quarta-feira, junho 06, 2012

5.13 insónia

nenhum som
nenhum automóvel de faróis acesos na estrada
(nunca mais nenhum automóvel de faróis acesos na estrada)
a árvore de folhas inexpressivas
estátuas, espelhos partidos
tudo são estátuas e espelhos partidos
o cigarro acende-se
o que é feito da sofia?
o cigarro esmaga-se contra o cinzeiro
o corpo não aguenta mais toxicidade
o livro abre-se
atira-se para bem longe
o cérebro é uma folha de jornal amarrotada
o que é feito do andré?
despejar o cinzeiro
ensacar o lixo
pensar no que fazer às garrafas vazias
deixá-los estar
à noite, eles são dotados de vida
e qualquer acção é inútil
irremediavelmente inútil na hora lúcida da insónia

como se chamava aquele tipo com quem passavas férias no Verão
de há vinte anos
(ainda foram alguns Verões)
havia uma canção nessa altura
devia ser outra pessoa
era outra pessoa, certamente

o mundo achata os diferentes
condena-os ao hospício
à insónia
ao suicídio
ou
pior do que isso
:
à integração.




1 comentário:

isabel disse...

«Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança fictícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se apercebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.»

Campos