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A revista da tasca!
Contrariando o princípio de Napoleão de que só se deve ter uma frente de guerra de cada vez.
sábado, junho 30, 2012
«Sometimes people carry to such perfection the mask they have assumed that in due course they actually become the person they seem.»
Somerset Maugham em 1942
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime
Fernando Pessoa por Álvaro de Campos em 1928
sexta-feira, junho 29, 2012
O surfista estava sempre a dizer:
- ´Tou-me a cagar p´à política...
- Caguem na política...
- Eu quero é surfar e que eu saiba a política não decide se o mar ´tá flat...
- Dass... Outra vez a falarem dessa merda.
Num almoço, à beira-mar, alguém lhe disse na minha mesa:
- Tu não te apercebes, mas muito do que falas é política. Quase tudo é política.
- ´Tá bem, fiquem lá a filosofar... - vestiu o fato, pôs o fato debaixo do braço e foi para o mar.
Depois disso, um dia queixou-se de que parte do mar estava vedado para surfistas, que era um escândalo, que nunca embatera em velhinhos e crianças.
Alguém disse:
- Sabes contra quem estás a fazer essa catilinária?
- Essa quê?
- Ouve, sabes quem decidiu isso? O município. Sabes que isso é uma medida política? Sabes que a tua conversa é toda ela política?
Pacheco Pereira escreveu que tudo o que fuja aos temas Amor, Morte, Deus é política.
- ´Tou-me a cagar p´à política...
- Caguem na política...
- Eu quero é surfar e que eu saiba a política não decide se o mar ´tá flat...
- Dass... Outra vez a falarem dessa merda.
Num almoço, à beira-mar, alguém lhe disse na minha mesa:
- Tu não te apercebes, mas muito do que falas é política. Quase tudo é política.
- ´Tá bem, fiquem lá a filosofar... - vestiu o fato, pôs o fato debaixo do braço e foi para o mar.
Depois disso, um dia queixou-se de que parte do mar estava vedado para surfistas, que era um escândalo, que nunca embatera em velhinhos e crianças.
Alguém disse:
- Sabes contra quem estás a fazer essa catilinária?
- Essa quê?
- Ouve, sabes quem decidiu isso? O município. Sabes que isso é uma medida política? Sabes que a tua conversa é toda ela política?
Pacheco Pereira escreveu que tudo o que fuja aos temas Amor, Morte, Deus é política.
Tenho um espírito combativo. Não deixo, contudo, de me interrogar se muitas das pessoas que lutam por um mundo melhor com fervor e zelo não ficariam profundamente entediadas se tudo aquilo por que pugnam fosse alcançado. Se o mundo melhor não seria para elas um local bem mais aborrecido.
Se o mundo fosse tal qual como desejariam - o que teriam de reinventar para acalmar os seus espíritos desassossegados? A bravata é para muitos um fim em si mesmo, um modo de vida. Como o Che que em certa altura disse estar saudoso de uma boa guerra em que pudesse voltar a dar tudo de si. Talvez todas as lutas sejam formas de aplacar a solidão.
Se o mundo fosse tal qual como desejariam - o que teriam de reinventar para acalmar os seus espíritos desassossegados? A bravata é para muitos um fim em si mesmo, um modo de vida. Como o Che que em certa altura disse estar saudoso de uma boa guerra em que pudesse voltar a dar tudo de si. Talvez todas as lutas sejam formas de aplacar a solidão.
- Não consigo, nem que quisesse conseguiria, ter fantasias com estranhos ou sequer desconhecidos. Posso estar enganada, mas vejo isso como um preenchimento ideal e pueril do que não se conhece com o que se quer; a idealização pincela com o pincel mais livre do mundo o branco do desconhecido. Preciso de conhecer bem a pessoa, preciso de uma consistência de conversas, de troca de olhares, de gestos para conseguir fantasiar - senão, parece-me tudo irreal e de papelão. É que por mais que queira, quando fecho os olhos, esses vultos não ganham a consistência da carne - não sei explicar de outro maneira. São sombras, coisas impalpáveis. A coisa só ganha espessura de desejo quando a pessoa entra em mim como pessoa - corpos per se nada me dizem. São como naturezas-mortas.
Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
Manuel Alegre
Miguel Sousa Tavares afirmou
recentemente numa entrevista que se vê obrigado a estudar economia porque 80%
do jornalismo hodierno versa sobre questões económicas. Os teocratas não concebem que religião e Estado
sejam organismos independentes, os novos tecnocratas impingem-nos a ideia de
que economia e política são realidades indissociáveis e que a segunda se esgota
na primeira, que se lhe antepõe. Já não há, querem-nos fazer crer, decisões
políticas ou ideológicas, prioridades, escolhas – há uma política económica de
aplicação global que não pode ser contestada. O delírio é tal, que uns
jotinhas, certamente convictos de ser Montesquieu um jogador de futebol, já
propuseram a peregrina ideia da criminalização dos agentes de políticas
económicas erradas (no fundo, todas aquelas além da «política certa» que
cintila nas suas cabecinhas). A política de um país não se resume a folha de
Excel.
Se olharmos para os números
macroeconómicos pós-tróica, vemos que a receita destes excelsos economistas só
tem até agora conduzido ao desastre. Faz parte do caminho, respondem-nos os
fideístas, a seguir iremos crescer. Iremos mesmo? E com que atropelos sociais
pelo caminho? Teremos razões para confiar na ciência económica e nos
economistas?
A London School of Economics and Political Science revelou que desde 1973, 69% e 55% dos
ministros das Finanças na Grécia e em Portugal, respectivamente, têm um
doutoramento em Economia, diploma desconhecido dos titulares da economia e das
finanças em Inglaterra. No livro 23
Things They Don´t Tell You About Capitalism, Ha-Joon Chang demonstra como Taiwan,
a China e a Coreia do Sul cresceram economicamente com advogados e engenheiros
ao leme.
Se juntarmos duzentos
economistas e lhes pedirmos um diagnóstico da situação económica de um país,
teremos provavelmente duzentas opiniões diferentes. Os prognósticos dos
economistas caracterizam-se, de resto, por uma singularidade: nunca acertam.
Quem, além de Medina Carreira, o apelidado Profeta da Desgraça, previu que chegaríamos
a este ponto? Quem
previu a crise internacional na sua dimensão e extensão? Quem previu o estado
actual da Europa? Ou o nível de desemprego a que Portugal chegou? E quem sabe
como e quando sairemos disto? Recordemo-nos das palavras do ministro das
Finanças em 2011: «2012 vai marcar um ano de viragem.» Silva Lopes, um
economista dito avalizado e independente, garante que teremos de recorrer à
ajuda externa lá para Setembro e que os sacríficios não estão a ser repartidos
equitativamente por todos.
Em que ponto estão todos os
economistas de acordo para que a economia mereça o estatuto de ciência? Os postulados da económica clássica
assentaram sempre em dois pressupostos: os agentes económicos são racionais e
(consequentemente) os mercados equilibram-se.
No final do decénio de 1960, Herbert Simon (prémio Nobel) fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que haviam assimilado acriticamente o dogma de os agentes económicos serem racionais – a assunção que garantia o equilíbrio dos mercados.
Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.
No final do decénio de 1960, Herbert Simon (prémio Nobel) fritou o cérebro de muitos economistas e academistas que haviam assimilado acriticamente o dogma de os agentes económicos serem racionais – a assunção que garantia o equilíbrio dos mercados.
Numa ruptura ideológica marcante, Simon desmontou a premissa essencial da ciência económica. Os agentes não só não eram racionais, porque movidos por impulsos, por emoções, por precipitações, como não dispunham em cada momento de toda a informação disponível para fazer a escolha económica certa.
Quarenta anos volvidos, a neurociência demonstra que as
escolhas ditas racionais têm na origem uma decisão emocional encoberta. Um estudo
recente dos EUA revelou que as pessoas que seguem a sua intuição afirmando no
primeiro instante qual o vencedor de umas eleições ou quais as acções da bolsa
que irão subir acertam mais do que as que ponderada e analíticamente elaboram
uma decisão racional.
A economia não se pode desligar da psicologia, porque os seus
indicadores são resultado da acção dos seres humanos, ditada pelas suas
expectativas, anseios, desejos, vontades, inclinações, depressões.
Quando estudei Economia, aprendi que, em fases recessivas,
deveria haver uma política económica contracíclica – que só com investimento
público injectado na economia, esta poderia espevitar. Não acontece hoje
exactamente o contrário?
Aprendi também que o PIB tem
inúmeras limitações. As desigualdades, o respeito pelos direitos humanos, a
preservação de um meio ambiente ecologicamente sadio, o património cultural não
são objecto de mensuração desse instrumento sacrossanto. A uma pessoa sensata
bastará pensar que os três estadistas que mais milhões mataram no século XX – Mao Zedong, Joseph Stalin
e Adolf Hitler – tiveram resultados assinaláveis no crescimento do PIB.
O regime nazi contabilizava quanto custava um aluno
surdo-mudo comparativamente a um aluno «normal». Hoje, calcula-se quanto custa
um desempregado, quanto custa um velho, quanto custa um doente com hemodiálise.
Numa época tecnocrata em que tanto se alteiam especialistas,
eis duas definições. «O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre
cada vez menos, até acabar sabendo tudo sobre nada.» (George Bernard Shaw)
«Especialista é um sujeito que só não ignora uma coisa.» (Millôr Fernandes)
Quem só sabe de economia nem de economia sabe.
Miguel Sousa Tavares diz que na sua casa se discutia muita política. O pai debitava conhecimento, estatísticas, números, factos, discursos, correlações, padrões passado-presente, contradições. A mãe avaliava os políticos pela sensibilidade - gosto da cara dele, não gosto da cara dele. Parece que a mãe intuía muita coisa, que as suas prospectivas se concretizavam. Conclui que é preciso conhecimento, factualidade - mas em doses não menos importantes: sensibilidade.
Muitas pessoas argumentam na base do facto - e isso deixa tanto de fora. A intuição. A perspectiva oriental, feminina é tão ou mais importante do que a análise cartesiana.
Quantas vezes ouço planos de negócios infalíveis, impossíveis de desmantelar e dizer: «Isso vai falhar», mas tendo a convicção íntima de que irá. Ou políticos retóricos com argumentos irrespondíveis que sabemos pela fácies estarem a levar-nos para algo pior. Ou comerciais que vendem produtos que temos mesmo racionalmente de adquirir - mas que sentimos por instinto que não o devemos fazer.
Lembro-me da lógica implacável dos comunistas bacteriologicamente puros retratados por Koestler. Sabemos que é tudo lógico e certo e algo nos repele - não aceitamos aquilo.
De resto, o mais importante na vida, coisas como «Porque é que devemos defender os direitos humanos?» nunca encontrarão um respaldo racional. Adere-se ou não se adere.
Muitas pessoas argumentam na base do facto - e isso deixa tanto de fora. A intuição. A perspectiva oriental, feminina é tão ou mais importante do que a análise cartesiana.
Quantas vezes ouço planos de negócios infalíveis, impossíveis de desmantelar e dizer: «Isso vai falhar», mas tendo a convicção íntima de que irá. Ou políticos retóricos com argumentos irrespondíveis que sabemos pela fácies estarem a levar-nos para algo pior. Ou comerciais que vendem produtos que temos mesmo racionalmente de adquirir - mas que sentimos por instinto que não o devemos fazer.
Lembro-me da lógica implacável dos comunistas bacteriologicamente puros retratados por Koestler. Sabemos que é tudo lógico e certo e algo nos repele - não aceitamos aquilo.
De resto, o mais importante na vida, coisas como «Porque é que devemos defender os direitos humanos?» nunca encontrarão um respaldo racional. Adere-se ou não se adere.
quinta-feira, junho 28, 2012
A maior parte dos socialistas limita-se a observar que, uma vez estabelecido o socialismo, seremos felizes num sentido material, e presume que todos os problemas desaparecem quando temos a barriga cheia. Mas a verdade é o oposto: quando temos a barriga vazia, o nosso único problema é a barriga vazia. É quando nos afastarmos da servidão e da exploração que começaremos realmente a fazer perguntas quanto ao destino do homem e quanto à razão da sua existência. Não podemos ter qualquer imagem de valor do futuro a não ser que tomemos consciência de quanto perdemos com o declínio do cristianismo.
George Orwell
George Orwell
Um euro esconde o outro
Se não diz tudo, o futebol diz todavia muito sobre a época que vivemos, nomeadamente sobre o que nela mais persistimos em ignorar. Sobretudo agora que, com a crise que atravessamos, ele faz do euro desportivo uma verdadeira catarse quotidiana do outro euro, monetário, económico e político. O intermitante júbilo que envolve um serve para tentar esconjurar a fatigante depressão que se colou ao outro. Depressão que hoje e amanhã o Conselho Europeu, reunido em Bruxelas, vai - em mais uma "cimeira decisiva" -, garantir que tudo fará para conseguir ultrapassar.
Nestes momentos de intensa futebolização do quotidiano, é indispensável sublinhar algumas ideias, que para mim há muito sintetizam o homo sportivus do nosso tempo. A primeira é que o desporto, e nomeadamente o futebol, se tornou num fenómeno global de índole quase religiosa, que se impõe a todos os povos, os sexos e as idades. Prova disto é o seu domínio do tempo: hoje em dia o calendário desportivo fixa uma liturgia que condiciona quase todas as outras temporalidades, sejam elas sociais, políticas ou escolares
A segunda ideia é que o desporto, ao mesmo tempo que minou os valores a que tradicionalmente se associava (o espírito lúdico, a camaradagem, a valorização pessoal, o respeito pelo adversário, a abnegação, etc.), passou a consagrar um único valor: a performance. Valor que traz consigo uma devastadora lógica mercantilista, de que todos os dias temos múltiplos exemplos, que excedem a mais fértil das imaginações.
Foi assim que o desporto, concebido como um singular contacto entre povos diversos, histórias autónomas, pessoas diferentes, tradições específicas ou valores contrastantes, praticamente desapareceu. E desapareceu justamente devido à sua consagração como prática massificadora, que o tornou cada vez mais inseparável do culto da cupidez, do dinheiro fácil, do sucesso que não olha a meios, da matriz de irresponsabilidade impune, fatores que têm conduzido as nossas sociedades aos tremendos problemas que hoje vivemos.
Seria pois bom que - como já uma vez escrevi - se pensasse a sério "na sociedade que se está a construir, quando os exemplos que se incensam até ao delírio são os de indivíduos que vivem numa abracadabrante ostentação, como se fossem deuses de um novo circo, gastando dezenas de milhares de euros numa noite de discoteca, exibindo um permanente carrossel de "scort girls" de luxo, circulando em automóveis de centenas de milhares de euros que estoiram sem um ai. Ao mesmo tempo que, na maior parte dos casos, raramente são capazes de uma iniciativa filantrópica, de um projeto mecenático, de um gesto solidário. Ou, mesmo, quantas vezes, de uma simples frase com sentido..."
A terceira ideia é que o desporto condiciona hoje o imaginário de todos os povos do planeta, impondo-lhes um conjunto cada vez mais uniforme de representações a partir das quais eles concebem quase toda a sua existência. Como oportunamente o explicou Robert Redeker, é no desporto que se concentram em mais alto grau os fatores de uma tal uniformização: o consumo desenfreado, o fetichismo das marcas, a pressão publicitária, o culto dos ídolos, a submissão aos media, a sloganização da linguagem, a histerização das multidões e o fanatismo da performance. Convergência que torna o desporto, e particularmente o futebol, no catalisador de uma humanidade cada vez mais unidimensional.
Por fim, uma quarta ideia é que a grande transformação em matéria desportiva se deu em meados do século XX, com dois acontecimentos: por um lado com o aparecimento da televisão, por outro lado com a emergência dos tempos livres. Foi esta convergência, do desporto com a televisão e com o lazer que definiu o fenómeno desportivo como hoje o conhecemos. Convergência que produziu um fenómeno de identificação cada vez maior entre as massas e o desporto, que toma a sua forma mais comum e mais intensa no futebol.
Pode-se pensar, e com bons argumentos, que a identificação de qualquer seleção desportiva e dos seus resultados com qualquer tipo de desígnio nacional não passa, na verdade, de um ritual mais ou menos oportunista. Pessoalmente, nunca identifiquei nenhuma dessas seleções com a minha pátria, talvez porque tenha uma ideia demasiado exigente e valiosa do meu país, na variedade dos seus cientistas, desportistas, médicos, escritores, pintores, engenheiros, gente comum, etc., para o fazer.
Mas é incontestável que esta identificação existe e que ela responde à necessidade que as nações têm de expressar a sua existência coletiva. Necessidade bem real, mas que tem sido paradoxalmente ignorada pela evolução do mundo contemporâneo, que tem abandonado os cidadãos, ora às angústias da atomização individualista, ora às ansiedades da globalização planetária.
Necessidade que, como bem vemos mais uma vez com o Euro 2012, se manifesta sobretudo quando está em jogo o espírito nacional, ou o que resta dele. O que acontece é que os jogadores acabam por representar - apesar de oriundos dos mais diversos clubes do mundo, a que toda a gente os associa imediatamente - uma espécie de identidade polifacetada, em declinação constante, que vai remetendo para diferentes entidades (equipas, cidades, marcas, etc.), mas que acaba sempre reconduzida à da representação nacional, propiciando assim uma das poucas experiências que, hoje, ainda permite o vibrar coletivo das nações e tornar visível a sua existência.
O sucesso de tudo isto deve-se, claro, à sua transmissão televisiva em direto, ao suspense mediático que artificialmente se alimenta dias a fio, e ao facto de tudo ser encenado como se de um "teatro da igualdade" se tratasse, em que se vão apurando os mais capazes entre iguais, até à decisão final. Agustina Bessa-Luís viu bem isto há anos, num texto magnífico que vale a pena ler e reler: "Se não fosse por estes espetáculos, em que o indivíduo é assobiado, escarnecido, vaiado, aplaudido e abandonado pela multidão, não se mantinha a consciência do mundo que nos cerca. E onde seríamos apenas um ser relativo sem a curiosidade assustadora que faz de nós uma surpresa, ia a dizer divina. Digo: divina. O medíocre transforma-se em herói; resolve-se no furioso trabalho do peito, dos ombros, dos pés. O homem resigna do seu mandato realista, abandona o seu sofrimento, e muda de natureza. Nalguns segundos percorre uma vida. O relvado é o mundo inteiro: vencê-lo representa um inferno de dor, de combate, de deceção. O jogador sente-se demasiado pequeno para si próprio; mas o orgulho corre ao lado dele, levanta-o da sua humilhação, das suas quedas, dos seus erros. O fantástico acode à sua mente; a multidão admite o fantástico e sequestra o homem no retângulo do jogo para que ele opere o fantástico" - e assim se atinge o esplendor na relva do homo sportivus.
Manuel Maria Carrilho
quarta-feira, junho 27, 2012
Passou a anos a falar da colega de trabalho que lhe infernizava o trabalho. A vida, em certa altura. Mesquinha, autoritária, intriguista, carreirista, cabra. (Que episódios contava, até tinha vontade de ir lá ao escritório.)
E de repente:
- A minha raiva curava-se se eu estivesse no lugar do namorado dela.
Fiquei boquiaberto.
- Sim, melhor do que ela não há.
Lembrei-me das patifarias de Hemingway a Fitzgerald, dos escritos contra a sua escrita, da depreciação de tudo que Scott escrevia. Gertrude Stein, amiga de ambas, conselheira e protectora de ambos, disse que Hemingway tinha uma pedra no sapato contra o talento de Scott Fitzgerald
E um dia, em letras mais pequenas, numa catilinária contra ele, deixa escapar:
«O seu talento era tão natural como os desenhos do pólen formados nas asas de uma borboleta.»
E de repente:
- A minha raiva curava-se se eu estivesse no lugar do namorado dela.
Fiquei boquiaberto.
- Sim, melhor do que ela não há.
Lembrei-me das patifarias de Hemingway a Fitzgerald, dos escritos contra a sua escrita, da depreciação de tudo que Scott escrevia. Gertrude Stein, amiga de ambas, conselheira e protectora de ambos, disse que Hemingway tinha uma pedra no sapato contra o talento de Scott Fitzgerald
E um dia, em letras mais pequenas, numa catilinária contra ele, deixa escapar:
«O seu talento era tão natural como os desenhos do pólen formados nas asas de uma borboleta.»
Ele estava cada vez melhor. Ele estava cada vez pior. A amizade ficou maculada pela inveja, ainda que ele nada tivesse a apontar-lhe - algo que só o enfurecia ainda mais. Deseja febrilmente que ele tivesse um tropeção. Uma boa maneira de não nos sentirmos mal na merda é ver os outros a deslizarem para a merda. (Para alguns, pelo menos.)
Da ciência hodierna
A pele de um vegetariano exsuda um aroma mais agradável.
Os três países europeus que comem mais carne são os que apresentam maior número relativo de cancros.
Nas espécies herbívoras, o cancro é residual.
Os três países europeus que comem mais carne são os que apresentam maior número relativo de cancros.
Nas espécies herbívoras, o cancro é residual.
Conversas na Rua do Alecrim
- Foda-se, viste aquilo?
O outro olha para os lados.
- Ali...
- Eh, pá, não é nada de especial... Não tem mamas.
- És muita esquisito. Já comi pior e a pagar.
O outro olha para os lados.
- Ali...
- Eh, pá, não é nada de especial... Não tem mamas.
- És muita esquisito. Já comi pior e a pagar.
terça-feira, junho 26, 2012
segunda-feira, junho 25, 2012
Para George Eliot, a arte permite o «alargamento da compaixão». Quando lemos, nomeadamente a ficção que utiliza a narração na primeira pessoa, tendemos se não a identificar-nos com ela, pelo menos a torcer por ela - mesmo que pratique vícios que condenemos. E aí percebemos que o «monstro» nunca é monstro visto por dentro, ou o «génio» não é génio e por aí fora rumo à destruição final da recusa em compreender que nada na natureza humana nos deve ser estranho.
Não consigo encontrar melhor frase para expressar a alegria do dia novo, da semana nova.
«O dia ondula amarelo nas suas colheitas.»
O dia ondula amarelo.
Que...
O dia. Ondula. Amarelo.
Dia. ondula. amarelo.
Grande Virginia Woolf que capturou em quatro palavras (ou três...) esta coisa mágica da alegria, do fogo solar, da fotossíntese, dos girassóis.
Quando penso nesta frase, começo o dia mais bem-disposto e o mundo fica mesmo monocromático.
«O dia ondula amarelo nas suas colheitas.»
O dia ondula amarelo.
Que...
O dia. Ondula. Amarelo.
Dia. ondula. amarelo.
Grande Virginia Woolf que capturou em quatro palavras (ou três...) esta coisa mágica da alegria, do fogo solar, da fotossíntese, dos girassóis.
Quando penso nesta frase, começo o dia mais bem-disposto e o mundo fica mesmo monocromático.
domingo, junho 24, 2012
- Sempre me senti muito diferente e tenho uma profunda ligação, respeito e proximidade com aqueles que são muito diferentes. Quando andava na primária, não me identificava com ninguém e passava o recreio sozinho. Estive um ano na terceira classe sem abrir a boca. Tiveram de me pôr num psicólogo.No secundário, era o único rapaz que não jogava à bola. Sempre compreendi e respeitei os muito diferentes. Nada me espanta, mesmo quem só tenha prazer sexual com um ganso. Sei o que é o terrível estigma do muito diferente e sei o qual difícil é renegar a nossa estrutura interna para fingirmos ser o que não somos por adaptabilidade. O aprisionamento mental do eu que vive sozinho sem ninguém, sem poder acenar.
sábado, junho 23, 2012
- Tu achas que eu tenho «uma pulsão de extrema-direita». Eu de facto era capaz de integrar uma milícia que linchasse um pedófilo. Mas desde pequenina, antes de ler Nietzsche, que sou assim. A raiva que uma pessoa tem dentro de si tem ser deitada cá para fora, antes que expluda. E eu prefiro de cada vez que me irrito ser violenta, até fisicamente, do que guardar tudo para um dia... Às vezes, uma pessoa precisa de cuspir. É assim que eu leio Nietzsche na sua misoginia e no seu anti-semitismo. Precisa de cuspir a raiva. Eu se for assaltada, e tu sabes que não sou racista, sou capaz de gritar «Preto de merda». A diferença é que o Nietzsche cuspia para o papel e o cuspo ficou lá. Mas basta ele ter amado e por isso odiado a cabra Salomé para ter necessitado de cuspir na escrita contra as mulheres em momentos de raiva. É mais fácil quando se está na merda encontrar um objecto de culpa do nosso mal-estar, um inimigo, um factor externo. Às vezes, pode ser a humanidade inteira como no caso do Charles Manson ou de certos defensores dos direitos dos animais. Mas que pretende racionalizar, tentar iludir-se com alvos mais concretos, pode facilmente cair na extrema-direita. Ou na extrema-esquerda. É a necessidade de encontrar bodes expiatórios para a sua infelicidade, tristezas e traumas. Ou tão-somente um rumo para a falta de rumo.
Ao Alberto
É por frases assim que a vida e a personalidade contumaz valem a pena: «Tenho uma confiança ilimitada em ti.»
sexta-feira, junho 22, 2012
Eles morrem todos acidentalmente...
Depois da queda da URSS, terminado o clima que mantinham os tanques com medo de disparar, a vergonha deixou de se esconder num mundo unilateral. Todos morrem. Mas não todos. Não os piores criminosos, mas apenas aqueles que geoestrategicamente interessam. Que intervenção houve no Ruanda, num dos piores genocídios de sempre? Claro que a lista é imensa.
Investiguei paranoicamente o assunto de Milosevic até perceber o rol de mentiras de que fora alvo e perceber que em nada dos que os media nos dizem - nem sobre a Síria - pode ser tido como fiável. Basta ver este documentário para as certezas que nos impingiram começarem a esboroar todas. Assisti a todas as audiências do Tribunal de Haia e espantei-me porque Milosevic contra testemunhas forjadas, imagens manipuladas de campos de concentração, um juiz para lá de tendencioso, desmontou todas as mentiras e lucidamente levou ao ridículo pela contradição, pela mentira todas as testemunhas (uma que tinha estado no seu gabinete que era no primeiro andar, não era, pergunta Milosevic, a testemunha diz que sim, e nem primeiro andar havia).
Mas Sérvia estava num ponto crucial e Milosevic ainda pertencia ao mundo dos vermelhos. O Kosovo, berço da nação, está muito pior do que estava. E, claro, tinha de morrer na cadeia. Curiosamente muito pouco antes de escrever que o queriam matar numa carta e que queria um médico de confiança dele imediatamente.
Um país cheio de petróleo.
Veremos como ficará a Líbia.
E já se sabia que só faltava este... que também iria morrer na cadeia brevemente de «doença» como Milosevic, que perdeu dezenas de quilos e ganhou uma cor insalubre porque sim. Veremos como ficará o Egipto. Veremos se a Primavera se revelará invernal.
Como aquele indivíduo que até a Internet rasurou que denunciou a ideia peregrina de que não havia armas de destruição maciça e que estranhamente se suicidou.
O que se aprende agora nas aulas de Português, por Teolinda Gersão
Tempo de exames no secundário,os meus netos pedem-me ajuda para
estudar português.Divertimo-nos imenso,confesso.E eu acabei por
escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são
minhas,mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam.E depois de rirmos
espero que nós,adultos,façamos alguma coisa para libertar as crianças
disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a
gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são
um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam
ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado,
quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento
circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está
na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como
se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas
“na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que
não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane,
com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo,
lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o
desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a
funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não
é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a
complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos
directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há
verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser
instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento
prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas
sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e
outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do
tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante
possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções
coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão
a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram,
”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de
um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado
seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase
declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de
polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a
janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o
sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que
aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou
coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a
autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano
passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que
quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só
estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que
odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º
estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado
parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e
deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico,
classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia,
hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e
deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto,
hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas
textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de
decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por
palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes
palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem
para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a
começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente
frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa.
Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado,
por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua.
Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem
certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na
televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o
totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê
nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de
novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear.
Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar
ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre
sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de
palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já
sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve
redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa
nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de
superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos
pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e
julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do
tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos.
Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos
trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não
sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a
setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está
nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do
sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para
si, que até é simpática).
quarta-feira, junho 20, 2012
Can´t repeat the past? Of course, you can...
Muito melhor do que conseguir-se tudo o que se quer, muito melhor do que as primícias do amor, muito melhor do que qualquer coisa - só o regresso daquilo que se julgava irremediavelmente perdido. Regresso, sinto a palavra, fecho os olhos e entro no mais maravilhoso mundo... A maior das alegrias é sempre mais boa do que é má a pior das tristezas.
terça-feira, junho 19, 2012
Aceito todas as ideologias desde que haja um princípio: não há seres humanos descartáveis. Todos têm direito à ração mínima de felicidade, à satisfação das suas necessidades básicas. Sim, perante o dilema do surfista, eu não hesito: mesmo quem não produz por opção tem direito ao mínimo. É uma assunção filosófica. Porque ninguém escolheu nascer e porque nascemos com uma coisa chamada organismo que nos exige determinadas coisas. E neste ponto sou intolerante. Não aceito relativismo culturais quanto à cartilha dos direitos humanos. Quem só defende a pena de morte ou a tortura em casos tal-e-tal defende a pena de morte e a tortura.
Claro está que em tempos de crise económica, os maiores atropelos aos direitos humanos podem ser escritos no papel que a multidão anestesiada não se preocupará - até porque isso «não custa nada». E assim nos preparamos para ter penas perpétuas em Portugal - após cumprir a pena, o pedófilo continua a ser pedófilo para os vizinhos, a empresa, as escolas. E quem nos garante que o Sol ou o Correio da Manhã não publicarão tais dados? E quem nos garante (quando em Lisboa já há grafitos com «ali mora um pedófilo» com setas) que não haverá linchamentos? E quem nos garante que após o pedófilo, não virá o corrupto, o homicida, o terrorista, o violador, o portador de VIH?
O assunto da sinalização é difícil de não ter a aceitação popular. A coisa abstracta do Estado de Direito e do perigo do precedente e do conhecimento da história são diminutos ante o reducionismo matóide: pedófilos versus crianças.
É o regresso à barbárie, o regresso às estrelas nazis, à campainha no pescoço dos leprosos que os anunciava para que todos se afastassem, dos pelourinhos em que os criminosos eram castigados e humilhados em público durante semanas e muitas vezes executados presos com correntes e argolas a postes para gáudio da multidão.
O Estado começou, como no poema de Brecht, por proibir os restaurantes de não ter a comida em condições que vinham de uns iluminados burocratas da UE, a seguir proibiu o dono do restaurante de decidir se na sua casa se fumava ou não, a seguir proibiu o fumo em automóveis privados com crianças, agora quer invadir a casa das pessoas - o último refúgio do Big Brother - para ver se as tomadas não perigam as crianças.
E a seguir, não se poderá verificar o extracto de fumo no quarto das crianças, o sítio em que a naftalina está suficientemente escondida, se a garrafeira tem as garrafas lá no alto, se o encerado do chão as pode fazer partir a perna ou a cabeça.
E as pessoas comem. Ou não sabem. Ou vão no argumento. Há sempre um argumento - o terrorismo, a insegurança, a saúde pública (já se discute se num ataque cardíaco) - para restringir a liberdade individual. Também na China se proíbe o Facebook por causa do terrorismo. Mas o mais poderoso é o das crianças. Também em Portugal (ler actas da Assembleia da República) para que as crianças dos pais divorciados não fossem estigmatizadas. O mesmo que agora se brande contra a adopção por parte de casais homossexuais.
Não é por acaso que há crianças (o argumento mais emotivo) como argumento na maioria das medidas. Contem: o fumo nos carros, uma, a sinalização dos pedófilos, duas, as tomadas, três. Não é por acaso que os casos mais versados nos media nos últimos anos (o circo para anestesiar qualquer profunda reflexão) foram sobre crianças: o caso Maddie, o Rui Pedro e a Casa Pia.
Claro está que em tempos de crise económica, os maiores atropelos aos direitos humanos podem ser escritos no papel que a multidão anestesiada não se preocupará - até porque isso «não custa nada». E assim nos preparamos para ter penas perpétuas em Portugal - após cumprir a pena, o pedófilo continua a ser pedófilo para os vizinhos, a empresa, as escolas. E quem nos garante que o Sol ou o Correio da Manhã não publicarão tais dados? E quem nos garante (quando em Lisboa já há grafitos com «ali mora um pedófilo» com setas) que não haverá linchamentos? E quem nos garante que após o pedófilo, não virá o corrupto, o homicida, o terrorista, o violador, o portador de VIH?
O assunto da sinalização é difícil de não ter a aceitação popular. A coisa abstracta do Estado de Direito e do perigo do precedente e do conhecimento da história são diminutos ante o reducionismo matóide: pedófilos versus crianças.
É o regresso à barbárie, o regresso às estrelas nazis, à campainha no pescoço dos leprosos que os anunciava para que todos se afastassem, dos pelourinhos em que os criminosos eram castigados e humilhados em público durante semanas e muitas vezes executados presos com correntes e argolas a postes para gáudio da multidão.
O Estado começou, como no poema de Brecht, por proibir os restaurantes de não ter a comida em condições que vinham de uns iluminados burocratas da UE, a seguir proibiu o dono do restaurante de decidir se na sua casa se fumava ou não, a seguir proibiu o fumo em automóveis privados com crianças, agora quer invadir a casa das pessoas - o último refúgio do Big Brother - para ver se as tomadas não perigam as crianças.
E a seguir, não se poderá verificar o extracto de fumo no quarto das crianças, o sítio em que a naftalina está suficientemente escondida, se a garrafeira tem as garrafas lá no alto, se o encerado do chão as pode fazer partir a perna ou a cabeça.
E as pessoas comem. Ou não sabem. Ou vão no argumento. Há sempre um argumento - o terrorismo, a insegurança, a saúde pública (já se discute se num ataque cardíaco) - para restringir a liberdade individual. Também na China se proíbe o Facebook por causa do terrorismo. Mas o mais poderoso é o das crianças. Também em Portugal (ler actas da Assembleia da República) para que as crianças dos pais divorciados não fossem estigmatizadas. O mesmo que agora se brande contra a adopção por parte de casais homossexuais.
Não é por acaso que há crianças (o argumento mais emotivo) como argumento na maioria das medidas. Contem: o fumo nos carros, uma, a sinalização dos pedófilos, duas, as tomadas, três. Não é por acaso que os casos mais versados nos media nos últimos anos (o circo para anestesiar qualquer profunda reflexão) foram sobre crianças: o caso Maddie, o Rui Pedro e a Casa Pia.
Famosos e contactos. Foda-se. Não percebo. Quase todos ligam a isso. Ele, ela tem «muitos contactos». Que mundo tão afastado do ser. O fascínio pelas figuras públicas - cruzei-me com tantas na vida por acaso, tropecei em tantas, fiquei amigo de algumas. Nunca as vi de forma diferente. São rigorosamente iguais - uma obviadade, um truísmo, algo ridiculamente banal, mas que não se infunde na maioria das pessoas. Bastantes são até inferiores e como inferiores as olhei quando falámos.
«Eu conheço o filho do», «Eu sou amigo do», «Já estive em casa de». Não entendo. Nunca entendi. Kundera dizia que tais pessoas sentiam-se como que tocadas pelo manto da imortalidade quando estava ao pé d´Elas.
É um exercício tão fútil, tão «transaccional» - a figura pública pode «abrir portas». E até se pode subir na horizontal. O culambismo ante a fama, o poder, o dinheiro. A figura pública não se desloca - vai-se ter com ela com um lastro de baba pelo caminho. A figura pública assusta-nos quando ouvimos a sua voz na mesma sala. A figura pública não defeca. A figura pública namora A e B, sabias, Angel? Foda-se, o que é isso me interessa. E o Ronaldo... e a namorada do Saviola... Por amor da santa, pára, muda de assunto. Ou muda de não-assunto para assunto.
«Angel, sabes quem é estava no cinema? O...» Então, não olhes para ele, é um acto cívico deixar qualquer eu ter a sua privacidade sem o escrutínio constante de mil olhos.
«Angel, sabes que o Passos Coelho ligou ao...?»
Mas o Passos Coelho é um inculto, sem lábios, de pose estudada, impreparado, artificial, formalíssimo e que está a prejudicar tanto tanta gente. Não é mais do que isso.
«Eu conheço o filho do», «Eu sou amigo do», «Já estive em casa de». Não entendo. Nunca entendi. Kundera dizia que tais pessoas sentiam-se como que tocadas pelo manto da imortalidade quando estava ao pé d´Elas.
É um exercício tão fútil, tão «transaccional» - a figura pública pode «abrir portas». E até se pode subir na horizontal. O culambismo ante a fama, o poder, o dinheiro. A figura pública não se desloca - vai-se ter com ela com um lastro de baba pelo caminho. A figura pública assusta-nos quando ouvimos a sua voz na mesma sala. A figura pública não defeca. A figura pública namora A e B, sabias, Angel? Foda-se, o que é isso me interessa. E o Ronaldo... e a namorada do Saviola... Por amor da santa, pára, muda de assunto. Ou muda de não-assunto para assunto.
«Angel, sabes quem é estava no cinema? O...» Então, não olhes para ele, é um acto cívico deixar qualquer eu ter a sua privacidade sem o escrutínio constante de mil olhos.
«Angel, sabes que o Passos Coelho ligou ao...?»
Mas o Passos Coelho é um inculto, sem lábios, de pose estudada, impreparado, artificial, formalíssimo e que está a prejudicar tanto tanta gente. Não é mais do que isso.
Não passou o crisol porque defendia a pena de morte.
Não passou o crisol porque defendia a tortura em casos excepcionais.
Não passou o crisol porque nunca não era altruísta na partilha dos seus bens materiais e do seu dinheiro.
Não passou o crisol porque os direitos dos animais nada lhe diziam.
Não passou no crisol por preferir a discoteca a tertúlias.
Alguém irá passar o crisol?, pensa agora.
Ela tem uma pulsão sexual omnívora e um complexo de culpa terrível em relação ao sexo. «Abomina» os piropos sexuais, as abordagens meramente sexuais. A sofreguidão sexual repugna-o - porque detesta ler no Outro o que tem escrito? Descreve fantasias com cenários pormenorizados quando bebe, entrega-se a encontros de primeira noite e diz odiar-se por isso. Quando está na cama e um homem roça-se por trás, ela atira «porco». Se lhe dizem «faz-me um bico», ela bate. Mas se o homem é dócil e tímido, mete-lhe o dedo no cu e faz-lhe o sexo oral na rua. E se ele resiste ou se mostra atónito, ela mete o dedo lá dentro e diz lambe na parte de trás de um táxi. E quanto mais tímido, mais longe quer ir. Mas às vezes, perante palmadas e asneiras no acto, pára no meio e diz: «Seu porco.» Sai de cima e volta. Sai de cima e volta. Sai de cima e volta. «Nunca mais farei isto, já perdi a conta ao número, ai que vergonha, tenho deixar de sair à noite. Mais um copo e sucumbo ao desejo e às vezes parece-me que quero todos e todos não me chegam.»
- O amor incondicional é mirífico, Angel. Implica muitas coisas inviáveis. Primeiro, a sobreposição do eu ao outro - o que concedo, mas que acho raríssimo a não ser numa relação filial descendente. Segundo, porque há mais pessoas e se coincidir, como é? Se forem três irmãos e a mãe tiver de doar um órgão vital, como é o incondicional aos três? Por mais que se queira, pensamos sempre mais nos nossos problemas do que no de outra pessoa específica. Terceiro, porque filosoficamente, ama-se uma pessoa pelo que é - e se ela mudar? Já é condicional? Ou ama-se independentemente daquilo em que ela se torne? Mas então não se ama pelo que é, ama-se o ser, a alma abstracta? E se essa pessoa nos odiar, for ingrata, ressentida - é que o amor incondicional é gratuito e por isso intocado por essas coisas? Mesmo que esse objecto de amor incondicional nos pegue fogo à casa? Se assim fosse, ninguém cobrava quando amava, ninguém ficava triste por se o amor fosse falho em reciprocidade.
- O grande mistério da vida para mim é este: saber se os outros também vivem em bolhas como eu. Vivo numa bolha. Sei que 90% do tempo ou mais estou na minha bolha. Mesmo a trabalhar, a falar com os outros, estou quase sempre no meu universo, a não ser quando estou muito muito concentrado numa coisa. Vivo no meu mundo interior, tenho um conjunto de preconceitos e verdades que não sei que ligação têm a realidade. Ainda há pouco, li uma matrícula EA e lembrei-me de uma expressão começada pelas letras da matrícula que eu ouvia no secundário e achei - como acho de tudo o que penso - que era caricato partilhá-lo com as pessoas que tinha a meu lado. Quando caminho sozinho, percorro um mundo tão longitudinal só meu... intransmissível por símbolos.
- Sabes o que é chegares a uma altura da vida em que fazes um questionamento de tudo o que já fizeste e foste? Claro que todos passamos por questionamentos, mas eu falo daquele mais profundo que põe em causa tudo, que te faz soar o teu próprio nome e rosto ao espelho como estranhos. Sempre acreditei na cultura como uma espécie de religião, sempre acreditei na capacidade da literatura nos tornar melhores pessoas. Hoje, olho para trás e penso: todo o dinheiro que gastei em livros e em cigarros dava para comprar um Porsche. Eu tenho um Porsche nas minhas estantes que nunca vou recuperar. A verdade, duríssima de aceitar, é que o meu processo de intelectualização foi um refúgio para as minhas disfunções afectivas e sexuais. E quanto mais me isolei entre estantes, mais disfuncional fui ficando. Não sei dançar, cozinhar, conduzir, ter relações sociais, falar com uma mulher sem ser atabalhoado e tímido, e tenho vergonha de ir à praia e ter de mostrar o meu corpo. Se tivesse ido mais a ginásios e menos a bibliotecas... É uma verdadeira revolução o que estou a viver. Mas como não se pode viver sem afectos, eu tive de me perguntar: tantos livros e não arranjei uma namorada a sério, ninguém me disse uma vez: «Eu amo-te.» O que é o Joyce, o Proust e o Kant me ensinaram sobre atrair e conquistar ou sobre a geografia do prazer da vagina ou como trabalhar um clitóris? O Huxley é que tinha razão: Eu só ponho personagens femininas nos meus livros por causa do enredo, porque não faço puto de ideia como é que uma mulher pensa e sente. É fútil, mas real: nenhuma conversa que tive do que li deles se verteu num átomo de atracção do sexo oposto por mim.A verdade é que sempre tive o rótulo «Punhetas» na testa. Vivi a vida dos outros em livros, não vivendo a minha, vivi de emoções roubadas e amaldiçoo-me por isso. A Plath matou-se, a Virginia, o Maupassant, o Hemingway, o Koestler que obrigou ainda a mulher a matar-se, o Deleuze, o Jack London. E os outros mataram-se de forma indirecta com o álcool, por exemplo, quase todos acabaram tristemente, enlouqueceram, muitos eram bipolares, alguns defenderam o fascismo, o nazismo. A minha empregada é analfabeta e é honestíssima, e quantos tipos sem carácter conheci eu que leram o teu Fitzgerald, e tem uma profunda inteligência emocional. E de certeza que sabe mais de anatomia do que eu.
Em linha recta 3
A revista Wire publicou uma vez um artigo com os mandamentos de como fingir que se trabalhava muito no local de trabalho. Andar sempre com papel na mão quando se saía do cubículo, olhar fixamente o ecrã quando alguém chegava, dizer «Agora, não posso» cada vez que ligava alguém da empresa. Recentemente, descobri que um auto-alegado viciado ebriamente em trabalho é viciado no casino nas horas de trabalho. E quantas vezes as pessoas se despedem «Bem, tenho de ir trabalhar» para seguidamente a luz verde de um chat se acender fazendo-nos sorrir.
Um conhecido meu sempre que alguém lhe telefona diz: «Estou em reunião.» Dois conhecidos meus, um que dizia ser «coordenador de muitos homens» e outro «uma figura de topo da Sacoor» cruzaram-se em Aveiro. O Sacoor contou chocado a um amigo meu que me contou: «Eh, pá, vi o Fernando num centro comercial em Aveiro. O gajo diz que é chefe de não sei quantos homens, é tudo treta! O gajo é um trolha, meu. Eu vi o gajo com uns ucranianos, eh, pá, até tive vergonha de cumprimentá-lo, eu ia ter uma reunião com um executivo e o gajo até pó tinha no fato-de-macaco. Agora, percebo porque é que ele nunca explicava bem o que é que fazia.» O meu amigo, o condutor de homens, contou-me: «Eh, pá, Angel, nem sabes o que me aconteceu. Estava eu a comandar a minha tropa, a dizê-los que podiam ir almoçar em Aveiro e vejo o betinho do João. Havias de ver a cara de vergonha dele... Dizia o gajo que era director comercial. Até me ri. Vi-o com uns cabides num centro comercial em Aveiro, ficou muito encavacado, cumprimentou-me e depois vi-o com umas camisinhas a tentar entrar nas lojas tipo a vender flores, e a ser enxotado. Que g´anda tanga c´o gajo nos pregou!»
O «trabalhar-se muito» é uma questão de atmosfera.
Um conhecido meu sempre que alguém lhe telefona diz: «Estou em reunião.» Dois conhecidos meus, um que dizia ser «coordenador de muitos homens» e outro «uma figura de topo da Sacoor» cruzaram-se em Aveiro. O Sacoor contou chocado a um amigo meu que me contou: «Eh, pá, vi o Fernando num centro comercial em Aveiro. O gajo diz que é chefe de não sei quantos homens, é tudo treta! O gajo é um trolha, meu. Eu vi o gajo com uns ucranianos, eh, pá, até tive vergonha de cumprimentá-lo, eu ia ter uma reunião com um executivo e o gajo até pó tinha no fato-de-macaco. Agora, percebo porque é que ele nunca explicava bem o que é que fazia.» O meu amigo, o condutor de homens, contou-me: «Eh, pá, Angel, nem sabes o que me aconteceu. Estava eu a comandar a minha tropa, a dizê-los que podiam ir almoçar em Aveiro e vejo o betinho do João. Havias de ver a cara de vergonha dele... Dizia o gajo que era director comercial. Até me ri. Vi-o com uns cabides num centro comercial em Aveiro, ficou muito encavacado, cumprimentou-me e depois vi-o com umas camisinhas a tentar entrar nas lojas tipo a vender flores, e a ser enxotado. Que g´anda tanga c´o gajo nos pregou!»
O «trabalhar-se muito» é uma questão de atmosfera.
Em linha recta 2
Nunca percebi porque é que as pessoas que conheço costumam mentir sobre as horas que dormem. Dormem todos pouco, acordam todos cedíssimo, mas quando ligo ao meio-dia, a voz de sono trai-os. Quando passo férias em casa dos que dormem cinco horas no máximo, por uma incrível coincidência dormem dez. Nunca dormem sesta, mas quantas vezes os apanho no único dia da vida em que descansaram à tarde.
Viciados em trabalho
- Não consigo passear ou ter um momento de lazer no fim-de-semana sem um sentimento de culpa ou de inutilidade.
Para um novo Poema em Linha Recta
Talvez o «Nunca conheci quem tivesse levado porrado na vida» dos tempos hodiernos seja «Nunca conheci quem passasse muito tempo no Facebook».
segunda-feira, junho 18, 2012
It was the summer in America when the nausea returned, when the joking didn’t stop, when the speculation and the theorizing and the hyperbole didn’t stop, when the moral obligation to explain to one’s children about adult life was abrogated in favor of maintaining in them every illusion about adult life, when the smallness of people was simply crushing, when some kind of demon had been unleashed in the nation and, on both sides, people wondered “Why are we so crazy?” when men and women alike, upon awakening in the morning, discovered that during the night, in a state of sleep that transported them beyond envy or loathing, they had dreamed of the brazenness of Bill Clinton. I myself dreamed of a mammoth banner, draped dadaistically like a Christo wrapping from one end of the White House to the other and bearing the legend A HUMAN BEING LIVES HERE. It was the summer when, for the billionth time, the jumble, the mayhem, the mess proved itself more subtle than this one’s ideology and that one’s morality. It was the summer when a president’s penis was on everyone’s mind, and life, in all its shameless impurity, once again confounded America.
Philip Roth, The Human Stain
Philip Roth, The Human Stain
sábado, junho 16, 2012
Os triângulos nazis
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«O que se busca é uma via»
Estou a revisitar os livros de André Malraux. Tenho de admitir, hoje, que a minha geração foi injusta e cáustica para o imenso escritor. O factor político determinou (sem explicar) o sentimento crítico. Tudo, agora, parece obsoleto. Aquela época foi fértil em contradições e a virulência saiu das baias morais e intelectuais para se transformar num ódio lamacento. As coisas talvez tivessem acalmado e os ajustes começaram. Tive grandes discussões com companheiros e camaradas meus. Líamos tudo e tudo contrariávamos. Possuo uma biblioteca imensa, porque aqueles tempos não permitiam atrasos. E tive a sorte de conviver com os maiores escritores, actores, artistas e cineastas portugueses da época. A idade da formação e do cimentar das convicções ética e ideológicas foi aí.
Os meus adversários na altura liam os mesmos livros que eu. O conceito de conhecimento não se coaduna com exclusões. Do comunista Aragon ao fascista Robert Brasilach, de Knut Hamsun a Ernst Junger, passando pelos grandes americanos, e, naturalmente, pela leitura da Bíblia, tudo passou pela minha curiosidade ardente. Sou um produto dessa gente toda. E de António Vieira, sempre folheado com mão diurna e mão nocturna. E mais do Camilo do que do Eça, devo dizê-lo.
A solidariedade e a fraternidade não estavam desempregadas. E o niilismo parecia estar removido para sempre. Não estava. O regresso do niilismo manifesta-se todos os dias e acentua os nossos pesares. Não importa se continuo na mesma luta; na mesma, não: em luta semelhante. Mas tenho pena de que as coisas estejam como estão. O abandono da grandeza de espírito, o esquecimento do grande monumento à humanidade e erguido pela humanidade, o desprezo pelas emoções e pela compaixão doem, e doem profundamente. Mas creio que nem tudo está perdido, apesar de assistir ao desespero dos mais novos e à negligência de muitos dos mais velhos.
"O mundo será religioso, ou não será", li em Malraux; e por isso tenho voltado a ele. O religioso como princípio de decência e estorvo ao niilismo, queria ele dizer. Recapitulando, afinal o que Dostoievski fez dizer ao mais velho dos irmão Karamazov: "Se Deus não existe tudo é permitido." Uma frase terrível no seu imperioso desígnio, que podemos aplicar, sem hesitações, à época e à inexistência de moral em que vivemos.
Ouvimos e lemos o que dizem e fazem os dirigentes europeus, e procedemos, instintivamente, a comparações. Depois, assistimos aos desaforos de miniaturas de gente, insultando e injuriando quase todos aqueles que abriram caminhos na História. Sei muito bem o que o Eclesiastes ensina: "Uma geração vem, uma geração vai…." Não se estuda, não se reflecte, não se abre uma pausa para meditar e ponderar. A exclusão e o apagamento reanimaram com esta nova ordem. Há dias, um preopinante, que escarmentei noutro local, caluniava o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, por este dizer em público o que a maioria das pessoas diz em privado: este governo é constituído por gente desavinda com a integridade e com a competência. Poucas semanas depois, o prelado foi punido, ele disse: "linchado" na reforma, por delito de opinião.
Não é estalinismo, este método persecutório: tem origem na semente fascista, caracterizada e cauterizada pelo bispo. E que está aí, a florescer sem obstáculo, e notoriamente apoiada e estimulada um pouco por todo o lado, Portugal incluído. Não se defende a democracia como um todo, toleram-na como um meio. Quando ouço alguns políticos soletrar a palavra, penso que a maldição bíblica devia cair-lhe em cima e a boca encher-se-lhe de…
Desprovidos de experiência, apoiados pelo entusiasmo que o dislate cavaquista. A teoria da amnésia histórica é velha. Retornou, há anos, com o dr. Cavaco, quando, sem consciência do que provocava, incitou os mais novos a recusar referências e a construir os seus próprios passos. O turbilhão que se seguiu é conhecido. Derivaram em fazer saneamentos e em afastar velhos profissionais de todas as artes e ofícios. Está por fazer a história desse período sombrio. Sustentado pelos grandes grupos económicos, o cavaquismo não tinha deus nem fé, somente a permissão para fazer tudo quanto lhe apetecesse.
Apesar de as sombras negras pairarem por grande parte da Europa, apesar de tudo aparentar estar perdido, recorro a Manuel Alegre, que nos diz em "Nada está escrito": "Não é possível tornar semelhantes / as coisas que são incompatíveis. / O que se busca é uma via / tudo o mais é indecifrável."
Baptista-Bastos
Estou a revisitar os livros de André Malraux. Tenho de admitir, hoje, que a minha geração foi injusta e cáustica para o imenso escritor. O factor político determinou (sem explicar) o sentimento crítico. Tudo, agora, parece obsoleto. Aquela época foi fértil em contradições e a virulência saiu das baias morais e intelectuais para se transformar num ódio lamacento. As coisas talvez tivessem acalmado e os ajustes começaram. Tive grandes discussões com companheiros e camaradas meus. Líamos tudo e tudo contrariávamos. Possuo uma biblioteca imensa, porque aqueles tempos não permitiam atrasos. E tive a sorte de conviver com os maiores escritores, actores, artistas e cineastas portugueses da época. A idade da formação e do cimentar das convicções ética e ideológicas foi aí.
Os meus adversários na altura liam os mesmos livros que eu. O conceito de conhecimento não se coaduna com exclusões. Do comunista Aragon ao fascista Robert Brasilach, de Knut Hamsun a Ernst Junger, passando pelos grandes americanos, e, naturalmente, pela leitura da Bíblia, tudo passou pela minha curiosidade ardente. Sou um produto dessa gente toda. E de António Vieira, sempre folheado com mão diurna e mão nocturna. E mais do Camilo do que do Eça, devo dizê-lo.
A solidariedade e a fraternidade não estavam desempregadas. E o niilismo parecia estar removido para sempre. Não estava. O regresso do niilismo manifesta-se todos os dias e acentua os nossos pesares. Não importa se continuo na mesma luta; na mesma, não: em luta semelhante. Mas tenho pena de que as coisas estejam como estão. O abandono da grandeza de espírito, o esquecimento do grande monumento à humanidade e erguido pela humanidade, o desprezo pelas emoções e pela compaixão doem, e doem profundamente. Mas creio que nem tudo está perdido, apesar de assistir ao desespero dos mais novos e à negligência de muitos dos mais velhos.
"O mundo será religioso, ou não será", li em Malraux; e por isso tenho voltado a ele. O religioso como princípio de decência e estorvo ao niilismo, queria ele dizer. Recapitulando, afinal o que Dostoievski fez dizer ao mais velho dos irmão Karamazov: "Se Deus não existe tudo é permitido." Uma frase terrível no seu imperioso desígnio, que podemos aplicar, sem hesitações, à época e à inexistência de moral em que vivemos.
Ouvimos e lemos o que dizem e fazem os dirigentes europeus, e procedemos, instintivamente, a comparações. Depois, assistimos aos desaforos de miniaturas de gente, insultando e injuriando quase todos aqueles que abriram caminhos na História. Sei muito bem o que o Eclesiastes ensina: "Uma geração vem, uma geração vai…." Não se estuda, não se reflecte, não se abre uma pausa para meditar e ponderar. A exclusão e o apagamento reanimaram com esta nova ordem. Há dias, um preopinante, que escarmentei noutro local, caluniava o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, por este dizer em público o que a maioria das pessoas diz em privado: este governo é constituído por gente desavinda com a integridade e com a competência. Poucas semanas depois, o prelado foi punido, ele disse: "linchado" na reforma, por delito de opinião.
Não é estalinismo, este método persecutório: tem origem na semente fascista, caracterizada e cauterizada pelo bispo. E que está aí, a florescer sem obstáculo, e notoriamente apoiada e estimulada um pouco por todo o lado, Portugal incluído. Não se defende a democracia como um todo, toleram-na como um meio. Quando ouço alguns políticos soletrar a palavra, penso que a maldição bíblica devia cair-lhe em cima e a boca encher-se-lhe de…
Desprovidos de experiência, apoiados pelo entusiasmo que o dislate cavaquista. A teoria da amnésia histórica é velha. Retornou, há anos, com o dr. Cavaco, quando, sem consciência do que provocava, incitou os mais novos a recusar referências e a construir os seus próprios passos. O turbilhão que se seguiu é conhecido. Derivaram em fazer saneamentos e em afastar velhos profissionais de todas as artes e ofícios. Está por fazer a história desse período sombrio. Sustentado pelos grandes grupos económicos, o cavaquismo não tinha deus nem fé, somente a permissão para fazer tudo quanto lhe apetecesse.
Apesar de as sombras negras pairarem por grande parte da Europa, apesar de tudo aparentar estar perdido, recorro a Manuel Alegre, que nos diz em "Nada está escrito": "Não é possível tornar semelhantes / as coisas que são incompatíveis. / O que se busca é uma via / tudo o mais é indecifrável."
Baptista-Bastos
sexta-feira, junho 15, 2012
Para os néscios que achavam que proibir o fumo em automóveis privados com crianças não abriria um perigosíssimo precedente
Ministério da Saúde quer inspeções às casas com bebés

A Direcção Geral de Saúde quer ir a casa de crianças até 4 anos para avaliar risco de acidente revela hoje o jornal i. A medida do Plano de Acção para a Segurança Infantil, em discussão pública, arrancará com projectos-piloto em alguns centros de saúde
Segundo o jornal i a Direção Geral da Saúde quer melhorar a prevenção de acidentes domésticos com crianças pequenas indo a casa das famílias avaliar o risco, ao mesmo tempo que sensibiliza os pais. Ver onde são guardados os medicamentos e os detergentes, como se protegem janelas e varandas ou que medidas são tomadas para evitar o risco de afogamento são alguns aspectos das projetadas visitas domiciliárias nos primeiros quatro anos de vida "para avaliação de risco de acidente em ambiente doméstico e educação para a saúde/segurança".
quinta-feira, junho 14, 2012
« [...] of all natural forces, vitality is the incommunicable one. In days when juice came into one as an article without duty, one tried to distribute it – but always without success; to further mix metaphors, vitality never “takes.” You have it or you haven’t it, like health or brown eyes or honor or a baritone voice. I might have asked some of it from her, neatly wrapped and ready for home cooking and digestion, but I could never have got it – not if I’d waited around for a thousand hours with the tin cup of self-pity. I could walk from her door, holding myself carefully like cracked crockery, and go away into the world of bitterness, where I was making a home with such materials as are found there – and quote to myself after I left her door:
“Ye are the salt of the earth. But if the salt hath lost its savour, wherewith shall it be salted?” Matthew 5-13.»
Ibidem
A finitude de algo não tem o seu lado mais dramático no início obnubilado e estranho em que parece que nada de grave se passou
Of course all life is a process of breaking down, but the blows that do the dramatic side of the work - the big sudden blows that come, or seem to come, from outside - the ones you remember and blame things on and, in moments of weakness, tell your friends about, don’t show their effect all at once. There is another sort of blow that comes from within - that you don’t feel until it’s too late to do anything about it, until you realize with finality that in some regard you will never be as good a man again. The first sort of breakage seems to happen quick - the second kind happens almost without your knowing it but is realized suddenly indeed.
Idem
Solipsismo de um advogado
- Angel, nunca conheci um homem sem uma réstia de coração. A minha experiência nas cadeias com os piores presos, com os chamados monstros, isto não é ideologia rousseauniana, é a realidade sem lentes, pude ver que qualquer ser humano que é capaz das maiores vilezas, das maiores patifarias é capaz das maiores benfeitorias. Às vezes, o crime é fruto de uma sinapse que a própria pessoa nem sabe como aconteceu. Um tipo pacífico, boa pessoa, um dia, no trânsito, deu um tiro a outro e deitou as mãos à cabeça: «O que é que eu acabei de fazer, meu Deus!» Procurou socorrê-lo imediatamente, mas de nada lhe serviu. Foram cinco segundos em que ele não sabe o que aconteceu. Falei horas e horas com os piores bandidos. As histórias terríveis - quem seria eu no lugar deles, interrogo-me muitas vezes à noite? Quantos ladrões conheci que tiveram de roubar para sustentar os seus, velhinhas sem dinheiro para medicamentos. Os pedófilos que estavam genuinamente convictos de fazer bem aos objectos do seu amor e que não conseguiam conter a compulsão. Crimes de ciúmes que eu compreendia, crimes de ódio acumulado, de rancor e ressentimento acumulado que eu ouvia e pensava: claro, claro. Quando vejo um filho dar um estalo à mãe ou a mãe dar um estalo ao filho, ou o professor ao aluno ou o aluno ao professor, ou o trabalhador ao patrão ou o patrão ao trabalhador, ou o polícia ao pobre ou o pobre ao polícia, eu nunca julgo. O que é está por trás daquele estalo? Pode haver milhares de acções, palavras, omissões até, acumuladas do outro lado. A acção primária, directa, palpável pode ser infinitamente mais branda do que a violência indirecta, manipulativa, opressiva, psicológica, omnipresente do outro lado. Eu não julgo ninguém. Não tenho informação para isso - ninguém tem. É esse o cruzamento do só sei que nada sei de Sócrates com o não julgueis e não sereis julgados de Cristo. Compreendo o assassino, o pedófilo, o ladrão, o proxeneta, só não compreendo o sabujo e o corrupto. Compreendo-o, mas alguém em mim resiste a aceitá-lo.
Ela é muito boa pessoa. Ele é muito boa pessoa. Mas eles têm noções de Ética muito diferentes. Têm noções de regras de relação com o Outro muito diferentes. Ela é de esquerda. Ele é de esquerda. Mas têm conceitos muito diferentes do que é ser de esquerda e de como se deve intervir na sociedade para modificar as coisas. Do que é a Justiça. A Verdade. A Metafísica. Ela guarda e acumula. Ele explode e liberta. Ela vai mais longe do que ele - na ternura e no ódio. Ela prefere a intensidade do sentimento. Ele prefere a durabilidade do sentimento. Numa relação, o afinar de linguagens pode demorar muito tempo - e no entretanto os erróneos juízes de carácter sucedem. Com paciência, acrisolam-se as almas, olha-se para trás um dia e sorri-se.
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