terça-feira, junho 19, 2012

- Sabes o que é chegares a uma altura da vida em que fazes um questionamento de tudo o que já fizeste e foste? Claro que todos passamos por questionamentos, mas eu falo daquele mais profundo que põe em causa tudo, que te faz soar o teu próprio nome e rosto ao espelho como estranhos. Sempre acreditei na cultura como uma espécie de religião, sempre acreditei na capacidade da literatura nos tornar melhores pessoas. Hoje, olho para trás e penso: todo o dinheiro que gastei em livros e em cigarros dava para comprar  um Porsche. Eu tenho um Porsche nas minhas estantes que nunca vou recuperar. A verdade, duríssima de aceitar, é que o meu processo de intelectualização foi um refúgio para as minhas disfunções afectivas e sexuais. E quanto mais me isolei entre estantes, mais disfuncional fui ficando. Não sei dançar, cozinhar, conduzir, ter relações sociais, falar com uma mulher sem ser atabalhoado e tímido, e tenho vergonha de ir à praia e ter de mostrar o meu corpo. Se tivesse ido mais a ginásios e menos a bibliotecas... É uma verdadeira revolução o que estou a viver. Mas como não se pode viver sem afectos, eu tive de me perguntar: tantos livros e não arranjei uma namorada a sério, ninguém me disse uma vez: «Eu amo-te.» O que é o Joyce, o Proust e o Kant me ensinaram sobre atrair e conquistar ou sobre a geografia do prazer da vagina ou como trabalhar um clitóris? O Huxley é que tinha razão: Eu só ponho personagens femininas nos meus livros por causa do enredo, porque não faço puto de ideia como é que uma mulher pensa e sente. É fútil, mas real: nenhuma conversa que tive do que li deles se verteu num átomo de atracção do sexo oposto por mim.A verdade é que sempre tive o rótulo «Punhetas» na testa. Vivi a vida dos outros em livros, não vivendo a minha, vivi de emoções roubadas e amaldiçoo-me por isso. A Plath matou-se, a Virginia, o Maupassant, o Hemingway, o Koestler que obrigou ainda a mulher a matar-se, o Deleuze, o Jack London. E os outros mataram-se de forma indirecta com o álcool, por exemplo, quase todos acabaram tristemente, enlouqueceram, muitos eram bipolares, alguns defenderam o fascismo, o nazismo. A minha empregada é analfabeta e é honestíssima, e quantos tipos sem carácter conheci eu que leram o teu Fitzgerald, e tem uma profunda inteligência emocional. E de certeza que sabe mais de anatomia do que eu.

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