domingo, junho 03, 2012

Verticalidade





Ele perguntou-me o que eu verdadeiramente admirava no Outro. A raríssima espécie de homem e de mulher que têm princípios de que não abdica. Lembro-me de no secundário de todos terem combinado boicotar o teste da professora de Geografia (que ministrava uma em cada quatro aulas e dada a nepotismos na avaliação). Todos combinaram que não fariam o teste. Claro, mal começou a aula, os graxistas de serviço (a começar pelo Correia, o mentor do boicote) tinham estudado a matéria e começaram a preencher a folha de teste. Lembro-me de naquela empresa muitos dizerem que seriam solidários com o despedimento injusto do colega - chegou o julgamento e nenhum deles apareceu a testemunhar contra a empresa. Sei de um sítio pejado de ilegalidades. Todos os que lá trabalham passam a tarde a queixar-se. Milhares de horas perdidas na lamúria inconsequente - e ninguém faz nada. Uma presidente de junta é corrupta, os que têm provas lamentam-se, protestam, vociferam - mas não as apresentam, mas nada fazem para denunciar o polvo. Uma biblioteca municipal de luxo fecha - todos se revoltam em conversas de elevador; mas nada mais do que isso. Faz-me lembrar uma estada em Londres. Dois encurvados mentais a queixar-se de um buraco na estrada nevada, a vergonha que era, o estado das estradas, os autarcas, os políticos, os cidadãos que nada faziam. Um tipo ao lado da mesa, farto da conversa dos marretas, foi lá com o pé e tapou o buraco com a tampa que se tinha soltado e que estava a três metros. Olhou para eles e disse sem palavras: «E se fizessem isto»?
Um conhecido meu que emigrou para um país com Estado cleptomaníaco disse-me que quem tenta resistir à corrupção acaba por ser apontado ao povo como ladrão. Esses que resistem, que não se importam com a imagem pública, são talvez os únicos heróis.

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