quarta-feira, agosto 08, 2012


Cartilha para contrariar a assimilação acrítica das agendas mediáticas

Não confundas opinião pública com opinião publicada. Presta tanto atenção às notícias de rodapé como às manchetes. Lê o artigo inteiro para lá da manchete. Relê. Conclui se a manchete é séria. Só dês crédito ao soundbyte se tiveres lido a reportagem exaustivamente. Tem sempre presente que um argumento popular se resume num slogan e que um argumento impopular pede páginas de explicação. Verifica o parágrafo inteiro de que a citação é tirada e conclui se o excerto é sério pelo seu contexto, pela circunstância específica que foi truncada para a frase soar mais tonitruante.Lê quantas fontes foram escutadas para a produção de determinada peça jornalística. Vê quais as fontes dos números que são citados. Investiga se o que se diz que «cresceu no último trimestre» decresceu ao longo do ano inteiro. Desconfia sempre, rejeita sempre um artigo que te obrigue a pensar do modo como queres que o articulista pense. Despreza os cronistas que te apresentam soluções bacteriologicamente puras quanto a ideologia. Lembra-te de que lá fora há países que em que os jornalistas assumem a sua cor partidária. Pensa que tudo o que lês é 95% de mentiras, meias verdades, omissão de contraditório, perguntas direccionadas de jornalistas. Vê as fontes de publicidade do medium  – não lerás nada imparcial sobre tais empresas. Estuda os grupos económicos que estão por trás de cada medium. Lê o Provedor dos Leitores do Público. Investiga para onde trabalham e trabalharam e de quem são amigos todos os opinadores que lês e ouves. Um desses que aparece na televisão tem dezasseis empregos em grandes empresas – falará ele mal de quem lhe paga? Lembra-te da sondagem em que 90% dos jornalistas se afirmaram coagidos a escrever de acordo com a linha editorial do jornal. Procura confrontar uma estatística com outra. Lembra-te do ceteris paribus nas análises. Lembra-te de que se um come uma galinha e outro nenhuma, para a estatística ambos comem meia galinha. Se conseguires ou conheceres alguém do meio jornalístico, averigua como são os encontros entre jornalistas, poder político e poder económico – o fausto dos mesmos, a troca de favores, as palmadinhas nas costas. Lembra-te de que nem tudo o que existe vem nos media. Lembra-te de que há áreas que não são escrutinadas. Lembra-te de que não é por determinados fenómenos só serem abordados hoje que não existiam ontem. Desconfia dos que são muito maltratados pela comunicação social e procura investigar porque são levados ao colo certos senhores que cometem as piores tropelias. Faz o teu arquivo de imprensa – vê como os santificados de outrora são os diabolizados de hoje por coisas que realizaram no tempo em que supostamente eram santos. Recusa os bons e os maus que te querem impingir – mesmo nos casos mais tenebrosos, como da Síria. Tem de haver sempre direito ao contraditório. Têm de ter ser dadas sempre as duas versões das duas partes. Passa ao lado de todos aqueles que são mercenários de uma campanha por uma causa ou uma perseguição ad hominem – omitirão tudo o que não lhes convém porque perseguem interesses, vinganças. Evita ler sobre Paco Bandeira, Maddie, as férias de Cristiano Ronaldo, a destruição da vida de Sara Norte, especulações quanto a transferências de jogadores (e, se leres, vê quantas especulações sobre transferências são concretizadas; o rácio é assustador), mexericos, casos de justiça em que só sai cá para fora o que convém quando convém – tudo isso são coisas para desviar a tua atenção do essencial: o estado da nação.
Lê a imprensa estrangeira. Confronta dados. Vê, para lá das estatísticas, as lojas e empresas que vão falindo. Vê a situação dos teus amigos. Vai a hospitais públicos. Anda de transportes públicos. Vê como a polícia trata os desvalidos e os imigrantes numa esquadra. Vê o mundo com os teus olhos e confronta depois esse olhar com as lentes que te põem.
Recusa não questionares tudo o que é uma verdade feita. Por exemplo: na função pública, todos ganham melhor. Mentira: na função pública, as profissões com menos qualificações ganham menos do que no sector privado. Bebe pelo teu próprio copo.
Tem muita atenção à semântica. Dizer «ajuda financeira» ou «contracção de uma dívida» tem todo um programa. Dizer «flexibilização do mercado de trabalho» ou «facilitação dos despedimentos» tem todo um programa. Dizer «ajustamento salarial» ou «diminuição dos salários» tem todo um programa. Dizer «liberalização do aborto» ou «discriminalização do aborto» tem todo um programa. Lembra-te de Orwell – a história é uma produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em frente do nariz requer um esforço constante.

1 comentário:

Anónimo disse...

"Lembra-te de Orwell – a história é uma produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em frente do nariz requer um esforço constante."

Os vencedores nos media é a esquerda. Por isso sempre fomos tão enganados, desde as sondagens que levavam Sócrates à vitória, às energias renováveis que só agora se sabem nos custar os olhos da cara em subsídios (metade da factura de eletricidade!), até à inesperada quase bancarrota do país! E agora, apesar de ter deixado de prestar atenção aos meios de comunicação portugueses, sempre que apanho por acaso um canal português, só ouço falar contra as medidas de austeridade. Que grande enjoo de lavagem cerebral por parte de jornalistas falhados.

Cristina