quinta-feira, junho 14, 2012

Solipsismo de um advogado

- Angel, nunca conheci um homem sem uma réstia de coração. A minha experiência nas cadeias com os piores presos, com os chamados monstros, isto não é ideologia rousseauniana, é a realidade sem lentes, pude ver que qualquer ser humano que é capaz das maiores vilezas, das maiores patifarias é capaz das maiores benfeitorias. Às vezes, o crime é fruto de uma sinapse que a própria pessoa nem sabe como aconteceu. Um tipo pacífico, boa pessoa, um dia, no trânsito, deu um tiro a outro e deitou as mãos à cabeça: «O que é que eu acabei de fazer, meu Deus!» Procurou socorrê-lo imediatamente, mas de nada lhe serviu. Foram cinco segundos em que ele não sabe o que aconteceu. Falei horas e horas com os piores bandidos. As histórias terríveis - quem seria eu no lugar deles, interrogo-me muitas vezes à noite? Quantos ladrões conheci que tiveram de roubar para sustentar os seus, velhinhas sem dinheiro para medicamentos. Os pedófilos que estavam genuinamente convictos de fazer bem aos objectos do seu amor e que não conseguiam conter a compulsão. Crimes de ciúmes que eu compreendia, crimes de ódio acumulado, de rancor e ressentimento acumulado que eu ouvia e pensava: claro, claro. Quando vejo um filho dar um estalo à mãe ou a mãe dar um estalo ao filho, ou o professor ao aluno ou o aluno ao professor, ou o trabalhador ao patrão ou o patrão ao trabalhador, ou o polícia ao pobre ou o pobre ao polícia, eu nunca julgo. O que é está por trás daquele estalo? Pode haver milhares de acções, palavras, omissões até, acumuladas do outro lado. A acção primária, directa, palpável  pode ser infinitamente mais branda do que a violência indirecta, manipulativa, opressiva, psicológica, omnipresente do outro lado. Eu não julgo ninguém. Não tenho informação para isso - ninguém tem. É esse o cruzamento do só sei que nada sei de Sócrates com o não julgueis e não sereis julgados de Cristo. Compreendo o assassino, o pedófilo, o ladrão, o proxeneta, só não compreendo o sabujo e o corrupto. Compreendo-o, mas alguém em mim resiste a aceitá-lo.

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