segunda-feira, maio 28, 2012

Ninguém é tão ofensivo como um escritor a falar de outro escritor

«Eu não gosto nada do Fernando Pessoa, acho-o um chato. Acho-o um chato, é um gajo que, como dizia a Maria Velho da Costa noutro dia... Aliás o Fernando Pessoa é um heterónimo do João Gaspar Simões, na minha opinião. Ela dizia que isto é um país de idiotas, em que as pessoas pensam que a tristeza é uma forma de inteligência, quando não é nada, é uma forma de estupidez! Portanto, o Pessoa é um gajo do caraças... [...] Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato. Mas dizer isso é herético porque Pessoa foi um bocado santificado e o mundo está cheio de viúvos de Pessoa, mulheres e homens. Não é um escritor que me entusiasme muito. Quando João Cabral esteve aqui como cônsul do Porto ele causou um escândalo enorme ao dizer que preferia Cesário Verde a Pessoa. Entendo o que ele queria dizer com isso. Álvaro de Campos é Walt Whitman, o heterónimo me faz lembrar quadra popular de cravo de papel, Ricardo Reis é todo imitado de Horácio. [...] Eu não sou um grande amante do Quixote, como não sou do Fernando Pessoa, de quem tenho as maiores reversas, e penso que o tempo acabará por me dar razão. Acho o Livro do Desassossego um amontoado de lugares comuns. Não é isso que os deuses cantam, não é assim que os deuses falam.» António Lobo Antunes

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