Se não diz tudo, o futebol diz todavia muito sobre a época que vivemos, nomeadamente sobre o que nela mais persistimos em ignorar. Sobretudo agora que, com a crise que atravessamos, ele faz do euro desportivo uma verdadeira catarse quotidiana do outro euro, monetário, económico e político. O intermitante júbilo que envolve um serve para tentar esconjurar a fatigante depressão que se colou ao outro. Depressão que hoje e amanhã o Conselho Europeu, reunido em Bruxelas, vai - em mais uma "cimeira decisiva" -, garantir que tudo fará para conseguir ultrapassar.
Nestes momentos de intensa futebolização do quotidiano, é indispensável sublinhar algumas ideias, que para mim há muito sintetizam o homo sportivus do nosso tempo. A primeira é que o desporto, e nomeadamente o futebol, se tornou num fenómeno global de índole quase religiosa, que se impõe a todos os povos, os sexos e as idades. Prova disto é o seu domínio do tempo: hoje em dia o calendário desportivo fixa uma liturgia que condiciona quase todas as outras temporalidades, sejam elas sociais, políticas ou escolares
A segunda ideia é que o desporto, ao mesmo tempo que minou os valores a que tradicionalmente se associava (o espírito lúdico, a camaradagem, a valorização pessoal, o respeito pelo adversário, a abnegação, etc.), passou a consagrar um único valor: a performance. Valor que traz consigo uma devastadora lógica mercantilista, de que todos os dias temos múltiplos exemplos, que excedem a mais fértil das imaginações.
Foi assim que o desporto, concebido como um singular contacto entre povos diversos, histórias autónomas, pessoas diferentes, tradições específicas ou valores contrastantes, praticamente desapareceu. E desapareceu justamente devido à sua consagração como prática massificadora, que o tornou cada vez mais inseparável do culto da cupidez, do dinheiro fácil, do sucesso que não olha a meios, da matriz de irresponsabilidade impune, fatores que têm conduzido as nossas sociedades aos tremendos problemas que hoje vivemos.
Seria pois bom que - como já uma vez escrevi - se pensasse a sério "na sociedade que se está a construir, quando os exemplos que se incensam até ao delírio são os de indivíduos que vivem numa abracadabrante ostentação, como se fossem deuses de um novo circo, gastando dezenas de milhares de euros numa noite de discoteca, exibindo um permanente carrossel de "scort girls" de luxo, circulando em automóveis de centenas de milhares de euros que estoiram sem um ai. Ao mesmo tempo que, na maior parte dos casos, raramente são capazes de uma iniciativa filantrópica, de um projeto mecenático, de um gesto solidário. Ou, mesmo, quantas vezes, de uma simples frase com sentido..."
A terceira ideia é que o desporto condiciona hoje o imaginário de todos os povos do planeta, impondo-lhes um conjunto cada vez mais uniforme de representações a partir das quais eles concebem quase toda a sua existência. Como oportunamente o explicou Robert Redeker, é no desporto que se concentram em mais alto grau os fatores de uma tal uniformização: o consumo desenfreado, o fetichismo das marcas, a pressão publicitária, o culto dos ídolos, a submissão aos media, a sloganização da linguagem, a histerização das multidões e o fanatismo da performance. Convergência que torna o desporto, e particularmente o futebol, no catalisador de uma humanidade cada vez mais unidimensional.
Por fim, uma quarta ideia é que a grande transformação em matéria desportiva se deu em meados do século XX, com dois acontecimentos: por um lado com o aparecimento da televisão, por outro lado com a emergência dos tempos livres. Foi esta convergência, do desporto com a televisão e com o lazer que definiu o fenómeno desportivo como hoje o conhecemos. Convergência que produziu um fenómeno de identificação cada vez maior entre as massas e o desporto, que toma a sua forma mais comum e mais intensa no futebol.
Pode-se pensar, e com bons argumentos, que a identificação de qualquer seleção desportiva e dos seus resultados com qualquer tipo de desígnio nacional não passa, na verdade, de um ritual mais ou menos oportunista. Pessoalmente, nunca identifiquei nenhuma dessas seleções com a minha pátria, talvez porque tenha uma ideia demasiado exigente e valiosa do meu país, na variedade dos seus cientistas, desportistas, médicos, escritores, pintores, engenheiros, gente comum, etc., para o fazer.
Mas é incontestável que esta identificação existe e que ela responde à necessidade que as nações têm de expressar a sua existência coletiva. Necessidade bem real, mas que tem sido paradoxalmente ignorada pela evolução do mundo contemporâneo, que tem abandonado os cidadãos, ora às angústias da atomização individualista, ora às ansiedades da globalização planetária.
Necessidade que, como bem vemos mais uma vez com o Euro 2012, se manifesta sobretudo quando está em jogo o espírito nacional, ou o que resta dele. O que acontece é que os jogadores acabam por representar - apesar de oriundos dos mais diversos clubes do mundo, a que toda a gente os associa imediatamente - uma espécie de identidade polifacetada, em declinação constante, que vai remetendo para diferentes entidades (equipas, cidades, marcas, etc.), mas que acaba sempre reconduzida à da representação nacional, propiciando assim uma das poucas experiências que, hoje, ainda permite o vibrar coletivo das nações e tornar visível a sua existência.
O sucesso de tudo isto deve-se, claro, à sua transmissão televisiva em direto, ao suspense mediático que artificialmente se alimenta dias a fio, e ao facto de tudo ser encenado como se de um "teatro da igualdade" se tratasse, em que se vão apurando os mais capazes entre iguais, até à decisão final. Agustina Bessa-Luís viu bem isto há anos, num texto magnífico que vale a pena ler e reler: "Se não fosse por estes espetáculos, em que o indivíduo é assobiado, escarnecido, vaiado, aplaudido e abandonado pela multidão, não se mantinha a consciência do mundo que nos cerca. E onde seríamos apenas um ser relativo sem a curiosidade assustadora que faz de nós uma surpresa, ia a dizer divina. Digo: divina. O medíocre transforma-se em herói; resolve-se no furioso trabalho do peito, dos ombros, dos pés. O homem resigna do seu mandato realista, abandona o seu sofrimento, e muda de natureza. Nalguns segundos percorre uma vida. O relvado é o mundo inteiro: vencê-lo representa um inferno de dor, de combate, de deceção. O jogador sente-se demasiado pequeno para si próprio; mas o orgulho corre ao lado dele, levanta-o da sua humilhação, das suas quedas, dos seus erros. O fantástico acode à sua mente; a multidão admite o fantástico e sequestra o homem no retângulo do jogo para que ele opere o fantástico" - e assim se atinge o esplendor na relva do homo sportivus.
Manuel Maria Carrilho
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