quarta-feira, julho 18, 2012

O Manipulador Dadivoso

Sempre que se encontrava com um amigo ou conhecido fazia-o sentir a quantidade de coisas que tivera de abdicar para estar ali. Mesmo ao telefone: «Só atendi porque vi que eras tu»; «Tenho meio minuto»; «Estou a resolver o problema de uma pessoa». Conseguia fazer sentir que o uso do seu tempo era um bem preciosíssimo - e que usar dele era, em si, um favor.
Invocava constantemente a ingratidão dos outros, os favores que fazia à humanidade e ao mundo, a quantidade de empregos que arranjara aos amigos e conhecidos. Se alguém lhe pedia algo, fazia-o - mas explicava que demorara cinquenta horas para o fazer.
Se se discutia um assunto, ele voltava a ele mais tarde. «Lembras-te quando estive a explicar ao Rui como era, como se fazia? Deu-me um trabalhão reunir aqueles dados.»
Sempre que dava um conselho e esse conselho corria bem: «Fui quem lhe disse para... Se não fosse eu...»
Se alguém lhe perguntava qualquer coisa, ele respondia em tom professoral. E depois, mais tarde, «aquilo que te ensinei foi útil para isto&aquilo».
Quando não conseguia fazer o que se lhe pedia, ele enumerava a putativa longa lista de acções que fizeram.
E vivia sustentado na cobrança de favores. Fazer um grande favor numa altura frágil da vida de alguém - tirar dividendos desse escravo para o resto da vida.
Uma das suas frases favoritas: «É sempre [introduz o seu nome] faz, o João faz. O João faz tudo. É sempre o João o comido e o enrabado. Sempre.» E os ouvintes, solidários com a teatralidade, comovem-se e agem, como que dizendo: «Não, desta vez eu faço por ti.»

2 comentários:

Anónimo disse...

O Sr João escreve melhor a cada dia que passa!

Sr Joao disse...

Muito obrigado pelo cumprimento.