quinta-feira, maio 24, 2012
Ninguém é tão ofensivo como um escritor a falar de outro escritor
«Saramago interessa-me menos do que o Miguel Sousa Tavares. Porque o Miguel Sousa Tavares, ao menos, é genuíno. Tudo o que se possa dizer dele, eu disse. Mas é genuíno. O Saramago é uma derivação da literatura da América Latina. Mas ele não nasceu nas Caraíbas! É uma pena. Aquilo era uma prosa admissível nas Caraíbas. É admissível nas Caraíbas ou num português que tivesse vivido a vida inteira nas Caraíbas. Mas assim não faz sentido nenhum...»
«O José Saramago pensa tão mal como escreve. Faz maus romances e não percebe nada de política.»
«Saramago é um escritor pouco interessante e nada original (o Nobel, um prémio político, não garante a qualidade) e a ideia do voto em branco, além de conformista, é eminentemente estúpida.»
«O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.
Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que a saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com a tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.
O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém - principalmente a dignitários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.»
«Em 1992, Sousa Lara, sub-secretário de Estado da Cultura, resolveu impedir que um livro de Saramago, o Evangelho segundo Jesus Cristo, concorresse ao Prémio Europeu de Literatura, segundo parece para defender a "moral cristã". Sousa Lara, que os portugueses já conhecem (e que sem dúvida merece a nossa cristianíssima piedade), prestou com isso um enorme serviço a Saramago.
Uma perseguição destas vale cem mil prémios de literatura e o perseguido, com o seu génio para se auto-promover, o único que incontestavelmente tem, não perdeu a oportunidade. Primeiro, como manda a regra, vociferou e, a seguir, partiu para um exílio voluntário, explicando que a Pátria o rejeitara. A alegação era ridícula. A Pátria em massa comprava o Evangelho, quanto mais não fosse por causa do escândalo.
Só Sousa Lara e, por implicação, o governo se consideravam ofendidos pelas banalidades daquela pindérica "blasfémia". Mas Saramago queria, de resto com razão, um palco maior e, como aconselhava Cavaco, resolveu que chegara a altura de se "internacionalizar". E conseguiu: o "charme" de vítima ajudou.
No fundo, no fundo, o nosso homem deve o seu Nobel à providencial burrice do pobre Sousa Lara.»
Vasco Pulido Valente
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