sexta-feira, maio 18, 2012

«É mestre todo aquele que indo além de uma concepção da verdade transformada em fórmula universal, solução redutora do ser humano, tudo faz a fim de atingir a forma ideal da verdade demandada a partir da acção. O mestre não é detentor da verdade, e não concebe a hipótese de alguém a possuir. Causa-lhe horror o espírito do pedagogo que se comporta como um proprietário, e o seu desejo de ser o senhor da vida. [...] O obscurantismo pedagógico procura asilo e refúgio na tecnicidade. O mestre aborda os problemas do ensino atendendo à peculiaridade das faculdades humanas, propondo-se educar a atenção, a memória, a imaginação, ou pela especificidade das disciplinas didácticas, dispõe-se então à missão de facilitar a aprendizagem do cálculo, do latim ou da ortografia. O pedagogo transforma a sua aula em oficina que labora tendo em vista que venha a render; cumpre assim o que a sua recta consciência lhe dita, por meio de gráficos e estatísticas sabiamente doseados e plenos de promessas. O seu espaço de acção já de si exíguo leva-o a ver-se a si próprio como feiticeiro laico e cumpridor de tradições, manipulador de inteligências sem rosto.»[...] O mestre autêntico é aquele que jamais se esquece, qualquer que seja a disciplina do programa ensinada, que é a verdade que está em questão. Seguramente existem programas e actividades especializados. É mister, tanto quanto possível, respeitar os programas. Porém, as verdades particulares repartidas pelos programas não passam de aplicações e imagens de uma verdade de conjunto, que é uma verdade humana, a verdade de homem para homem. [...] A cultura mais não é senão a tomada de consciência, por cada indivíduo, desta verdade que fará dele um homem. [...] O pedagogo dá o seu melhor a fim de assegurar ensinamentos diversos; partilhou conhecimentos. O mestre quer ser antes de mais aquele que "inicia" , que introduz na cultura. A verdade consiste para cada um na tomada de consciência do sentido da sua situação concreta. A partir da sua própria situação perante a verdade, o mestre procura despertar os seus discípulos para a consciência da sua verdade singular.» Georges Gusdorf Tradução: Alberto Castro Ferreira

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