«Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.
Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera poder continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.
É um facto incontestável que já não és jovem. Dentro de um mês vais fazer sessenta e quatro anos e, sem seres excessivamente velho, sem teres aquilo que qualquer pessoa designaria por uma idade avançada, não podes deixar de pensar em todos aqueles que não conseguiram ir tão longe como tu. Aí está um exemplo das várias coisas que nunca poderiam acontecer, mas aconteceram mesmo.
[...] Atormentam-me os momentos em que não fui capaz de agir conforme esperava de mim mesmo. Esses erros de comportamento e de julgamento seguem atormentando-me. Fazem-me pensar que não sou o grande homem que sempre acreditei ser. […] Não queremos todos ser heróis nas nossas vidas? […] Sempre tentei viver a minha vida de modo que pudesse merecer meu próprio respeito. E, em certas ocasiões, falhei. Não estou dizendo que se possa ir por aí, sem cometer um erro, sem fracassar nenhuma vez. Mas esses são os meus erros e seguem torturando-me.»
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