sexta-feira, agosto 31, 2012

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceu, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

W. W.

quinta-feira, agosto 30, 2012

«[...] e como tu sempre tiveste a certeza de que ele [o teu pai] ia viver muitos anos, nunca houve urgência em dissipar a bruma que sempre pairou entre vós, e portanto, quando desabou sobre ti a notícia da sua morte súbita e inesperada, ficaste com a sensação de assunto por resolver, com a frustração oca das palavras por dizer, das oportunidades perdidas para sempre.»

Paul Auster, Diário de Inverno

Das infinitas possibilidades da literatura


Escrita constrangida

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
escrita constrangida é uma técnica literária na qual o escritor está limitado por uma qualquer condição que proíbe certas coisas ou impõe um padrão.
Os constrangimentos são muito comuns na poesia, que exige frequentemente ao escritor que utilize uma determinada forma de verso.
As mais comuns formas de escrita constrangida são restrições estritas no vocabulário. Alguns exemplos: o basic english, vocabulários limitados para o ensino do português como segunda língua ou a crianças, etc. No entanto, não é isto o que se entende geralmente como "escrita constrangida", num sentido literário, onde as restrições são motivadas por preocupações de carácter mais estético. São exemplos:
  • Lipogramas - Uma letra é proibida.
  • Lipograma inverso - Todas as palavras devem conter uma certa letra.
  • Literatura univocálica - Apenas uma vogal é permitida.
  • Palíndromos - Podem ler-se da frente para trás ou de trás para a frente.
  • Textos aliterativos - Todas as palavras devem começar pela mesma letra (ou subconjunto de letras).
  • Acrósticos - Formas textuais onde as primeiras letras de cada frase ou verso formam uma palavra ou frase.
  • Anagramas - Rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez.
O grupo OuLiPo é formado por escritores de língua francesa que utilizam diversas variantes de escrita constrangida. O grupo OuTraPo é semelhante, mas usa constrangimentos teatrais.
Como exemplos de lipogramas, podemos citar o romance inglês Gadsby, com 50.100 palavras, nenhuma das quais contém a letra "e". Em 1969, o francês Georges Perec publicou La Disparition, um romance que também não continha a letra "e". Foi traduzido para inglês, em 1995, por Gilbert Adair, e recebeu o título A Void.
Em 2004, surgiu em França um romance inteiramente desprovido de verbosLe Train de Nulle Part ("O Comboio de Nenhures") por Michel Thaler[1]
Um exemplo famoso de escrita constrangida em chinês é o Poeta Comedor de Leões no Covil de Pedra, que consiste de 92 caracteres, todos com o som shi.

terça-feira, agosto 28, 2012

De como o Homo Economicus nos conduz à barbárie e às castas


Espanha: fim do apoio médico a imigrantes ilegais (Expresso)

Vários médicos estão contra esta medida, que entra em vigor no sábado, e prometem continuar a prestar cuidados médicos. Governo espanhol estima poupar 500 milhões de euros
Mais de 153 mil imigrantes ilegais em Espanha vão perder a partir de 1 de setembro o seu cartão de saúde, medida que o Governo espanhol estima que resultará em poupanças de 500 milhões de euros. A partir de sábado, os imigrantes irregulares passam a ter direito exclusivamente aos serviços de urgência, apoio na maternidade e cuidados médicos até aos 18 anos.
A polémica medida, fortemente contestada por organizações de apoio ao imigrante e por alguns partidos políticos, à esquerda, insere-se no conjunto de mudanças que o Governo aprovou para, segundo explica, garantir a sustentabilidade do sistema de saúde público.
Vários médicos declararam-se já contra a medida, prometendo continuar a prestar cuidados médicos aos imigrantes que poderiam, para aceder ao sistema, ter que pagar 710 euros anuais.

Algumas regiões autónomas estão contra


Uma proposta polémica fortemente contestada pela oposição, que refere que a cobrança de uma taxa mensal de 59,20 euros por cada imigrante com menos de 65 anos - que aumenta para 155,4 euros mensais para os maiores de 65 - é mais elevada do que a cobrada por vários seguros privados de saúde.
O Governo defende as mudanças no sistema de saúde, recordando que a dívida acumulada do sector é de 16 mil milhões de euros, mas a sua implementação não será unânime em todas as regiões autónomas espanholas, que têm a competência no sector.
É o caso do País Basco, Andaluzia, Astúrias e Catalunha - que não aplicarão a medida - e outras comunidades, como Navarra, que pretendem usar medidas como determinar a capacidade de os imigrantes pagarem ou não o serviço.
Dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol referem que a população estrangeira em Espanha é de 5.711.040 pessoas, sendo que os que têm autorização de residência, segundo o Ministério de Emprego, é de 5.251.094. O número de cidadãos não registados é assim de 459.946, ainda que a maioria (mais de 306 mil) seja procedente da União Europeia, pelo que não têm obrigação de inscrever-se.
Assim, e segundo as estimativas, a medida do sector da saúde poderia afetar mais de 153 mil pessoas que, até aqui, tinham acesso ao sistema por estarem simplesmente registados no "padrão" municipal.

Contas não batem certo


O Governo estima que as poupanças de 500 milhões têm em conta quer o caso de imigrantes a residir em Espanha quer os gastos como "os seus familiares que viajam para Espanha apenas para ter cuidados de saúde".
Dados que contrastam, porém, com os valores oficiais que estimam que o custo médico por habitante em Espanha é de 1.600 euros. Ou seja, multiplicando pelos 153 mil imigrantes daria um saldo de apenas 245 milhões, menos de metade do valor estimado pelo Governo. 
http://www.casaldasletras.com/Audio/Vergilio%20Ferreira.mp3

segunda-feira, agosto 27, 2012

- Acho que há pessoas que são mais refilistas na esfera pública e outras que são mais refilistas na esfera privada. Não é que sejam coisas antagónicas, que funcionem numa relação inversa. Mas há os predominantemente refilistas numa esfera e noutra. Eu sou um pouco refilista na esfera pública, mas muito refilista na esfera privada.
- Ando há doze anos a estudar o comportamento, a personalidade e o significado dos olhares e dos ronronares da minha gata.

Ao contrário de George Steiner, considero que as humanidades humanizam.


«não te poderás considerar um verdadeiro intelectual se não puseres a tua vida ao serviço da justiça; e sobretudo se te não guardares cuidadosamente do erro em que se cai no vulgo: o de a confundir com vingança. Por isso mesmo estarás sempre ao lado dos vencidos que se tratam com arrogância, com brutalidade ou com desprezo; não te importarás que as suas ideias sejam diferentes das tuas, mover-te-á o olhares que são homens e não vais duvidar, nem um momento, da infinita possibilidade que neles há, de um mais definido pensamento e de um mais perfeito proceder; não os vejas como condenados para sempre à mesma estrada que tomaram; que exista para ti a esperança das reflexões e dos regressos.»

Agostinho da Silva
«Vivemos hoje sufocados por informações de todos os tamanhos e feitios. Televisão, rádio, jornais, Internet, iPods, iTunes, twitteres, facebooks, Blackberry bolds, mexericos das comadres, segredos inconfessáveis, o escambau. Como conseguir respirar e sobreviver, então, no meio desta selva, tentando “microscopar” a nossa própria identidade? Ficando apenas com o escambau. Porque, ou nos unimos, o que é utopia, (pois aquela do povo unido jamais será vencido foi a maior balela da paróquia), ou partimos para o individualismo do manda quem pode, obedece quem tem juízo, e nos estrepamos sem apelo nem agravo.»

Cunha de Leiradella

sábado, agosto 25, 2012

Será Verdade?

«Sendo público que o 1º M passou as férias numa casa alugada, na Manta Rota, no Algarve, vem hoje, a SÁBADO, no seu editorial a meditar no seguinte:

"O DIÁRIO DE NOTÍCIAS cometeu a ousadia de perguntar ao gabinete de Pedro Passos Coelho se o senhor primeiro-ministro se dera ao cuidado de pedir factura do aluguer da sua casa no Algarve. Visto que o aluguer sazonal de habitações de Verão é uma das formas habituais de fuga ao fisco, o DN achou a pergunta pertinente. Mas Pedro Passos Coelho considerou-a uma evidente violação do “foro privado”, porque “não estão em causa dinheiros públicos”.
Da próxima vez que um inspector das finanças lhe perguntar se negociou as obras de casa ou o arranjo do carro sem factura e sem IVA, já sabe o que deve responder."»


2 p.m. beer

nothing matters
but flopping on a mattress
with cheap dreams and a beer
as the leaves die and the horses die
and the landladies stare in the halls;
brisk the music of pulled shades,
a last man's cave
in an eternity of swarm
and explosion;
nothing but the dripping sink,
the empty bottle,
euphoria,
youth fenced in,
stabbed and shaven,
taught words
propped up
to die.


C. B.
sondagem

Inquérito DN

Concorda que o Estado entregue a gestão da RTP1 a um privado?
Sim124 votos
 
27%
Não339 votos
 
73%
«O leitor costuma ter uma posição muito mais confortável do que as personagens, mas aqui forço o incómodo. De onde vêm os nossos juízos morais? Dos nossos pais, dos nossos amigos, mas tudo muda à medida que crescemos e envelhecemos. Tudo pode mudar, até mesmo as nossas convicções morais, quando, por exemplo, nos apaixonamos por alguém. Tantas vezes nos vemos a acertar passo com o comportamento do outro, a aceitá-lo, ainda que nos víssemos a condená-lo se o nosso olhar não estivesse condicionado pelo filtro da paixão. Isso não significa que não tenhamos espinha dorsal, que sejamos amebas. Acontece.»

Robert Wilson falando sobre o seu último livro Pena Capital
O conto não é o parente pobre do romance. Criar em muito menos páginas personagens fortes requer uma mão mais concisa e acutilante. Transmitir emoções em muito menos palavras. Dalton Trevisan consegue-o com duas, três páginas. Dalton que numa das suas duas entrevistas disse querer chegar a um patamar de laconismo como se escrevesse prosa em haicais.
Um conto: O Caçula. [O filho mais novo.] Faz parte de Cemitério de Elefantes.
Tão poucas frases e três personagens gravadas na mente, a atmosfera familiar toda assimilada e retida. A natureza humana em poucas linhas.
«De volta da repartição, José pendura o chapéu no cabide, atira na mesa da sala a correspondência que retirou da caixa postal. Assim que ele entra no quarto, o velho Francisco, que estava à espreita, vem apanhar o jornal e a carta.
A mãe bate na porta e traz o prato na bandeja. Assiste ao almoço de José, sentado na cama, e põe um pouco de ordem no quarto. Antes de se afastar mão de leve na cabeça quase calva:
- Meu filho, por que não conversa com seu pai?
- Poxa, mãe... Nunca vai aprender?
Dez anos que não fala com o pai e faz as refeições no quarto. Até hoje os filhos, quase todos casados, não fumam na presença do velho [...] O caçula José, mimado pela mãe, único a desafiar a sua prepotência.
- Esse rapaz, Cecília, tem jeito não.
- Estou velho demais, mãe, para pedir louvado.
Os filhos casaram e desertaram a família [...] Envelhecem [pai e filho], ambos intransigentes no seu rancor [...] Cecília, escondida do marido, dá-lhe pequena mesada para cinema e cigarro.
José circulou algum tempo de pasta, com prospecto de seguro e amostra de chocolate. Não vendeu apólice alguma, suficiente a importância da pasta preta. As amostras ele mesmo comeu. [...] Afinal ocupava-se em recado e servicinho para a mãe.
Se lhe entregam um cheque para descontar, imediatamente aflito.[...]
A moça casou com outro, asinha se apartou. José em voz alta que o pai ouvisse lá da sala:
- Aqui do bichão ela não esquece! [...]
 Às festinhas de família comparece o irmão Agenor, preferido do pai. [...] A mãe traz-lhe a comida, ele se queixa, coçando a barba:
- O menino de ouro vem aí. Dão o carro para ele. [...] E o bichão aqui não tem nada. [...]
- Respeite o seu pai, meu filho.
- Quem o Chiquinho? Que se dê o respeito para as negras dele.
Bebe durante a semana. No domingo, em cueca, peito cabeludo, folheia revista antiga e beberica leite com mel. A mãe censura a falta dos dentes.
- Todas não, mãe. Veja o canino firme. [...]
Em desafio ao velho exibe-se ao sábado, no cinema de braço dado não com uma, senão duas e três mulatas pintadas de ouro - por todas é amado de graça. É cada dia mais parecido com o pai, o mesmo andar de mãos cruzadas nas costas, o jeito de alisar o cabelo atrás da orelha.»

Dizem que o amor liberta.
Ela ama o seu cão como um ente familiar. Todos os dias, às sete e às dez, ninguém pode estar com ela - tem de o ir passear.
Ele mudou a vida por causa da avó e nunca sai de casa de noite (ele que saía tanto de noite) para ser o enfermeiro e o psicólogo.
Ela vai todos os dias à clínica vê-lo no seu programa de desintoxicação.
Ele deixou de viajar desde que teve os miúdos.
Ele deixou de sair desde que nasceu o segundo filho.
Ela não pode abandonar o marido para se encontrar com ninguém. Ele  não sai da cama há um ano com depressão e diz que se mata se ela sair.
«[...] nada que fosse superficial era importante para ti, tudo estava na luz interior que detectavas em cada uma, na centelha da singularidade, no fulgor da individualidade revelada [...]»

Diário de Inverno, Paul Auster

sexta-feira, agosto 24, 2012

Uma mosca aproxima-se de mim no colchão e eu penso nela a aproximar-se. Ela é a mosca e até os seus olhinhos são os dela.
- Estou numa fase muito zen, sei que achas que fui vergado pelo sistema, mas eu passei muito tempo a desgastar-me, a pedir que me pagassem, a acumular fúrias, ameaçar judicialmente, e agora aceito tudo. Não faço planos, giro o quotidiano. E tenho uma estranha calma dentro de mim advinda desta aceitação de que não posso mudar o mundo.
Nunca mais é muito tempo.
http://www.escritapormedida.com/

quinta-feira, agosto 23, 2012

Coisas boas de Portugal

http://www.apar.org.pt/

Por que raio um recluso só pode receber uma encomenda por mês?

Lendo livros de linguística e filologia com quase cem anos, descobre-se que «íntimo» é superlativo absoluto de «interno».
- Eu acho que ninguém pode julgar e muito menos condenar porque só Deus pode ser neutro e ter a informação toda, mas, neste caso, eu quero-me interpor entre Deus e ele e executar a vingança.

Ana Karenina

«"Como? Como era?", pensou, lembrando-se do sonho que tivera. "Como era aquilo? Ah, já sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt; não; não era em Darmstadt, era na América. Sim, no sonho Darmstadt ficava na América. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal e as mesas cantavam Il Mio Tesoro! Talvez não fosse Il Mio Tesoro, mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.»

Diário de Inverno, Paul Auster


«Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.
Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera poder continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.
É um facto incontestável que já não és jovem. Dentro de um mês vais fazer sessenta e quatro anos e, sem seres excessivamente velho, sem teres aquilo que qualquer pessoa designaria por uma idade avançada, não podes deixar de pensar em todos aqueles que não conseguiram ir tão longe como tu. Aí está um exemplo das várias coisas que nunca poderiam acontecer, mas aconteceram mesmo.           

[...] Atormentam-me os momentos em que não fui capaz de agir conforme esperava de mim mesmo. Esses erros de comportamento e de julgamento seguem atormentando-me. Fazem-me pensar que não sou o grande homem que sempre acreditei ser. […] Não queremos todos ser heróis nas nossas vidas? […] Sempre tentei viver a minha vida de modo que pudesse merecer meu próprio respeito. E, em certas ocasiões, falhei. Não estou dizendo que se possa ir por aí, sem cometer um erro, sem fracassar nenhuma vez. Mas esses são os meus erros e seguem torturando-me.»




- Cada vez me sinto mais afastado de toda a gente e vejo o mundo com mais estranheza.
- Tenho 70 anos e nunca me vendi. As oportunidades que a vida nos oferece para nos vendemos aparecem sempre. E vi muitos e muitos por quem punha as mãos no dito venderem-se tardiamente. Muita pouca gente resiste.
- Quem nunca furou a coacção familiar fica paralisado para a vida, com muito medo de dar um passo sem a validação parental.

Da coerência ou Porque é que este tipo de notícia é sempre abafado?


O deputado do PS José Junqueiro acusou o Governo de «iniquidade», ao pagar subsídio de férias aos assessores que recrutou no privado.

O socialista reagia à informação hoje avançada no Diário de Notícias, segundo a qual os «assessores do Governo recrutados no privado recebem subsídio de férias», ficando à margem dos cortes de subsídio imposto aos funcionários públicos.

«Essa notícia corresponde a um ato de grande iniquidade do senhor primeiro-ministro, do ministro das Finanças e do Governo em geral, porque quando todos os funcionários são chamados para dar o seu contributo para a crise que vivemos não pode haver funcionários de primeira e funcionários de segunda», disse José Junqueiro.

quarta-feira, agosto 22, 2012

- A minha grande questão existencial é perceber o risco que separa o individualismo do egoísmo nas minhas acções.

Os nossos velhos


Querem ausentá-los mas eles não se ausentam. A sociedade coloca-os nos jardins, por inúteis, mas não o são; e recordam-se e fazem correr os rosários das memórias, e martirizam-se com as dores no corpo e as dores na alma, estas as piores de todas elas; são deixados, mesmo que, aparentemente, os não deixem; por vezes desorientam-se e perdem-se nas ruas. Os nossos velhos foram tipógrafos, estradeiros, carpinteiros, construíram prédios e barragens, navios e pontes; as suas mãos tornearam a madeira e furaram as montanhas e montaram os carris e fizeram as vindimas e afagaram-nos e tiveram-nos ao colo, protegem-nos, vigiam-nos, nossos pais, nossos avós. Os nossos velhos.
O polimento secular da bestialidade fizera das relações humanas um traço de civilização. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos, porque incómodos, e já não eram precisos. Os laços sociais que se foram estabelecendo não impediram as guerras e as atrocidades inomináveis. A educação e a harmonia de costumes não são dados adquiridos, e o poder de uns sobre outros é um elemento da luta de classes. Os homens são bons, quando novos, apenas porque produzem. Velhos, deitam-nos para o lixo.
A regressão dos sentimentos e das atitudes, impulsionada pelos novos modelos sociais que nos impõem, desemboca em múltiplas incertezas. O desprezo pelos velhos é uma das variantes dessa regressão, que não nos propõe outros valores. E indica que temos de enfrentar um desafio moral delicado, com que seremos, inevitavelmente, confrontados. O conceito de família, tal como o conhecemos, tem sido aniquilado pelas novas leis de valor. Mas estas leis não significam que sejam as melhores. Pelo contrário.
As doutrinas do "mercado" estão a pulverizar o modelo europeu de sociedade, até agora o mais harmonioso porque o mais humanizado. Será preciso redefinir as bases do contrato social?
Deitar os velhos fora, abandoná-los em caricaturas de "lares" ou nos gelados corredores dos hospitais parece característica do tipo de sociedade em formação. Aprender a conhecer é aprender a fazer e a viver em conjunto. Remover os velhos do nosso carinho e dos nossos afectos, é removermo-nos a nós próprios da condição humana. Querem ausentá-los, mas eles não se ausentam. Estão ali, muito mais atentos do que se possa presumir. Eles são a memória de todos, a nossa pessoal memória, e a nossa certeza do que fomos para entendermos o que seremos.
Extorquem tudo aos velhos, agora, até, por aumento das tarifas nos transportes, a possibilidade de viajar em Lisboa. Não se queixam, mas não afrouxam. Ei-los. Estão aqui e ali. Vou a O'Neill e reproduzo-o: "Velhos, ó meus queridos velhos, / saltem-me para os joelhos: / vamos brincar?"

Baptista-Bastos

terça-feira, agosto 21, 2012

«[Nos EUA] De 1979 a 2007, a renda do 1% mais rico aumentou 275%. [...] Na crise financeira de 2008, o clube do 1% detinha mais de 23% da renda nacional. [...] Há 400 famílias que, juntas, financeiramente valem o mesmo que 150 milhões de americanos de classes mais baixas. [...] Em 1970, o imposto sobre ganhos de capital, uma das principais fontes de renda dos muito ricos, era de 40%. Hoje, é de 15%.»

Revista Veja
«Ven a dormir conmigo: no haremos el amor, él nos hará.»

Cortázar

1984, O Zero e o Infinito, Strauss-Kahn, Assange



«Já repararam que quando alguém critica o governo, seja um bispo, um responsável desportivo, um empresário “vermelho”, um chefe dos bombeiros, uma autarca mais atrevido, vinte e quatro horas depois, aparece alguma notícia danosa, verdadeira ou falsa, populista ou insidiosa, a atacar a sua reputação e os seus motivos? 

 Os homens livres deveriam preocupar-se com a coincidência.»

Pacheco Pereira
- Não temos nada para comunicar porque não temos nada que possamos pôr em comum.
«A única coisa que não se enquadra na regra da maioria é a consciência de cada um.»

Harper Lee

Da miséria dos nossos opinadores

sábado, agosto 18, 2012

- Descobri com esta idade o que é estar apaixonado, Angel. Não consigo pensar em mais nada. Nem nos sonhos, ela me deixa. Consigo estar alguns minutos do dia, imerso num escape, mas não mais, e mesmo no período de distracção, ela é o pano de fundo. Como seiva no meu sangue. Estou permanentemente leve e febril. O pensamento volta sempre a ela. O pior de tudo é que perdi a capacidade de trabalho. Perdi a concentração. Antes, falava muito, agora falo tão pouco e quando falo parece que é outro que está a falar por mim. Estou com pessoas e estou calado, estou sempre ausente. O olhar trai-me e perguntam-me: «O que se passa contigo?» Comer, dormir e tomar banho são actividades que me pesam como um esforço. E ao mesmo tempo os momentos bons, de tão maravilhosamente bons contrabalançam tudo o resto. No outro dia, combinei com um amigo meu, fui ter com ele, passei por ele e não o vi. Ele disse-me: «Estava a olhar-te nos olhos. Como não me viste?» É a paixão, pensei. O pior é que se ela não me dá sinal, Angel, se ela não me dá sinal... Sim, Angel, podes não acreditar, mas eu estou com baixa auto-estima. A minha auto-estima depende dela. No outro dia, num jantar, disse uma piada que achei excelente. Ninguém se riu. Eu pensei que a dissera baixinho. Disse-a mais alto, mas eles continuavam a falar. Fiquei nervoso. «Bem, já disse a piada duas vezes e ninguém disse nada. Devo estar a ser ridículo. Se calhar, a piada não tem graça nenhuma.» Disse-a uma terceira vez. Eles riram-se imenso e eu fiquei muito mais tranquilo. Este tipo de situação nunca me acontecera antes.

sexta-feira, agosto 17, 2012

terça-feira, agosto 14, 2012



Os problemas não se devem ao sobreendividamento público, aconteceram porque os Governos responderam à crise da dívida do sector privado e a dívida passou do sector privado para o público.

Joseph Stiglitz

segunda-feira, agosto 13, 2012


Excerto de uma carta de M.M. a Giacomo Casanova

«[...] meu encantador moreno, [...] Sem ti, meu coração, teria vivido sem me conhecer, e pergunto a mim mesma se seria possível que a natureza tivesse produzido uma mulher que pudesse ficar insensível entre os teus braços, ou antes, não receber de encontro ao peito uma nova vida? Eu faço mais do que amar-te, do que estremecer-te, idolatro-te e a minha boca, enquanto espera reencontrar a tua, lança mil beijos que se perdem no ar.»

Compilação de frases para baralhar quem arruma as pessoas em caixinhas


We are socialists, we are enemies of today's capitalistic economic system for the exploitation of the economically weak, with its unfair salaries, with its unseemly evaluation of a human being according to wealth and property instead of responsibility and performance, and we are all determined to destroy this system under all conditions.

Adolf Hitler


A homossexualidade é uma grande tristeza, uma grande tristeza.

Álvaro Cunhal


Não é a arte que deve descer ao povo, mas o povo que deve ascender à arte.

Lenine

The bourgeois is about to leave the historical stage. In its place will come the class of productive workers, the working class, that has been up until today oppressed. It is beginning to fulfill its political mission.

Goebbels

Não creio que seja possível amar, no mesmo grau e ao mesmo tempo, dois objectos.

Casanova



Será que a revolução neoliberal em curso tem plena consciência dos valores que está a pregar?

1. Ficámos a saber há dias que Miguel Pais do Amaral, presidente da Media Capital, dona da TVI, é a pessoa que ocupa mais lugares em conselhos de administração de empresas portuguesas: Pais do Amaral administra nada menos de 73 empresas (segundo dados da CMVM relativos ao final de 2010) e isto sem contar as empresas estrangeiras onde ocupa os mesmos cargos, nomeadamente em Angola e no Brasil. Se se incluírem também estas, Pais do Amaral terá assento em mais de cem conselhos de administração. E isto, note-se, apenas em conselhos de administração, sem considerar quaisquer outras funções e actividades.
O facto foi uma surpresa para o próprio que, segundo as suas declarações aos media, confessou achar "até alguma piada" ao facto de ser recordista da modalidade. E, quando lhe perguntaram como conseguia gerir tantas empresas ao mesmo tempo, Pais do Amaral explicou que "muitas dessas empresas têm conselhos de administração que não reúnem ou reúnem semestralmente", acrescentando a seguir que não considerava que essa fosse "uma questão muito relevante", sinalizando desta forma aos jornalistas que preferia que eles não insistissem neste tema delicado.
Que uma pessoa não consegue gerir cem empresas ao mesmo tempo, dedicando a cada uma delas a atenção que as regras prudenciais recomendam, é evidente. Mas todos sabemos que as regras não são iguais para todos e, se há empresas privadas que entendem convidar Pais do Amaral para os seus conselhos de administração mesmo sabendo que ele não lhes poderá dedicar senão alguns minutos de atenção por ano e se o próprio entende que deve aceitar esses convites, apenas podemos espantar-nos com a generosidade dos primeiros e a vaidade do segundo. Mas porque se inclui num conselho de administração alguém que, manifestamente, não terá tempo para levar a cabo esse trabalho? É possível que, nalguns casos, Pais do Amaral apenas esteja a servir de jarra (o que se pode considerar uma função em si) mas penso que noutros casos a sua inclusão nem sequer tem esse objectivo. É que "pôr" Pais do Amaral num conselho de administração parece simplesmente algo "natural", um privilégio de casta que nada tem a ver com eventuais competências, com real disponibilidade ou com qualquer expectativa de trabalho por parte da organização. Trata-se, antes de mais, de uma questão de estatuto: Pais do Amaral pertence à categoria dos administradores, faça o que fizer ou mesmo que não faça nada, como outros pertencem à categoria dos desempregados ou dos quinhenteuristas, ainda que sejam brilhantes, criativos, trabalhadores e doutorados. É isso que quer dizer uma sociedade de castas e é nisso que a sociedade portuguesa se está a transformar a passos largos, regressando à estratificação típica do Estado Novo.

2. Também nos últimos dias, ficámos a saber em que consistiam as medidas de apoio ao emprego jovem incluídas no programa Impulso Jovem, criado pelo Governo. Essas medidas consistem em subsídios dados às empresas que empreguem jovens desempregados há mais de um ano e com menos de 30 anos de idade. Os subsídios (que têm a forma de reembolsos de uma percentagem da Taxa Social Única) são pagos durante os primeiros 18 meses de vigência dos contratos de trabalho, sendo os benefícios máximos para salários até aos 980 euros (para contratos a prazo) e até aos 735 euros (para contratos sem termo). O que este sistema de incentivos diz às empresas é simples: contratem jovens até aos 30 anos, contratem-nos por prazos não superiores a 18 meses, paguem-lhes salários baixos, de forma a maximizar os vossos reembolsos de TSU. E, naturalmente, este incentivo à precariedade e aos baixos salários é financiado pelos nossos impostos.

Se fosse preciso uma admissão do desejo do Governo de aumento da desigualdade e de degradação dos salários, ela não poderia ser mais clara. E é claro que isso é feito em nome da promoção da competitividade e apresentado com a desvergonha habitual como sendo uma medida de promoção do emprego. Percebe-se: estes jovens desempregados não se chamam Pais do Amaral. São cidadãos de outra categoria.


3. O discurso de defesa da desigualdade crescente - que já não é apresentada como um flagelo a combater mas como uma infeliz inevitabilidade, quando não como uma ferramenta da promoção da competitividade internacional - é, aliás, cada vez menos eufemístico. Num dos últimos programas da Quadratura do Círculo, o advogado António Lobo Xavier levava a desfaçatez ao ponto de declarar que a redução das desigualdades sociais não era "sustentável" (repare-se na apropriação do léxico politicamente correcto, como um dedinho piroso espetado ao pegar na chávena de chá) e dizia que a relativa redução das desigualdades durante dois anos dos governos Sócrates teriam provado isso mesmo, pelo descalabro financeiro que teriam provocado. O mantra da direita caceteira que temos no poder é "gostávamos de combater as desigualdades, mas não temos dinheiro para isso", da mesma forma que Paulo Macedo diz que a única forma de defender o Serviço Nacional de Saúde é destruí-lo e que Mota Soares diz que a única forma de defender o Estado Social é acabar com ele. Os indicadores da desigualdade enchem todos os dias as páginas dos jornais: há 463 mil desempregados sem qualquer tipo de apoio, há 40 mil idosos em Lisboa que deixaram de ter dinheiro para comprar passe, os escândalos tornaram-se estatística quotidiana. O discurso político demoniza estes miseráveis, humilhados e ofendidos. São o peso-morto que o Estado não pode suportar, que nos "puxam para baixo". Era bom se os pudéssemos ajudar mas não temos meios. É pena, mas vamos ter de os deixar morrer. Todo o dinheiro que temos é para pagar aos banksters, a esses não podemos deixar de pagar, custe o que custar. O dinheiro que temos é para tapar o buraco que os amigos de Cavaco deixaram no BPN e o que sobrar é para subsidiar a compra do BPN pelos angolanos. Não temos dinheiro para mais. Não temos dinheiro para ser solidários, não temos dinheiro para ser humanos. E aliás as pessoas já estão a habituar-se. Para Pais do Amaral seria um choque deixar de ter dinheiro para comer, seria impensável, sorrimos perante a simples ideia, mas é uma pessoa de outra qualidade. Esta gente está habituada.  A humanidade não é sustentável, a dignidade não é sustentável. É isso que a direita teima em nos ensinar: a humanidade não é uma opção política. Será que eles sabem mesmo o que nos estão a dizer?

 José Vítor Malheiros

sexta-feira, agosto 10, 2012

«Andar é uma chatice, preferia que me empurrassem a poltrona. Tenho de concordar, sinto-me irremediavelmente trinta e sete. Quando me senti trinta e sete antes? Nas noites de domingo, às vezes, nas alturas em que o passado me vem ver e, igualzinho ao charroco, não morre. Devia haver um mecanismo qualquer, um limpa-vidros por exemplo, que o apagasse. Que sótão a minha cabeça, tanta tralha. É aí que vou buscar o lixo para os livros, papel velho, detritos, latas de conserva, bocados de garrafa, um frigorífico que deu o triste pio. Um dia darei o triste pio, não sou mais que do que ele e metem-me no sótão entre uma grafonola e uma caixa de cartão com um chapéu alto dentro. E põem tudo isto no passeio, eu incluído, para as camionetas da Câmara da madrugada, numa barulheira de latas, quedas, gritos também, de pessoas ainda vivas que protestam. [...]

peixes amontoam-se nas bocas dos esgotos deslocando-se como punhais ou imóveis à espera que a tralha dos sótãos chegue, a grafonola, o frigorífico, eu que me sinto tão trinta e sete hoje e vou acabar no estômago de um charroco, parecem tão feitos de pedra que não sei como funcionam, nunca vi pedras mastigarem, mandíbulas de granito triturando calcário, o céu verde, as árvores lilazes, os prédios azul marinho, as pessoas na rua às listras castanhas e brancas, não sei o que passa comigo, sinto-me trinta e sete [...]»

António Lobo Antunes

quarta-feira, agosto 08, 2012


Cartilha para contrariar a assimilação acrítica das agendas mediáticas

Não confundas opinião pública com opinião publicada. Presta tanto atenção às notícias de rodapé como às manchetes. Lê o artigo inteiro para lá da manchete. Relê. Conclui se a manchete é séria. Só dês crédito ao soundbyte se tiveres lido a reportagem exaustivamente. Tem sempre presente que um argumento popular se resume num slogan e que um argumento impopular pede páginas de explicação. Verifica o parágrafo inteiro de que a citação é tirada e conclui se o excerto é sério pelo seu contexto, pela circunstância específica que foi truncada para a frase soar mais tonitruante.Lê quantas fontes foram escutadas para a produção de determinada peça jornalística. Vê quais as fontes dos números que são citados. Investiga se o que se diz que «cresceu no último trimestre» decresceu ao longo do ano inteiro. Desconfia sempre, rejeita sempre um artigo que te obrigue a pensar do modo como queres que o articulista pense. Despreza os cronistas que te apresentam soluções bacteriologicamente puras quanto a ideologia. Lembra-te de que lá fora há países que em que os jornalistas assumem a sua cor partidária. Pensa que tudo o que lês é 95% de mentiras, meias verdades, omissão de contraditório, perguntas direccionadas de jornalistas. Vê as fontes de publicidade do medium  – não lerás nada imparcial sobre tais empresas. Estuda os grupos económicos que estão por trás de cada medium. Lê o Provedor dos Leitores do Público. Investiga para onde trabalham e trabalharam e de quem são amigos todos os opinadores que lês e ouves. Um desses que aparece na televisão tem dezasseis empregos em grandes empresas – falará ele mal de quem lhe paga? Lembra-te da sondagem em que 90% dos jornalistas se afirmaram coagidos a escrever de acordo com a linha editorial do jornal. Procura confrontar uma estatística com outra. Lembra-te do ceteris paribus nas análises. Lembra-te de que se um come uma galinha e outro nenhuma, para a estatística ambos comem meia galinha. Se conseguires ou conheceres alguém do meio jornalístico, averigua como são os encontros entre jornalistas, poder político e poder económico – o fausto dos mesmos, a troca de favores, as palmadinhas nas costas. Lembra-te de que nem tudo o que existe vem nos media. Lembra-te de que há áreas que não são escrutinadas. Lembra-te de que não é por determinados fenómenos só serem abordados hoje que não existiam ontem. Desconfia dos que são muito maltratados pela comunicação social e procura investigar porque são levados ao colo certos senhores que cometem as piores tropelias. Faz o teu arquivo de imprensa – vê como os santificados de outrora são os diabolizados de hoje por coisas que realizaram no tempo em que supostamente eram santos. Recusa os bons e os maus que te querem impingir – mesmo nos casos mais tenebrosos, como da Síria. Tem de haver sempre direito ao contraditório. Têm de ter ser dadas sempre as duas versões das duas partes. Passa ao lado de todos aqueles que são mercenários de uma campanha por uma causa ou uma perseguição ad hominem – omitirão tudo o que não lhes convém porque perseguem interesses, vinganças. Evita ler sobre Paco Bandeira, Maddie, as férias de Cristiano Ronaldo, a destruição da vida de Sara Norte, especulações quanto a transferências de jogadores (e, se leres, vê quantas especulações sobre transferências são concretizadas; o rácio é assustador), mexericos, casos de justiça em que só sai cá para fora o que convém quando convém – tudo isso são coisas para desviar a tua atenção do essencial: o estado da nação.
Lê a imprensa estrangeira. Confronta dados. Vê, para lá das estatísticas, as lojas e empresas que vão falindo. Vê a situação dos teus amigos. Vai a hospitais públicos. Anda de transportes públicos. Vê como a polícia trata os desvalidos e os imigrantes numa esquadra. Vê o mundo com os teus olhos e confronta depois esse olhar com as lentes que te põem.
Recusa não questionares tudo o que é uma verdade feita. Por exemplo: na função pública, todos ganham melhor. Mentira: na função pública, as profissões com menos qualificações ganham menos do que no sector privado. Bebe pelo teu próprio copo.
Tem muita atenção à semântica. Dizer «ajuda financeira» ou «contracção de uma dívida» tem todo um programa. Dizer «flexibilização do mercado de trabalho» ou «facilitação dos despedimentos» tem todo um programa. Dizer «ajustamento salarial» ou «diminuição dos salários» tem todo um programa. Dizer «liberalização do aborto» ou «discriminalização do aborto» tem todo um programa. Lembra-te de Orwell – a história é uma produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em frente do nariz requer um esforço constante.

The Top Ten Most Difficult Books («Listas», é certo.)

http://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/book-news/tip-sheet/article/53409-the-top-10-most-difficult-books.html

terça-feira, agosto 07, 2012

Oh Yes
there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski

segunda-feira, agosto 06, 2012


O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente.
Cala: parece esquecer.

Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar! 
Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar... 

Fernando Pessoa
Para Kipling, o fracasso e o êxito eram dois grandes impostores.
- Desde pequenina, vi várias pessoas próximas morrerem junto de mim, o meu avô morreu nos meus braços. É menos assustador do que se possa pensar. Há uma grande serenidade na morte. Todos morreram  com uma tranquilidade espantosa. O meu avô, ao morrer, parecia que se emanava uma benigna luz pela sala, não sou crente, estou à vontade para o dizer, há uma irradiação de paz infinita e de todos os bons sentimentos na morte - eu vi isso acontecer seis vezes. Se leres ou ouvires os relatos de quase morte, todos falam numa profunda felicidade, tranquilidade e libertação. Pensar na morte, evocar estas experiências que vivi ajuda-me a perceber a nulidade da inveja, da mesquinhez, a absoluta ausência de sentido da disputa. Por vezes, faço um pequenino jogo que é pensar em alguém, o que pode acontecer olhando aleatoriamente para um nome no meu telemóvel, e pensar que ele ou ela morreu, pensar vivamente nisto. Sabes quando lês que determinada figura morreu e tu de repente lembras-te de uma simpatia escondida que vai crescendo. Isso ajuda-te a concentrar na pessoa. Eu tento fazê-lo para pessoas que estão vivas, imaginando durante 2, 3 dias que determinada pessoa que conheço morreu. Isso aproxima-me imenso dela, ando com ela durante dias, e depois acontece sempre que a trato melhor; é muito... É uma coisa muito minha, mas que acho que outros deveriam... pelo menos, tentar.
Ele nunca leu ou ouviu sequer falar de Balzac, Stendhal, Proust, Whitman, Tolstoi, Joyce, Kafka. Ele nunca - acredita -, nunca viu um filme. Não sabem quem sejam os Beatles, Mozart, Sinatra, Van Gogh, Dali. Nunca ouviu falar de Hitler, Marx, Freud, Einstein. Nunca leu um jornal. Nunca se ligou à Internet. O seu nome é William Shakespeare.

sábado, agosto 04, 2012

Das centenas de pessoas que li, ela era um das duas, três que alinhava sentenças que eram encadeamento de palavras coruscantes, uma harmonia, uma música cintilante. Agora, quando leio o que escreve, tudo diferente. Desde que enveredou por uma tese de doutoramento, a sua escrita mais espartilhada, mais baça, mais normalizada. O mundo académico mata o talento. Mata a criatividade. Mata o diferente. Afunila. Espartilha. Põe as palavras engravatadas.
Não é preciso ser-se reaccionário para se saber que a liberdade traz problemas terríveis. Há cinco séculos, 250 livros por ano. Agora, um em cada trinta segundos. Na altura, sem Internet, sem televisão, sem rádio, 35 000 livros era algo quase abarcável. Agora, biliões biliões biliões de livros, biliões de blogues, biliões de publicações periódicas, de filmes, músicas, séries. A angústia de tanto-para-sorver-e-tão-pouco-tempo maior do que nunca. Dantes, um homem para a vida, uma mulher para vida. Dantes, um ofício para a vida. Agora, a ansiedade do emprego por um dia.

Como me posso queixar de trabalho quando tanta gente desempregada. Podia fazer uma lista das coisas que me enfurecem e entediam. Mas como me posso queixar quando tanta gente  sem fazer o que gosta (cada vez mais jovens sem saber o que gostariam de fazer), quando tanta gente nunca questionou se o trabalho que faz é útil para alguém. Aquele publicitário que só queria vender mais e mais e mudava de empresa e o inimigo de ontem era o amigo de hoje e vice-versa. E um dia deixou tudo, concluindo que toda a sua ansiedade e noites sem dormir não revertiam para nada a não ser para lucrar os bolsos do patrão A com prejuízo para os bolsos do patrão B. Tanta gente com trabalhos para os quais o cérebro não é convocado. Automatismos, comas cerebrais, pessoas-robotizadas.
O senhor do café, maneta, há vinte anos que não o via. Continua no mesmo sítio. Continua com o mesmo patrão a humilhá-lo à frente de todos.
O senhor da feira popular, vi-o com intervalo de décadas também, de manhã à noite a relatar a corrida de carros: o 3 ultrapassa o 1, o 2 ultrapassa o 5. Só o verbo «ultrapassar» e números. Imaginas o que seja isto doze horas por dia, dias após dia, tarde, após tarde, noite após noite, multiplicado por vinte, trinta anos?
Ele. Um das pessoas mais rectas e sensíveis que conheço. (Os dedos de uma mão não chegam para contar os outros.)
Quanto mais nos conhecemos, menos nos mostramos um ao outro. Talvez porque cada vez baste menos para nos entendermos.
«Estou com um complexozito emocional», basta para saber que passa noites insones e dias sem apetite.
Ou às vezes até o silêncio.
Deve ser triste amar em diferido. Sempre que está com alguém, não é ela. Mas quando ela acaba a relação (exaurida da sua negligência), a memória começa a falsificar o passado ou a revelar-lhe a verdade (ele acredita na segunda) e ele apaixona-se na ausência dela. E se a ausência se torna numa impossibilidade de reencontro, ama-a loucamente. Quando uma delas voltou, ele voltou a deixar de amar.
Diz que é como os entes amados quando partem - é na morte deles que os sentimos mais, que os valorizamos mais, que percebemos o quão vitais, afinal, eram.

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder (sem acento, Jornal de Letras)
- Eu sei que tu também, Angel.
- Hã?
- Eu sei... que tu também tens este segredo ainda que nunca o tenhas nomeado.
Pensei em várias coisas.
- Há coisas que estão para lá das palavras, para as quais as palavras não chegam, mas que sentimos e que não conseguimos transmitir, que não sabemos o que é, mas sabemos que está lá.
Pensei numa coisa.
»Tu também acreditas que há algo transcendente.
- Sim.
Acertara.
- Também sentes isso, mas não o consegues descrever. Sabes que há um continuum da vida mental. Ignoras completamente o que seja, mas sabes que há. Já tiveste experiências indizíveis por palavras, nunca me disseste, mas sei, é exactamente como eu. Interrogas-te: porquê a vida? Para quê a vida? Só para beber, comer, fornicar, defecar, urinar? Se toda esta aprendizagem, todos estes laços de afectos criados caem no abismo um dia... não faz sentido. Se não há vida depois da morte, a vida não faz sentido. E tu já sentiste, seja sob que forma for, a existência de Outra Coisa, não sabes nem eu sei que Outra Coisa é essa, mas é Outra Coisa, é outra vida, outro mundo. E essa certeza ninguém nos tira.
- Não acredito em planos. As melhores noites que tive na vida e que guardo dentro de mim sucederam sempre por acaso, foram sempre imprevistas. Sempre que foram obra de um plano, defraudaram-me.
Os tecnófilos projectam descompensações emocionais e sexuais para uma fetichização e erotização do objecto tecnológico. Adjectivos como «belo», «elegante», «curvilíneo», «mais táctil», «menos táctil» são frequentes para descrever peças frias e metálicas.
A sua sofreguidão de ter o 4.0, o 4.5, o 5.0 é também sexualizada. São do mais acarneirado que há. As grandes marcas adoram ter estes tolos que vão sempre atrás das suas inovações de meio grau, adquirindo compulsivamente tudo.
Excitam-se com os teasers (o princípio sexual de que o encoberto é sempre mais erótico do que o exposto), com as novas funções que não correspondem a necessidades que alguma vez tenham sentido, mas que passam a sentir depois de a Apple ou de o que quer que seja as tenha inventado. Percorrem a Worten como um tarado sexual percorre a Feira do Sexo.
E, claro, o seu dedilhar constante mais não é do que uma punheta transferida.
É uma senhora inglesa que tem uma firma. Sei que até há muito poucos anos, mostrou resistência em instalar e-mails na empresa. Quando instalou, adoptou a política de não responder imediatamente e de dizer aos funcionários que podiam responder com a mesma calma que respondiam às propostas que recebiam por outras formas.
Costumava dizer a frase: «I still need to think.»
Considerava que o e-mail encurtava esse período de maturação essencial  e que levava a muitas decisões que se revelavam precipitadas, além de equívocos na comunicação e a amuos e discussões. Para ela, o e-mail estava mais perto das palavras que voam do que da escrita que fica.
Espero que não tenha mudado.
- O mundo mudou para pior, para muito pior após a queda do comunismo. Nunca fui comunista, acho o que comunismo foi a pior mentira que história produziu. Como é que um regime de igualdade, meses após cair, revela não sei quantos milionários? Mas que faz falta ao mundo enquanto contraponto, faz. Porque era aquele olho que via: «Que é isso aí que estás a fazer?» Já não há esse olho e esse dedo que aponta e a pior canalhada está aí, o pior capitalismo está aí. Chegaram à pior das fases: perderam a vergonha. Podem ganhar milhões de euros e dizer com o máximo do despudor que é preciso que quem ganhe 485 euros por mês tenha de ganhar menos.

sexta-feira, agosto 03, 2012

«Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia.»

Nelson Rodrigues, O Divino Delinquente

O meu Encontro com o Capitão Roby

O famoso Capitão Roby, mais ou menos no tempo em que o conheci

«Não sei precisar o ano, mas foi seguramente ali no bordejar dos anos oitenta. Na altura era recepcionista de hotel em Lisboa (Hotel Príncipe) e fazia o turno da noite.
Por lá passei muitos episódios que por aqui hei-de desfiar, mas hoje quero-vos falar de um em especial: o meu encontro com o Capitão Roby.
Tinha acabado de entrar de serviço às 23.30. Depois do colega que me antecedeu me ter passado o serviço, fui como sempre dar uma volta ao bar para ver como paravam as modas.
Naquela noite de Inverno o ambiente estava inusitadamente vivo. Clientes conhecidos que ali faziam poiso diário em animada cavaqueira com o barman de serviço, mais ao fundo na sala, pequenos grupos de estrangeiros bebericando cálices de porto e outras especialidades cá da "tuga" preenchiam a totalidade dos assentos disponíveis, mas ao canto do balcão pontuava uma cara nova, que pelo tom da voz ou pela sua minimal gaguez faziam com que a minha atenção fosse aprisionada por este novo e intrigante personagem, que por natureza ou insistência do discurso teimava em protagonizar a noite.
O individuo era emproado, vestia sobriamente e conversava fluentemente em várias línguas e sobre qualquer assunto, o que por razões (que só a ciência poderá explicar) atraía a atenção do mulherio de uma forma melosamente subtil.
Num tempo em que os telemóveis ainda eram ficção científica, os clientes eram chamados ao telefone pela recepção. Recordo que muitas dessas chamadas eram dirigidos a este enigmático personagem e como eu atendia a maioria delas, estranhava serem sempre mulheres que por ele demandavam.
Comecei a estranhar o tom das imperceptíveis conversas, o que me levou a cometer um acto que não devia revelar; passei a escutar parte desses diálogos na central telefónica onde abria um canal de escuta.
Recordo que as conversas tinham sempre um carácter apaixonado por parte de quem telefonava, sendo que o nosso interlocutor esbanjava charme da mesma forma com generosamente me gratificava, ou seja: aos montes.
Jorge Verissímo Monteiro, era o nome deste furacão que por ali se instalou nesse Inverno de há mais de 25 anos. Por essa altura teria uns 35 anos e um porte distinto, altivo, sendo o centro das atenções por onde quer que passasse, e neste particular para atrair atenções e admirações apresentava-se como adido naval da embaixada de Portugal em Estocolmo na Suécia,de onde era suposto ter acabado de chegar.
Era este o papel que representava, era esta a personagem que encarnava, não sem que, pelo menos a mim, me deixar sempre de pulga atrás da orelha, já que algumas das suas atitudes não eram condizentes com a do posto que se gabava de possuir.
De qualquer modo o nosso adido naval era um poço de generosidade, mandando-me servir copos dos mais finos maltes, até chegando a oferecer-me garrafas de Chivas Regal, um néctar caríssimo à altura.
Jorge, possuía um Opel Ascona (ou Manta, já não me recordo bem) verde onde me deixava dar umas voltas, o que para mim era um acto de extrema consideração. Um dia perguntou-me se gostava de ver uns filmes de “mariolice”. Respondi que sim. Este subiu ao seu quarto e trouxe-me uma máquina de projectar com uns filmes mudos a que na minha terra hoje chamam “cassetes de chumbança”. Estas mini-bobines eram o regalo das nossas noites. A estas sessões privadas assistia eu, o Serras (meu colega de turno) o velho Amadeu (chefe de bar já falecido) a Tita, o Engenheiro das Couves (clientes residentes do hotel) e demais clientes que entretanto fossem chegando e em quem nós depositássemos confiança.
Fizemos assim, muitas sessões de cinema "late night", tendo os lençóis do hotel servido de ecrã, de modo a visualizarmos todas as bobines que o Jorge Verissímo nos havia emprestado.
A vida deste personagem era a cada dia que passava mais intrigante, e muita da bota deixou de bater com a perdigota, especialmente quando começou a dizer a alguns clientes que pretendia adquirir o hotel, a outros que já estava em negociações e a outros ainda que o negócio já estava concluído.
Neste entrementes a vida do adido namoradeiro começa a levantar sérias suspeitas, especialmente no dia em que a Tita e um outro cliente do Hotel de seu nome Amado Estriga, foram convidados pelo nosso protagonista a visitar um apartamento na Av. Columbano Bordalo Pinheiro, onde pontuava uma senhora desconhecida que vestia de cabedal negro da cabeça aos pés, maquilhagem a condizer e na mão uma trela com que segurava dois poderosos cães de raça doberman aquando da altura em que esta lhes franqueou a porta.
O quadro foi-me descrito como insólito, algo temeroso e sobretudo desconfortável, só descansando quando dali se puderam pirar.
Entretanto já circulavam algumas manigâncias do nosso Jorge, com uma ou outra mulher a meter a boca no trombone.
Estava na altura de sair de cena!
Não me recordo se saiu de fininho sem pagar a conta, mas estou em crer que nada ficou a dever.
Regressou fugazmente noutras alturas mas já sem a pose inicial. Pela minha parte tinha por ele a admiração que tenho pelos personagens que do “ Planeta Agostini” descem á terra, vestem uma ou várias peles e passeiam-se pela vida, ostentando a personagem encarnada que por sua vez cilindra umas quantas inesperadas vidas, que afinal não passam de danos colaterais deste turbilhão que a determinada altura já só pede que o parem, pois por si só, já o não consegue fazer.

Uma noite Jorge telefonou-me a marcar um quarto, posteriormente voltou a telefonar e a desmarcar. Por portas e travessas, ou mesmo coincidência, soube que estava hospedado no Hotel Jorge V.
Nessa mesma noite fui abordado por dois inspectores da judiciária que o procuravam.
Embora sabendo onde este se encontrava, disse-lhes que de facto tinha tido uma reserva para aquele dia, mas que entretanto havia cancelado, omitindo deliberadamente a preciosa informação que possuía.
Passados dois dias sou confrontado com a notícia de 1ª página com a prisão do foragido “Capitão Roby” nesta unidade hoteleira.
Tinha nascido o mito que haveria de perdurar por mais de uma década, cujas façanhas foram descritas em livros e seriados de TV, mas que não têm o sabor e o élan de com ele ter compartilhado a vertigem dos abismos que este protagonizou.»

pulanito.blogspot
- Ele veio ontem para levar as coisas dele. É uma sensação tão estranha ver os cabides despidos. Não o amar mais e eu ao mesmo tempo chorar o fim. O vazio da casa, o vazio em mim. Devia haver uma palavra para isto.