«Andar é uma chatice, preferia que me empurrassem a poltrona. Tenho de concordar, sinto-me irremediavelmente trinta e sete. Quando me senti trinta e sete antes? Nas noites de domingo, às vezes, nas alturas em que o passado me vem ver e, igualzinho ao charroco, não morre. Devia haver um mecanismo qualquer, um limpa-vidros por exemplo, que o apagasse. Que sótão a minha cabeça, tanta tralha. É aí que vou buscar o lixo para os livros, papel velho, detritos, latas de conserva, bocados de garrafa, um frigorífico que deu o triste pio. Um dia darei o triste pio, não sou mais que do que ele e metem-me no sótão entre uma grafonola e uma caixa de cartão com um chapéu alto dentro. E põem tudo isto no passeio, eu incluído, para as camionetas da Câmara da madrugada, numa barulheira de latas, quedas, gritos também, de pessoas ainda vivas que protestam. [...]
peixes amontoam-se nas bocas dos esgotos deslocando-se como punhais ou imóveis à espera que a tralha dos sótãos chegue, a grafonola, o frigorífico, eu que me sinto tão trinta e sete hoje e vou acabar no estômago de um charroco, parecem tão feitos de pedra que não sei como funcionam, nunca vi pedras mastigarem, mandíbulas de granito triturando calcário, o céu verde, as árvores lilazes, os prédios azul marinho, as pessoas na rua às listras castanhas e brancas, não sei o que passa comigo, sinto-me trinta e sete [...]»
António Lobo Antunes
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