sexta-feira, junho 22, 2012

O que se aprende agora nas aulas de Português, por Teolinda Gersão






Tempo de exames no secundário,os meus netos pedem-me ajuda para
estudar português.Divertimo-nos imenso,confesso.E eu acabei por
escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são
minhas,mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam.E depois de rirmos
espero que nós,adultos,façamos alguma coisa para libertar as crianças
disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a
gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são
um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam
ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado,
quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento
circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está
na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como
se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas
“na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que
não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane,
com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo,
lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o
desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a
funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não
é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a
complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos
directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há
verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser
instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento
prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas
sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e
outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do
tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante
possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções
coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão
a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram,
”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de
um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado
seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase
declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de
polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a
janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o
sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que
aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou
coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a
autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano
passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que
quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só
estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que
odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º
estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado
parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e
deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico,
classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia,
hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e
deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto,
hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas
textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de
decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por
palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes
palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem
para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a
começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente
frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa.
Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado,
por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua.
Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem
certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na
televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o
totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê
nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de
novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear.
Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar
ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre
sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de
palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já
sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve
redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa
nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de
superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos
pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e
julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do
tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos.
Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos
trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não
sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a
setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está
nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do
sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para
si, que até é simpática).

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