terça-feira, outubro 30, 2012

A solidão de quem se considera muito inferior é tão dolorosa como a de quem se considera muito superior.
- Não há nada mais terrível do que ser um ídolo. Só podes descer, nunca subir, e mesmo que dês o máximo de ti isso gera um estímulo neutro, é isso que é esperado; estás sempre num gume de ter uma imperfeição e cair e nada é mais vertiginoso, já dizia Dinis Machado, do que a queda de um ídolo.

segunda-feira, outubro 29, 2012

«Quando algumas vezes me pus a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e trabalhos a que se expõem, na corte e na guerra, e que dão origem a tantas contendas, paixões, empreendimentos ousados, e muitas vezes maus, descobri que toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa: não saberem estar sossegados num quarto.»

Pascal

sábado, outubro 27, 2012

sexta-feira, outubro 26, 2012

Livro da tasca - apareçam


Numa outra tradução

Esta é a luz da mente,fria e planetária.
As árvores da mente são negras.A luz,azul,azul.
Gramados descarregam suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,
Arranhando meus tornozelos,murmurando sua humildade.
Névoas vaporosas e espirituais habitam este lugar.
Separado de minha casa por uma fileira de lápides.
Simplesmente não posso ver onde vão dar.

A lua não tem porta.É uma face em seu pleno direito,
Branca como os nós dos dedos,terrivelmente incomodada.
Arrasta o mar atrás de si como um crime sujo;está quieta,
A boca aberta em total desespero.Moro aqui.
Duas vezes aos domingos os sinos assustam os céu-
Oito grandes línguas afirmam a Ressurreição.
E no final,sobriamente ,badalam seus nomes.

O teixo aponta para o alto.Tem força gótica.
Os olhos se elevam e encontram a lua.
A lua é minha mãe.Não é doce como Maria.
Suas vezes azuis libertam pequenos morcegos e corujas.
Se eu ainda acreditasse na ternura-
O rosto da efígie,suavizado por velas,
Derramando,sobre mim,seus olhos meigos.

Tenho caído pelo caminho.Nuvens florescem
Azuis e místicas sobre a face das estrelas.
Na igreja,os santos serão todos azuis,
Flutuando sobre bancos frios com delicados pés,
Suas mãos e pés duras de santidade.
A lua não vê nada disto.É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é escuridão-escuridão e silêncio.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo)
«a certeza [de]que nos chamam numa harpa de gotas»

que imagem de Lobo Antunes

imagino a chuva a cair no mar numa harpa de gotas

Nos grandes diálogos, a razão mora inconsútil nos dois lados


Adeus [Outubro de 2012]


Olho o monte de páginas que ficará no meu lugar na paz de um campo que tratei sozinho: resta-me voltar para casa e fechar a porta.

O meu trabalho está praticamente terminado. Escrevi os livros que queria, da maneira como queria, dizendo o que queria: não altero uma linha ao que fiz e, se me dessem mais cem anos de vida em troca deles, não aceitava. Era exactamente isto que ambicionava fazer. Há uns dez dias acabei o último. Se tiver tempo, e embora a obra esteja redonda
(sempre esteve na minha cabeça deixar a obra redonda)
é possível, seria possível acrescentar uma espécie de post-scriptum. Não sei se vou fazê-lo. Sai um livro em 2012, para o ano uma coleção destes textozitos, em 2014 o que agora terminei e uma última coleção destas prosinhas e acabou-se. No caso de continuar capaz farei então a tal espécie de post-scriptum. E, após isso, ninguém lerá uma só palavra posta por mim num pedaço de papel. Tenho a certeza do valor da minha obra e orgulho-me dela. Em certa medida, no entanto, não me considero o seu autor: foi-me ditada e afigura-se-me um pouco desonesto que o meu nome esteja na capa. O que rodeia a literatura, todas estas traduções, todos estes prémios, todo o ruído que acompanha o sucesso, nunca foi muito importante para mim. Não o é nada agora. Olho o monte de páginas que ficará no meu lugar na paz de um campo que tratei sozinho: resta-me voltar para casa e fechar a porta. Outros que cuidem dele se o entenderem: já não me diz respeito. Se há pessoas que olham o que construí como difícil de entender é porque não compreendem a complexidade da vida, e isso não é culpa minha, é defeito delas. Von Neumann, o descobridor da teoria dos jogos, enunciou-o claramente há anos, ao explicar o problema das variáveis vivas e das variáveis mortas. E as variáveis mortas, tal como ele o demonstrou, são quase inúteis. Basta encostar o ouvido às coisas e a nós mesmos, encostar com atenção o ouvido às coisas e a nós mesmos para nos apercebermos disso. O medo de saber apavora-nos. A ideia de tomar consciência arrepia-nos. Recusamos a possibilidade de viver no interior de nós mesmos. O facto de um livro contar uma história apazigua o nosso lado infantil. Não serve de nada salvo para nos tranquilizar. E continuarmos por fora do que nos inquieta, nos assusta, nos alerta: não escrevi a fim de trazer paz a ninguém. Não me interessou entreter nem divertir nem agitar bichos de peluche diante de pessoas crescidas. Fiz livros para adultos de pé e olhos abertos. Numa conversa com George Steiner, quando eu gabava o Monte dos Vendavais ele interrompeu-me brandamente
- Não acha um bocado histérico?
ao princípio protestei, depois calei-me, depois dei-lhe razão. O facto é que eu não tinha sabido ler. O facto é que eu tinha, sem dar conta disso, pedido um sininho para adormecer. Steiner estava certo e eu errado. Erro muitas vezes, aliás. Mas estou seguro que não errei no meu trabalho, e foi extenuante encontrar a minha voz tal como cada frase me é, me foi sempre extenuante: é a mão que escreve mas o corpo inteiro paga caro, e o cansaço físico de cada dia de escrita é imenso. Para além disso, ao corrigir, metade do que fiz, mais de metade do que fiz, segue para o lixo. Demasiada carne, demasiada gordura até chegar ao osso. A partir de agora, nem mais uma entrevista para um jornal que seja, uma televisão, uma rádio. O que tenho a dizer escrevi-o. Quem tiver olhos que leia, quem não conseguir ler desista. Todas as frases ditas pelo autor são supérfluas. E, a maior parte das vezes, pior que supérfluas: erradas. Não é possível falar racionalmente do que não é racional, explicar o que se passa antes das palavras, desarticular o que é feito de uma peça apenas e a vida do autor só para ele mesmo e, na melhor das hipóteses, para mais meia dúzia de criaturas, poderá ter interesse. A arte, mistério impenetrável, não cabe na razão lógica e qualquer tentativa de a desmontar será sempre inútil. Se fosse possível desmontá-la não seria arte. Permanecerá para sempre secreta e insolúvel. Pode bordar-se em torno mas fora da muralha, nada tem que ver com a inteligência, a razão, o raciocínio dedutivo: existe em si mesma, por si mesma e para si mesma, apenas permeável ao inconsciente e, no entanto, ao tocar-nos no inconsciente muda a nossa percepção do mundo e de nós mesmos em consequência de um mecanismo que nos escapa. Só o mistério nos faz viver, insistia Lorca, só o mistério nos faz viver.
Pelo teu amor dói-me o ar
o coração e o chapéu.
Isto, aparentemente, não significa nada e, no entanto, faz-nos vibrar como cordas. Julgo que, até hoje, foi Pitágoras quem mais se aproximou da compreensão visceral da criação. A gente lê-o, sente-o a um pequeno passo da solução e dá fé que esse pequeno passo nunca será esboçado porque não é possível avançar.
O meu trabalho está praticamente terminado. O resto fica por vossa conta e eu estarei muito longe já. É inevitável. Governem-se, se forem capazes, com a chave que vos deixo, se é que ela existe, ou não existe, ou existem várias, ou existem muitas, mudando constantemente. De cada vez, por exemplo, que oiço um quarteto de Beethoven oiço música nova. Como se pode agarrar, digam-me lá, o que constantemente muda?

António Lobo Antunes, Visão

Gratidão. A palavra que mais me amacia depois de ter lido em Londres ao lado da tela dos Girassóis (um dos, de tons claríssimos) que Van Gogh o pintara para expressão a ideia de gratidão.

- «:)» e «like» são excelentes meios de não comunicação disfarçados de simpatia e sem compromisso com as palavras.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Inéditos pessoanos - interrogações para «indecifrações»


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
1915?
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.
  - 93.

É provável, sim, é provável que ainda a ame, que ame nela o que antes soube amar, a cabeleira escura, o ventre inquietante, o peito guardando a alegria de um coração solar. Os meus olhos profundos sempre a contemplaram visivelmente perturbados, até mesmo perdidos, quando ela caminhava abrindo rasgões no ar que se fechavam depois à sua passagem para cingir-lhe os braços, os seios e as ancas. A sua boca tremeu na minha com a sede da música e o seu contacto era o do musgo e o da cinza, e dessas cerejas maduras pelo lume de maio. Não sei se estou a endeusá-la ou se ela é uma deusa. Não sei mesmo se conseguirei dizer dela quanto gostaria. Ela está tão perto do meu corpo que a minha pele se acende, e tão longe dos meus olhos que só poderei lembrá-la. Fizemos muito amor e sempre muitas vezes, sem que entre nós esvoaçasse uma mínima sombra. Quando ficávamos tristes, é que o espanto crescia até ao minuto primeiro da tristeza. É uma mulher maravilhosa, o seu nome que importa?, tão frágil como um menino inocente, assim desamparada, correndo para a loucura como antes correu para os meus braços. Nenhuma paixão poderia doer-me mais. Nenhuma ternura poderia mimar-me tanto. O meu poema é uma casa erguida com a sua beleza, onde ela entra e de onde sai e algumas vezes se demora. Poderei dizer que o meu coração é uma sala vazia? A sua recordação ainda me perturba e disso tenho consciência. Amo-a ainda, ou não a amo já, é impossível dizer. Mas é provável, sim, é provável que ainda a ame. 

Joaquim Pessoa

Acredito menos na ciência económica do que na astrologia e não acredito em astrologia

Um dos problemas do mundo actual que não vejo nomeado: os economistas, os produtores de livros e bíblias da economia, salvo raríssimas excepções, não se dedicam ao estudo da pobreza e das desigualdades. Pior: estudam a ciência económica (veja-se a caricatura do patético Camilo Lourenço) como uma ciência per ser, sem quaisquer conhecimentos de outras ciências, sem conhecimento de filosofia, de história, sociologia.
Um dos raros pluridimensionais, John Kenneth Galbraith (vale a pena ler para quem quer compreender o século XX mesmo por quem despreze a ciência económica), escreveu que os pobres são, quando muito, uma nota de rodapé dos manuais de economia.
A economia tem de ser inserida na interdisciplinaridade - e disto não saímos.
Todos os diagnósticos dos excelsos economistas têm falhado, todas as receitas têm produzido efeito contrário - quase que apetece ouvi-los só para se fazer exactamente o contrário, talvez que sim, eles sejam úteis por isso.
Nas universidades, estuda-se Keynes como alguém que só resultou para a crise de 1929, Marx, então, é um fóssil como os Maias ou os Aztecas, e não se estuda Amartya Sen nem Stiglitz nem Muhammad Yunus nem Herbert Simon. De Keynes, por exemplo, os economistas desconhecem a sua «tese» de por que é os Estados deveriam apoiar a cultura.
A propósito da imbecilidade da economia per se, sem diálogos com outras ciências e áreas do conhecimento, ouvi uma vez numa conferência o orador dizer:
- Eu tenho um fogo. Investigação do crime pelo economista: foi o bombeiro não voluntário. É que de acordo com a economia os bombeiros para ganharem mais dinheiro têm de atear mais fogos.



A Lua e o Teixo
Esta é a luz do espírito, fria e planetária.
As árvores do espírito são negras. A luz é azul.
As ervas descarregam o seu pesar a meus pés como se
                                                             eu fosse Deus,
picando-me os tornozelos e sussurrando a sua humildade.
Destiladas e fumegantes neblinas povoam este lugar
que uma fila de lápides separa da minha casa.
Só não vejo para onde ir.

A lua não é uma saída. É um rosto de pleno direito,
branco como o nó dos nossos dedos e terrivelmente
                                                                    perturbado.
Arrasta o mar atrás de si como um negro crime; está mudo
com os lábios em O devido a um total desespero. Vivo
                                                                                aqui.
Por duas vezes, ao domingo, os sinos perturbam o céu:
oito línguas enormes confirmando a Ressurreição.
Por fim, fazem soar os seus nomes solenemente.

O teixo aponta para o alto. Tem uma forma gótica.
Os olhos seguem-no e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Não é tão doce como Maria.
As suas vestes azuis soltam pequenos morcegos e mochos.
Como gostaria de acreditar na ternura...
O rosto da efígie, suavizado pelas velas,
é, em particular, para mim que desvia os olhos ternos.

Caí de muito longe. As nuvens florescem,
azuis e místicas sobre o rosto das estrelas.
No interior da igreja, os santos serão todos azuis,
pairando com os seus pés frágeis sobre os bancos frios,
as mãos e os rostos rígidos de santidade.
A lua nada disto vê. É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é negra: negra e silenciosa.



Sylvia Plath
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

hipersónia
nome feminino
1.alongamento patológico do tempo de sono
2.necessidade excessiva de dormir
3.sonolência
(De hiper-+latim somnu-, «sono», com influência de insónia ou do francês hypersomnie)

quarta-feira, outubro 24, 2012




terça-feira, outubro 23, 2012

«Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos -porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam. »

Mário de Sá-Carneiro

Do mundo hodierno

Os homens de um só livro são mais perigosos do que os homens que nunca leram um livro.

Flaubert

Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.



Gonçalo M. Tavares
Biblioteca 
Devia fazer como ele e ainda ir mais longe.
Não ter Facebook, ir para uma terra calma, sem Internet, sem pessoas conhecidas nas redondezas, com o tempo não tempo, o telemóvel desligado durante o dia, olhar para paredes brancas e o mar e sentir uma calma infinita. Tornar-me um desatracado.
Diz o MEC:

«Se os portugueses vêem cada vez mais televisão, também há cada vez mais que não vêem. Nunca. Nem tão-pouco acompanham as coisas ditas de interesse público, sejam culturais, comerciais ou lá o que for. Desatracaram-se.
Os atracados andam a reboque da mesma caravana de agendas. Cada um tem uma opinião diferente. Mas todos vêem os mesmos programas e falam das mesmas pessoas e dos mesmos casos. Não é a discussão que é oprimente: é a agenda. A agenda é a lista das coisas escolhidas pelos empresários, políticos e editores para nós lermos; vermos; comprarmos; conhecermos; discutirmos.
É como o futebol. E basta não ligar ao futebol para ver o que se perde: nada. O pouco que importa acaba por chegar a toda a gente, já muito bem filtradinho, muito obrigado.
Graças à Internet, cada vez há mais desatracados. Lêem livros que mais ninguém está a ler; mergulham em mundos esquecidos; descobrem coisas tão novas que ainda nem coisas são; ouvem música fora de todas as modas; acompanham pessoas e problemas e pensamentos que se diria nada terem a ver com eles. Mas têm; acabam por ter. E isso é bom.
Desatracar não é rejeitar a realidade nem é ser hostil aos marcadores de agenda. É apenas pedir licença para não seguir o fio da realidade que está a ser distribuído a dado momento. É seguir outro fio, escolhido por cada um, sem grandes critérios ou seriedade até. E, quando se cruzam os dois, costuma ser interessantíssimo. E é giro.»


Mas o meu amigo libertou-se da urbe, da pletora de estímulos, das pessoas até, dos jornais e telejornais, desligou-se do mundo e ainda assim:
- Angel, explica-me: como é possível eu ter estado lá em baixo, sem telemóvel, sem Internet, sem nada, sem sequer falar com pessoas e ainda assim as notícias do Ronaldo, da Casa dos Segredos e as declarações do Passos e do Gaspar chegarem até mim? Nem em casa, sem contactar ninguém, a olhar para paredes brancas me consegui desligar, como é possível que as novidades, que as coisas mundanas... hoje... nos cheguem sempre... Como é possível eu ter fugido, estar em ascese e ainda assim o mundo não me permitir - não sei como, não sei por que meio - não estar actualizado.

sábado, outubro 20, 2012


Uma nave de loucos

Basta um grama de lucidez para se perceber que viajamos numa nave de loucos em que o espetáculo de demências diversas se impôs como matriz de um quotidiano de que vai desaparecendo qualquer sentido. Mas esse grama é precioso para podermos avaliar a dimensão dos fracassos que se pretendem maquilhar ou ocultar: o fracasso do Governo, o fracasso do memorando e o fracasso da União Europeia.
São, reconheçamos, fiascos a mais. Comecemos pelo do Governo, que é talvez o mais óbvio, ainda que possa não ser o mais importante. O susto e a herança tinham concedido ao Governo PSD/PP não propriamente um estado de graça, mas um parêntesis de benevolente confiança, que durante um ano o protegeram das consequências de todos os erros de conceção e de organização, de todas as insipiências e incompetências políticas, de todas as falhas e incapacidades no plano da ação e da concretização.
Tudo foi relativizado e desvalorizado com o argumento da urgência e das dificuldades do combate ao monstro do défice, erigido em meta central, quando não única, da ação do Governo. E foi aqui que, para muitos, subitamente, no verão passado, se percebeu que o Governo estava a falhar estrondosamente. Foi este o acontecimento da rentrée deste ano, que Passos Coelho geriu de um modo insólito e calamitoso com o discurso da TSU de 7 de setembro, atirando o País para um pathos de indignação sem saída nem esperança. E, desde então, às evidências do fracasso juntou-se uma espiral de desorientação, a revelar uma perigosíssima convergência de incompetência, de descoordenação e de dogmatismo.
Em vez de se corrigirem com abertura de espírito as estratégias que não resultaram, em vez de se repensarem com prudência as medidas que conduziram a resultados tão distantes do prometido, o que se fez foi deduzir do seu fracasso a sua virtude e a sua inalterabilidade. Pior: apostou-se, como a proposta de Orçamento para 2013 inequivocamente o prova, numa reincidência agravada do que anteriormente se fez, num exercício de fanatismo de que a história já mostrou muitas vezes as funestas consequências. Creio porque é absurdo, credo quia absurdum, como dizia Tertuliano - eis a máxima da nave de loucos em que o Governo se tornou, e está a tornar o País.
Tudo isto vem, contudo, na linha de um outro fracasso de que se fala menos, mas que era bem óbvio desde o princípio: o do famoso memorando, que na altura designei como milagreiro, tais foram as fantásticas qualidades e virtualidades que quase toda a gente lhe atribuiu. É que o memorando nunca foi a estratégia de que o País precisava, mas tão-só o pacote de cortes e o plano de garantia que viabilizava o empréstimo externo, feito nas condições limite a que o País chegou então e de que todos nos devemos lembrar ainda - o que é algo muito, muito diferente. O que então faltava ao País não era mais do mesmo, como o infeliz "além do memorando" de Passos Coelho imprudentemente assumiu. O que faltava era o outro lado desse plano, e foi isso, a visão política complementar desse esforço que tragicamente faltou desde o início, reduzindo tudo à natural cegueira de contabilistas em desespero de liquidez.
O terceiro fracasso é o da União Europeia. E aqui, o que é preciso dizer com clareza é que a União Europeia falhou a sua aposta da moeda única, e que esse falhanço do euro nos arrasta hoje a todos num inconfessável turbilhão em que se perdeu completamente a noção de qualquer sentido europeu comum, e se afirmam cada vez mais os sentimentos, as urgências e os dramas dos imperativos nacionais.
Fracasso inconfessável mas já pressentido por todos, como se vê, por um lado, pela retirada dos bancos franceses e alemães dos países do Sul da Europa, e, por outro lado, pela torrencial saída de capitais dos países do Sul para os do Norte, que só em Espanha atingiu no primeiro semestre deste ano os 220 mil milhões de euros, um quinto do PIB espanhol. Fenómenos que só podem agravar-se com a cacofonia com que se continua a responder à crise, sobretudo sempre que se aproxima mais uma das famosas cimeiras "decisivas", desta vez a ter lugar, justamente hoje e amanhã, em Bruxelas.
As declarações feitas pelos mais diversos responsáveis no fim de semana passado, em Tóquio, durante a reunião anual do FMI, são a melhor ilustração da fase de excitação terminal em que se entrou, com uns a dizerem tudo e o seu contrário sobre o sumiço do crescimento, outros a defenderem o oposto de tudo aquilo que têm feito, outros ainda a tentarem transformar retrospetivamente o vício em virtude... e vice-versa...
O fracasso do euro é hoje insofismável. Ele devia ter trazido à Europa mais convergência e agravou a divergência entre os países do Norte e do Sul. Ele deveria ter estimulado o crescimento e conduziu-nos globalmente à estagnação, com a recessão bem à vista. E foi ainda ele que permitiu, com o seu folclore de ilusões, uma aceleração suicida do endividamento privado e pública.
Por muito que custe, só o reconhecimento destes factos o pode ainda salvar. Mas não será tarde demais? Esta é, na verdade, a única questão que os líderes europeus têm hoje e amanhã sobre a mesa.

Manuel Maria Carrilho


Reposta ao tempo

Olho em volta e sinto uma amargura pesada e trágica. Um movimento silencioso faz com que as pessoas não se cruzem: atravessam-se com indiferença e, até, com rancor. Pessoas sem destino certo, absortas não se sabe bem com quê. Porquê, sabemo-lo pela evidência cruel. Não é só a atmosfera de descrença: é o riscar de uma angústia que nada tem de metafísica. Há algo de implacável nas declarações que ouvimos, e nos colocam num patamar sem saída. Leio os jornais e nem um traz a limpidez de uma esperança porque, na realidade, já não há esperança. E ela já existiu, na afronta e no opróbrio.

As nossas causas eram a justificação das nossas vidas. Envolvíamo-nos em coisas muito perigosas, empolgados pelo desafio e pela reminiscência de que ajudávamos o mundo a ser algo de melhor. Não sabíamos muito bem o que era; porém, não era aquilo em que sobrevivíamos tristemente. Uma frase que escrevi, por essa ocasião, e fez escola: a esperança tem sempre razão. E agora? A esperança perdeu, até a razão de ser?

As causas do que nos está a acontecer vêm de longe. E, se quisermos ser honestos, o desequilíbrio começou com os dez anos de primeiro-ministro do Dr. Cavaco. Não vale a pena derramar lágrimas. A História é o que é. O impreparo do então primeiro-ministro advinha da sua incultura geral, do facto de a Europa nos mandar dinheiro a rodos, o que facilitava a governança, e da raiz da sua própria ideologia. É a era em que o culto da juventude atingiu aspectos surpreendentes. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, a estratégia era semelhante. Quadros profissionais competentíssimos eram rudemente afastados, por terem mais de 40 anos de idade, e substituídos por jovens desenvoltos, penteados e vestidos de igual modo, que sobraçavam como bíblias o "Financial Times" e o "Wall Street Journal." 

Cá, como lá, os desequilíbrios económicos não tardaram. E a especulação financeira trouxe à tona d'água as deficiências da impreparação dos decisores. Há casos, nos Estados Unidos, de grandes empresas que caíram nas mãos, por exemplo, do capitalismo japonês, porque os jovens turcos que as geriam demonstraram a mais atroz incompetência. 

Esboçava-se, ante os nossos olhos perplexos, a ascensão de uma nova ordem, alicerçada no espontaneísmo, no arrojo da decisão e numa pretensa inovação, baseada numa filosofia que tinha como valor absoluto o "mercado." Anos antes, John Kenneth Galbraith tinha prevenido dos perigos que aí vinham, se a ética não se sobrepusesse à aventura da instância momentânea. Um dos grandes conselheiros de Roosevelt possuía uma cultura geral impressionante, com particular incidência na História e na Filosofia. Há livros dele, editados pelas Publicações Europa-América, que podem, ainda, ser lidos com proveito e com prazer. Além do mais, Galbraith escrevia com notório sentido de humor. 

Os tempos que então vivíamos eram preocupantes, mas os sinais de que as coisas iriam melhorar animavam as sombras das nossas inquietações. Era a época de Camus, de Sartre, de Lukacs, de Vittorini, de Grass, de Antonioni e de Visconti, dos Prémios Formentor, e estavam vivos e actuantes os nossos maiores: Aquilino, Redol, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Lopes-Graça, José Gomes Ferreira. A lista é imensa, e o pensamento europeu sobressaía em grandes correntes humanistas e progressistas. Esses homens ajudavam-nos a pensar e incitavam-nos a resistir. Pouco ou nada existe desse era. A regressão de um pensamento filosófico distanciado do humano e das grandes preocupações sociais e políticas tomou conta do terreno.

Pedro Passos Coelho é um produto típico de um "tempo inconvicto" [Tony Judt] que acarinha e acalenta a frivolidade da superfície, arrastando, com essa frivolidade, milhões de pessoas para a desgraça e para o infortúnio. É preciso erradicar, da Europa do Partido Popular, esta patologia endémica, de que são vítimas não só os países mais débeis (que serão "países mais débeis"?) como todos os outros.

A crise do capitalismo é contornada ou não revelada como forma de se pretender ocultar a natureza do problema. Não foi só Marx (que horror, citar-se Karl Marx) a anunciar os fundamentos maléficos da doutrina. Católicos como Emmanuel Mounier, o grande pensador do "personalismo" (revelado, no nosso país por João Bénard da Costa, num admirável volume justamente titulado "O Personalismo"), ou Jean-Marie Domenach exerceram papéis determinantes para o esclarecimento e dilucidação do assunto. 

Líamos tudo o que vinha parar às nossas mãos. Paulo Rocha, esse mesmo, o realizador de cinema e meu amigo de geração, ofereceu-me livros de Mounier, conhecedor de que eu era um leitor omnívoro e insaciável. Perduram, essa ânsia e prazer. Que se lê, actualmente?, a não ser as bojardas unidireccionais, que forjam o pensamento único e estratificam a criatividade e a crítica.

Não sei onde vamos parar. Sei que eu e alguns da minha geração sentimos um desgosto, uma amargura pesados e trágicos. Era isso que queria dizer-vos.

Baptista-Bastos

sexta-feira, outubro 19, 2012


Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mario Quintana

Protagonistas universais

Um psicólogo pediu aos seus pacientes a sua data de nascimento, hora e local. Elaborou um mapa astral de cada um. Perguntou quantos se reviam. 75% reviram-se cabalmente.
Sucede que mapa astral era igual para todos e que o psicólogo nada sabia de astrologia. Com o seu conhecimento da natureza humana, criara um referencial comum (cabalmente comum) a três quartos da humanidade.

Há qualquer coisa de admirável em criar-se um protagonista universal. Mesmo na literatura light não podemos desvalorizar quem cria personagens que chegam à esmagadora maioria das pessoas. Ou porque são como elas ou porque são como gostariam de ser - o próprio Eduardo Lourenço diz que esse mérito tem de ser concedido a Paulo Coelho. É preciso saber, perfurar e resgatar esse núcleo comum para lá das diferenças culturais e pessoais,  o que unifica os seres para lá das suas diferenças. Ninguém gosta de ter dor de dentes, para dar um exemplo ridiculamente comezinho.

Citando:

«Acho que é muito fácil uma pessoa identificar-se com Carrie Mathison [personagem da série Homeland, que vai na segunda série], a espia interpretada por Claire Danes. Porque tem razão. O mundo inteiro, a começar pelos patrões da CIA, acha que não tem. Ela própria já começou a duvidar de si mesma.
Não é esta a maneira como quase todos nos vemos?  Ela pode ter pancada, pode fazer disparates de vez em quando mas, no trabalho dela, não poderia ser mais competente. E, sobretudo, tem sempre razão, apesar de não poder provar que tem.
Mathison é uma protagonista universal: é a pessoa a quem não dão o devido valor. Farta-se de trabalhar, anda sempre num stress, sacrifica a vida pessoal e, mesmo assim, duvidam dela e não fazem o que ela quer.
É ou não é tal e qual como cada um de nós?»

Miguel Esteves Cardoso
- Gosto de intelectuais. Gosto de homens de esquerda. Mas não suporto «intelectuais de esquerda».
- Angel, o escritor que fica em casa a viver da imaginação e da memória só pode escrever literatura desvivenciada e isso nota-se sempre. Não é a questão de não observar no outro, é a questão de não observar em si - isso é viver. De outra forma, só se escreve pela rama das emoções - isso nota-se sempre, é uma falsificação, uma escrita balofa.

terça-feira, outubro 16, 2012

Raul Solnado contou que quando jovem lia dicionários para impressionar raparigas com palavras que não conheciam. Um dia, quando o convidaram para o cinema, ele disse:
«Esse filme é antagónico.»


«Pernóstico» - que emprega palavras difíceis cujo sentido ignora.

Autobiografia sumária



Deus e a mulher no Irão



A minha avó foi uma das primeiras mulheres a estudar Matemática e Física na Universidade de Viena. Quando se formou, em 1905, a universidade atribuiu-lhe a sua mais alta distinção, um prémio marcado pela oferta de um anel gravado com as iniciais do imperador. Mas nenhuma mulher tinha sido anteriormente nomeada com tamanha distinção e o imperador Franz Joseph recusou-se a conceder-lhe o prémio.
Mais de um século depois, poderia pensar-se que, por esta altura, já teríamos superado a convicção de que as mulheres não condizem com os níveis mais elevados de educação, em qualquer área do conhecimento. Por isso, saber que mais de 30 universidades iranianas baniram o acesso das mulheres a mais de 70 cursos, que vão desde a Engenharia, Física Nuclear e Informática, até à Literatura Inglesa, Arqueologia e Administração, é perturbador. De acordo com Shirin Ebadi, a advogada iraniana, activista dos direitos humanos e vencedora do Prémio Nobel da Paz, as restrições fazem parte de uma política do governo para limitar as oportunidades das mulheres fora de casa.

As proibições são especialmente irónicas, dado que, segundo a UNESCO, o Irão tem a maior taxa de licenciados do sexo feminino, no mundo. No ano passado, as mulheres representavam 60% de todos os estudantes que foram aprovados nos exames universitários e as mulheres têm-se saído muito bem nas disciplinas tradicionalmente dominadas pelos homens, nomeadamente a engenharia.

Pode muito bem ser o sucesso dos estudantes do sexo feminino – e do papel das mulheres instruídas na teocracia iraniana da oposição – que levou o governo a procurar inverter a tendência. Agora, as mulheres como Noushin, uma estudante de Isfahan, que disse à BBC que queria ser engenheira mecânica, são incapazes de alcançarem os seus objectivos, apesar de conseguirem boas notas nos exames de admissão.

Há quem afirme que o ideal de igualdade sexual representa um peculiar ponto de vista cultural e que nós, ocidentais, não deveríamos tentar impor os nossos valores noutras culturas. É verdade que os textos islâmicos afirmam de várias formas a superioridade dos homens em relação às mulheres. Mas o mesmo pode ser dito dos textos judaicos e cristãos; e o direito à educação, sem discriminação, é garantido em diversas declarações e acordos internacionais, tais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com a qual quase todos os países, incluindo o Irão, concordaram.

A discriminação contra as mulheres faz parte de um vasto padrão de preconceitos oficiais do Irão, especialmente contra aqueles que não são nem muçulmanos nem membros de uma das três religiões minoritárias – o zoroastrismo, o judaísmo e o cristianismo – reconhecidas na Constituição iraniana. Para alguém se inscrever numa universidade, por exemplo, deve declarar-se crente de uma das quatro religiões reconhecidas. Ateus, agnósticos ou membros da comunidade Bahá'í do Irão não são aceites.

Imagine como nós reagiríamos se alguém tentasse desculpar a discriminação racial com o argumento de que é errado impor a cultura de um povo nos outros. Fez parte, afinal de contas, durante muitos anos, da “cultura” de algumas zonas dos Estados Unidos que as pessoas de ascendência africana se sentassem na parte de trás dos autocarros e frequentassem outras escolas, hospitais e universidades. Fez parte da “cultura” do apartheid da África do Sul que os negros vivessem separados dos brancos e tivessem oportunidades educacionais diferentes e inferiores. Ou, para ser mais preciso, fez parte da cultura dos brancos que detinham o poder nestes lugares, naquela época.

O mesmo se passa no Irão. Os governantes do país são todos do sexo masculino e muçulmanos. O apelo do líder supremo Ayatollah Ali Khamenei, em 2009, para a “islamização” das universidades conduziu a uma alteração dos cursos e à substituição de alguns funcionários e membros dos corpos docentes por outros mais conservadores. Há dois meses, Khamenei disse que os iranianos deveriam retornar aos valores tradicionais e ter mais filhos – o que teria implicações óbvias para o papel das mulheres, sem falar do impacte ambiental.

As sanções internacionais contra o Irão, que estão actualmente em vigor, procuram impedir que o regime construa armas nucleares; não procuram convencê-lo a acabar com a discriminação, contra as mulheres ou por motivos religiosos. Não há amplos boicotes às universidades do Irão, ou a outros produtos iranianos, como havia contra o apartheid na África do Sul. Parece que ainda levamos a discriminação sexual e religiosa menos a sério do que a discriminação racial e étnica.Talvez estejamos mais preparados para aceitar que as diferenças biológicas entre os homens e as mulheres são relevantes para os papéis que desempenham na sociedade. As diferenças existem e não são puramente físicas. Portanto, não nos devemos precipitar com a conclusão de que se a maioria dos engenheiros são homens, deve haver discriminação contra as mulheres. Pode ser que haja mais homens, do que mulheres, a quererem ser engenheiros.

Isso, no entanto, é uma questão completamente diferente daquela que diz que as mulheres que querem ser engenheiras, e têm qualificações para estudarem engenharia, podem ver ser-lhes negada a oportunidade de realizarem o seu sonho. Ao impedir, explicitamente, as mulheres de se matricularem em cursos abertos para os homens, o Irão deu um passo que é tão indefensável como a discriminação racial e que deve ser igualmente condenado de forma convincente.

Peter Singer
Aristóteles dizia que se não soubéssemos todos os elementos de um assunto não poderíamos ter uma opinião. Hoje, basta um elemento difuso que se «viu na Net» ou se ouviu em conversas de café. Conheço pessoas sem o mínimo conhecimento de história, filosofia, economia que têm opiniões firmes sobre a origem da crise e panaceias de escala mundial.
«Isto era muito simples. Fazia-se assim...»

Apresentação de uma personagem

«Big Bart era o homem mais ruim de todo o Oeste. Big Bart era o gatilho mais rápido de todo o Oeste. Big Bart fodera mais mulheres em todo o Oeste do que os outros homens todos. Não gostava de tomar banho, nem de paleio de chacha, nem que ninguém lhe passasse a perna. Era também chefe de uma caravana que levava as pessoas para o Oeste, e não havia homem da sua idade que tivesse matado mais índios, ou fodido mais mulheres [...] Tinha barba negra, o olho do cu sujo e uns dentes amarelos fulgurantes.»

Tira lá os olhos das mamas, ó manjerico!
logomaquia
nome feminino
1.discussão sobre uma palavra tomada em sentido diferente pelos dois adversários
2.palavreado inútil
(Do grego logomakhía, «luta de palavras»)

Quantas vezes, na primeira acepção, há discussões por significados diferentes para o mesmo significante. É preciso cada um definir demoradamente o significado que tem - demoradamente porque no processo de explicação as palavras usadas precisam de ser definidas. Quantas querelas acesas não assisti e fui parte antes de cada uma das partes definir bem o conceito. Cheguei a ver o recurso ao dicionário. Por palavras, matam-se pessoas.
A lei da vida: quanto mais, mais; quanto menos, menos.

O escritor quando tem o livro na cabeça fala muito pouco. O escritor pode, regra geral, falar pouco.
1. Aprende mais em ouvir e observar.
2. Entende que o silêncio é fundamental e belo e que poucas são as conversas que se justificam resgatá-lo. O escritor é económico com as palavras - precisamente porque lhes dá tanto valor.
3. Dá pouco valor a falar. Tem um preceito religioso. Verba volant, scripta manent.

segunda-feira, outubro 15, 2012

domingo, outubro 14, 2012

Quem calcula se a integridade vale a pena não nasceu para ser íntegro.
Whitman dizia que até o movimento das ancas e dos pulsos do homem íntegro é diferente. Há uma pureza no olhar, uma convicção na postura das costas, um ritmo no andar, um balanço nos gestos próprios.
O gato miava do outro lado da porta que ninguém abria.
O indivíduo jazia na estrada sangrando e ninguém parava.
O porco era arrastado para a morte  - o pináculo do grito de dor maior não é a faca, é o sofrimento psicológico de antecipação da morte.

A sensibilidade ao sofrimento é mais importante do que a cultura - é o que verdadeiramente nos une.

«Caligramas

Nome criado por Guillaume Apollinaire (1880-1918),
formado pela contracção de «caligrafia» e «ideograma»,
para designar poemas cuja disposição gráfica na página forma um desenho, geralmente relacionado com o tema do poema,
patente na obra Calligrammes (1918).

Etimologia: adjectivo grego kali + nome gramma = Belas Letras

Esta forma de poesia também é designada por poesia gráfica.

Apollinaire [Il pleut em baixo] inventou o nome, mas não o poema-desenho:
- primeiros poemas atribuídos ao poeta grego Simmias de Rhodes (século IV A.C.) representando um machado, um ovo e as asas do Amor;
- Raban Maur (século IX) compõe o Liber de laudibus Sanctae Crucis, poema místico de vinte e oito caligramas;
- Rabelais (século XVI) representou assim a sua «diva garrafa» no Quinto Livro.
- Este género também foi praticado no fim do século XIX, nomeadamente por Edmond Haraucourt.

Em Portugal:
- Mário de Sá Carneiro (1890-1916) [ver «tudo ondeia» em baixo» ;
- Salette Tavares (1922-1994);
- E. M. de Melo e Castro (1932- ).»

Joana Simão








sexta-feira, outubro 12, 2012


      Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
      E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
      Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca – e sempre a tua boca – comece de novo a nascer na minha boca.
      Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.


     Eugénio de Andrade
Lobo Antunes perguntou a Cardoso Pires o que achava do seu último livro.
«Sei lá, ainda só o li duas vezes.»

Da coragem

ALL I HAVE TO DO IS TO KILL HER


Pulling this watch as faces go
Pulling in a word and done it slow
This other time

I see your face is silent
Oh, we go away and play
What have you done?
Takes a feeling inside us all

Continue out
With just one push in my mouth
But you're so close now
And you're so close now

All I have to do is three short blows
All that still is best inside
The full when the wall
And you don't even know

All I have to do is kill her
All I have to do is kill her
All I have to do is kill her

And the other faces here with me
The others dressed in summers thing
If only one way is to be beautiful
If only one way is to the other song
And every time it's you
It's like the blood on the stairs is sent away
And every time we see it's all said before you

If only the ways to kill you
You used to say this fear of drowning
Fear no death by water
Father walks in at the foot of the bed
Six of you want to see you safe
Just one time you'll meet this man
All you've got to do is kill her
And all you've got to do is kill her

Trickle the sands against and pull the animals
Just out of the womb
Seeing the cow dead before he was born
It's the man he, he loved
The solid pieces fell on the ground
He couldn't kill another life
He couldn't kill another life
He couldn't kill another life


It's all been painted with love
It could have been some friends
Pulling strings to meet you
All I want to do is reach it

She says
'Let go my shoulder!'
See the sky!
And the sky goes black!
And the sky goes black!
I just want to feel her
I just want to feel her
I just want you to feel it
I just want you to feel it

Everytime I looked up the stairs
I used to see her die
She would move so slow
Anyone could've been but she was a cat
Anyone could've been she was a cat
Pulling away as I used to fight
That's just playing so low
That ugly or pretty
The face stays the same

Her face stays the same
Her face stays the same
The ugly or pretty
Her face stays the same
Stays the same, stays the same

And looking on the final walls
And looking on the final walls
Did you now find this malice out
The angels fall
Let's make some more noise
Let's make some more noise
Let's make some more noise

Looking for help, help she used to say
Help me be your mother for just one day
Let's fall in churches far outside

They used to love
They used to love
They used to love
They used to
Love

quarta-feira, outubro 10, 2012

Os eus

Para Freud, três: id, ego e superego.
Para mim, o eu que julgamos ser, o eu que idealmente queremos ser, e o eu que somos - e que vai mudando com o tempo e as experiência e os outros e as assimilações do mundo externo.
Para o sociólogo Erving Hoffman: múltiplos eus consoante o número de papéis sociais desempenhados.
Para o budismo, nenhum eu.
Para Pessoa, inúmeros eu. (E não foi o único - mas o primeiro - que teve heterónimos. Leiam sobre Kierkegaard.)
Para os bipolares, dois.
Para quem sofre de múltipla personalidade, muitos.
Para Joseph Luft e Harrington Ingham, quatro. O eu aberto, o eu conhecido por mim e pelo outro. O eu oculto, conhecido por mim e desconhecido pelo outro. O eu desconhecido, desconhecido tanto por mim como pelo outro. O eu cego, desconhecido por mim e conhecido pelo outro. Deve ser sobre este último que as relações a dois podem ser mais interessantes, mais expansionistas do self e auto-reveladoras. E deve ser este que dá dinheiro aos psicólogos.

«Eu estava tão perto de ti, que tenho frio ao pé dos outros.» 
Paul Éluard



[Verse 1]
Light reflects from your shadow
It is more than I thought could exist

You move through the room
Like breathing was easy
If someone believed me


[Hook]
They would be
As in love with you as I am
They would be
As in love with you as I am
They would be
In love, love, love


[Verse 2]
And everyday
I am learning about you
The things that no one else sees

And the end comes too soon
Like dreaming of angels
And leaving without them
And leaving without them


[Hook]
Being
As in love with you as I am
Being
As in love with you as I am
Being
As in love, love, love

[Verse 3]
And with words unspoken
A silent devotion

I know you know what I mean
And the end is unknown
But I think I’m ready
As long as you’re with me


[Hook]
Being
As in love with you as I am
Being
As in love with you as I am
Being
As in love, love, love