sexta-feira, junho 29, 2012


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado

                               Manuel Alegre

Miguel Sousa Tavares afirmou recentemente numa entrevista que se vê obrigado a estudar economia porque 80% do jornalismo hodierno versa sobre questões económicas. Os teocratas não concebem que religião e Estado sejam organismos independentes, os novos tecnocratas impingem-nos a ideia de que economia e política são realidades indissociáveis e que a segunda se esgota na primeira, que se lhe antepõe. Já não há, querem-nos fazer crer, decisões políticas ou ideológicas, prioridades, escolhas – há uma política económica de aplicação global que não pode ser contestada. O delírio é tal, que uns jotinhas, certamente convictos de ser Montesquieu um jogador de futebol, já propuseram a peregrina ideia da criminalização dos agentes de políticas económicas erradas (no fundo, todas aquelas além da «política certa» que cintila nas suas cabecinhas). A política de um país não se resume a folha de Excel.
Se olharmos para os números macroeconómicos pós-tróica, vemos que a receita destes excelsos economistas só tem até agora conduzido ao desastre. Faz parte do caminho, respondem-nos os fideístas, a seguir iremos crescer. Iremos mesmo? E com que atropelos sociais pelo caminho? Teremos razões para confiar na ciência económica e nos economistas?
A London School of Economics and Political Science revelou que desde 1973, 69% e 55% dos ministros das Finanças na Grécia e em Portugal, respectivamente, têm um doutoramento em Economia, diploma desconhecido dos titulares da economia e das finanças em Inglaterra. No livro 23 Things They Don´t Tell You About Capitalism, Ha-Joon Chang demonstra como Taiwan, a China e a Coreia do Sul cresceram economicamente com advogados e engenheiros ao leme.
Se juntarmos duzentos economistas e lhes pedirmos um diagnóstico da situação económica de um país, teremos provavelmente duzentas opiniões diferentes. Os prognósticos dos economistas caracterizam-se, de resto, por uma singularidade: nunca acertam. Quem, além de Medina Carreira, o apelidado Profeta da Desgraça, previu que chegaríamos a este ponto? Quem previu a crise internacional na sua dimensão e extensão? Quem previu o estado actual da Europa? Ou o nível de desemprego a que Portugal chegou? E quem sabe como e quando sairemos disto? Recordemo-nos das palavras do ministro das Finanças em 2011: «2012 vai marcar um ano de viragem.» Silva Lopes, um economista dito avalizado e independente, garante que teremos de recorrer à ajuda externa lá para Setembro e que os sacríficios não estão a ser repartidos equitativamente por todos.
Em que ponto estão todos os economistas de acordo para que a economia mereça o estatuto de ciência? Os postulados da económica clássica assentaram sempre em dois pressupostos: os agentes económicos são racionais e (consequentemente) os mercados equilibram-se.

No final do decénio de 1960, Herbert Simon (prémio Nobel) fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que haviam assimilado acriticamente o dogma de os agentes económicos serem racionais – a assunção que garantia o equilíbrio dos mercados.
Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.
Quarenta anos volvidos, a neurociência demonstra que as escolhas ditas racionais têm na origem uma decisão emocional encoberta. Um estudo recente dos EUA revelou que as pessoas que seguem a sua intuição afirmando no primeiro instante qual o vencedor de umas eleições ou quais as acções da bolsa que irão subir acertam mais do que as que ponderada e analíticamente elaboram uma decisão racional.
A economia não se pode desligar da psicologia, porque os seus indicadores são resultado da acção dos seres humanos, ditada pelas suas expectativas, anseios, desejos, vontades, inclinações, depressões.
Quando estudei Economia, aprendi que, em fases recessivas, deveria haver uma política económica contracíclica – que só com investimento público injectado na economia, esta poderia espevitar. Não acontece hoje exactamente o contrário?
Aprendi também que o PIB tem inúmeras limitações. As desigualdades, o respeito pelos direitos humanos, a preservação de um meio ambiente ecologicamente sadio, o património cultural não são objecto de mensuração desse instrumento sacrossanto. A uma pessoa sensata bastará pensar que os três estadistas que mais milhões mataram no século XX – Mao Zedong, Joseph Stalin e Adolf Hitler – tiveram resultados assinaláveis no crescimento do PIB.
O regime nazi contabilizava quanto custava um aluno surdo-mudo comparativamente a um aluno «normal». Hoje, calcula-se quanto custa um desempregado, quanto custa um velho, quanto custa um doente com hemodiálise.
Numa época tecnocrata em que tanto se alteiam especialistas, eis duas definições. «O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, até acabar sabendo tudo sobre nada.» (George Bernard Shaw) «Especialista é um sujeito que só não ignora uma coisa.» (Millôr Fernandes) Quem só sabe de economia nem de economia sabe. 

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