O conto não é o parente pobre do romance. Criar em muito menos páginas personagens fortes requer uma mão mais concisa e acutilante. Transmitir emoções em muito menos palavras. Dalton Trevisan consegue-o com duas, três páginas. Dalton que numa das suas duas entrevistas disse querer chegar a um patamar de laconismo como se escrevesse prosa em haicais.
Um conto: O Caçula. [O filho mais novo.] Faz parte de Cemitério de Elefantes.
Tão poucas frases e três personagens gravadas na mente, a atmosfera familiar toda assimilada e retida. A natureza humana em poucas linhas.
«De volta da repartição, José pendura o chapéu no cabide, atira na mesa da sala a correspondência que retirou da caixa postal. Assim que ele entra no quarto, o velho Francisco, que estava à espreita, vem apanhar o jornal e a carta.
A mãe bate na porta e traz o prato na bandeja. Assiste ao almoço de José, sentado na cama, e põe um pouco de ordem no quarto. Antes de se afastar mão de leve na cabeça quase calva:
- Meu filho, por que não conversa com seu pai?
- Poxa, mãe... Nunca vai aprender?
Dez anos que não fala com o pai e faz as refeições no quarto. Até hoje os filhos, quase todos casados, não fumam na presença do velho [...] O caçula José, mimado pela mãe, único a desafiar a sua prepotência.
- Esse rapaz, Cecília, tem jeito não.
- Estou velho demais, mãe, para pedir louvado.
Os filhos casaram e desertaram a família [...] Envelhecem [pai e filho], ambos intransigentes no seu rancor [...] Cecília, escondida do marido, dá-lhe pequena mesada para cinema e cigarro.
José circulou algum tempo de pasta, com prospecto de seguro e amostra de chocolate. Não vendeu apólice alguma, suficiente a importância da pasta preta. As amostras ele mesmo comeu. [...] Afinal ocupava-se em recado e servicinho para a mãe.
Se lhe entregam um cheque para descontar, imediatamente aflito.[...]
A moça casou com outro, asinha se apartou. José em voz alta que o pai ouvisse lá da sala:
- Aqui do bichão ela não esquece! [...]
Às festinhas de família comparece o irmão Agenor, preferido do pai. [...] A mãe traz-lhe a comida, ele se queixa, coçando a barba:
- O menino de ouro vem aí. Dão o carro para ele. [...] E o bichão aqui não tem nada. [...]
- Respeite o seu pai, meu filho.
- Quem o Chiquinho? Que se dê o respeito para as negras dele.
Bebe durante a semana. No domingo, em cueca, peito cabeludo, folheia revista antiga e beberica leite com mel. A mãe censura a falta dos dentes.
- Todas não, mãe. Veja o canino firme. [...]
Em desafio ao velho exibe-se ao sábado, no cinema de braço dado não com uma, senão duas e três mulatas pintadas de ouro - por todas é amado de graça. É cada dia mais parecido com o pai, o mesmo andar de mãos cruzadas nas costas, o jeito de alisar o cabelo atrás da orelha.»
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1 comentário:
Incrivelmente bom.
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