Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
Manuel Alegre
Miguel Sousa Tavares afirmou
recentemente numa entrevista que se vê obrigado a estudar economia porque 80%
do jornalismo hodierno versa sobre questões económicas. Os teocratas não concebem que religião e Estado
sejam organismos independentes, os novos tecnocratas impingem-nos a ideia de
que economia e política são realidades indissociáveis e que a segunda se esgota
na primeira, que se lhe antepõe. Já não há, querem-nos fazer crer, decisões
políticas ou ideológicas, prioridades, escolhas – há uma política económica de
aplicação global que não pode ser contestada. O delírio é tal, que uns
jotinhas, certamente convictos de ser Montesquieu um jogador de futebol, já
propuseram a peregrina ideia da criminalização dos agentes de políticas
económicas erradas (no fundo, todas aquelas além da «política certa» que
cintila nas suas cabecinhas). A política de um país não se resume a folha de
Excel.
Se olharmos para os números
macroeconómicos pós-tróica, vemos que a receita destes excelsos economistas só
tem até agora conduzido ao desastre. Faz parte do caminho, respondem-nos os
fideístas, a seguir iremos crescer. Iremos mesmo? E com que atropelos sociais
pelo caminho? Teremos razões para confiar na ciência económica e nos
economistas?
A London School of Economics and Political Science revelou que desde 1973, 69% e 55% dos
ministros das Finanças na Grécia e em Portugal, respectivamente, têm um
doutoramento em Economia, diploma desconhecido dos titulares da economia e das
finanças em Inglaterra. No livro 23
Things They Don´t Tell You About Capitalism, Ha-Joon Chang demonstra como Taiwan,
a China e a Coreia do Sul cresceram economicamente com advogados e engenheiros
ao leme.
Se juntarmos duzentos
economistas e lhes pedirmos um diagnóstico da situação económica de um país,
teremos provavelmente duzentas opiniões diferentes. Os prognósticos dos
economistas caracterizam-se, de resto, por uma singularidade: nunca acertam.
Quem, além de Medina Carreira, o apelidado Profeta da Desgraça, previu que chegaríamos
a este ponto? Quem
previu a crise internacional na sua dimensão e extensão? Quem previu o estado
actual da Europa? Ou o nível de desemprego a que Portugal chegou? E quem sabe
como e quando sairemos disto? Recordemo-nos das palavras do ministro das
Finanças em 2011: «2012 vai marcar um ano de viragem.» Silva Lopes, um
economista dito avalizado e independente, garante que teremos de recorrer à
ajuda externa lá para Setembro e que os sacríficios não estão a ser repartidos
equitativamente por todos.
Em que ponto estão todos os
economistas de acordo para que a economia mereça o estatuto de ciência? Os postulados da económica clássica
assentaram sempre em dois pressupostos: os agentes económicos são racionais e
(consequentemente) os mercados equilibram-se.
No final do decénio de 1960, Herbert Simon (prémio Nobel) fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que haviam assimilado acriticamente o dogma de os agentes económicos serem racionais – a assunção que garantia o equilíbrio dos mercados.
Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.
No final do decénio de 1960, Herbert Simon (prémio Nobel) fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que haviam assimilado acriticamente o dogma de os agentes económicos serem racionais – a assunção que garantia o equilíbrio dos mercados.
Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.
Quarenta anos volvidos, a neurociência demonstra que as
escolhas ditas racionais têm na origem uma decisão emocional encoberta. Um estudo
recente dos EUA revelou que as pessoas que seguem a sua intuição afirmando no
primeiro instante qual o vencedor de umas eleições ou quais as acções da bolsa
que irão subir acertam mais do que as que ponderada e analíticamente elaboram
uma decisão racional.
A economia não se pode desligar da psicologia, porque os seus
indicadores são resultado da acção dos seres humanos, ditada pelas suas
expectativas, anseios, desejos, vontades, inclinações, depressões.
Quando estudei Economia, aprendi que, em fases recessivas,
deveria haver uma política económica contracíclica – que só com investimento
público injectado na economia, esta poderia espevitar. Não acontece hoje
exactamente o contrário?
Aprendi também que o PIB tem
inúmeras limitações. As desigualdades, o respeito pelos direitos humanos, a
preservação de um meio ambiente ecologicamente sadio, o património cultural não
são objecto de mensuração desse instrumento sacrossanto. A uma pessoa sensata
bastará pensar que os três estadistas que mais milhões mataram no século XX – Mao Zedong, Joseph Stalin
e Adolf Hitler – tiveram resultados assinaláveis no crescimento do PIB.
O regime nazi contabilizava quanto custava um aluno
surdo-mudo comparativamente a um aluno «normal». Hoje, calcula-se quanto custa
um desempregado, quanto custa um velho, quanto custa um doente com hemodiálise.
Numa época tecnocrata em que tanto se alteiam especialistas,
eis duas definições. «O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre
cada vez menos, até acabar sabendo tudo sobre nada.» (George Bernard Shaw)
«Especialista é um sujeito que só não ignora uma coisa.» (Millôr Fernandes)
Quem só sabe de economia nem de economia sabe.
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