quinta-feira, julho 26, 2012

A roda do hamster


Habituados a viver sob os ditames de todos os tipos de urgências, como se a velocidade pudesse por si só dar sentido ao trabalho e à vida, temos nas férias uma ocasião rara para nos libertarmos desta nova forma de tirania.
Sobretudo porque ela assenta na mais enganadora ilusão do bluff tecnológico dominante, que é a que nos garante que as novas tecnologias vieram para nos libertar das pressões do tempo.
E apesar de a experiência nos mostrar quotidianamente que é bem o contrário que acontece, e que, com a parafernália tecnológica que invadiu o nosso dia a dia, vivemos afinal com uma angústia cada vez maior de não ter tempo para nada, a propaganda lá continua, alimentada por um tão generalizado como paradoxal deslumbramento.
Também aqui o ultraliberalismo se impôs sem grande resistência, legitimando a supremacia do tempo do mercado, o do imediato, sobre todas as outras temporalidades. Uma supremacia que, de A. Smith a Hayek, ao colocar a urgência no lugar da esperança, apostou sempre em dispensar tanto a intencionalidade que caracteriza a ação pública, como a perspetivação do futuro que é indispensável aos projetos e às convicções coletivas.
Tudo isto com consequências muitas vezes tremendas, como aquelas para que a Newsweek chamava recentemente a atenção, num texto que merece uma leitura atenta, intitulado "Icrazy: panic, depression, psychosis - how connection addiction is rewiring our brains". Nesta peça, que mereceu um destaque de capa integral, enumeravam-se diversos estudos científicos feitos em várias prestigiadas universidades sobre as já apuradas consequências do vício das novas tecnologias, a que tão pouca atenção se presta.
Um só exemplo: o cérebro de um viciado na Internet transforma-se num cérebro análogo ao de um alcoólico ou de um drogado, com "reduções" de dez a vinte por cento na massa cinzenta responsável pelas funções da linguagem, da memória, do controlo motor, das emoções. A situação é tal que o DSM (The Diagnosos Statistical Manual of Mental Disorders) do próximo ano incluirá, pela primeira vez, a "Internet Addiction Disorder"...
O que tem acontecido é que nos sujeitamos cegamente à lógica da aceleração temporal, que partindo do domínio da técnica tomou conta de todas as áreas da vida, sejam elas a laboral, a social ou a pessoal. Em todas elas o nosso quotidiano é permanentemente atravessado por uma urgência que impõe os fluxos mais diversos, multiplicando as situações de dessincronização patológica entre várias atividades.
Com as consequências que se vão vendo, nomeadamente a nível subjetivo, seja no stress ou na depressão, na incapacidade de atenção ou de concentração. E generalizando o curto prazo como o único horizonte de sentido - ou melhor, da falta dele - da humanidade contemporânea.
E o "curto-termismo" traz com ele não só o impasse, mas também a irresponsabilidade. O impasse porque, sem tempo de médio ou longo prazo, não há projeto de vida individual ou coletiva que consiga vingar. E a irresponsabilidade, porque ele coloca todos os processos de deliberação sob a ditadura da celeridade e do instante, incapazes de dar atenção à complexidade dos problemas das sociedades contemporâneas. E assim se vive, como escreveu J.-L. Servan-Schreiber, como se nos deslocássemos de noite, num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui.
É bom lembrar que a modernidade assentou num projeto de autonomia, entendida como a emancipação da humanidade de diversos constrangimentos: materiais, sociais e culturais. Ora o que hoje constatamos é, inversamente, a perda dessa autonomia. Como diz Hartmut Rosa, um dos mais perspicazes estudiosos do fenómeno da aceleração, o indivíduo submetido à lógica da aceleração é cada vez "menos senhor da sua própria vida. Esta não parece ter direção, não se vê que conduza a algum lado, tudo o que se faz é patinar a um ritmo desenfreado".
Como se, acrescenta ele numa metáfora que descreve inspiradamente bem a crise atual, "a roda motriz que fazia avançar e dava um sentimento de liberdade se tivesse tornado uma roda de hamster na qual giramos freneticamente sem sair do mesmo sítio".
É mesmo isso: faz exatamente hoje um ano que começou uma quinzena negra que marcou o verão de 2011, com as bolsas em queda e as dívidas espanhola e italiana sob enorme pressão, o que obrigaria o BCE a comprar mais de 180 mil milhões de dívidas soberanas. Um ano depois continuamos, como se vê, na mesma, a viver dias politicamente escaldantes numa Europa cada vez mais próxima do colapso, mas sempre a girar freneticamente no mesmo sítio, como um hamster na sua roda! Gastando, como ele, toda a sua energia nas rotinas cegas de um carrossel de ilusões.

Manuel Maria Carrilho

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