segunda-feira, julho 09, 2012

Ricos e pobres



Bukowski gabava-se de ter trabalhado como operário e de conhecer todos os «traficantes de droga» (alguém que explora) e todas as «putas» (alguém que é explorado) de Los Angels. Viveu sempre na decadência e erigiu-a como o modo mais são de rejeitar a demência da sociedade. As meretrizes sem dentes, os «negros homossexuais», os bêbados sem-rumo, os sem-casa, os sem-ninguém era para eles «as flores da terra». Com esta fauna, não se imaginaria que Bukowski fosse simpatizante do nazismo que exterminaria todos os seus alegados comparsas. A tese não é sólida (até porque C. B. era um provocador extremo), mas quem privou com ele garante a simpatia. De resto, o próprio elogiou Hitler numa entrevista, gostava muito do Mein Kampf, tinha como escritores favoritos aqueles que eram acusados de nazismo (Hamsun, Céline) e de fascismo (Pound). O anti-semitismo está presente em Pulp. Em suma, as pessoas não são lineares.
Ainda que bebedolas e escritor também, Fitzgerald escreveu mais sobre os muito ricos do que sobre os muito pobres (sobre os quais também escreveu). Bukowski dizia que não tinha paciência para ler Fitzgerald, que nem entedia Tender is the night, e que Scott deveria ter desviado a atenção dedicada as ricos para as classes operárias e os oprimidos. Eu percebo a nobreza do sentimento, mas acho a análise de Bukowski redutora, tanto mais que Fitzgerald descreveu a futilidade, o vazio oco dos ricos como ninguém. E, como as pessoas não são lineares, se Bukowski era próximo do nazismo, Fitzgerald era marxista. De resto, em This side of paradise, o apelo do marxismo é de uma lucidez impressionante.
A questão é que cada um escreve sobre o que conhece. Não por acaso Bukowski escreveu tanto sobre pugilismo e corridas de cavalos, os seus passatempos (além de ouvir música clássica). E Fitzgerald conheceu os muitos ricos de perto. E Bukowski os bêbados profissionais e sem dinheiro. O importante é da experiência particular extrair o pedaço incandescente intemporal e aespacial. Porque, apesar de tudo, todos os seres humanos partilham das mesmas emoções.

(Mesmo quando parece que um escritor não escreve sobre o que viveu, como o caso frequentemente apontado de Kafka, convém desconfiar. O medo e a culpa eram os materiais da sua vida interior. E sobre eles erigiu uma construção magnífica de símbolos.)

2 comentários:

Anónimo disse...

A miserabilidade do mundo dos pobres pode ter esse efeito de acharmos que o mal reside nas pessoas em si.

Cristina

Anónimo disse...

muito bom, Cristina.