segunda-feira, setembro 10, 2012

Das relações

1. Ele está diferente. Brando onde era sentencioso. Calmo onde era impulsivo. Sorridente onde era sombrio. O pano de fundo do seu rosto mudou e o tique de estar sempre a mexer com as mãos no objecto mais próximo é agora muito mais intermitente. Ela afagou-lhe as arestas com doçura e suavizou-lhe os vértices com seda e magnólias.

2. Ele tem tanto de medo de a perder, que não contesta. No seu aniversário, com ela e a sua família, ele atendeu um telefonema de parabéns ao jantar. Era a ex-namorada. O telefonema foi lacónico. No fim do jantar, quando lhe dava boleia para casa, ela despejou um caudal de recriminações. «Tu humilhaste-me, atenderes um telefonema de uma ex a dar-te os parabéns! À frente da tua família. Nunca me senti tão traída e humilhada. Foi a pior humilhação que sofri na vida!» Ele chorou e disse que nunca mais faria tal coisa. Pediu-lhe que não o deixasse. Que faria tudo. Que estava arrependido. Que fora uma besta. Que era uma besta. Ele não analisa a razão, apenas atende ao volume do vociferar. Como ela grita sempre, ele dá-lhe sempre razão. Não tendo bitola de outras relações, pensa ser tudo normal e natural nela. «Angel, quando uma mulher aceita estar com um homem, ficar com ele, esse é o maior favor que ela pode dar. E então tudo o que tu faças é pouco perante a dádiva que é ela ter aceitado ficar contigo.»

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