam misturas no contacto pessoal.

Numa empresa de aviação, quem tem licenciatura usa fato e gravata e quem não tem não usa para se distinguir e ninguém desobedece. O administrador distingue ainda dentro dos que têm fato os que têm posição de chefia e os que não têm. «Há os chefes e os índios e eu só falo com os chefes.»

Numa consultora, o chefe proíbe (desaconselhando veladamente) os almoços com a ralé. «Se vocês querem subir na empresa, porque é que vão almoçar com recepcionistas? São umas cuscas de primeira apanha.»

Numa empresa de comunicação, uma amiga minha ex-hippie dava-se muito com «as maquilhadoras». Um dia, foi chamada à atenção. Deixou de ir almoçar com elas. «Percebi que me estavam a discriminar por me dar com elas e que isso me prejudicava porque perdia credibilidade.»

Da humanidade dos escritores

Dinis Machado, um coração puro e bom, dizia que só por inadvertência ou distracção poderia ter magoado alguém. Quem o conhece diz que é verdade.

Lobo Antunes diz que viu pessoas muito boas cometerem as piores vilanias e más pessoas cometerem uma acção que só um grande coração praticaria - e que isso é uma lição que a vida lhe ensinou, desmontando o que pensava ser uma realidade em preto e branco. Diz que se emocionou quando na guerra um homem muito importante na tropa perante um «mero soldado» que estava de pé de vigia: «Você vai ter frio. Tome o meu casaco.» Também diz que no hospital veio um bebé morto encoberto num lençol e que só tinha um pezinho destapado, lateral, pendente, amorável. Garante ser para esse pé que escreve. Quem o conhece diz que não é bem assim.

Da humanidade dos meus amigos

No dia em que foi promovido a director, chegou ao pé de mim, gabardina castanho-clara, os olhos aquosos, deu-me um abraço.
- Estou muito triste, Angel, muito triste - a voz cheia de lágrimas - despediram um senhora de meia-idade, o que é que ele vai fazer agora? Esteve lá à vida toda e não merecia... e eu é que fico com o lugar, ele não merecia e agora não lhe dão trabalho. Estou na merda.

quinta-feira, novembro 08, 2012

O maior inimigo da luta de classes: o vestir a camisola da empresa.
Quanta gente conheço que acredita piamente que o importante é lutar para que a empresa esteja melhor - que quanto melhor estiver, mais os seus empregados beneficiarão. Quanta gente conheço que deu o litro desiludindo-se com a falta de reconhecimento e de gratidão. Quanta gente conheço que incorpora a ideia de que o inimigo são sempre as empresas concorrentes. Quanta gente conheço que desconhece a diferença salarial entre o que ganha menos e o que ganha mais. 1:20, 1:100, 1:1000, 1:15 000 em grandes empresas.

Coincidências - a matéria-prima de Auster

Ele falou à mulher de um homem que não via há vinte anos. Nesse dia, cruzou-se com ele duas vezes em dois sítios diferentes.
Eu acordei hoje com uma palavra. «Feérico.» Quase me perguntei porquê. Hoje, a palavra surgiu-me num jornal e num livro.

Sempre entendi que a nova forma de espiritualidade nascerá da observação das «coincidências».

A lata e a sardinha




Quando perguntaram a Agostinho da Silva se era conservador, respondeu que dependia. Se era para conservar a lata, não era conservador. Se era para conservar a sardinha, era conservador. Com uma frase tão simples desenvolveu uma ideia complexa - será esse o pináculo da sabedoria. 
Lembro-me de trabalhar numa empresa, de ter exercer o meu direito laboral e de uma acéfala técnica de recursos humanos me dizer: «Não, Angel, não pode ser.» «Mas está na lei!», ripostei e abri-lhe o Código de Trabalho na página. «Mas aqui nunca fizemos assim.» «Se sempre fizeram assim, sempre fizeram mal. Isso não é um argumento de uma pessoa inteligente.» Assustada, lá me deu o papel a que tinha direito. Nesse dia, decorei (gravar no coração) a estupidez do conservadorismo como valor intrínseco e supremo. Também o ser contra tudo aquilo vem de trás, sem distinguir o ouro da poeira, é uma estupidez de calibre idêntico. Como uns freaks que conhecia e que não queriam que o filho nascesse no hospital «porque era contra todo processo de normalização». «Porque não o ensinam a andar em quatro patas, então?», perguntei-lhes na altura. Incorporar-se um rótulo - «conservador», «progressista» - e agir de acordo com ele, sem atender à análise de uma ideia, é uma cegueira. E todo o fanatismo é autista.

Magritte, claro

Bourgeois

Ele trabalha o dia todo numa consultora.
Ela trabalha o dia todo num auditora.
Ligam-se durante o dia para falar de assuntos de trabalho.
À noite, jantar e tratar do filho.
Não falam com mais ninguém ao telefone além de colegas de trabalho, dos sogros e de um ou outro membro da família.
Ao fim-de-semana, estão de volta do filho, limpam a casa, vão às compras e tratam de arrumações.
Ele fazia surfe aos sábados, mas agora «não tenho tempo, trabalho e filho, não dá para mais»
Ela costumava estar com as amigas ao domingo, mas agora «é cada vez mais raro e quando há visitas, é preciso comprar uma série de coisas e depois arrumar tudo e eu ando sem energias».
Nunca foram ao teatro desde que casaram, nunca foram a uma exposição, ele foi uma vez a uma feira de automóveis e duas vezes a casas de strip. Ela só sai de casa para passear com ele e a criança ou ir a casa de outro casalinho (também isso cada vez mais esporadicamente).
Para o sacrossanto Facebook, lá arranjam um tempinho para irem debitando as fotos das fraldas, de aniversários do miúdo, do miúdo a brincar com o iPhone; tendo nas informações do Facebook que são casados e que trabalham nas empresas multinacionais.
Duas vezes por ano, viajam. Foram à Coreia do Sul e vieram cheios de fotografias e sobreexcitados, mas desconhecendo o regime que vigorava na Coreia do Norte. Foram a Singapura e não vieram minimamente perturbados com o sistema penal.
Quando calha encontrarem alguém das suas amizades de outrora, excluem quem ficou por empregos que consideram medianos. «Sabes que o Zé se ficou pelo 12.º ano? Há pessoal mesmo sem ambição», ele diz enquanto ela acena com a cabeça.
Ele diz que gostava de ir para Angola «ganhar muito dinheiro», mas «não seria bom para a família».
No trabalho, ele recebe muitos e-mails de gajas nua e vídeos porno. Ri-se. «Boas mamas aquela, grande porca a outra. Mas eu em casa tenho a refeição completa», diz contentinho com um sorrisinho malandro.
Ela joga Farmville. «Nem para a minha quintinha, tenho tido tempo», lamenta-se.
As promoções no trabalho, os feitos da criança, as viagens, os saldos que aproveitam e os novos produtos tecnológicos sofisticados que vão comprando são o colorido das suas vidas.

quarta-feira, novembro 07, 2012

- Eu estou sempre bem;
- Eu sou uma pessoa muito resolvida;
- Eu tenho uma grande força interior.

Ela disse-me.

Uma semana depois, aterraria na cama com depressão.
- Did you do it?
- No.
- Would you tell me if you did it?
- No.

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso                                       
António Ramos Rosa

«1. A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção resulta de um duplo contacto: por um lado, toda a actividade de discurso vem acentuar discretamente, e indirectamente, um significado único, que é "eu desejo-te", e liberta-o, alimentando-o, ramificando-o, fá-lo explodir (a linguagem tem prazer em tocar-se a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contacto, esgoto-me ao fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.
(Falar apaixonadamente é gastar sem termo, sem crise; é manter uma relação sem orgasmo. Existe talvez uma forma literária para este coitus reservatus: é a afectação.)»

Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes

terça-feira, novembro 06, 2012

- As tuas mensagens são os meus pirilampos de felicidade.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Corrupção, viver na clandestinidade, cultura, polémica na Igreja, uma entrevista ao enorme Marinho Neves

http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n6/1
- Eu não sei ler, mas gosto dos russos.
A longevidade e a força de Churchill impressionaram muitos. Indagavam-no frequentemente e ele deu várias respostas sobre o seu «segredo».
«Desporto. Nunca fiz.»
«Se posso estar sentado, não fico em pé. Em podendo me deitar, não permaneço sentado.»

Poupar energias. Se o podes fazer sentado, não o faças de pé. Se o podes fazer deitado, não o faças sentado.

Não era uma frase atirada ao ar. Churchill trabalhava de manhã deitado na cama e dormia sempre que podia a sesta.

Porque gosto dos meus amigos

- Eh, pá, desculpa, acabei de te fazer um borrão com um cigarro.
- Angel, eu estou-me nas tintas para isso. Para mim, o carro é meramente um utilitário. Desde que me leve onde quero, o resto não me interessa pra nada.

domingo, novembro 04, 2012



Scott Fitzgerald dizia que havia três, quatro histórias marcantes na vida de um ser humano - e que era sobre elas que o escritor se deveria debruçar.
No seu caso, a rejeição inicial de Zelda que não casaria consigo por falta de dinheiro e a sua paixão por um piloto francês quando já estavam casados. Pelo meio, a loucura de Zelda e o alcoolismo de Scott.
Pouco anos antes de morrer, escreveria:

The other episode parallel to my current situation took place after the war, when I had again overextended my flank. It was one of those tragic loves doomed for lack of money, and one day the girl closed it out on the basis of common sense. During a long summer of despair I wrote a novel instead of letters, so it came out all right, but it came out all right for a different reason. The man with the jingle of money in his pocket who married the girl a year later would always cherish an abiding distrust, an animosity, toward the leisure class - not the conviction of a revolutionist but the smoldering hatred of a peasant. In the years since then I have never been able to stop wondering where my friends’ money came from, nor to stop thinking that at one time a sort of droit du seigneur might have been exercised to give one of them my girl.
Imagino a minha velhice sentado à lareira a falar de clássicos a jovens. Imagino a minha velhice a fazer de Tirésias, o deus que foi condenado a experimentar os dois sexos por matar um casal de cobras a copular - e que por isso era o mais habilitado para falar tanto com homens como com mulheres. Espero acumular experiência e conhecimento suficiente que me permita aconselhar em idade provecta tanto uma mulher como um homem nas suas desavenças sentimentais e relacionais. Uma velhice feliz.
Conheço pessoas que para os seus fracassos ou frustrações ou infelicidades nunca admitem um átomo de responsabilidade - a culpa, a responsabilidade moram sempre no Outro. Pessoas sem autocrítica. Pessoas que vêm na crítica externa um ataque pessoal. Pessoas que não escutam o Outro, pessoas que só querem falar e catequizar.
E também conheço o seu oposto.
Este não é o tempo do homem renascentista, este não é o tempo de os homens da cultura botarem opinião. Este não é o tempo dos intelectuais. Este não é o tempo das tertúlias. Este é o tempo do conhecimento técnico, especializado, dos tecnocratas, dos especialistas. A cultura geral não faz carreira.
Este não é o tempo da rectidão, da probidade. Este é o tempo do oportunismo e do pragmatismo. Do honesto ser um totó. Este não é o tempo da solidariedade, é o tempo da competição.
Estava cansado de nadar em piscinas vazias.
Pessoas que não aceitam como válida a justificação: «Hoje, apetece-me estar em casa.»
Pessoas que desconhecem o prazer da quietude.
Pessoas que desconhecem o calor de uma manta no sofá.
Pessoas que desconhecem o prazer de ver um filme no sofá.
Pessoas que desconhecem a magia de um livro.
Pessoas que desconhecem a delícia do pecado amável de dormitar.
Pessoas que desconhecem o encanto da chuva a cair lá fora, do vento a rugir e tu no conforto do teu ninho.

sábado, novembro 03, 2012

Amor Transbordante

Na primária, tinha dois dos piores estigmas: era simultaneamente o obeso e simultaneamente o nerd dos computadores.(Como podem ser cruéis as crianças e como é hipócrita o discurso sobre a crueldade das crianças.)  No secundário, foi-se isolando - não jogava desporto, era gozado por não ter raparigas. Cada vez foi ficando mais sozinho - refugiava-se em casa no computador, a conhecer pessoas, jogar jogos e depois com a Internet «fico doze horas consecutivas, ao computador, Angel». Recentemente, nasceu-lhe uma sobrinha - só fala dela, está sempre com ela, lê-lhe histórias, industria nas novas tecnologias. Conta deliciado cada pormenor do que a sobrinha fez com o rosto cintilante.

Ele sofreu de acne e foi estigmatizado. Sofreu bullying. Detestava as conversas machistas e boçais dos colegas, especialmente no balneário. Ficou com a alcunha de «rabiló». O rabiló isto, o rabiló aquilo. Tem dezasseis gatos. Gasta todo o dinheiro e com eles e passa a vida a resgatar gatos sem abrigo e a recolher e distribuir alimentos a gatos famintos.

Ela sofreu um desgosto de amor e a morte do pai no mesmo ano. Inchou com os medicamentos receitados pelo psiquiatra. Ficou cada vez mais fechada no quarto. Sentia-se sem vontade para nada. Vagueava pelo metro e pelas ruas quando conseguia sair da cama e conversava com sem-abrigo e tocadores de flauta no metro. Apaixonou-se na Internet por um sujeito que nunca conheceu e há três anos que só fala dele.

Ele passou um ano da primária sem falar com ninguém e a professora aconselhou os pais a procurarem um psicólogo. Melhorou um pouco. Os pais notavam que ele dava-se bem com os adultos seus amigos nos convívios em casa - com eles, falava muito. Mas com os mais novos quase nada. Aos 21 anos, deu um beijo a uma rapariga, mas ela disse-lhe que «ele era muito querido, muito fofinho e que não o queria magoar». Há seis anos, comprou um papagaio. Passou anos a ensiná-lo a falar. No seu telemóvel, tem uma fotografia do papagaio como pano de funo. Criou um blogue a contar a evolução da fala do papagaio. Muitas vezes, não sai de casa porque é dia de aprendizagem ou diálogo-teste com o papagaio.


A sede inextinguível de amor encontra sempre orifícios para vazar esse mesmo amor.



Just one more chance
To prove it's you alone I care for
Each night I say a little prayer for
Just one more chance
Just one more night
To taste the kisses that enchant me
I'd want no others if you'd grant me
Just one more chance
I've learned the meaning of repentance
Now you're the jury at my trial
I know that I should serve my sentence
Still, I'm hoping all the while
You'll give me
Just one more word
I said that I was glad to start out
But now I'm back to cry my heart out
For just one more chance
We spend our lives in groping for happiness
I found it once and tossed it aside
I paid for it with hours of loneliness
I've nothing to hide
I'd bury my pride for...
(mmm-bo-ba-ba-boo)
whistling
Just one more chance
(mmm-bo-ba-ba-boo)
whistling
Just one more chance
I've learned the meaning of repentance
Now you're the jury at my trial
I know that I should serve my sentence
Still, I'm hoping all the while
You'll give me
Just one more word
I said that I was glad to start out
But now I'm back to cry my heart out
For just one more chance

Do Real

Ele foi a uma conferência e conheceu uma conferencista, a Paula, que se encantou por ele (algo de que se aperceberia mais tarde). A Paula disse-lhe que o tema que ele falara era muito interessante e que ele tinha de ir não sei quantas escolas falar. Ficou com os contactos dele. Começou a vê-lo nas escolas - não falhou uma conferência. Entretanto, como o pai dele era dentista, ela disse que estava mesmo a precisar de ir a um, ele deu-lhe o contacto do pai, ela ficou amiga do pai dele. Como ele é bom coração, ela pediu-lhe que arranjasse trabalho a umas amigas, que ele entretanto conheceu para «tentar ajudar». Sem ele saber bem como, levado pela sua boa vontade, ela montou uma teia. Disse-me: «Angel, uma mulher quando quer um homem faz tudo para o ter. Eu não sei como é que isto aconteceu, sei que hoje não dou um passo sem tropeçar nela. Já conhece toda a gente que me conhece mais proximamente e criou-me um sentimento tal que fico com culpa se não a aviso de qualquer palestra que dê ou qualquer actividade que promova.»
- Angel, a Natália era muita minha amiga. Ela sofria de uma coisa que pouco se fala. Fala-se muito nos afectos e na falta deles; mas ela tinha afectos, o que não tinha era pessoas que falassem do que ela gostava. Todos a apaparicavam muito, mas no bar dela, ela tinha de lidar horas e horas com pessoas que não sentiam a poesia, que não faziam amor com as palavras, que não acompanhavam a espessura do seu pensamento. Ela vivia numa grande e dolorosa solidão intelectual. Há muitas pessoas a sofrer horrores com a solidão intelectual, na prisão, numa empresa, no seu círculo de amigos.
- Há ofícios em relação aos quais tenho preconceitos quase inultrapassáveis. Não consigo falar com um jornalista porque acho que me está a sacar informação. Não consigo falar com um comercial porque acho que me está a tentar agradar. Não consigo falar com um psicólogo ou psiquiatra porque acho que não estamos os dois a fruir - um está a analisar e a estudar o outro. Não consigo falar com um escritor porque acho que posso ir parar às suas páginas.
Ela escrevia-lhe cartas em que por vezes dizia: «Agora, sem rede.»
Será a sinceridade suprema possível?