quarta-feira, julho 18, 2012

Era mais uma forma de dividir os outros. Aqueles que preferiam estar sozinhos durante a maior parte do tempo. Aqueles que preferiam estar acompanhados a maior parte do tempo. Conhecia extremos. Quem nunca conseguia fazer nada sem testemunhas. Quem nunca conseguia socializar.
Calibragem. Havia quem não conseguia ir ao cinema sozinho. Depois, havia quem nunca conseguia ir ao ginásio sozinho. E depois havia quem não conseguia sequer estar em casa sozinho.
Que actividades cada um não conseguia fazer sozinho? Tomar o café e comprar o jornal, a maioria conseguia. Sair à noite poucos conseguiam.
Penso nos argumentos. Quem nunca conseguia estar sozinho dizia que a vida não tinha graça sem testemunhas, sem troca de opiniões sobre o filme que se vira, o debate que passava na televisão. Quem passava muito tempo sozinho dizia que os que nunca conseguiam estar sozinhos tinham medo de se confrontarem consigo próprio - e que essa era uma condição necessária para a auto-análise.
Cada um sabe da sua equação de felicidade, pensou. Mas os dois casos mais extremos vieram-lhe à mente. Aquele que estava sempre em casa, que dizia que não havia prazer maior em chegar a casa, pôr a música que queria, estar vestido como queria, ser dono e senhor no seu trono sem dar justificações a ninguém. Quase nunca socializava, e, quando o fazia, não raras vezes tinha ataques de pânico.
Aquele que estava sempre a sair, que vivia dentro de um automóvel, nunca dormia, que dizia «em 12 anos de namoro, nunca estive uma vez em casa no sofá com a minha namorada, andávamos sempre a viajar». Tinha sempre olheiras. «O único momento que tenho sozinho, Angel, é quando vou à casa de banho nas discotecas. São esses os momentos comigo.» Um dia, não conseguindo companhia para sair, foi sozinho de carro procurar um sítio pejado de gente onde, quiçá, encontrasse alguém.
 «Estacionei o carro em segunda fila e andei pela multidão. Precisava de sentir calor humano.»
Parecia haver qualquer coisa disfuncional em ambos.
O caminho aristotélico do meio, mais uma vez?

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