A dimensão histórica perdeu-se e a prospectiva do futuro cruzando as referências do passado e erigindo padrões não se compadece com artigos curtos nos jornais. As longas reportagens, em forma de ensaio, não interessam, não vendem e por isso não se publicam. Ando zangado com esta merda.
Entrever, prospectivar é difícil nesta época imprevisível, mas há padrões do passado que podíamos conhecer.
Porque é que os pobres cada vez mais pobres não se rebeliam contra esta (des)ordem social?
Em vez de diabolizar a direita e a extrema-direita, a esquerda devia procurar responder-se porque nunca sempre deixou fugir historicamente a sua base social de apoio para a direita, nomeadamente a extrema-direita.
Porque é que Hitler (que tinha no nome do seu partido a palavra «socialista») teve a base de apoio dos operários e dos desempregados? Habilmente, Hitler dizia que o varredor de ruas alemão era mais importante do que o Presidente da República e o professor universitário estrangeiro.
Porque é que os partidos de extrema-direita ainda hoje, veja-se França, têm o voto dos mais pobres? Foi sempre assim. Dividir os pobres dos miseráveis para reinar. Paulo Portas faz o mesmo, instigando os beneficiários do Rendimento Social de Inserção contra os imigrantes e particularmente os Ciganos.
Porque é que Carvalho da Silva diz que hoje o maior inimigo dos trabalhadores é a ideia do vestir a camisola? Porque se perdeu a solidariedade entre trabalhadores, se a corroeu instalando a ideia de que tenho-é-de-dar-o-máximo-pela-minha-empresa-para-esta-não-falir-e-eu-não-perder-o-meu-posto.
Porque é os motoristas da Carris e os taxistas detestam estrangeiro e pobres, eles que não são ricos? Porque são eles que põem em perigo a sua segurança.
Porque é que a direita manhosamente quando se fala nas condições dos presos, diz que está preocupada é com o velhos que não têm pensões. Porque precisa de agarrar numa base social de baixo para se ancorar, e a forma que encontra sempre é arranjar outro grupo de fracos para diabolizar. Como agora a do FMI com as criancinhas da Nigéria contra os Gregos.
Porque é que há esta demonização dos funcionários públicos? Para que o trabalhador deixe de ser um conceito uno e para que os dos privados estejam contra os do público.
Porque é que não há sindicatos de desempregados?
Porque é que há tantas lutas entre etnias diferentes em bairros sociais?
Porque é que a extrema-direita recrutava o lumpemproletarido para as suas milícias?
Porque é o pequeno proprietário rural era o maior inimigo do bolchevismo? Porque o seu contíguo era o mero assalariado rural.
Porque é Marx dizia que até o capitalista compreendia que o mínimo dos mínimos tinha de ser dado ao trabalhador para não garantir a revolta?
Porque é que Cavaco gosta tantos das IPSS? Porque sabe que sem elas a revolta social poderia ser possível - elas cumprem o papel a que o Estado se escapou, precavendo os motins.
A história repete-se, dizia o outro, primeiro como tragédia e depois como farsa.

2 comentários:
porra pá ! mas afinal aqui bebe-se tinto ou branco ?
não sei o que fazer com a tristeza, a revolta, a ira, a perplexidade, o cansaço que tudo isto me provoca. não sei em que mundo os meus filhos vão viver, mas sei que nunca estarão preparados para ele.
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