terça-feira, junho 19, 2012

Aceito todas as ideologias desde que haja um princípio: não há seres humanos descartáveis. Todos têm direito à ração mínima de felicidade, à satisfação das suas necessidades básicas. Sim, perante o dilema do surfista, eu não hesito: mesmo quem não produz por opção tem direito ao mínimo. É uma assunção filosófica. Porque ninguém escolheu nascer e porque nascemos com uma coisa chamada organismo que nos exige determinadas coisas. E neste ponto sou intolerante. Não aceito relativismo culturais quanto à cartilha dos direitos humanos. Quem só defende a pena de morte ou a tortura em casos tal-e-tal defende a pena de morte e a tortura.
Claro está que em tempos de crise económica, os maiores atropelos aos direitos humanos podem ser escritos no papel que a multidão anestesiada não se preocupará - até porque isso «não custa nada». E assim nos preparamos para ter penas perpétuas em Portugal - após cumprir a pena, o pedófilo continua a ser pedófilo para os vizinhos, a empresa, as escolas. E quem nos garante que o Sol ou o Correio da Manhã não publicarão tais dados? E quem nos garante (quando em Lisboa já há grafitos com «ali mora um pedófilo» com setas) que não haverá linchamentos? E quem nos garante que após o pedófilo, não virá o corrupto, o homicida, o terrorista, o violador, o portador de VIH?
O assunto da sinalização é difícil de não ter a aceitação popular. A coisa abstracta do Estado de Direito e do perigo do precedente e do conhecimento da história são diminutos ante o reducionismo matóide: pedófilos versus crianças.
É o regresso à barbárie, o regresso às estrelas nazis, à campainha no pescoço dos leprosos que os anunciava para que todos se afastassem, dos pelourinhos em que os criminosos eram castigados e humilhados em público durante semanas e muitas vezes executados presos com correntes e argolas a postes para gáudio da multidão.
O Estado começou, como no poema de Brecht, por proibir os restaurantes de não ter a comida em condições que vinham de uns iluminados burocratas da UE, a seguir proibiu o dono do restaurante de decidir se na sua casa se fumava ou não, a seguir proibiu o fumo em automóveis privados com crianças, agora quer invadir a casa das pessoas - o último refúgio do Big Brother - para ver se as tomadas não perigam as crianças.

E a seguir, não se poderá verificar o extracto de fumo no quarto das crianças, o sítio em que a naftalina está suficientemente escondida, se a garrafeira tem as garrafas lá no alto, se o encerado do chão as pode fazer partir a perna ou a cabeça.

E as pessoas comem. Ou não sabem. Ou vão no argumento. Há sempre um argumento - o terrorismo, a insegurança, a saúde pública (já se discute se num ataque cardíaco) - para restringir a liberdade individual. Também na China se proíbe o Facebook por causa do terrorismo. Mas o mais poderoso é o das crianças. Também em Portugal (ler actas da Assembleia da República) para que as crianças dos pais divorciados não fossem estigmatizadas. O mesmo que agora se brande contra a adopção por parte de casais homossexuais.
Não é por acaso que há crianças (o argumento mais emotivo) como argumento na maioria das medidas. Contem: o fumo nos carros, uma, a sinalização dos pedófilos, duas, as tomadas, três. Não é por acaso que os casos mais versados nos media nos últimos anos (o circo para anestesiar qualquer profunda reflexão) foram sobre crianças: o caso Maddie, o Rui Pedro e a Casa Pia.

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