domingo, junho 03, 2012

Ele viveu onze anos a pensar no processo que tinha em tribunal. Onze anos. Não havia um dia em que a sua cabeça não pensasse no processo - o superior objectivo, o superior interesse. Tudo se lhe sacrificava. Enquanto não acabar o processo, não - dizia a quase tudo. Isso sobrepunha-se a relações afectivas, familiares, de amizade, à sua própria saúde. Perdeu cabelo, ganhou rugas, nos convívios só conseguia falar do processo. Contente quando havia coisas positivas do processo, triste quando havia coisas negativas do processo. Quando estava tenso, davam-lhe uma palmadinha. «Estás a pensar no processo?» «Em que é que havia de estar a pensar?» Nem era possível imaginar como seria ele depois da sentença final do mesmo - porque o processo não era uma questão de vida ou de morte; era muito mais do que isso. O processo chegou ao fim. Ele ganhou, mas ficou vazio. O meio tornara-se num fim em si mesmo. A angústia, a ansiedade, o entusiasmo, a efervescência da coisa morriam para sempre. Em que pensaria agora ao deitar e ao acordar? O que o faria calçar os sapatos de manhã? O que preencheria agora o espaço vazio dos continentes da sua alma?

Ele começou uma carreia no kick boxing. Namorava uma amiga minha. Na primeira vez em que falámos, ele falou de um Cássio. Que precisava de ganhar peso para chegar à sua categoria. Viveu anos e anos com derrotas e vitórias, perda de dentes, e, num dia, após uma vitória importante, mostrou-se pouco satisfeito. «Enquanto não derrotar o Cássio...» Chegou ao peso dele e derrotou-o. Parece que nada extraordinário sobreveio desse milagre.

Nos seus diários, Tolstoi dizia que viveu a vida toda a tentar superar Shakespeare. Superei-o, dizia em idade tardia. Acrescentava: E agora?


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